        A Grande Empresa
Zane Grey
Coleco Zane
Grey VOLUMES
PUBLICADOS:
9 - O Povoado Perdido
10 - A Legio da Fronteira
11 - Encontro no oeste
12 - Arma branca
13 - Ouro do Deserto
14 - Rio Perdido
15 - A oeste do Pecos
16 - Fogo Selvagem
17 - O batedor do Texas
18 - A luz das Estrelas do 
Oeste 19 - Nophaie
20 - O Desfiladeiro do 
Ocaso
21 - Trs cavaleiros da 
plancie 22 - O homem da 
floresta

23 - A longa vedao
24 - Sombras sobre a 
trilha
25 - A caravana perdida
26 - A estrada do arco-
ris
27 - Peregrino no 
Deserto
28 - A Rainha dos 
Maverick 29 - O Vale 
dos Cavalos Bravos 30 - 
30.000 cabeas de gado

31 - O apelo do desfiladeiro
32 - Rich Ames do Arizona
33 - Os Cavaleiros da Serrania
34 - IOWAY
35 - A Pista do Fugitivo
        TTULO ORIGINAL
        WESTERN UNION
A Grande Empresa
        Zane Grey
        Editorial
        Agncia Portuguesa de 
Revistas
        Dedicado
        A Um Simples bocado de 
fio


                Pode fazer-se!
        No h ainda muito tempo, o Presidente Abraham Lincoln 
ergueu os olhos cavernosos para o seu amigo e 
visitante, Hiram Sibley, director da Western Union Telegraph 
Company.
        - Sibley, por maravilhosa que a tua ideia seja, a sua 
realizao parece-me fantstica e visionria. No entanto, 
pedirei ao Congresso uma verba.
A ideia de Sibley era estender um fio telegrfico atravs
das Grandes Plancies e das Montanhas Rochosas at ao 
Pacfico. Muito antes de saber se o Congresso ou se os seus 
scios aprovariam tal projecto, Sibley mandou chamar o

seu engenheiro-chefe, Edward Creighton, que acabara de 
regressar de uma viagem de um ano  Califrnia.
        - Olhe para este mapa - disse-lhe Creighton. - Aquela 
linha ali  a Trilha do Orego. Segui-la-emos. J falei com 
rancheiros, soldados, caadores de bfalos e cavaleiros da 
Pony Express. Falei tambm com os Mrmones. H milhares de 
selvagens hostis, milhes de bfalos, centenas de

milhas de pradaria sem rvores para servirem de postes 
telegrficos. O trabalho afigura-se-me impraticvel e 
impossvel, mas pode ser feito!
O Congresso votou uma verba de apenas quatrocentos mil
dlares para auxiliar a construo da linha telegrfica, o que 
foi uma tremenda decepo para Sibley e Creighton.
Mas o trabalho vai realizar-se, vai construir-se uma linha
telegrfica que ligar o Leste ao Oeste: Hoje comeou a 
estender-se o fino arame de ferro para Oeste de Omaha, com o 
prprio Creighton a dirigir.
I
        Foi num dia do Vero de 1861 que, em Omaha, no Nebraska, me 
meti na diligncia que partia para o Oeste, quase exauridos os 
meus recursos e a minha esperana.
        Guardei na algibeira o recorte de jornal que me inspirara 
num momento em que muito precisava de inspirao. Aos vinte e 
quatro anos twdo quanto tentara falhara, de tal maneira que 
havia muito duvidava se existiria, de facto, alguma coisa em 
mim.
        Frequentara Harvard durante um ano, em virtude de meu pai 
desejar que tentasse o estudo das Leis, mas desistira; 
experimentara Medicina durante igual perodo com idntico 
resultado, pois embora me interessasse pela matria no era 
capaz de ficar entre quatro paredes a estudar. Esses dois anos 
de frustrao tiveram, contudo, a virtude de elucidar-me, 
demonstrando-me que a ambio de meu pai e da minha famlia em 
colocar-me numa profisso ou, em ltima anlise, no comrcio, 
me influenciara contra o que, na realidade, eu prprio 
desejava.
        Precisava de afastar-me de Boston e da Nova Inglaterra, de 
ir viver para qualquer lado onde estivesse em contacto com a 
Natureza, de preferncia para o Oeste, onde seria livre. Minha 
me, que era escocesa, comparou-me a um dos seus irmos, um 
montanhs que amava os montes, os rios e as lutas da sua terra 
natl.
7


 parte o facto de ser alto, forte e activo de ps, no
possua, que soubesse, quaisquer aptides para uma vida de 
pioneiro no Oeste. No entanto era o Oeste que me atraa cada 
vez com maior intensidade.
        Depois surgira a guerra entre o Norte e o Sul, que 
contribura para a minha perturbao. Meu pai era sulista de 
nascimento e firme nas suas convices contra os ianques. No 
duvidava de que viesse a dar um bom soldado, pois h na vida 
dos soldados um qu de aventura: e de perigo que me atraem; 
mas, com os meus familiares espalhados nos dois campos, tinha 
a        sensao de encontrr-me entre o demnio e o mar alto.

Foi assim que a minha insatisfao e infelicidade me levaram
a        iniciar a longa viagem para o Oeste.
        Olhei  minha volta e verifiquei ser eu a nica pessoa que 
se encontrava na diligncia, pois nem o condutor ainda ocupava 
o        seu lugar. Pouco depois, porm, comearam a chegar os
passageiros.
        Havia dois militares - um deles era sargento -, rapazes 
novos, robustos e curtidos pelo tempo, que tudo indicava 
recomporem-se de uma intimidade muito estreita com a garrafa; 
um indivduo de olhos vivos, que me pareceu rancheiro, e uma 
mulher alentada, evidentemente sua esposa; um passageiro que 
no vi bem e se instalou ao lado do cocheiro; e finalmente um 
comerciante bem instalado na vida - a julgar pela qualidade do 
fato e pelo seu rosto rubicundo -, que se sentou ao meu lado. 
Quando estvamos prestes a partir levantou-se um clamor de
vozes amigas, a desejr-nos boa viagem. Sem dvida alguns 
conheciam este ou aquele passageiro, mas a algazarra que. se 
ouvia demonstrava que a partida da carripana era um 
aContecimento para aquela gente. Tive a sensao de que 
nenhuma daquelas palavras me Adeus me era dirigida.
Vi o Platte River com o seu leito largo, composto de duas
correntes, lodos e rpidos, separadas por lnguas de areia. 
Nas margens baixas alinhavam-se salgueiros e choupos-doCanad, 
cobertos de folhas novas, de um verde brilhante. Vi pela 
segunda vez o grande MIssuri, na plenitude do seu caudal, 
revoluteando nos fortes remoinhos da sua corrente pedaos de 
madeira, e, ao longe, um vapor com rodas de ps na popa.
No tardmos a deixar de ver o rio e a cidade e a rodar a
boa velocidade por uma estrada de piso duro, que Garecia 
estender-se no centro de vrias outras estradas. Tratava-se, 
na realidade, de um espao com cerca de cem jardas de largura 
profundamente sulcado pelo interminvel oceano de rodas que 
por ele tinham passado. Havia sulcos antigos e sulcos recentes 
de ambos os lados da nossa estrada de piso duro.
        Deduzi pouco depois encontrarmo-nos num ramo da Trilha 
Terrestre, ou seja a Trilha do Orego, que fora durante anos o 
caminho de Independence, Missuri, para o Orego. Entraramos 
na Trilha Principal em Grand Island.
O meu lugar ficava perto da janela, atravs da qual via
estenderem-se infinitamente as plancies cinzentas e uma 
corrente sinuosa. De vez em quando passvamos pelos ranchos e 
por gado espalhado, mas aproximvamo-nos do deserto. Vi patos 
bravos na corrente, garas azuis nos baixios, tocas de ratos 
almiscarados a espreitar da gua, um nmero cada vez maior de 
coelhos americanos e um ou outro animal cinzento, de cauda 
espessa e aspecto caracteristicamente lupino.
        Os meus olhos perdiam-se na paisagem cinzenta, sem se 
cansarem na sua monotonia, mas sem que me alheasse da conversa 
trocada ao acaso entre os passageiros. Pouco depois o 
cavalheiro que se sentava ao meu lado referiu-se afavelmente 
ao tempo e  agradvel viagem e acabou por perguntar-me aonde 
me dirigia.

8  9
        - Vou trabalhar na Western Union - respondi-lhe.
- Sim? !. Que coincidncia interessante! Tambm vou para l,
a        fim de dar uma olhadela ao trabalho. Chamo-me Williamson.

- Prazer em conhec-lo, senhor. Sou Wayne Cameron, de
Boston.
- Bem me pareceu! - replicou o homem, a rir -,  fcil
identificar os oriundos da Nova Inglaterra. Pois eu sou de 
Nova Iorque. Que espcie de emprego tem na companhia 
telegrfica?
- Nenhum. por enquanto; mas espero conseguir alguma coisa. - 
No lhe ser muito difcil. Agora custa-lhe arranjar
homens, por causa da guerra.
        Entabulmos conversa e eu esforcei-me por tornar-me o mais 
agradvel possvel. Williamson disse-me, entre outras coisas, 
que se iniciara j o trabalho de construo a partir da costa 
do Pacfico, sob a orientao de um engenheiro chamado Gamble, 
a        quem fora confiada a montagem da linha telegrfica. Este que
iria ao encontro dos homens de Edward Creighton, os quais 
quase haviam j levado o cabo de ao filiforme at Gotemburgo. 
Passado um bocado o meu companheiro de viagem indagou:
        - Cameron, est ao corrente da viagem de Creighton atravs 
das plancies e das montanhas, a fim de estudar as condies 
do terreno?
- Li qualquer coisa a esse respeito - respondi -, Acho que
foi herico.
- Foi mais do que isso! No conheo Creighton, mas alegro-me
por poder conhec-lo brevemente. , segundo tudo indica, uma 
pessoa maravilhosa. Algumas das linhas que montou no Leste no 
foram brincadeira nenhuma, mas esta ideia da linha do Oeste 
ultrapassa todas as conjecturas!
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        Ouvi Hiram Sibley falar da viagem de Creighton at  costa 
e, palavra, supera tudo quanto possa imaginar-se. Percorreu a 
cavalo seiscentas ou setecentas milhas das regies mais 
inspitas, sozinho e sem ter a certeza da direco, uma parte 
das quais - a travessia do Vale Humboldt - no Inverno. A 
ventania lanava areias alcali para os olhos do cavaleiro 
solitrio, a ponto de quase o cegar; por trs vezes a pele lhe 
caiu do rosto e quando chegou a Carson City ia mais morto do 
que vivo. Quase parece milagre que no tenha perecido! Mas a 
sua soberba constituio e a vontade in dmita que o anima 
ho-de ajud-lo a ir at ao fim.
        Voltei-me vrias vezes para observar os fios telegrficos 
para os quais Wiliamson me chamara a ateno. Os postes 
amarelos e brilhantes e o fio simples que se estendia para 
oeste pareciam-me to pequenos, to insignificantes, to 
frgeis, comparados com a tremenda importncia das 
comunicaes rpidas entre o Este e o Oeste! Mas cabia toda 
ali, naquele arame fino, a mensagem mgica do amigo ele Hiram 
Sibley, o inventor Morse!
Ao pr do Sol chegmos a uma espaosa casa rancheira, onde
passaramos a noite.
        Partimos de manh cedo, de novo a caminho do Oeste pela 
Trilha de Orego, umas vezes  vista do Rio Platte e sempre 
atravs de extensas pradarias, de rancho para rancho. Em 
breve, disseram-me, no haveria mais ranchos.
Quando parmos naquela noite, desta vez num lugarejo onde
havia um armazm, um saLoon e umas quantas cabanas, convidei o 
cocheiro para tomar uma bebida comigo e depressa compreendi 
tratar-se de pessoa afvel e interessante. Como o passageiro 
que viajara ao seu lado ficava ali, roguei-lhe ansiosamente 
que me deixasse tomar o seu lugar.
        Jim Hawkins - era assim que se chamava - conduzia 
diligncias h dez anos, o que me fez pensar que seria uma
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verdadeira mina de informaes e maravilhoso conversar com ele 
durante as longas horas da viagem.
        No meio da noite, demasiado entusiasmado para conseguir 
dormir, ouvi o honk-honk estranho e melodioso dos gansos 
selvagens que voavam para o norte.
No dia seguinte iniciei a jornada empoleirado no banco do
cocheiro, sob o sol brilhante. A pradaria estendia-se para 
oeste to cinzenta e montona como nos dias anteriores, mas 
tornava-se imperceptivelmente mais desrtica e inabitvel. 
Chamei a ateno do cocheiro para as nuvens de poeira que se 
erguiam no horizonte e para uma espcie de linha comprida e 
irregular que, ao longe, via pela primeira vez.
- Parece-me que tem excelente vista, meu rapaz! Quando esses
olhos penetrantes aprenderem a reconhecer o que vem, talvez 
lhe salvem alguma vez a vida. Aquilo  a sua primeira 
caravana, e nada pequena, no senhor! De agora em diante e 
para l do Forte Kearney ver muitas. H-de reparar que, a no 
ser que sejam muitssimo grandes, as acompanha sempre uma 
escolta de soldados.
        - O sargento que viaja connosco disse-me que o trabalho de 
construo do telgrafo tem de continuar sob a proteco de 
drages.  por causa dos ndios?
        - Em parte direi que sim - replicou o cocheiro. - Os 
Cheyennes esto outra vez a fazer das suas, mas no chegam aos 
calcanhares dos Sioux. Encontr-los- a oeste do Forte 
Laramie, ao longo do Sweetwater e para cima, para os lados do 
South Pass. Esses diabos descem a cavalo das montanhas do rio 
Wind, atacam com os Comanches e voltam para os seus montes, 
onde no h soldados que os encontrem. Todas as tribos de 
peles-vermelhas tm razo de queixa contra os brancos, o que 
no admira. Um dia, talvez daqui por uns dez anos ou mais, 
quando os brancos comearem a dizimar os bfalos para lhes 
aproveitarem o couro, todos os ndios dos Dakotas at ao Rio 
Grande se juntaro para lutar como diabos que so!  que os 
bfalos so a sua riqueza, o seu sustento.
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        - Mas li que existem milhes de bfalos - observei 
surpreendido. - Certamente que a caa ao bfalo por causa da 
carne e da pele no reduzir o seu nmero a ponto de pr os 
selvagens em p de guerra.
- Creio bem que reduzir --- afirmou o cocheiro, meneando a
cabea grisalha. - Os bfalos, os veados e, em geral, toda a 
caa, seriam eternos se fossem caados apenas pelos ndios. o 
branco alm de ganancioso e falto de escrpulos,  destruidor. 
Conheci um ndio velho que dizia terem os brancos maiores 
olhos do que barriga.
-  preciso tomar em considerao o progresso - protestei. -
A        Amrica tem de expandir-se, a mar do imprio espraia-se
para o Oeste. Primeiro vieram os missionrios espanhis, 
depois os negociantes de peles, depois os exploradores, depois
os pioneiros e os prospectores de quem agora temos o 
telgrafo. To certo como nna altura ser bem sucedida, haver 
caminhos de ferro a cruzar o continente!
        - Com certeza, filho. com certeza - concordou Hawkins. Isso 
 to verdade como estarmos aqui sentados; mas no anula o
        facto de esta ser a terra do pele-vermelha, do homem
corrompido pelo lcool, de ter sido e continuar a ser roubado 
at que se levante e lute contra o poder maior que o 
assoberba, lute at o que dele restar- ser repelido para as 
regies desrticas do Oeste. Qual ser a opinio de Deus a tal 
respeito; no sei; mas a minha no  nada agradvel.
        A dissertao do velho cocheiro deu-me uma ideia 
absolutamente nova do ndio americano.
        Aumentmos a velocidade para alcanarmos a caravana e, antes 
de o conseguirmos aproveitei uma curva da estrada e contei os 
enormes carroes: eram cesenta e trs,
                13
puxados por juntas de bois e acompanhados, de ambos os lados, 
por homens a cavalo. Os veculos pareciam possudos de vida 
prpria e do esprito que dominava os pioneiros que conduziam. 
Dir-se-iam enormes barcos montados sobre rodas e de velas 
castanhas. Aqui e ali, porm, havia-os que no tinham 
cobertura. Uns seguiam por um lado da Pista do Orego, outros 
pelo outro.
        Quando os alcanmos Hawkins afrouxou a velocidade das 
parelhas, mas mesmo assim passvamos pelos carroes como se 
estivessem parados. Os enormes bois sacudiam a cabeorra 
baixa, para c e para l; o lugar ao lado do cocheiro estava 
geralmente ocupado por crianas e gente moa e, aqui e alm, 
uma mulher.
        Hawkins e alguns passageiros gritaram alegremente e os 
pioneiros retriburam os seus votos de boa viagem, e boa 
sorte. Na abertura redonda da lona apareciam, em quase todos 
os carros, uma ou mais raparigas novas. Quanto aos cavaleiros, 
eram homens robustos, vestidos com trajo tosco dos pioneiros. 
Acenei com o chapu  garotada.
        Ao passarmos por um dos carros grandes reparei numa bela 
moa sentada ao lado de um cocheiro atltico e grisalho. Os 
nossos olhos encontraram-se por momentos, mas tanto bastou 
para que ficasse convencido de que no os esqueceria to cedo, 
nem ao brilho do seu cabelo ondulado. Acenei-lhe com o chapu 
e        ela sorriu e levantou a mo enluvada. Depois perdi-a de
vista e os carroes foram sucessivamente tomando o lugar do 
seu. Continuei a olhar, mas o meu entusiasmo esmorecera. 
Passmos adiante, embora eu tivesse dado muito para que a 
diligncia seguisse a par daquele carroo, at ao fim do dia. 
Nem sei o que senti ao pensar que existia uma rapariga de
quem podia ter gostado, mas que certamente no voltaria a ver. 
 medida que nos aproximvamos da vanguarda da caravana,
                14
os cavaleiros eram mais numerosos e uns seis ou mais seguiam  
frente, com carabinas atravessadas nas selas.
        Ultrapassmo-los finalmente e, mais uma vez, tivemos pela 
frente a interminvel pradaria. Olhei ainda para trs algumas 
vezes, mas quando deixei de ver a caravana suspirei e pus os 
olhos no caminho. Aquela rapariga interessara-me. Levaria 
tempo a esquecer o brilho dos seus olhos, o rubor que lhe 
subira s faces, o brilho dos seus cabelos castanhos e o seu
amigvel aceno de mo.
15
II
        Nada, nos dias que se seguiram, me pareceu to emocionante 
como o encontro com a caravana. Grand Island, onde chegmos 
uma noite, pareceu-me igual a todas aS outras paragens no 
Nebraska, com a nica diferena de ter mais edifcios, mais 
luz e mais gente. Foi a que entrmos na Trilha Principal do 
Orego, mais profunda e mais larga.
        Parmos a seguir no Forte Kearney, onde deixmos os dois 
soldados, o qual me decepcionou por parecer apenas um quartel. 
Seguimos para oeste de Kearney e, um dia, vi um ponto
mover-se ao longo da estrada e pequenas nuvens de poeira, mas 
to distantes que no podia fazer ideia do que se tratava.
        - Que  aquilo, cocheiro? -- indaguei.
- Se no me engano - respondeu depois de olhar demoradamente
-,  o Jed Schwartz, com quem costumo cruzar-me mais ou menos 
aqui.  cavaleiro da Pony Express.
A minha curiosidade aumentou. Ouvira falar no herosmo dos
cavaleiros da Pony Express e eis que ia ter a dita de ver um! 
Na atmosfera rarefeita do Oeste os objectos parecem muito mais 
prximos do que na realidade esto. Espantou-me a rapidez com 
que aquele ponto negro mvel cresceu at tomar a forma de 
cavalo e cavaleiro. Quando se aproximou mais, reparei que o 
cavalo galopava, com a cauda e a crina ao vento,
                        17
e        o leno do pescoo do cavaleiro brilhava ao sol e esvoaava
atrs de si.
        Hawkins chegou as parelhas para a direita, de maneira a 
deixar ao cavaleiro da Express a estrada livre. Passou por ns 
como o vento e, com demasiada rapidez para que pudesse v-lo 
claramente, acenou a mo enluvada a Hawkins e gritou-lhe uma 
saudao. O cocheiro respondeu do mesmo modo.
        Voltei-me para ver o cavalo galopar estrada abaixo. Era um 
grande animal escorreito, veloz e forte que alargava a 
distncia entre ele e a diligncia de uma maneira espantosa. 
Foi a minha primeira experincia com um cavalo rpido no 
Oeste, onde os cavalos so de importncia capital.
Em resposta s perguntas ansiosas que lhe fiz, Hawkins
declarou-me:
        - Creio que essa linha telegrfica que vai ajudar a 
construir ser o fim da Pony Express. Alguns excelentes 
rapazes ficaro desempregados, mas suponho que se daro por 
felizes por se retirarem com os escalpes no seu lugar. 
Transportam correio a cinco dlares a ona, obrigam os cavalos 
a        correr loucamente de estao para estao e mudam-nos mais
ou menos de dez em dez milhas - Levam oito dias de Saint Jo, 
no Missuri,  Costa. Conheci tipos formidveis na Pony 
Express, mas o Jed Schwartz deve ser o melhor de todos!  um 
cavaleiro valente e sem medo e, palavra, se visse como sabe 
servir-se das duas armas que usa!
- Gostaria de ser cavaleiro da Express Pony - disse, como se
falasse comigo prprio.
- Bem, agora j  tarde para isso - observou o cocheiro, que
me ouvira. - Mas descanse que encher a barriga de cavalos e
tiros na Western Union, a no ser que muito me engane.
Hawkins era suficientemente falador para satisfazer at um
novato insacivel como eu. Fiz-lhe mil perguntas,
                18
mas reservei uma para quando me conhecesse melhor: como 
deveria comportar-me quando abandonasse a diligncia na 
fronteira. Por enquanto ainda no tinha coragem para lha 
fazer.
        No dia seguinte encontrmos uma pequena caravana de 
carroes que transportavam postes telegrficos. Fiquei 
emocionado, pois sabia que nos aproximvamos, finalmente, do 
nosso destino. Chegmos a Gotemburgo muito depois do 
anoitecer. A cidade parecia composta pelas mesmas luzes 
amarelas e baas, pela mesma estrada poeirenta, pelas mesmas 
cabanas e tendas e altas frontarias de tbuas a que j me 
habituara.
        - Filho, isto  uma terra muito influente - avisou-me 
Hawkins, com uma casquinada. - No u aconselho a deixar de ver 
o        que vale a pena ver-se, mas tome cautela! Creio que o
acampamento dos homens da construo fica por aqui perto, o 
que deve tornar a cidade um bocado agitada, e certamente o 
tomaro por novato. No tolere ms-criaes a ningum e, se 
tiver dinheiro e for ao antro de jogatina do Red Pierce, 
procure as meninas pintadas e afaste-se das mesas de jogo.
A estalagem onde os viajantes se acolheram no parecia
grande coisa vista do exterior, mas l dentro era confortvel, 
os quartos e as camas limpos e serviram-nos uma ceia a que fiz 
ampla justia. Das duas raparigas que serviam  mesa uma era 
decididamente bonita. Tinha uns olhos travessos dos quais 
tirava o maior partido possvel e fazia-me lembrar a rapariga 
do carroo, que me sorrira e acenara. Comeava a parecer-me 
que quanto mais me afastasse dela maior seria o meu pesar. 
Depois de cear apeteceu-me ir at  rua dar uma vista de
olhos. Quando ia a sair Wiliamson acercou-se e observou, 
satisfeito e entusiasmado:
        - Bem, Cameron, chegmos! A fbrica de construo
                19
e        o acampamento mvel de Creighton ficam a poucas milhas
daqui. A cidade est cheia de trabalhadores. Tentarei 
encontrar o Creighton e, se for bem sucedido, falar-Lhe-ei de 
si.
        Agradeci-lhe, sa para o passeio de pranchas e tentei 
habituar a vista  escurido opaca, escassamente iluminada 
pelos candeeiros amarelos. Diante da estalagem estavam presos 
diversos cavalos de sela e encontravam-se vrios veculos, 
entre os quais uma carruagem descoberta. alguns transeuntes, 
mas no tantos que justificassem a barulheira que parecia vir 
da praa principal, do lado de baixo da rua.
        Pouco depois dirigi-me para essas bandas e encontrei um 
grupo de homens, talvez mais de vinte - criadores de gado, 
vaqueiros. mas, sobretudo, pareceu-me, operrios.
        Mais adiante deparou-se-me um grande edifcio de aspecto 
tosco, construdo de tbuas e tornado notrio pela larga porta 
de onde a luz jorrava e pela qual entravam e saam homens. 
Sobre ela viam-se, numa tabuleta toscamente pintada, as 
palavras Red Pierce.
Com o pulso a bater mais depressa, entrei na minha primeira
casa de jogo do Oeste. O que encontrei era de certo modo
diferente do que imaginara, mas no me senti decepcionado. 
Tratava-se de um enorme salo ao meio do qual pendiam trs 
grandes candeeiros e que tinha,  esquerda, um balco 
comprido, onde grupos de dois e de trs homens bebiam. riam e 
conversavam.
 direita, defronte do balco, viam-se vrias mesas ocupadas
por jogadores sentados e de p. Ouvi o girar da roleta e o 
tilintar musical das moedas, mas se se erguiam vozes entre os 
jogadores, as dos bebedores abafavam-nas.
De sbito chegou-me aos ouvidos um jorro de msica animada e
vi, ao fundo do salo, um grupo de homens em redor de uma 
clareira onde danavam vrios pares. quela distncia,
                20
com o rosto branco, os lbios escarlates e os braos nus, as 
raparigas pareciam atraentes.
        Juntei-me aos espectadores que se encontravam ao p das 
mesas de jogo, para ver um bocado, e quando me cansei dirigi-
me para o extremo do salo, a fim de observar os danarinos. 
S quando uma das raparigas me mirou com ateno dos ps  
cabea me ocorreu que devia tornar-me assaz notado entre 
aquela gente. O facto aborreceu-me, mas lembrei-me das 
palavras de Hawkins e decidi aguentar firme. Depressa me 
arrependi de tal deciso quando, terminada aquela dana, uma 
das raparigas me abordou. Palavra que no me lembrava de 
alguma vez ter sido olhado daquela maneira?
- Quer danar? - perguntou-me a jovem, que tinha uma voz
bonita e francamente, no me parecia rapariga de salo de 
baile.
- Gostava - respondi timidamente -, mas sou um estranho
aqui, acabo de chegar e receio...
        Ao ver-me hesitar, agarrou-me num brao e declarou:
        -  um estranho, de facto, mas isso no tem importncia, 
todos os dias chegam estranhos. Dancemos, ver que no tarda a 
sentir-se  vontade.
        Estava prestes a render-me  sugesto, no sem agradveis 
sensaes, quando um jovem brutamontes, aparentemente sob a 
influncia do lcool, a afastou rudemente de mim.
- Vamos, Roby - disse com voz pastosa. - Que veneta te deu
para te agarrares a esse novato? Prometeste-me essa dana. 
Arrastou-a num rodopio, dando-me contudo tempo para
verificar que o fazia com grande desagrado da rapariga. Esta 
lanou-me outro sorriso que achei, pelo menos, tranquilizador. 
No me importei muito com a interrupo, pois, na verdade,
                21
apetecia-me pouco danar, mas a aluso grosseira  minha 
qualidade de novato irritou-me e achei aconselhvel ir-me 
embora. Quando ia a faz-lo, porm, qualquer coisa me deteve e 
disse para comigo prprio:
"Diabos me levem se vou! J sei que tenho de passar por isto
e, portanto, o melhor  habituar-me".
        Resolvi ir observar de novo os jogadores. Abordaram-me 
vrios homens, que no eram certamente trabalhadores, que me 
mediram de alto a baixo com os seus olhos penetrantes, como se 
com eles pudessem trespassar-se as roupas e ver-me o interior 
das algibeiras. Convidaram-me a tomar parte nos jogos, 
masdeclinei.
A certa altura mudei-me para detrs de outros espectadores
que se encontravam ao lado da mesa da roleta e, durante um
bocado, ningum me molestou. Em seguida fui observar o jogo do 
poker, noutra mesa, na qual havia,  frente de cada jogador, 
moedas de ouro de vinte dlares e rolos de notas. Ali, sim, 
jogava-se forte! E os trs homens sentados com os jogadores, 
vestidos de negro, no eram, pela certa, operrios.
De sbito a minha ateno, e a de todos os presentes: foi
atrada para uma luta que se travava na rua. Ouviu-se grande 
alarido, arrastar de botas, um tiro - e depois silncio. Os 
jogadores recomearam a jogar e alguns homens afastaram-se do 
balco e foram ver  porta o que causara a desordem. Reuni-me 
a        eles, mas j no descobri quaisquer vestgios do que
ocorrera.
        Tudo indicav a serem comuns em Gotemburgo os casos como 
aquele, assim como era vulgar a maioria dos homens andarem 
armados. Perguntei a um dos curiosos se no existiam 
representantes da autoridade na cidade e ele riu-se-me na 
cara. No me agradou tal reaco e perguntei a mim prprio se 
no devia aceitar o conselho do cocheiro e comprar uma arma.
22
        Pouco depois, quando me afastava das mesas de jogo, fui 
abordado por trs homens, um dos quais era o brutamontes que 
afastra a rapariga de mim. Este disse ao homem do meio - um 
indivduo atarracado, de testa baixa, olhos salientes e 
aspecto furtivo - que eu era o tal tipo.
- Novo por aqui, hem? - perguntou-me o homem. - Que te
trouxe at c?
        - Isso  comigo - repliquei-Lhe concisamente.
        - Ouve, forasteiro, no  bom para a sade dos recm-
chegados, sobretudo novatos, serem indelicados com a gente da 
cidade.
- No quis ser indelicado, respondi-lhe apenas no tom que
usou para comigo.
        - Tresandas a ianque  lgua, rapaz. E mesmo que no 
tresandasses, ouvia-se com certeza.
- No nego que sou ianque - respondi, j a sentir o sangue a
ferver.
- E se pagasses as bebidas, hem? - sugeriu, com insolncia.
- No farei tal. Quando quiser pagar bebidas escolherei
aqueles com quem me apetecer beber.
- Ouve l, novato - interveio o rufio moreno -, considero
isso um insulto, sobretudo depois de te teres adiantado com a 
minha mida.
- Ou est bbado ou  maluco - repliquei irritado. - No me
adiantei com a sua mida.
        Ento, sem mais nem menos, esbofeteou-me violentamente. 
Fiquei to furioso e surpreendido com o ataque, que o atirei 
ao cho com um murro. Alguns jogadores aperceberam-se do 
incidente, mas embrenharam-se no jogo sem lhe prestarem maior 
ateno, enquanto vrios curiosos se riam. Pelo canto do olho, 
enquanto via o meu agressor levantar-se devagar, notei que 
dois vultos entravam no salo e avanavam pelos lados, um alto 
e        esguio e o outro baixo e de pernas arqueadas.
                        23
Afastaram-se do meu campo de viso, mas pressenti que estavam 
interessados na minha desordem com o trio e preocupou-me t-
los pelas costas. No podia voltar-me, porm, pois o homem do 
meio, aquele que primeiro me abordara, acabava de puxar o 
revlver e apont-lo para baixo, quase para os meus ps.
- Novato, vais encomendar bebidas para ns e danar um
bocado.
        - No farei uma coisa nem outra, mister! - Berrei.
- Oh, isso  que fars! Ora dana, mexe-te, se no queres
que te acerte na perna.
- V para o diabo! Isto no  um pas livre. Que espcie de
homem  voc para ameaar-me com uma arma simplesmente porque 
no estou disposto a ser ridculo?
- Dana, novato! - ordenou com diablica alegria, ao mesmo
tempo que a sua arma cuspia fogo para os meus ps.
Senti a queimadura de uma bala roar-me acima do artelho e
fiquei atordoado, subitamente dividido entre a fria e o 
terror. O indivduo atrara as atenes gerais e era evidente 
que continuaria a disparar para os meus ps. No sabia que 
fazer.
        No fazia a mnima ideia de que maneira deveria reagir, mas 
a        difcil deciso foi-me poupada pela interveno de uma voz
fria que pronunciou uma nica palavra rspida, a qual, no meu 
atordoamento, no compreendi. Ao mesmo tempo soou um tiro 
atrs de mim e, com um grito estridente, o desordeiro deixou 
cair a arma e levou a mo ao ombro. Vi que lhe jorrava sangue 
por entre os dedos e que se transformava de sbito num homem 
diferente, cujo rosto traduzia apenas dor e medo ilimitado. 
Surgiram depois as duas figuras que pouco antes divisara
pelo canto do olho. O mais alto empunhava ainda uma pistola 
fumegante, com a qual apontava a porta, num movimento quase 
imperceptvel.
24
- Hombre, esta  a segunda vez que, hoje, me aborreces -
observou com voz suave e fria, de pronncia acentuadamente 
sulista. - Toma cuidado com a terceira!
E de novo a pistola se moveu imperceptivelmente na dreco
da porta. Os trs bandidos, se realmente o eram, depressa 
obedeceram  ordem implcita. Um deles apanhou a arma do cho 
e        correram os trs para fora do salo. Acto contnuo o
silncio que se estabelecera terminou e de novo se ouviram 
vozes e o girar da roleta.
        Voltei-me ento para o meu salvador, que metia no coldre a 
comprida pistola que usara. Os seus olhos extraordinariamente 
claros fitavam os homens do balco, alguns dos quais tinham 
protestado contra a sua interveno.
- Muito obrigado, prestou-me um enorme favor - agradeci,
quando se virou para mim.
        Tinha um rosto juvenil e liso, queimado pelo sol num tom 
dourado e possuidor de um encanto singular que o tornava quase 
efeminado. Foi o seu companheiro quem primeiro falou:
- Aquele tipo deve t-lo atingido; a sua perna est a tremer
um bocado. Deixe-me dar uma olhadela -, ajoelhou e passou as 
mos pela minha perna esquerda. - C est um buraco nas 
calas. mas no sinto sangue. Foi de raspo, pode considerar-
se com sorte. No seria para admirar se lhe tivesse partido 
algum osso. - Levantou-se, com o rosto vermelhusco franzido 
num sorriso. - Aposto que foi a primeira vez que sentiu chumbo 
quente, hem?
        - Foi, de facto - confessei, aliviado.
- Escapou por um triz. Geralmente os novatos pagam muito
mais caro a estreia.
- Amigos, eu sabia que era um novato, no nego, mas ignorava
como devia reagir  situao.
- No reagiu muito mal - afirmou o mais baixo, cordialmente.
                25
-        Ns vimos e ouvimos. Caramba, valente soco atirou quele
tipo! At tremi todo s de ver como ele o encaixou. Julga-se 
dono e senhor daquela rapariga do baile, Ruby, mas est muito 
enganado. Foi simptica comigo e ainda muito mais simptica 
aqui com o Vance.
- Quer beber connosco, forasteiro? - perguntou-me o mais
alto.
- Com certeza, bem preciso! - Conduziu-me para o balco onde
os homens se apressaram a arranjar lugar para ns, e pouco 
depois entreolhvamo-nos de copo na mo. Achei chegado o 
momento de apresentar-me.
- Chamo-me Wayne Cameron e sou de Boston. Vim para c a fim
de trabalhar na linha telegrfica.
- Bem, Cameron, no precisa dizer-nos que  ianque - afirmou
o        baixo, a rir -, Isso no  muito bom nestas paragens. Aqui o
meu amigo Vance Shaw,  um rebelde , at  medula e eu sou do 
Missuri, mas talvez nos entendamos, hem? Chamo-me Jack Lowden. 
Aperteilhe primeiro a mo a ele e depois a Shaw.
        Notei uma grande semelhana no aperto de ambos, mas uma 
diferena enorme nas suas mos. A de Lowden era dura e 
calejada e apertou a minha com energia e cordialidade; a de 
Shaw era esguia e macia, quase como a de uma rapariga, mas 
dava a sensao de ser de ao forrado de veludo.
- Suponho que so vaqueiros? - indaguei, enquanto bebamos.
-        Sim, simples vaqueiros no que diz respeito a disparar e a
cavalgar.
        - Posso oferecer-Lhes agora eu uma bebida?
        - No, obrigado, uma chega - retorquiu Shaw. - sSaiamos 
daqui para fora. A Ruby j me viu e tenho o pressentimento de 
que aparecer por estas bandas. Se dana outra vez comigo 
terei de furar aquele fulano como deve ser.
                26
        - Com os diabos, era isso que devias ter feito a noite 
passada! - exclamou Lowden. - Por que hs-de desdenhar tanto 
dela, no gostaste?
        - Creio que sim - respondeu Shaw, pensativo. - Mais do que 
se deve gostar de uma rapariga de salo de baile. Mas tem s 
dezasseis anos,  ainda fresca e inocente e tenho pena dela. 
J te disse, Jack, que no gosto do ambiente. H por aqui uma 
ovelha ranhosa e se me lembro mais tempo. Tu conheces-me, 
compincha; meto-me sempre em encrencas.
- Talvez esta seja uma encrenca em que devas meter-te -
sentenciou Lowden. - Mas pronto, vamo-nos.
        Samos e parmos  direita da grande porta, envolvidos na 
luz que vinha l de dentro. Convidei ento os meus novos 
conhecidos para irem comigo at  estalagem, a fim de fumarmos 
e        conversarmos.
        - Irei com prazer, mas fiquemos aqui mais um bocado -
respondeu-me Shaw. - Procuro algum.
- Com os diabos, scio, procuras esse hombre do Texas desde
que deixmos o Rio Grande! - exclamou Lowden, desdenhoso. No 
o encontraremos aqui nem no Plo Norte.
        Ficmos  porta da casa de jogo e, enquanto os meus 
companheiros observavam as pessoas que passavam para baixo e 
para cima, aproveitei o ensejo para os observar a eles com um 
interesse como no me lembrava de experimentar por algum que 
tivesse conhecido antes.
        Shaw era alto e esguio, mas ao v-lo com mais ateno
pareceu-me um cavaleiro de magnfico arcaboio; ombros largos, 
ancas estreitas, pernas arredondadas e msculos que,
27
quando se mexia, se viam atravs das mangas e das pernas das 
calas. Vestia calas de ganga azuis escuras, muito usadas e 
manchadas de poeira, cheirava a couro, a carne de cavalo e a 
fumo e usava botas altas, de taco, muito estragadas.
O seu cinturo era negro, estreito, onde espreitavam pontas
brilhantes das balas, e o coldre, tambm escuro, apenas 
deixava ver a coronha preta da enorme pistola. O coldre e a 
arma desciam discretamente muito abaixo da anca direita, e 
notei que o cinturo Lhe atravessava o ventre tambm abaixo do 
cinto que Lhe segurava as calas. Sobre a camisa usava uma 
espcie de colete fino, igualmente escuro, e a aba larga do 
chapelo poeirento e cheio de buracos no lograva esconder-lhe 
os cabelos louros e encaracolados.
 Apesar do seu aspecto impressionante o que mais me fascinava 
era o seu rosto. Visto de perfil tinha os contornos perfeitos 
de um camafeu, parecia melanclico; frio e juvenil
mas, na sombra, dir-se-ia ocultar sob a pele lisa as rugas e
os estragos de uma vida de dissipao. Notei de novo que 
jamais vira olhos to extraordinrios. Devia ser to 
formidvel como parecia, pensei, preso da mais viva e rara 
emoo.
        possua tambm um aspecto notvel, embora Lowden 
contrastasse vivamente, e em todos os pormenores, com o 
companheiro. Era baixo, atarracado e robusto e tinha braos 
compridos de mais em relao ao corpo e pernas arqueadas, 
denunciadoras do muito tempo que passavam a cavalo. Em repouso 
o        seu rosto feio era spero e sulcado de rugas, mas os seus
olhos azuis tinham a mesma expresso dos de Shaw, embora menos 
acentuada.
        Enquanto os estudava, cada vez mais resolvido a tentar 
tornar-me seu amigo, Shaw mantinha-se silencioso, mas o 
companheiro fazia de vez em quando observaes custicas a 
respeito de quem passava.
                        28
De sbito a sua voz traduziu mais do que interesse casual:
        - Compincha, olha para ali. Vs aquele vaqueiro que se 
aproxima? Vai encostar-se a ns! Com a breca, parece muito em 
baixo de sorte! Rasgado, sujo, com a barba crescida e sinais 
de quem tem andado a dormir pelo mato.
        Desviei imediatamente a minha ateno para o indivduo to 
impressionantemente descrito. Aproximava-se de facto de ns 
hesitante ao princpio, mas depois com maior segurana, como 
se a maneira de o olharem lhe parecesse favorvel. Devia ser 
da nossa idade, embora, o seu rosto encovado no permitisse 
avaliar com exactido. Tinha olhos negros, ardentes, nos quais 
notei uma sombra de esperana.
        - Viva, vaqueiros - saudou, detendo-se na nossa frente. -
Desculpem dirigir-me a vocs, mas So os primeiros cavaleiros 
abordveis que encontro.
- Viva - retribuiu Jack, com a habitual cordialidade -,
Claro que somos abordveis!
        Shaw fitou o recm-chegado, interrogadoramente.
- Querem comprar um grande cavalo? - perguntou-lhes o homem. 
- Qual  a dificuldade do vaqueiro que pretende vender o seu
cavalo? - indagou Shaw, com rispidez.

        - Qual lhe parece que seja, camarada? - ripostou o vaqueiro 
com esprito, como se a resposta fosse bvia. - H dias que 
cavalgo e, acreditem, nesta velha trilha os acampamentos e os 
ranchos so poucos e muito distanciados. Estou quase morto de 
fome!
- Bem,  razo de sobra - aquiesceu Shaw, pensativo. - No
compraremos o seu grande cavalo, mas arranjar-lhe-emos comer. 
 s isso que procura?
- Obrigado, vaqueiro. Meu Deus, h tanto tempo que no
                29
procuro mais nada, que me esqueci se pode haver mais que 
procurar. Quase da mesma estaEnquanto aqueles dois homens, q 
asso em frente e tura, teravam olhares, Lowden deu um p 
intrometeu-se
- Vaqueiro, podias ter encontrado tipos piores do que ns,
sou eu que to digo. Fala se quiseres, se no quiseres no 
fales. Aqui o meu compincha  do Texas e este calmeiro  
ianque, do Leste, mas supomos que seja um tipo fixe.
- No me importo de falar depois de comer e de beber
qualquer coisa - volveu o recm-chegdo.
- Desculpe se somos curiosos. Tome este dinheiro, h um bom
stio para comer na porta ao lado. V e farte-se.

        Ficaremos aqui ainda um bocado. se quiser voltar.
O vaqueiro aceitou o dinheiro com olhar agradecido e, sem
dizer palavra, correu para a porta do restaurante e entrou. 
- Que mosca te mordeu Vance? - inquiriu Lowden, cheio de
curiosidade.
        - Porqu?
- Ter o leite da generosidade humana azedado no teu
peito?mas adquiriu um gosto.

- No, Jack, suponho que no. Mas adquiriu um gosto amargo.
- Diabos te levem, ests a mentir? Cameron, que pensas
daquele camarada que nos abordou?
Assim solicitado, expus francamente a minha opinio, a qual
mereceu de Lowden um grunhido de satisfao.
        - Ests a ver, compincha? O nosso novato ianque  vivo que 
se farta! Sim, senhor, aquele vaqueiro  um caso triste, muito 
triste. No te pareceu que vai no pirano.
- Sim, tive essa impresso. Aquele vaqueiro matou algum
                30
e        no h ainda muito tempo: Mas no creio que seja mau rapaz.
        - Nem eu, amigo. mas, sabes, ns, vaqueiros de corao 
terno, j nos enganmos algumas vezes. No entanto, esperemos 
mais um bocado para ver o que isto d.
        Calmo-nos, os vaqueiros recomearam a observar quem passava 
e        eu acabei por fazer o mesmo. Parecia difcil ser aquilo a
que chamava racional na minha atitude para com os meus novos 
companheiros, a ocasio e o local. A intensa curiosidade que 
sentia no se coadunava com a indiferena e o discernimento 
caractersticos da Nova Inglaterra, mas dir-se-ia que 
descobrira de sbito, em mim, instintos e sentimentos que 
sempre ignorara possuir. Tentei avaliar cada homem que passava 
e        classific-lo como trabalhador, criador de gado, carroceiro,
jogador, etc. Havia agora tanta gente na rua como ao princpio 
da noite.
        Pouco depois senti grande prazer ao ver aproximarse um par 
de ndios. Estavam longe, porm, dos espcimes cheios de 
romanesca dignidade que a minha imaginao criara. Envolviam o

corpo atarracado em cobretores, o cabelo preto caa-lhes at 
aos ombros e as suas feies trigueiras eram interessantes, 
mas no atraentes. Passaram sorrateiramente, deslzando nos 
ps calados de mocassins e mostrando sob as mantas as pernas 
arqueadas. Lowden observou, entre dentes:
        - Imundos peles-vermelhas!
No v uma nica mulher na rua durante a meia hora em que
ali permanecemos. Apetecia-me rever a rapariga do salo de 
baile, Ruby, mas de repente recordei-me da moa do carroo, 
cujo rosto inesquecvel cada vez me intrigava mais.
Nesse instante o vaqueiro desamparado da sorte saiu do
restaurante e veio ao nosso encontro, sem hesitar.
31
- Ainda bem que esperaram, amigos. Agora sinto-me um homem
diferente!
- Sim, quando um esfomeado enche a barriga sente-se sempre
diferente. J passei por isso.
        Sugeri de novo que fssemos para a estalagem, onde 
poderamos tomar uma bebida, fumar e conversar.
- Onde est o seu cavalo? - perguntou Shaw ao vaqueiro.
- Deixei-o num caminho fora da cidade.  s um quadrado de
erva, mas chegar para passar a noite. Depois irei busc-lo. 
Enquanto nos dirigamos para a estalagem prestava mais
ateno aos meus companheiros do que aos homens com quem nos 
cruzvamos e aos lugares por onde passvamos.
Como o vestbulo estava cheio, levei-os para o meu quarto -
um aposento grande e nu, apenas com quatro tarimbas, muito 
pouca moblia e um candeeiro que alumiava mal. Disse aos 
rapazes que se instalassem  vontade e fui procurar outro 
candeeiro e alguma coisa que se bebesse e fumasse. O 
proprietrio informou-me que mais ningum ocuparia o quarto e 
eu respondi-lhe que, sendo assim, talvez os meus amigos 
ficassem comigo aquela noite.
- Agora, amigos - declarei, ao voltar -, temos aqui bebidas
e        tabaco. Espero que possamos travar conhecimento.
- Que conversa vem a ser essa? - indagou Lowden, secamente.
-        Se percebesses alguma coisa da gente do Oeste, saberias que
j travmos conhecimento h muito tempo.
        Falei-Lhes de mim, resumidamente, e conclui afirmando-me 
satisfeito, para no dizer grato, com a sua ajuda.

- Bem, Wayne - murmurou Shaw a sorrir pela primeira 
vez, o
que pareceu ilumin-lo, transform-lo numa pessoa 
diferente -,
                32
se conseguir esquecer-me de que s ianque, creio 
que nos entenderemos.
- Com mil diabos, compincha, a guerra ainda no 
chegou c -
exclamou Lowden. - E, quem sabe, talvez nem chegue.
- Chega, to certo como a morte. Se fosses do Texas 
em vez
do Missuri j o terias percebido h sculos.
        - Ouve, Shaw, quando contei a minha pequena 
histria esqueci-me de dizer que a minha prpria 
casa est dividida: minha me  ianque, o meu pai 
sulista. Os negcios deste obrigaram-no a 
permanecer no Norte, mas o seu corao est no Sul, 
onde nasceu.
- Por Moiss! - exclamou Lowden. - Isso torna-te 
pelo menos,
meio rebelde.
- Bem, amigos, assim j  um bocado diferente - 
exclamou
Shaw. - Estou certo de que nos entenderemos. Agora, 
Jack, conta ao Cameron e a este nosso novo camarada 
o que estamos a fazer aqui.
-  fcil - afirmou Jack, expelindo uma grande 
baforada de
fumo. - Serei breve e claro: somos apenas um par de 
vaqueiros sem prstimo do Rio Grande. No temos 
casa nem parentes, nem dinheiro nem namoradas - 
nada a no ser a roupa que trazemos no corpo, as 
armas. e, no quero esquec-lo, dois dos melhores 
cavalos jamais montados por vaqueiros. No Rio 
Grande a coisa esquentou para ns e, como no 
tnhamos trabalho que rendesse dinheiro, pareceu-
nos conveniente vir por a fora c para o norte. 
Partimos h meses e, palavra, esqueci o que 
aconteceu pelo caminho. Em Panhandle ouvimos uns 
zunzuns acerca da linha telegrfica que vo 
construir atravs das plancies.  um trabalho dos 
diabos, e por isso aqui estamos.
- Amigos, o Jack sempre teve a pecha de passar por 
cima de
certos pormenores - interveio Shaw.

                        33
-        Devia ter dito que fomos corridos do Texas, 
embora nada mais
tenhamos feito do que furar um par de maus tipos de 
uma famlia antiptica.
- H quanto tempo aqui esto vocs, Vance, e que 
fizeram?
Que pensas do trabalho da Western  - indaguei.
        - Estamos c apenas h uns dias, mas tanto bastou 
para termos encrenca com uns indivduos mesquinhos, 
por causa da Ruby, e para percebermos que a 
montagem da linha ser uma obra formidvel, uma 
coisa nunca vista. se conseguir ser levada a cabo. 
J vi e j ouvi falar o tal Creighton e fiquei com 
a impresso de que  um tipo de ao.  um indivduo 
enorme, daqueles capazes de convencer seja quem for 
a ir para o inferno com ele.
- Tinha a mesma opinio - observei- Talvez 
consigamos que
nos empregue a todos.
        - Isso ser fcil - afirmou Jack -, descobrimos 
que o Creighton se tem visto e desejado para 
arranjar homens e encontrado bem maiores 
dificuldades para conserv-los.

Tenho as minhas dvidas acerca do Vance e de mim. 
Ns
detestamos trabalhar, isto , enterrar postes, 
andar       , cortar e serrar madeira e outras 
coisas semelhantes.

- No te preocupes compincha - tranquilizou-o Vance 
-, o
Creighton no conseguir montar a linha sem 
cavaleiros, caadores, homens para combater os 
ndios. Isso serve para ns e        eu demonstrar-
lho-ei num pice.
- Bem, para trs de ns parece estar o caso 
solucionado, -
observei olhando interrogadoramente para o quarto 
membro do grupo.
O homem conservara-se um pouco afastado e no 
tomara parte
na conversa, mas ao ouvir-me levantou-se e 
aproximou-se da luz. Os seus movimentos e o seu 
rosto transtornado denunciavam inquietao e 
nervosismo. Parecia-me que devia ser um rapaz 
simptico se se barbeasse e limpasse a sujidade da 
viagem.
                        34
e        Se acalmasse a sua expresso de desvario e 
transtorno. Fitou
em cada um de ns o olhar febril, como se quisesse 
demonstrar que era capaz de encarar fosse quem 
fosse, e aumentou assim a simpatia que j me 
inspirava.
        - Amigos - comeou, com voz abafada -, atingiram-
me em cheio, abaixo do cinto. Tive boa impresso de 
vocs logo  primeira vista, mas no sei se deva ou 
no desembuchar. se no ser melhor continuar a 
cavalgar para diante.
- Fala se quiseres, se no quiseres no fales, 
vaqueiro -
interveio Shaw. - Convido-te - e creio que posso 
fazlo em nome de Cameron e do seu compincha Jack - 
a juntares-te a ns para ajudarmos esse carola do 
Creighton a realizar a doidice que se lhe meteu na 
cabea.
- Muito obrigado, Shaw - agradeceu o vaqueiro, 
comovido. -
Era isto que eu precisava, sou um no-presta-para-
nada to grande, que no resisto a meia dzia de 
palavras bondosas. Meu Deus, como gostava de 
desabafar com vocs! Se ao menos me atrevesse...
        - Acho que j sabes com o que podes contar - 
interrompeu-o Shaw, num tom de voz vibrante. e eu 
compreendi pela expresso do seu rosto o que seria 
t-lo por amigo.
        - Vejam isto! - exclamou o vaqueiro, quase com 
violncia.

E, de cara para ns sob o claro da luz, despiu 
o casaco,
desabotoou a camisa suja e rasgada num movimento 
brusco e

despiu-a tambm. Notei que possua uma musculatura 
extraordinria, mas que estava excessivamente magro 
para o seu arcaboio. Depois, com um ar de vergonha 
e tragdia no olhar, murmurou:
        - No  nada fcil de fazer!
No mesmo instante voltou-se de repelo e mostrou-
nos as
                35
costas; estavam transformadas numa massa de verges 
e golpes negros e azulados, alguns ainda mal 
cicatrizados. Sustive a respirao, impressionado 
por compreender que aquele rapaz devia ter sido 
terrivelmente espancado por algum e que a vergonha 
e os motivos de tal tratamento haviam desencadeado 
a tragdia que se lhe lia no rosto.
        No conseguia desviar os olhos dos verges, 
alguns to inchados que se erguiam cerca de trs 
centmetros acima das costas. Nenhum de ns falou. 
Por fim voltou-se de novo, respirou profundamente e 
enfiou depressa a camisa.
- Com mil raios, homem! - exclamou Jack, quase num 
guincho.
-        No admira que pareas estranho! Como diabo 
podemos impedir-
nos de perguntar onde arranjaste isso?
- Vaqueiro, o enforcamento no seria pior! - 
exclamou Shaw
por sua vez, com voz pungente.
Subiram-me vrias perguntas aos lbios, mas no fui 
capaz de
exprimi-las.
        - Camaradas, ainda bem que tive ganas de mostrar-
lhes declarou o vaqueiro, aliviado. - Vejo pelas 
vossas caras que esto convencidos de que no 
mereci isto; de contrrio no o teria mostrado.
-  assim que penso - afirmou Lowden. - Mas, com a 
breca,
amigo, tambm no nos terias mostrado se no 
tencionasses falar, pois no?
        - Tens razo - admitiu o vaqueiro. - Ao princpio 
no percebi, mas agora sei que alivia falar. 
Cheguei a ter a impresso de que atabafava se no 
despejasse tudo do peito. mas agora vou faz-lo. 
Depois... veremos. Creio que devo afastar-me o mais 
que puder, mas no entanto, para bem ou para mal, 
gostaria de fazer uma paragem onde possa de novo 
trabalhar, comer e dormir.
- O que nos mostraste e o que at agora disseste 
leva-nos a
                36
desejar que pares aqui, connosco - afirmou Shaw, 
sinceramente. - Quatrocentas ou quinhentas milhas 
 uma grande distncia
nesta regio; talvez seja longe bastante para ser 
seguro respondeu o vaqueiro. - Talvez mesmo tenha 
sido cobardia cavalgar at to longe. Bem, mas 
escutem.
        Aposto que vocs, texanos, nunca ouviram histria 
como a minha. Chamo-me Darnell e estive poucos anos 
no Wyoming, na foz do rio Sweetwater, no lado 
ocidental do territrio.  a melhor zona de gado de 
todo o Oeste, e aquela cidade mineira de South 
Pass, de que devem ter ouvido falar, tornou-se nos 
ltimos tempos a mais rica, mais brava e mais 
sarrenta cidade de sempre. Falar-lhes-ei dela mais 
tarde. A rea do Sweetwater foi primeiro ocupada 
por pioneiros chegados em caravanas de carroes, 
que viram as suas possibilidades e se instalaram 
para aproveit-las e desenvolv-las. Seguiram-se-
lhe criadores de gado e rancheiros at cerca de cem 
milhas de terreno ficarem ocupadas. Comearam agora 
a prosperar, mas aquela zona ser to rica em gado 
como o South Pass  em ouro. Entre os

criadores de gado, que eu saiba, existe apenas um 
texano.  um excelente rancheiro, mas duro com os 
vaqueiros e eu prevejo que, na guerra que por fora 
haver entre criadores e vaqueiros- ser morto. Os 
ladres de gado comearam tambm a trabalhar no 
Sweetwater. Viro a ter ali um ptimo campo de 
aco, mas s mais tarde.
        Fez uma pausa e prosseguiu:
- Todos os vaqueiros que comeam roubam mavericks, 
o que se
tornou um hbito e faz perder a cabea aos 
criadores, mas eu fui apanhado com a boca na 
botija. Aprisionaram-me e mantiveram-me amarrado e 
fechado durante dias. s a po e gua. Como no 
disse o que queriam saber, porque isso envolveria a 
honra de uma mulher, os dois principai donos de 
gado da regio levaram-me de noite para os 
salgueiros
                37
que bordejam o rio, amarraram-me, despiram-me e 
acenderam uma fogueira para poderem gozar o 
espectculo. A meia dzia de homens que contrataram 
para se encarregarem da sua tarefa usaram mscaras 
e no falaram, e por isso no pude reconhec-los; 
mas os dois rancheiros no taparam a cara. 
Esticaram-me os braos com cordas e disseram-me que 
se no os informasse do que queriam saber me 
espancariam at me deixarem quase morto. Ri-lhes na 
cara e mandei-os para o diabo. Cumpriram a sua 
palavra. Homem aps homem vergastaram-me, at se 
lhes partirem nas mos as varas de salgueiro, de 
uma polegada de grossura. Mas no abri a boca! 
Pararam uma vez e deram-me outra oportunidade de 
denunciar, mas s me ouviram dizer que, to certo 
como Deus existir, os mataria aos dois! 
Nova pausa e depois:
- Vergastaram-me de novo at o sangue esguichar 
para a cara
dos carrascos, os quais acabaram por se enojar 
tanto com o trabalho que no quiseram bater-me 
mais. Fecharam-me de novo, mas passados trs dias 
consegui fugir. Roubei um cavalo e cavalguei, em 
plo, para o vale do South Pass. Cheguei l de 
manh e as pessoas viram-me chegar e atravessar a 
cidade com as costas a sangrar, como uma bandeira 
vermelha. Procurei dois vaqueiros que conhecia e 
que me emprestaram esta arma e esta roupa e me 
informaram que na cidade se realizava naquele 
momento, uma reunio de criadores de gado. 
Perguntei se os dois rancheiros que jurara matar se 
encontravam entre eles. Encontravam. Os meus amigos 
disseram-me onde devia ir e desejaram-me sorte. 
Cavalguei para a cidade, afastei uma multido que 
se reunira diante do lugar onde se realizava a 
reunio e procurei os dois rancheiros. Disse poucas 
palavras, mas bastaram: matei-os. fugi da cidade e 
desde ento ainda no parei de cavalgar. melhor, 
no terie parado se no fosse para dar descanso ao 
cavalo. Esqueci-me de dizer que os dois vaqueiros 
meus amigos me deram tambm uma sela. No sei h 
quantos dias sa de South PasS, mas posso contar as 
poucas vezes que comi alguma coisa.  a minha 
histria, camaradas, e juro que  verdadeira.
        Aps um momento de pesado silncio Vance Shaw 
disse friamente:
        - Parece-me que vinha a calhar uma bebida.
Aceitmos a sugesto e a atmosfera pareceu 
desanuviar-se um
pouco.
        - Preciso tanto de tomar ar como de beber - 
observou Lowden. -        Darnell, e se 
fssemos os dois dar uma vista de olhos ao teu
cavalo? H aqui perto um estbulo de aluguer e esse 
cavalo merece ser alimentado como deve ser e uma 
boa cama.
        - Se merece! Esquecera-me dele.
        Ofereci ento:
- H aqui quatro tarimbas. Por que no ficam todos 
aqui esta
noite?
        Concordaram logo, o que me alegrou. Eu e Shaw 
acompanhmos os outros dois at  rua e depois 
voltmos para dentro.
- Bem me parecia que acontecera quele vaqueiro 
alguma coisa
terrvel - murmurou o meu companheiro, pensativo. - 
Nunca vi tantos golpes e verges num corpo humano! 
Caramba, como deve ter sofrido. tanto fsica como 
moralmente! Os vaqueiros so uns tipos estranhos. 
Talvez no acredites, mas tm brio e orgulho. - E, 
sem esperar que fizesse qualquer comentrio, 
prosseguiu: - Se conseguirmos convenc-lo a ficar 
aqui connosco far-Lhe-emos um grande favor. e 
talvez tambm a ns prprios. Passou muito tempo 
sozinho, envergonhado ao ponto de supor que todos 
os homens estavam contra si.
- H uma coisa que me intriga, Claro que ainda no 
percebo
as coisas do Oeste.
                38  39
Ele disse que foi apanhado com a boca na botija a 
roubar. o que disse que era?
        - Mavericks. Um maverick  um vitelo no marcado 
que se encontra na pradaria. Se o apanhares quando 
no est com a me isso no  roubar. Ns, 
vaqueiros, no consideramos roubo laar mavericks 
para ns prprios.
- Espanc-lo daquela maneira! Disse que no quis 
denunciar,
que estava envolvida a honra de uma mulher. Que te 
parece?
- Deus sabe que, por enquanto, no fao ideia. Mas 
tenho c
a        impresso de que h uma grande embrulhada no vale 
do
Sweetwater e que vamos estar envolvidos no caso. 
Falta muito tempo, porm, e talvez no vivamos at 
l.
        - Viveremos - respondi, decidido. - Tenho c o 
pressentimento, como vocs costumam dizer, de que 
tudo correr bem.
-  assim que se deve pensar - replicou Shaw. - H 
bocado
vi-te tentar enrolar um cigarro  maneira dos 
vaqueiros e fizeste ma triste figura. Vou mostrar-
te como . Uma das coisas que assinalam um novato  
a maneira como enrola os cigarros.
        E comeou, cheio de seriedade, a ensinar-me a 
enrolar cigarros com a mo esquerda. Gabava-me de. 
no ser desajeitado, mas a verdade  que estraguei 
uma dzia de cigarros antes de apanhar o jeito. 
Depois fiz ao vaqueiro uma srie de perguntas 
acerca do trabalho de construo da linha,  
maioria das quais soube responder-me, e por fim 
Jack Lowden voltou com Darnell.
        - Fica sabendo, compincha, que este camarada de 
Wyoming tem um cavalo to bom como o meu, e que no 
fica a dever nada ao teu - declarou Jack.
- Perdeste a cabea? Range  o melhor cavalo das 
plancies!
-        replicou Shaw, avespinhado. - Trouxeram-no para a 
cidade?
- Pusemo-lo na cavalaria. Coitado do Ps Alados, 
pareceu
bem satisfeito com isso! - respondeu-lhe Darnell.
- Ps ALados? Isso  um nome muito lisonjeiro, sem 
dvida,
Voaremos.
- No me arriscarei a que o meu cavalo seja 
vencido, e muito
menos a arranjar questes com vocs, amigos.
        - Queres dizer que ficas connosco? - indagou 
Shaw.
        - Seria parvo se no ficasse.
- Que julgas que tive de dizer-lhe para o 
convencer, hem,
compincha? - perguntou Jack.
        - No fao ideia. mas aposto que foi qualquer 
exagero.
- Disse-lhe que era estupidez passar a vida a 
cavalgar e
que, se te tivessem batido a ti, ficarias l at 
matares todos
os tipos. Disse-lhe que, naturalmente, ter 
encrencas, mas que tem aqui trs compinchas para o 
que der e vier. e que vale a pena ver o nosso 
novato esmurrar um tipo, disse-Lhe que sou o 
camarada mais til para ter por perto quando h 
barulho e, finalmente, que s o melhor atirador que 
o Texas j deu.
        - S isso? Receava que tivesses fanfarronado.
At a expresso sombria de Darnell se modificou ao 
ouvi-lo.
- Companheiros, fico com vocs, mas juro que nunca 
Lhes
darei motivos para se arrependerem.
        - Estamos certos disso - respondeu-lhe Shaw, com 
outro dos seus sorrisos simpticos. - Agora toca a 
deitar. Estamos todos cansados e o Darnell, 
coitado, parece um morto em p. Amanh  outro dia 
e muito haver que fazer.
        Pouco mais dissemos. Antes de apagarmos os dois 
candeeiros notei que os vaqueiros se limitavam a 
descalar as botas, com esporas e tudo agarradas, 
antes de se deitarem, Eu, porm, fiel aos hbitos 
antigos, despi-me, apaguei o ltimo candeeiro e
        meti-me entre os lenis.
                40  41
Mal me estendera percebi que os trs rapazes j 
dormiam como
cepos, a respirarem devagar e regularmente. S o 
Lowden ressonava um pouco. Quanto a mim, estava 
demasiado excitado para dormir.
        Fiquei na escurido fria, aconchegado e quente 
sob os cobertores a ouvir os rudos leves que 
vinham do exterior. Agora que havia silncio no 
quarto chegavam-me aos ouvidos o tilintar de moedas 
e de copos, o virar da roleta, um sussurrar de 
vozes entre as quais distinguia um riso feminino, 
abafado e doce. Este ltimo pormenor desviou os 
meus pensamentos para outros horizontes.
        No contara com as mulheres nos clculos que 
fizera acerca da minha vida no Oeste, mas isso no 
bastaria para as afastar do meu caminho. Havia 
qualquer coisa de fascinante em Ruby, a pequena do 
salo. No seria por ser to jovem e bonita, mas 
talvez por ser infeliz e ter aquela vida. Pensei de 
novo na rapariga do carroo, no seu olhar, nos 
seus cabelos castanhos ondulados, no acenar da sua 
mo, e disse para comigo que, se voltasse a 
encontr-la, estaria perdido.
Ainda me custava a acreditar que estava ali, na 
fronteira,
j em contacto com indivduos rudes, e que em breve 
encontraria ndios e bfalos e teria de pr  prova 
o meu valor. No me saam do pensamento os trs 
novos camaradas que dormiam e compartilhavam comigo 
a escurido.
        Oriundo da Nova Inglaterra e de uma famlia de 
elevados princpios morais e religiosos, no podia 
deixar de impressionar-me ter to fcilmente 
travado amizade com homens que tinham matado outros 
homens, e perguntava a mim prprio se alguma vez 
teria de fazer o mesmo. O que se passara no salo 
de baile demonstrara-me que para isso no 
precisaria de encolerizar-me muito mais do que 
quando esmurrara o rufio que me esbofeteara. 
Compreendi que tudo dependeria dos homens e 
mulheres que viesse a conhecer, que havia 
necessidade de mais
                        42
amizade, de laos mais fortes a unir-nos, de um 
freio a travar as nossas cleras.
        Tencionava conquistar e conservar a amizade 
destes trs vaqueiros, custasse o que custasse, e 
prometi a mim mesmo ser reflectido e esforar-me 
por estar preparado para o que
pudesse acontecer.
        Finalmente cerrei os olhos e o sono dissipou-me 
os pensamentos.
43
III
        O meu sono foi interrompido por uma voz 
desconhecida:
- Acorda, Wayne, meu velho; o dia nasceu e temos 
muito que
fazer.
        Era Lowden e despertei quase instantneamente. 
Sentei-me e atirei os cobertores para trs. O sol 
entrava pela ja nela e inundava o quarto, misturado 
com um cheiro estranho e adocicado a que no 
conseguia habituar-me.
        - Com mil raios! - praguejou Shaw, que tentava 
enfiar as botas com muita dificuldade. - Tenho de 
comprar pegas e outro par de botas.
        Lowden, em palmilhas de meias, foi depois acordar 
Darnell, surpreendendo-me com a delicadeza com que 
o fazia. Entretanto sa da cama e vesti-me 
depressa.
- Jack, agora que nos encontramos num hotel de luxo 
depois
de tantos meses - se  que alguma vez estivesse em 
algum. podias ir buscar gua quente - sugeriu Shaw: 
- Precisamos de barbear-nos os dois e no faria mal 
nenhum ao nosso novo compincha se se lavasse um 
pouco. Lembra-te de que vamos procurar emprego e de 
que o nosso apuradinho amigo ianque nos leva uma 
grande vantagem.
        - Eu vou buscar a gua - ofereci-me.
Na cozinha deram-me um jarro de esmalte, to quente 
que mal
podia pegar-lhe. Quando voltei ao quarto os 
vaqueiros estavam todos acordados e dois fumavam.
                        45
Darnell deu-me os bons dias, sentado na cama e 
perguntou-me se no tinha uma camisa a mais que lhe 
emprestasse.
- Concerteza que tenho, e pegas tambm - Apressei-
me a
abrir a mala para o servir.
- Eh, camarada, Tambm me fazia jeito uma dessas! - 
Exclamou
Lowden, descaradamente.
        - Da melhor vontade, Jack. E aqui est um par de
pegas para ti tambm, Vance. Quanto a botas  que 
lamento, mas s tenho um par. Como vem so de 
atacadores e tm taces baixos; no creio que 
vocs, vaqueiros, possam us-las.

- Com muito prazer as usaria, confesso, mas no 
posso,
de facto - observou Jack. - Que julgas tu que me 
aconteceria se me escarrachasse num cavalo com 
botas dessas?
        - Acaba de ocorrer-me, Jack, que no podemos 
partir

para esses trabalhos sem botas, luvas e uma 
quantidade de outras coisas - observou Shaw.
-At que enfim abr ste os olhos - troou o 
companheiro. -
Soube que assim seria desde que chegmos.
Quanto dinheiro temos?
        - Tenho medo de ver.
        - Darnell, creio que te juntaste  companhia 
lisinho,
hem? - indagou Lowden.
- Se me tivesses visto comer a noite passada no 
precisarias
de perguntar - respondeu-lhe o outro, 
lamentosamente.

        - Amigos, eu ainda tenho algum dinheiro - 
anunciei. No  muito, mas deve chegar para nos 
aguentarmos at recebermos qualquer coisa.
- Wayne, no restam dvidas de que tens uma 
caracterstica
dos vaqueiros! - exclamou Jack. - E apostava as 
minhas esporas em como no tardars a adquirir 
outras.
        Tirei a carteira e dividi igualmente entre os 
quatro o dinheiro que me restava, gesto que teve o 
condo de animar
46
os meus companheiros. Lowden gracEjou, Shaw 
agradeceu-me em poucas palavras e Darnell pareceu 
demasiado comovido para falar. A seguir entregaram-
se s suas ablues e surpreendi-me com a rapidez 
com que o fizeram. Em poucos momentos estavam 
barbeados e com muito melhor aparncia, ao ponto de 
Darnell nem parecer a mesma pessoa.
Depois do pequeno almoo samos e eu senti-me como 
um garoto
protagonista de uma aventura emocionante. 
Perguntmos a um cocheiro quanto levaria para uma 
corrida ao acampamento dos trabalhos e ele 
respondeu-nos:
        - Se procuram emprego  melhor falarem a 
Creighton aqui, pois ele est na cidade. A noite 
passada teve de despedir um grupo de inteis, e por 
isso se vocs querem trabalhar - mas trabalhar 
mesmo, hem? - com certeza que os contratar.
        - Onde encontraremos Mr. Creighton? - perguntei-
lhhe.
        - Vi-o mesmo agora naquele armazm.
        Dirigi-me para o armazm indicado, com os meus 
companheiros em fila atrs de mim, e procurei-o 
ansiosamente com o olhar. Entre um grupo de homens 
que l se encontravam a conversar estava Mr. 
Wiliamson, que veio apertar-me a mo.
- Alegra-me v-lo, Cameron. Andmos  sua procura, 
sabe?
Disse a Mr. Creighton que tivera o prazer de viajar 
consigo e aqui est ele! Creighton, permita que Lhe 
apresente o jovem Cameron, da Nova Inglaterra, de 
quem lhe falei.
        Voltei-me e deparou-se-me um homem algre, ainda 
jovem, de cabea leonina e olhos faiscantes, que 
produziram em mim quase o        mesmo efeito, quando 
me fitaram. A julgar pela vestimenta
podia tratar-se de um simples mineiro.
                        46  47
- Como est, Camerom? - cumprimentou-me, com um 
forte aperto
de mo. - Williamson recomendou-mo, e a julgar pelo 
que ouvi agrada-me.
Surpreendi-me por Williamson me ter elogiado, pois 
o nosso
conhecimento fora breve.
- Esses rapazes vm consigo? -- perguntou-me 
Creighton.
        - Sim, sir, procuram emprego como eu.
        - Entrem todos. - Voltou-se para Wiliamson e os 
outros homens, pediu-lhes licena e conduziu-nos 
para um aposento pequeno, que tudo indicava ser um 
escritrio. - O Williamson disse-me que voc, 
Cameron, estudou medicina antes de abandonar 
Harvard, e isso interessa-me. No tenho entre os 
meus homens nenhum que perceba de medicina ou de 
cirurgia, e desta ltima especialidade, 
principalmente, vamos precisar. Est contratado. 
Agora quero conhecer esses rapazes que vieram 
consigo. Vaqueiros todos, ou no conheo o meu 
Oeste. Chame-os, um de cada vez.
        Fiz sinal a Shaw, que se encontrava  porta, e 
ele aproximou-se com o seu passo lento e ritmado. 
Gostava sempre de v-lo mas naquele momento, com o 
olhar fixo em Creigh ton,

pareceu-me mais do que nunca impressionante. 
Apresentei-o.
- Prazer em conhec-lo, Shaw, e espero poder 
contrat-lo.
Que sabe fazer que seja til a um construtor 
apressado?
        - Creio que nenhum trabalho desses que 
geralmente os seus operrios fazem - respondeu o 
vaqueiro, imperturbvel. - Mas fao uma ideia das 
dificuldades que vai encontrar e posso 
demonstrar-lhe que precisar de mim e dos meus 
camaradas.

        -  da plancie?
        - Nasci a cavalo, tenho passado a vida na 
plancie, sei lidar com gado de todas as maneiras e 
feitios e conheo os bfalos.
                        48
Creio que serei til nos apertos em que vai ver-se 
com a sua gente.
        - J combateu os ndios?
        - J, desde pirralho. Acho, Mr. Creighton, que 
Lhe seria til como batedor e caador. Precisar de 
homens a cavalo que andem de olho alerta por causa 
dos ndios, encontrem gua nas regies secas, 
arranjem carne. Tambm sei, e suponho que isso lhe 
interessar especialmente, onde h madeira.
        - Madeira? Para os potes, no ? Acertou em cheio  
rapaz! Est contratado. Falaremos de salrio mais 
tarde: agora chame os seus amigos.
        No foi preciso dizer mais para que entrasse 
Lowden, a bambolear-se nas pernas curtas e 
atarracadas, seguido por Darnell, este muito 
direito, sombrio, com o olhar febril e atento. 
Creighton apertou a mo a ambos e pareceu avali-
los  primeira vista.
        - Que sabe fazer? - perguntou a Lowden.
- Estou habituado a cavalgar com o Shaw, e isso  
trabalho
que gosto de fazer. Sou habilidoso com uma arma na 
mo, mas no chego aos calcanhares do meu 
compincha. Ele no lhe disse que  o atirador mais 
rpido do Texas? Fora disso, acho que no presto 
para nada.
- Est contratado - declarou Creighton, com uma 
gargalhada.
-        E agora - prosseguiu, dirigindo-se a Darnell -, 
explique-me
l por que no poderei construir a linha 
telegrfica da Western Union sem a sua ajuda.
- Mr. Creighton, julgo no precisar de dizer-lhe 
mais do que
isto: acabo de vir para estas bandas pela Trilha do 
Orego, conheo o Vale do Sweetwater, a regio do 
South Pass e as terras altas dos lados de Bridger 
to bem como qualquer cavaleiro de Wyoming. Como 
homem dos montes calculo que o seu pior bocado ser 
entre Juleshurg, o rio Sweetwater e para oeste do 
South Pass.
49
        - Que quer dizer com isso do meu pior bocado?
        - ndios. Claro que no vo aceitar de bom grado 
este trabalho. Os sioshones do grande chefe 
Washakie, que  verdadeiramente amigo dos brancos, 
talvez o ajudem, mas os Sioux, os Cheyennes, os 
Arapahoes e provavelmente outras tribos hostis, 
ensinaro  sua gente o que  o inferno na terra.
        - SEr contratado tambm - declarou, de dentes 
cerrados, aquele homem que de sbito se tornara 
nosso patro. - Procurem todos Ben Liligh, o meu 
capataz. Est na cidade, suponho que na loja do 
ferreiro, e tem um carroo vazio que est a calhar 
para vocs. Seguiro directamente com a minha 
caravana para o
local dos trabalhos. Cameron, tenho no meu carro 
uns estojos mdicos que ficam ao seu cuidado. 
Espero-os a todos amanh de manh. Contava que a 
linha chegasse at aqui esta noite ou amanh, mas 
surgiram vrios contratempos que nos atrasaram. 
Estou  espera de uma caravana de carros com 
postes. Postes, postes, postes! At a dormir me 
perseguem!
        E deixou-nos, sem mais palavras. Se os meus 
camaradas sentiam o que eu sentia, estvamos todos 
exaltados e, ao mesmo tempo, intimidados com aquela 
espcie de mar de fora que nos envolvera. S 
quando samos do armazm e fomos procurar Liligh 
nos apercebemos, a pouco e pouco, de que framos 
aceites por Creighton.
- Bem, tivemos sorte - declarou Shaw. - A ocasio 
merece uma
bebida, no achas, ayne?
- Tambm me parece que ficaria mais lcido - 
respondi-Lhe. Entrmos no saloon mais prximo, 
tommos a nossa bebida,
voltmos para a rua e pusemo-nos a caminho da loja 
do ferreiro. Ouvimos bater o malho, vimos uma chuva 
de fascas e, logo a seguir, o ferreiro, um 
homenzarro barbudo de avental de couro.
        Quando nos aproximmos vi sair de um dos 
carroes um homenzinho magro, grisalho e 
macilento. Usava uma camisa suja de pele de veado, 
com franjas e contas, o que o diferenava dos 
operrios que vramos at ento. Tinha o chapu 
velho, de abas largas, posto  banda e fumava 
cachimbo.
- Mr. Creighton mandounos apresentar ao seu 
capataz, Liligh
-        anunciei.
Quando o indivduo da camisa de pele de veado se 
voltou para
ns, compreendemos encontrar-nos perante outra 
personagem extraordinria. Iluminavam-lhe o rosto 
amarelado e magro dois olhos penetrantes que, ao 
fitarem-me, me deram a impresso de que me sentiria 
reduzido  maior das insignificncias se poucos 
homens mais me olhassem assim.
- Sou Liligh - respondeu-me com voz rspida e seca, 
tirando
o        cachimbo. - Mandou-os procurarem-me para qu?
        Comecei a explicar-lhe, mas interrompeu-me:
- Ah,  isso! Bem, no h remdio. J me vi e achei 
com toda
a        espcie de trabalhadores neste maldito emprego, 
mas ainda
no tinha experimentado um ianque nem nenhum 
vaqueiro. Creio que no perderei nada em tentar com 
vocs, mas no morro de amores por ianques e 
desconfio muito, mas muito, de vaqueiros. 
- S queremos uma oportunidade para demonstrar o 
que valemos
-        repliquei-lhe secamente.
        - Oua, Mister Liligh - perguntou Shaw, em tom 
insolente e vagaroso - essa cicatriz que tem a por 
cima da orelha no  o ponto onde um ndio tentou 
arrancar-lhe a cabeleira?
        O velho fronteirio - fcil era reconhec-lo como 
tal estremeceu violentamente, como se o tivessem 
picado, e gritou, furioso:
50  51
- Tens razo, vaqueiro, e confesso que os teus 
olhos so
bons. Mas que queres dizer na tua?
- Bem, velhote, se eu e o meu compincha 
estivssemos consigo
nesse momento, nada teria acontecido.
        - Hum, hum! Lutam com os ndios, hem? - replicou, 
mas observou mais atentamente o vaqueiro. - Parece 
que sabes o que dizes. Venham c ver o vosso carro. 
 to bom que at o queria para mim. Foi construdo 
de maneira a flutuar como um barco, basta tirar-lhe 
as rodas para atravessar um rio. As rodas so de 
Osage laranja e carvalho branco, para durarem 
sempre.  todo de Madeira boa, de juntas duplas, 
no tem ns e est bem calafetado, como vem. Lona 
nova. Aposto que os
peles-vermelhas no conseguem enfiar uma seta neste 
tabual! Um grande carroo da pradaria, rapazes, 
nem demasiado grande nem pesado. Os sujeitos 
imprestveis que c estiveram antes roubaram tudo 
menos os cobertores e as tarimbas. Tm de arranjar 
um equipamento novo e completo.
        - O qu, teremos de levar mantimentos e fazer a 
nossa comida? - indagou Shaw.
- No, como seguem na caravana de Creighton no 
precisaro
disso. Temos um bom cuzinheiro. Podem meter as 
vossas coisas debai xo dos beliches e depois ir ao 
armazm comprar o que for preciso, que ficar na 
conta de Creighton. Cameron, voc que j est de 
lpis e papel em punho tome nota: espingardas e 
cartuchos suficientes, balas para as vossas 
pistolas, fatos de trabalho e, no esqueam, 
algumas roupas quentes e grossas.  verdade, algum 
de vocs  cocheiro?
        - Bem, eu sou capaz de conduzir um par de 
parelhas declarou Lowden, em resposta a m olhar de 
Shaw.
- Chefe, eu conduzirei - prontificou-se Darnell -, 
trabalhei
muito em fretes e para mim cavalos ou mulas  tudo 
o mesmo.
52
        - Bom. assim j vos entendemos --- resmungou 
Liligh. Pronto, vo comprar essas coisas e tragam-
nas para aqui, assim como os vossos pertences, se 
tm alguns. Arranjem o carroo como Lhes agradar e 
ficar mais confortvel. Ferramentas, baldes, 
bacias, toalhas e sabo, ligaduras, sacos de lona 
para gua, um cobertor extra para cada um. Creio 
que no precisam de mais nada, a no ser do que 
quiserem comprar por vossa conta.
Corremos ao armazm para aviarmos o rol que Liligh 
indicara.
Os meus camaradas insistiram em que, antes de mais 
nada, comprasse para mim espingarda, cinturo e 
pistola. Puseram-me  cintura uma enorme 
cartucheira e eu perguntei-lhes, ridiculamente, se 
ficava com aquilo posto, a cartucheira e a arma.
- Pois com certeza! - exclamou Lowden. - Para que 
julgas que
isto serve? Supes que se trata de um ornamento 
para usar em separado? Garanto-te que vais precisar 
da pistola, ianque!
- S espero que no precise antes de eu o ensinar a 
tir-la
depressa e a disparar - disse Shaw.
- Queres apostar em como precisar antes de o 
ensinares?
        - Escuta aqui, compincha, o nosso amigo Cameron 
no nasceu num cavalo nem viveu desde pequeno entre 
pistoleiros. Portanto deixa-te de larachas acerca 
de pistolas e tiros.
A quantidade de balas que compraram para mim 
pareceu-me a
carga mais pesada que transportara em toda a minha 
vida. Enquanto escolhiam mais espingardas e 
munies dirigi-me a outro caixeiro e escolhi uma 
srie de coisas que me pareceram de utilidade. Por 
fim disse aos rapazes que ia  estalagem buscar a 
minha bagagem e depois seguiria para o carroo.
                        53
No caminho para a estalagem descobri outro armazm 
que no
tinha visto antes. Ia a afastar-me quando se me 
dirigiu uma jovem em cabelo que me fez pensar onde 
j a vira. No precisei de olh-la mais de duas 
vezes para avaliar quanto era linda. Tinha cabelos 
ruivos, quase vermelhos, olhos azuis escuros, tez 
clara e cara bonita, apesar  de muito magra.
        - Parece conhecer-me, Miss.
        - Sou Ruby, viu-me no salo do Red Pierce.
- Oh! - exclamei, surpreendido. - Esta manh parece 
to.
diferente. e mais nova. Como sabe o meu nome?
- Sei tudo a seu respeito - afirmou com um sorriso 
que a
tornou ainda mais linda. - Os factos e os mexericos 
viajam depressa nestas paragens. Interessei-me por 
si e depois, quando esmurrou o Hand Radford, fiquei 
to satisfeita que me apeteceu falar consigo.
- Ento no  a pequena dele? - perguntei-lhe, 
olhando-a
fixamente.
- Sou a pequena de todos os homens. isto , no que 
respeita
a        danar, a beber e ao resto do meu trabalho - 
respondeu-me
com amargura. - Mas detesto alguns deles, e 
sobretudo esse Radford.  um indivduo brutal que 
se julga meu dono.  quase to mau como o homem 
para quem trabalho.
        - Quem  esse? - perguntei-lhe, cheio de 
interesse.
- Red Pierce, o proprietrio do salo de baile e da 
casa de
jogo.
        - Segundo me parece, no gosta do seu trabalho.
- Claro que no gosto! Voc pode ser novato, mas 
no parece
estpido.
- Engana-se, comeo a descobrir que no sou to 
inteligente
como supunha.  ainda muito jovem, no , Ruby.
- Tenho dezasseis anos, mas sinto-me velha como os 
montes.
54
        - H quanto tempo tem essa profisso!
        - H poucos meses, mas j me parecem anos.
        - Onde  a sua casa?
        - No tenho casa.
        - Lamento muito. E parentes, familiares?
- Tinha, ainda no h muito tempo - respondeu-me, 
cheia de
tristeza. - Foram todos mortos no massacre da 
Caravana Scot. No ouviu falar no assunto? Os 
Cheyennes atacaram-nos  sada de Grand Island. Fui 
das poucas pessoas que os soldados salvaram.
- No sabia. Lamento, lamento muito, creia.  a 
segunda
tragdia de que tomo conhecimento, e ainda mal 
cheguei! Entremos um minuto no armazm - pedi-lhe. 
- No fala como as pessoas do Oeste.
- Vim de Ioway. Mudmo-nos para l do Illinois, 
onde nasci e
andei na escola.
- Mas como foi parar ao saLoon do Red Pierce? - 
admirei-me.
- Fui l parar, mais nada. Tinha fome e no sabia 
para onde
ir.
        - Tenciona continuar a trabalhar para ele?
        - S enquanto a isso for obrigada.
- Que quer dizer com isso? Pierce tem alguns 
direitos sobre
si?
        - Bate-me. Se estivssemos sozinhos no meu quarto 
mostrar-lhe-ia com que brutalidade.
- No  preciso, acredito-a - apressei-me a 
responder,
estremecendo ao lembrar-me das costas de Darnell.
        - Voltaria a bater-me se soubesse que Lhe disse - 
afirmou, ansiosa. - Matar qualquer homem que 
tentar afastar-me dele. J matou um, at.
- Bem, eu, como sou novato, percebo pouco de tiros 
e mortes,
mas conhece os meus amigos Vance Shaw e Lowden.
                        55
Se quer, de facto, deixar esse trabalho, duvido que 
Red Pierce
seja capaz de deter o Vance.
- Vance. sim, ele  formidvel! Ficou de ir ver-me 
a noite
passada, ao salo, mas no apareceu. Creio que foi 
melhor assim, pois o Pierce viu-me danar com ele, 
anteontem, e ficou ainda mais ciumento do que 
quando dano com outros homens.
- No me importo de dizer-Lhe que o Shaw confessou 
gostar de
si mais do que um homem devia gostar, e estou 
convencido de que se o pierce armasse sarilho 
enquanto ele danasse consigo seria capaz de mat-
lo.
- Vi-o ontem ao princpio da noite, na rua, e nem 
olhou para
mim - observou, com calor. - Se gosta de mim como 
voc diz, por que no enfrenta o Pierce?
        - No sei, Ruby, mas no  por medo, com certeza. 
Aquele vaqueiro no tem medo de nada nem de 
ningum. Aposto que j matou homens, mas mesmo 
assim nunca conheci ningum como ele. 
- Sim, tambm gosto dele. tallvez por ser 
sulista. Os
sulistas respeitam as raparigas, sejam elas o que 
forem. Ou talvez no seja por ser sulista, talvez 
seja porque  ele. A verdade  que - mas no lho 
diga! - o amo...
- Ruby - interrompi-a, apressado -, no me diga 
mais nada,
por favor. Tenho de despachar-me, por causa do meu 
trabalho, mas antes gostava que me falasse mais 
desse tal Pierce.
        -  um homem mau, rodeado de scios maus - 
respondeu-me, tambm depressa. - Um deles, Black 
Thornton,  como se fosse a sua mo direita: foi o 
que disparou para os seus ps. Pierce dirige um 
saloon e uma casa de jogo, mas como tem orientado 
os seus negcios a par com o trabalho de montagem 
da linha, desde Grand Island, eu estou desconfiada 
de que ele e os seus homens tm outros imteresses, 
qualquer negcio escuro. Pelo que ouvi dizer, 
tencionam seguir para Oeste com a linha 
telegrfica,
56
at South Pass, e tm grandes planos relacionados 
com a prospeco de ouro.
- Obrigado, Ruby, por quanto me disse. Ou me engano 
muito,
ou esta noite vai ver quatro amigos no salo de 
baile. At l, adeus.
A provar a minha excitao est o facto de que me 
dirigi
para a estalagem sem ver nem ouvir o que se passava 
na rua. Chegado ao meu quarto sentei-me na tarimba, 
a reflectir.
Ruby inspirava-me a maior simpatia. Mais, gostava 
dela, o
que, pensei, escandalizaria alguns concidados 
meus. Havia de falar com Shaw assim que o apanhasse 
sozinho, para ver se conseguia que o arrojado 
sulista de falas lentas e frias a tivesse ainda em 
mais alta conta do que j tinha. 
Encontrava-me com a bagagem quase arrumada quando 
chegou
Darnell, a tilintar as esporas.
- Pareceu-me melhor vir ajudar-te a levar as malas 
para o
carroo - declarou.
        Ao olhar o seu rosto moreno e impassvel percebi 
que o vaqueiro nutria especial simpatia por mim e 
senti invadir-me um calor de gratido.
- Muito obrigado, camarada, as malas so, de facto, 
pesadas.
J compraram tudo?
- J, e tambm j arrummos tudo no carro. Tive 
tempo para
procurar o Liligh e de dar uma olhada aos bois. So 
quatro animais novos, que me agradaram - e eu 
conheo bois! Numa viagem longa e difcil, sem 
pressas, no h cavalos que os batam.
- Agora me lembro que s tu que conduzes o 
carroo. Como o
Shaw e o Lowden vo a cavalo, ficarei eu contigo, 
no  verdade?
        - Pois ficas. No banco da frente, com uma 
espingarda

atravessada nos joelhos, para te treinares a 
atirar aos coelhos americanos. S assim 
aprendersa acertar nos ndios, que, montados nos 
seus velozes garranos, disparam de debaixo do 
pescoo dos animais.
                        57
Acredita no que te digo, no tardar muito que 
isso acontea. - Thoopce! - gritei, levado por 
incontrolvel impulso.

A exclamao surpreendeu-nos, tanto a mim como a 
Darnell.
Noutra ocasio sentir-me-ia envergonhado comigo 
mesmo, mas naquela pareceu-me naturalssimo o 
meu comportamento.

- Perdeste o juzo? - perguntou-me o vaqueiro, a sorrir.
- Pega nessa mala, Darnell - ordenei. - V se os camaradas
se esqueceram de alguma coisa e depois segue-me. Vou pagar a 
conta.
        Depois de deixarmos a estalagem, Darnell meteu por um  beco 
para uma rua das traseiras, que era na realidade a plancie, 
e dali chegmos num instante  loja do ferreiro.
        Achei o carroo muito mais atraente do que quando o vira 
pela primeira vez, apesar de ento j me haver entusiasmado. 
Aqueles vaqueiros sabiam transformar m carroo numa casa
sobre rodas!
        Haviam colocado algumas caixas atrs do banco do cocheiro, 
de cada lado, as quais serviam muito bem como armrios, e 
pendurado um pequeno espelho sobre elas. Os dois beliches que 
ficavam nesses lugares tinham sido puxados um pouco para trs 
e        diante deles fora posta outra caixa, para servir de banco.
Sobre uma escrivaninha impro visada via-se um candeeiro com 
quebra-luz e os cobertores e outros artigos estavam 
distribudos pelas quatro camas.
         retaguarda ficavam baldes, bacias e outros utenslios, 
assim como uma escada mvel, de trs degraus, que descia do 
carro para o cho.
        - Rapazes, foi para isto que sa de casa! - exclamei, 
entusiasmado. - Qual  o meu beliche?
58
- Podes escolher o que quiseres - respondeu-me Shaw. - A no
ser que prefiras que os mudemos de maneira a dormires entre 
ns.
- No te preocupes com ele, Vance - troou Darnell. - At j
quer lutar com os ndios!
        - Quero ter a minha oportunidade, Vance Shaw, e sofrer-lhe 
as consequncias - declarei. - Escolho o beliche da direita, 
prximo do lugar do cocheiro.
        - Tive uma ideia! - anunciou Darnell. - Por que no 
compramos uma daquelas barricas grandes de madeira e gneros 
para cozinhar? Aqui neste lado, atrs dos beliches, h espao 
para meia dzia de prateleiras onde poderemos guardar 
provises. Tenho c um pressentimento de que haver ocasies 
em que estaremos longe do carro-cozinha do acampamento.
        - Bem pensado - concordou Shaw. - Em tais ocasies bastar-
nos- caar, e eu j tenho saudades de um bom e suculento 
bife da alcatra de bfalo!
A tarde j ia adiantada, mas Shaw e Lowden voltaram ao
armazm, a fim de fazerem as novas compras. Enquanto os 
espervamos, tive de novo a impresso de que Darnell se 
sentia atrado para mim e desejava ser-me til. Disse-me que 
o simples acto de apontar uma espingarda era to bom treino 
como disparar.
- Escolhe, por exemplo, uma mosca que ande por cima da lona
do carroo. Segue-a com a mira enquanto estiver pousada, 
depois pra e aperta o gatilho.
        Pouco depois ouvi o chiar de rodas.
        - Vem a o Liligh - anunciou Darnell.
- Rapazes, nem tudo so ms notcias - disse-nos  guisa de
saudao -, o patro diz que no tem pressa de sair para a 
linha amanh. o que  preciso  calma. Hoje avanmos tanto 
para oeste quanto os postes que tnhamos permitiram, e depois 
abrimos covas para outros quase at aqui.
                59
 a primeira vez que Creighton fica detido: esperava duas 
caravanas de carros com postes, mas no chegaram, embora a 
que vem do sul deva estar quase a aparecer. O chefe precisou 
de mand-los buscar muito longe.
- Detido? - repeti, pensativo, lembrando-me da absoluta
intolerncia do nosso patro  demora.
        Como reagiria quando nos encontrssemos nas plancies, onde 
no existem possibilidades de arranjar postes? Fiz essa mesma 
pergunta a Liligh, que me respondeu com uma casquinada:
- Que far o patro? Far muita coisa, com os diabos, podes
ter a certeza! Descansa que conseguir que tiremos postes 
telegrficos de onde os no haja! A respeito do carroo, 
como se arranjaram?
        - Venha ver.
- Onde poro o guarda-fato e o piano? - perguntou, depois de
inspeccionar o interior do veculo.
- Teremos de prescindir deles - respondi-lhe, a sorrir.
- Sim senhor, este  o carroo melhor e mais bem arrumado
que temos!
        Neste momento chegaram Shaw e Lowden, carregados com fardos 
e        embrulhos que deixaram cair, aliviados, na retaguarda do
veculo.
- Chefe, no se arranjar um barrilito para levarmos fora do
carro? - pedinchou Darnell.
- Para que diabo o querem vocs? Para o encherem de rum?
- Para a gua - respondeu-lhe o vaqueiro. - H lugares entre
esta cidade e Sweetwater onde teremos de fazer acampamento 
seco. No haver madeira para postes, nem lenha para queimar, 
nem caa para abater Deus sabe durante quantas milhas.
        - J ouvi dizer isso milhes de vezes - volveu Liligh, 
agastado. - Mas obrigado pela ideia: poremos barris de gua 
em todos os carros.
        Lanou um jacto de tabaco mascado e saliva para uma pedra, 
a uns bons trs metros de distncia, e no errou a pontaria. 
Depois fixou os olhinhos estreitos em Shaw e mediu-o de alto 
a baixo. Percebi que ia acontecer qualquer coisa.
- Shaw, encontraste algum particular na cidade? - indagou. 
O vaqueiro olhou atentamente o capataz, como se o tom da 
sua
voz e a prpria pergunta fossem significativos.
        - No posso dizer que tenha encontrado, chefe.
- Onde tinhas os olhos, rapaz? No s um desses texanos que
andam sempre  procura de algum?
        - Agora j no. Deixei-me disso do outro lado do rio 
Vermelho.
        - Isso  bom para ti. mas talvez no o seja para ele. 
Agora tudo quanto tens de fazer  andares de olho alerta, no 
v dar-se o caso de algum te procurar a ti. J ouviste falar 
em Joe Slade?
- No - respondeu o vaqueiro com laconismo - nunca ouvi. A
mim, contudo, pareceu-me que mentia, por qualquer motivo. -
Quem diabo  Joe Slade? O nome parece ruim.
        - Bem, creio que, julgado pelos vossos padres do Texas, o 
Slade no se classificaria como pistoleiro, o que no impede 
que seja um matador. J tem cerca de doze homens a seu 
crdito -        ou descrdito. Bem sei que alguns 
eram ms reses e mereciam
morrer, mas outros eram tipos decentes. O singular  que o 
Slade tem ocasies em que parece um indivduo agradvel. e s 
quem tiver olhos o toma por assassino. Mas quando tem um 
ressentimento contra algum  o diabo! Estou a avisr-te, 
Shaw, assim como ao teu compincha, para no te intrometeres 
no caminho dele de maneira a explicares a sua estranha 
natureza.
60 61

        - Obrigado pelo conselho, Liligh - agradeceu o vaqueiro, 
secamente. - S gostaria de saber por que me escolheste a 
mim. 
- No quis ofender, Shaw. Conheo o meu Oeste e a sua 
gente,
quer sejam do Sul, quer sejam de outro lado qualquer. Claro 
que tu passarias despercebido a quase toda a gente menos a um 
velho sabido como eu, que conhece a fronteira palmo a palmo. 
Entendido?
        - Entendido. E no estou ofendido.
        - O Slade chegou esta tarde com dezasseis carroes -
prosseguiu o capataz. - Tem estado a trabalhar para a 
Overland Company, no sei em que misso oficial, e ouvi-o 
dizer que queria empregar-se na Western Union, para esta 
montagem. Aposto que quer de facto empregar-se, mas no para 
trabalhar. Bem, so horas de ir dizer ao ferreiro as 
reparaes que h a fazer nos carros.
No me passou despercebida a troca de olhares entre Shaw e
Lowden.
- Que diabo me dizes a isto, compincha? - perguntou Lowden,
irritado. - Acho que o Liligh se portou com muita decncia e 
no quis ofender, mas aquilo foi um aviso que te fez, e bem 
claro.
        - Macacos me mordam se sei, Jack - resmungou o outro. Pouco 
me importa, de resto. Calculo, porm, que o Liligh falou com 
algum do Texas que me conhece.
        Pouco depois observei:
- Rapazes, est a fazer-se tarde e tenho uma fome de urso.
Que dizem a desembrulharmos o que trouxemos, arrumarmos tudo 
no carroo e irmos comer?
- C por mim, diga que est muito bem - respondeu Lowden,
com o seu sorriso alegre. - A propsito, camaradas, qual de 
vs vai ser o chefe do grupo?
62
-  verdade, Jack, quem? No podemos ser todos chefes.
- Se  necessrio escolher um chefe, claro que deves ser tu
-        afirmei, apontando Shaw.
- Eu? Mas eu por que carga de gua? - protestou o vaqueiro.
        - Apenas porque pareces ser o chefe.
        - O que ele quer dizer  que passas o tempo a falar -
acrescentou Lowden.
- Nada feito - replicou Shaw, ignorando o dito do amigo. -
Sabem o que faremos? Cortaremos o baralho.
Puxou de um baralho de cartas ensebadas, acocorou-se e
comeou a baralh-las com notvel destreza.
        - Sentem-se, camaradas. Quero que fique entendido que este 
corte ser absolutamente limpo, hem? Pronto, esto 
baralhadas. Agora corta, amigo. Isso. Podemos dar. Cameron, 
tira a primeira carta.
- Porqu eu? Sou novato, no devo entrar na escolha. No
saberia o que fazer se fosse escolhido.
- Est bem, mas tira de qualquer modo - insistiu Vance. 
Tirei cuidadosamente uma carta do meio do baralho, voltei-a
e        vi que se tratava de um s. Os meus amigos riram-se e
tiraram por sua vez: Shaw um duque, Darnell um valete e 
Lowden uma manilha.
        - Pronto, est o caso arrumado - declarou Lowden -, 
Cameron, s tu o chefe do quarteto, e acho que calhou muito 
bem. Sers, pelo menos, consciencioso. Aqui o Darnell tem 
demasiados momentos de melancolia para servir, o compincha 
Vance odeia o trabalho e, se fosse chefe, trataria de 
esquivar-se o mais que pudesse, e eu est visto que no 
presto, pura e simplesmente. Mas ns sabemos o que nos 
espera, e portanto poders tomar as tuas decises depois de 
ouvires os nossos conselhos.

63
Foi assim que me tornei, sem mais nem menos, chefe do nosso
pequeno grupo, categoria que me emocionava e assustva 
simultneamente. Aqueles rapazes eram difceis de 
compreender. No me passava pela cabea por que motivo haviam 
de sentir-se satisfeitos com o facto de me terem por chefe. 
Como havia eu de merecer a confiana que em mim depositavam? 
Dar-se-ia o caso de terem descoberto na minha pessoa alguma 
coisa de que eu prprio ainda no tomara conhecimento? Seria 
aquilo o princpio do que fora procurar ao Oeste, aps tantos 
anos infrutferos e desperdiados? Teria finalmente 
encontrado o nicho a que pertencia?
        Enquanto me esforava por sobrepor a razo aos sentimentos, 
lembrei-me da conversa que tivera com Ruby, a danarina, e 
achei que devia falar no assunto a Shaw o mais depressa 
possvel. Mas quando a oportunidade se ofereceu e lhe disse 
que queria discutir um assunto com ele, chamou os outros, 
embora lhe desse a entender que era particular.
        - O Wayne quer dizer qualquer coisa. Ora no h nada que 
diga respeito ao bem-estar de qualquer de ns que no 
possamos ouvir todos, pelo menos pela minha parte.
Em breve me encontrava sentado no meu beliche, rodeado pelos
trs vaqueiros. Comecei, com voz pouco firme e, suponho, 
expresso de grande seriedade:
- Quando, h pouco, os deixei para ir  estalagem, encontrei
a        pequena do salo de baile, a Rudy.
        Contei-lhes o resto da histria da rapariga e, no fim, dei 
comigo a sugerir vagamente que devamos fazer alguma coisa. 
Quando acabei, os meus amigos levaram o seu tempo a reagir. 
Shaw encostou-se  lona do carroo, com um cigarro entre 
os
lbios e os olhos fitos nos meus como punhais, no entanto, o 
seu rosto conservou-se impassvel, o que no me permitia 
avaliar o que sentia.
64
        Darnell soltou uma gargalhadazinha estranha e, baixando a 
cabea morena, resmungou entre dentes que as mulheres eram as 
culpadas de todas as encrencas. Jack Lowden foi o primeiro a 
manifestar-se.
- Ests h dois dias na fronteira e j queres salvar uma
danarina de salo! Com a breca, pergunto a mim mesmo o que 
fars quando deixares de ser novato!
- Jack, talvez eu tenha sugerido alguma coisa que, do vosso
ponto de vista, seja terrvel, mas que havia de fazer?
        Aminha atrapalhao era to evidente, que calou Lowden.

Shaw expeliu uma grande baforada de fumo e disse 
na sua voz
arrastada:
- Amigos, eu sabia que ele ia sair-se com uma 
destas. Vamos
tomar uma bebida e depois comer.
Descemos do carroo e pusemo-nos a caminho, indo 
Lowden e
Darnell um pouco  frente. Agarrei no brao de 
Shaw e detive-o, at aumentar a distncia entre 
ns e os outros.

- Escuta, Vance, eu no disse tudo - afirmei, 
depressa. -
No quis denunciar a Ruby diante dos nossos 
companheiros sem primeiro te informar. A pobre 
mida est apaixonada por ti, Vance.
- Como o sabes? - indagou, no habitual tom de 
frieza e
despreocupao.
        - Adivinhei-o pela sua conversa, mesmo antes de 
mo

confessar. Disse-me que se apaixonou por ti 
porque... bem, no importa o que disse. Acreditei-
a.
- Nunca te passou pela cabea, camarada, que estas 
raparigas
dos sales de dana so espertas como o demnio?
        - Admito -humildemente que sou um novato, Vance, 
mas no que respeita  natureza humana no sou tolo 
nenhum. Vida, tragdia e        angstia so iguais, 
aqui na fronteira ou l em baixo, no
Este. Aquela rapariga no mentiu,
65
Pierce pode t-la obrigado a mercantilizar-se, mas 
comigo foi honesta. Compreendes o que quero dizer, 
meu amigo, vaqueiro do Texas?
- Bem, eu prprio j o calculava - confeou Shaw, 
atirando
fora o cigarro com um gesto rpido e apaixonado. - 
Percebi desde o princpio que teria de dar cabo 
desse Red Pierce. Mas vamos comer primeiro.
66
IV
                No sabia quais os planos de Shaw - se  que os 
tinha para tirar Ruby do salo de baile, mas estava 
resolvido a que ela de l sasse, fosse como fosse.
        Repartira o meu dinheiro entre os quatro e, por 
isso, o que me ficara no chegava para a meter numa 
diligncia para o Este e        mant-la o tempo 
necessrio at arranjar um lar. Ali, o
nico lugar seguro que encontrava para ela era 
junto de ns. Mas como poderia uma rapariga partir 
num carroo fechado com trs vaqueiros 
endemoninhados e um novato interessado na montagem 
de uma linha telegrfica?
        Encontrvamo-nos os quatro sentados, em fila, ao 
balco de um modesto restaurantezinho. Vance estava 
ao meu lado e no falara desde que ameaara 
friamente dar cabo de Pierce, ameaa que, surpresa 
minha, no me chocara.
        Sabia que no o dizia por dizer, pois havia nele 
qualquer coisa que tornava impossvel duvidar das 
suas palavras: Quanto a        mim, se no era 
culpado do seu dio por Red Pierce,
precipitara, pelo menos, os acontecimentos. No 
podia voltar atrs, nem to-pouco o desejava. No 
me impressionava, sequer, a        ideia de que Shaw ia 
matar Pierce, pensava apenas que
gostaria de ser eu a faz-lo.
        Quando o chins do restaurante ps a comida na 
nossa frente, cessaram as conversas e comearam 
todos a comer com apetite, excepto eu. A fome que 
momentos antes sentira passara-me.
                                67
No conseguia compreender como  que Shaw podia 
comer daquela maneira, na iminncia de uma crise 
inevitvel. Fingi que comia e, no fim, bebi meia 
chvena de caf.
        Quando samos para a rua escurecia e o movimento 
habitual acalmara. Ao chegarmos junto da estalagem, 
Slad deteve-nos.

- Separemo-nos, amigos, e vejamos se ouvimos 
alguma coisa
que interesse. Quero esclarecer-me.
Separmo-nos. Entrei na estalagem, aproximei-me da 
lareira,

sentei-me de costas para o seu calor agradvel e 
reflecti no conselho de Shaw. Devo ter parecido 
inofensivo e desinteressado, ali sentado a observar 
a multido, ocultando bem os meus sentimentos.
Pouco depois afastei-me da lareira e fui sentar-me 
num banco
de madeira comprido, j ocupado por dois homens que 
conversavam com um terceiro, o qual se conservava 
de p.
        - O Pierce partiu para Omaha na diligncia da 
tarde informou este. - Ter de demorar-se algum 
tempo e, por isso, o negcio de gado que tnhamos 
em mente no poder realizar-se por agora.
- Bartlett, nunca tive f nas compras de gado do 
Pierce -
observou um dos meus companheiros de banco.
- Podia dar-se a esse luxo porque ganha bom 
dinheiro no
saLoon. - garantiu o dito Bartlett.
        - Mas que faria ele com uma grande manada?
- Ora, podia fazer o mesmo que ns queremos fazer. 
Os preos
do gado esto a subir e vocs bem sabem que h 
pouco entre esta terra e Ogallala, e nenhum, que eu 
tenha conhecimento, na regio desrtica at ao 
Forte Laramie. Esta histria da linha telegrfica 
impulsionou o negcio de gado. Segundo depreendi, o
        plano do Pierce era viajar com a caravana da 
linha e viver
dos operrios at chegar a Wyoming.
                68
Viajando devagar, ser-lhe-ia fcil levar consigo 
uma manada e vend-la por bom dinheiro no 
Sweetwater.
- Ser a regio de gado do futuro, digo-Lhes eu - 
afirmou um
dos outros. - Imaginar o Pierce a roubar gado. 
ainda consigo, mas mais nada.
        - Hoje em dia no faltam ladres de gado no 
Oeste. Roubam gado e vendem-no, no  verdade? 
Esperemos que o Pierce volte. No nos interessa o 
que ele , desde que pague a pronto.
- Exactamente - corroborou o primeiro. - Vai um 
copo por
conta?
        Senti-me subitamente aliviado ao pensar que, 
nesse momento, no haveria troca de tiros entre 
Shaw e Pierce. Logo a seguir, porm, e de maneira 
contraditria, lamentei que o Pierce escapasse. Mas 
os meus pensamentos no ficaram por a: pensei 
tambm, com sincera satisfao, que durante a sua 
ausncia se poderia fazer alguma coisa para afastar 
Ruby. Tive vontade de ir a correr procurar Shaw, 
mas, reconsiderei e achei melhor esperar por ele. 
Tinha tempo de saber que Red Pierce partira. 
Deixei-me ficar onde estava, a olhar para a 
lareira e, de
vez em quando,  minha volta. A notcia de que uma 
grande caravana seguia para oeste, pela Trilha, e 
que levava consigo uma grande manada intrigava-me 
muito. Seria possvel que a rapariga que me acenara 
e sorrira se encontrasse nela? Quem seria e por que 
viajaria para oeste? Iria para o Orego a fim de 
desposar algum jovem e solitrio pioneiro?
        Parecia certo que, devido  demora causada pela 
escassez de postes, permaneceramos em Gotemburgo, 
ou perto, e talvez, quem sabe?, a grande caravana 
nos alcanasse. A rapariga no me saa do 
pensamento, e, embora fosse uma desconhecida total 
e        apenas a tivesse visto de uma distncia de 
algumas jardas,
comecei a tecer um romance  sua volta.
                69
Depressa sucumbira aos hbitos de rapidez do Oeste! 
Lembrei-me, no entanto, de que vira grandes abismos 
emocionais
vencidos em menos tempo do que leva a diz-lo. Em 
poucos dias travara conhecimento com o amor, o dio 
e a amizade em grau superlativo.  Experimentara j 
dois desses sentimentos, embora na terra de onde 
viera fossem precisos anos para ocorrer o que ali, 
naquela fronteira rude, acontecera em poucos 
minutos. Prometi a mim mesmo tentar tudo para   
encontrar a rapariga, e tal oportunidade se me 
oferecesse.
        Entregue aos meus devaneios mentais, esqueci-me 
do tempo. Pouco depois Darnell deu comigo e foi 
sentar-se ao meu lado:

- Viva, camarada - disse, alegremente -, Tenho 
estado a
observar-te dali e pareceste-me mais interessado 
em sonhar a olhar para a lareira do que em ver o 
que vai por a.

- Agora assim era - confessei a rir -, Mas aposto 
que tenho
mais novidades para o Vance do que tu.
- Caramba, s um tipo danado para apostas. Olha, 
vm ali o
Shaw e o Lowden, provavelmente  nossa procura.
No perdi tempo e anunciei a partida de Pierce. 
Shaw no fez
qualquer comentrio nem o seu rosto traiu se a 
notcia Lhe agradava ou no. Lowden, no entanto, 
deu a entender que quando  preciso matar um 
hombre, o melhor  arrumar o assunto depressa.
- Bem, camaradas, temo que teremos de ir ver a Ruby 
- disse
por fim Shaw, com indiferena.
        Samos da estalagem e encaminhmo-nos para a 
porta iluminada da casa de jogo de Red Pierce. Shaw 
seguia  frente, mas como Tom e Jack ficaram para 
trs, corri e coloquei-me ao seu lado. 
- Vance, agora seria boa ocasio para tirar daqui 
a Ruby.
70
- Compreendi-o assim que me disseste que o Pierce 
partiu,
Wayne.
- E j pensaste para onde a mandaremos, o que 
faremos?
        - Primeiro tiramo-la daquele antro e depois 
preocupamo-nos com o resto. No saias de ao p de 
mim e conserva os olhos bem abertos. O Pierce 
partiu, mas a cidade est cheia de tiPos ruins que 
so seus amigos. Pode acontecer alguma coisa.
Quando entrmos na casa de jogo pareceu-me ver 
menos fumo e
ouvir menos barulho do que da outra vez, embora a 
algazarra de vozes ao balco e a msica desafinada 
fossem de ensurdecer. Naquele momento a roleta 
estava parada e nas mesas decorriam apenas trs 
jogos. Na retaguarda do salo, para onde nos 
dirigimos, danavam dois pares, nos bancos 
encostados  parede encontravam-se vrios homens e 
dois outros falavam com uma rapariga, em p. S 
quando esta saiu de trs do mais alto verifiquei 
tratar-se de Ruby. Se na vspera me parecera 
flamejante e bonita naquela tarde, agora achava-a 
sem dvida linda.
        Viu-nos logo e estremeceu visivelmente, e eu tive 
a impresso de ver no olhar que nos lanou qualquer 
coisa que l no existia antes. Sorriu e acenou-nos 
com a mo.
        Vance detivera-se um passo ou dois  minha 
frente, com Lowden  sua direita, e Darnell 
encontrava-se atrs de mim. Pressenti que pairava 
no ar qualquer coisa, mas no soube o que era.
-  aquele tipo sem dvida, Vance - murmurou 
Lowden. - No
me parece muito teso, mas tu sabes como alguns 
indivduos enganam.
- Claro que  ele - confirmou Shaw, friamente. - E 
tinha de
estar a fazer rapap  Ruby! Bem, vejamos se a 
pequena nos apresenta. Afastem-se um pouco de trs 
de mim, camaradas.
71

        Era com Darnell e comigo, mas eu ainda no 
compreendia a situao. Percebi no entanto que o 
indivduo que, segundo Shaw, fazia rapap a Ruby ia 
passar um mau bocado. Vestia bem, com elegncia, e 
era um homem simptico, de aspecto suave e dos seus 
trinta anos. Tinha as faces escanhoadas, olhos 
afundados nas rbitas, queixo de estranha 
configurao e lbios que estavam longe de 
denunciar fraqueza. Ruby disse-lhe qualquer coisa, 
de modo nervoso e apressado, e ele voltou-se e 
observou-nos, enquanto nos aproximvamos devagar. 
S ento reparei que usava cinturo no qual 
brilhavam balas novas e  direita, quase oculto sob 
o casaco, um coldre.
        Shaw parou a uns dois passos do grupo e ns 
imitmo-lo. eu com o corao na boca e a perguntar 
a mim mesmo o que iria acontecer.
- Ol, rapazes! - exclamou Ruby, com voz que o 
nervosismo
esganiava.
        - Boas-noites, Ruby - cumprimentou-a Shaw, 
serenamente, e todos ns fizemos o mesmo e tirmos 
o chapu, como ele, com galantaria.
- Estes so vaqueiros, meus amigos que trabalham 
para a
Western Union - disse Ruby aos dois homens que 
estavam consigo. - Vou apresent-los. Rapazes, este 
 Mr. Joe Slade. e Mr. Hall. E os meus amigos so 
Vance Shaw, Mr. Cameron Wayne. 
- Como esto? - cumprimentou Shaw, acentuando 
mais do que
nunca a sua pronncia sulista.
Deu um pequeno passo em frente, mas no estendeu a 
mo. No
sei qual era a expresso do seu rosto, pois estava 
obcecado pela de Ruby e por nos encontrarmos frente 
a frente com Joe Slade, o famoso assassino.
        Senti a boca secar-se-me e a lngua colar-se-me 
ao palato. e comecei a suar frio. No era medo o 
que tinha, mas a reaco provocada por encontrar-me 
perante outra situao
                72
da qual podia resultar morte, violncia e o 
desmoronar da esperana. No fazia a mnima ideia 
da atitude a tomar, limitava-me a observar Vance. 
Este observava por sua vez o grupo, com frieza, sem 
dvida  espera de ver o rumo que as coisas 
tomavam.
        - Boas-noites, cavalheiros - replicou Slade, com 
afabilidade. - Convidei Miss Ruby para a prxima 
dana.

O seu sorriso agradvel e os seus modos 
graciosos e
cavalheirescos pareceram desanuviar 
momentneamente a atmosfera, pelo menos no 
que me dizia respeito.

- J calculava - declarou Shaw, sem ficar atrs de 
Slade na
brandura da voz e das maneiras. - Faa favor, no 
me importo que a minha pequena dance com 
cavalheiros.
- Obrigado pelo cumprimento, Shaw - agradeceu o 
outro, com
uma pequena gargalhada.
No representava, naquele momento era prazer 
genuno o que
sentia.
- Vamos, Ruby. Tenho a certeza de que gostarei de 
danar,
apesar de seres a pequena dele.
Ruby imobilizara-se como uma esttua encantadora 
depois de o
vaqueiro falar e parecia s o ver a ele. Os olhos 
fixos brilhavam-lhe extraordinariamente no rosto 
plido, como uma expresso em que se misturavam a 
ansiedade e a surpresa. 
Fitava ainda Vance quando Slade a enlaou e a 
arrastou para
a        pista de dana. O homem demonstrou ser bom 
danarino e Ruby
parecia leve como uma pena nos seus braos.

Enquanto os observava, ouvi Lowden murmurar:
        - Compincha, que diabo dizes a isto?
        - Nunca se sabe o que pensar acerca de certos 
tipos, Jack. Talvez Slade no seja to mau como 
dizem, e ns no podemos consentir que nos leve a 
palma em cortesia para com uma senhora.
73
Neste momento fascinante tocaram-me num brao e 
ouvi uma voz
abafada murmurar:
        - Ol, bonito, sou Flo. No queres danar 
comigo?
        Voltei-me de repente e vi a meu lado uma das 
outras raparigas do salo. Aparentava vinte anos e 
envergava um vestido que Lhe descobria grande parte 
do corpo cheio. Pareceu-me muito atraente, e mais 
me pareceria ainda se no fossem os seus olhos, que 
no sorriam como a boca.
        - Quero, sim, obrigado - respondi, satisfeito por 
ter trocado as botas por um par de sapatos.
        Pouco depois rodopiava na pista com uma jovem 
cujo emprego consistia em mostrar-se sedutora com 
os homens. Como seria intil tentar afastar-me 
dela, devolvi a presso do seu brao. e        devo 
confessar que no obedeci apenas  influncia do 
Oeste.
        Ao passarmos perto de Ruby e de Slade observei-os 
de novo. O indivduo tirava o maior proveito da 
oportunidade e eu perguntei a mim mesmo o que 
pensaria Vance ao ver Ruby to descaradamente 
abraada, sobretudo depois do seu amvel 
consentimento. No me atrevi a olhar para ele, mas 
pressenti que do encontro com Slade alguma coisa 
resultaria.
Os meus olhos encontraram-se com os de Ruby que 
pareceram
querer dizer-me que compreendiam os meus 
sentimentos. O sorriso que me lanou suavisou 
momentneamente a expresso dura e triste do seu 
rosto.
- Palavra, forasteiro, podes ser novato, mas s um 
bom
danarino - observou a minha parceira.
        - Obrigado pelo cumprimento, Flo. Agrada-me que 
algum aprecie parte da minha qualidade de ianque. 
Compreendes, eu danava muito no Este.
- Como disseste que te chamavas? Ah, sim, tu no 
disseste e
eu no te perguntei.
74
- Wayne Cameron. Sou de Boston e vim para o Oeste, 
a fim de
trabalhar na montagem da linha telegrfica.
- No temos a sorte de aparecerem por aqui muitos 
rapazes do
Este parecidos contigo.
        - Que queres dizer com isso de sorte?
- Bem. na maioria os do Este vm para c mandados 
pelos pais
ou por qualquer outra pessoa e por boas razes. e 
compreendes o        que quero dizer. 
Recambiam-nos para aqui porque no os
querem l.
        - A propsito, sabes para onde foi o Pierce?
        - Claro que sei: foi a Omaha procurar mais 
raparigas. O negcio est a render e a aumentar e 
ele pensa que valer a pena acompanhar a turma da 
montagem da linha com mais pequenas. Ora dize, no 
gostas mais de mim do que da Ruby? 
Iludi a pergunta atrevida respondendo:
- O Shaw  que gosta da Ruby, ou melhor, creio que 
eles
gostam um do outro.
        - Vou dizer-te uma coisa: o Pierce tambm gosta 
dela e ouvi-o afirmar que lhe desagrada o Shaw. O 
teu amigo que tenha cuidado.
- Tu tambm precisas de ter cuidado com o Pierce? 
Bate-te
como bateu  Ruby?
- A mim?  o bates! Se alguma vez se atrevesse 
enchia-lhe o
corpo de chumbo! - afirmou, furiosa.
        Aps mais um par de voltas a msica terminou e 
ns parmos onde comeramos. Antes de nos 
reunirmos aos outros, porm, Flo agarrou-me e 
perguntou-me com um olhar atrevido:
        - No gostavas de estar comigo, mais tarde?
        - Obrigado, Flo - agradeci o mais naturalmente 
que me foi possvel. - Eu... ns temos uma tarefa a 
cumprir esta noite. Tirei dinheiro da algibeira e 
meti-lho na mo.
        - O qu. Ds-me isto sem nos voltarmos a ver?
75
        - No tem importncia.
- Gostei de danar contigo, Wayne, s um prncipe. 
Creio que
vou oferecer quele vaqueiro teu amigo, o baixinho 
de olhos atrevidos, uma volta pelo salo. E, se 
precisares de ajuda a respeito da Ruby, conta 
comigo.
        Quando nos reunimos aos outros, fitei 
ansiosamente Shaw, que estava defronte de Slade e 
de Ruby. Trocmos observaes banais acerca do 
baile. e Flo lanou um olhar vulcnico a Lowden, a 
quem disse:
        - Eh, vaqueiro, gostava de danar contigo da 
prxima vez. Sers capaz de endireitar as canetas o 
suficiente para no me rasgares as meias com as 
esporas?
- Menina, no fico atrs do meu amigo ianque! - 
fanfarronou
Jack. - Admito que as minhas pernas arqueadas no 
sejam muito elegantes, mas posso sentar nelas uma 
rapariga sem a deixar cair.
- No me digas? - exclamou, atrevida. - Hs-de 
Pagar-me uma
bebida antes que me arrisque contigo.
Ento Slade voltou-se para Shaw com o seu sorriso 
simptico
e        enigmtico.
        - A sua pequena dana muito bem. Obrigado por me 
ter concedido o privilgio...
- No tem de qu. Tenho danado com muitas 
raparigas e nunca
encontrei nenhuma que lhe levasse a palma.
Slade fez-lhe uma vnia e dirigiu-se para o balco, 
onde se
lhe juntou o indivduo atarracado que reconheci 
como Black Thornton. Este lanou um olhar 
significativo para o nosso lado.
        - Pareces fatigada, Ruby - observou Shaw, com 
solicitude.
- Estou morta em p, Vance. Passei hoje um inferno 
com o
Pierce, antes de se ir embora.
-  pena. Queria danar contigo e suponho que o meu 
amigo
Wayne tambm, mas desistimos. Leva-me para qualquer 
lado
                        76
onde possamos falar em particular, pois tenho muito 
que dizer-te - pediu-lhe o vaqueiro, sem perder um 
pormenor do que  sua volta se passara, embora 
parecesse distrado.
        - Vinde ao meu quarto.
- Acho bem. Wayne, tu vens connosco- e tu, Darnell, 
no
percas o Jack de vista. Evita que beba demasiado, o 
que significa que ters de afast-lo daquela 
rapariga.
Ruby conduziu-nos para uma escada estreita e 
escura. Shaw
ajudou-a a subir e eu tacteei atrs deles. Havia 
uma luz fraca a        brilhar algures, no 
patamar de cima, e eu fiquei com a
impresso de que o andar superior do edifcio fora 
um sto
agora dividido em quartos.
        Depois de Shaw acender um candeeiro verificmos 
que o aposento para onde Ruby nos conduzia era to 
nu e desconfortvel como o resto do establecimento 
de Pierce: cheio de tbuas toscas, cama com uma 
coberta encarnada, lavatrio humilde, um espelho e 
uma cortina a um canto, onde Ruby guardava os 
poucos vestidos.
        Shaw no perdeu tempo a atacar o assunto:
        - Ruby, vou levar-te daqui - declarou, mal 
acendeu o candeeiro.
        - Oh! - exclamou a rapariga, comovida, agarrando-
lhe Ansiosamente o casaco. - Levar-me daqui. Para 
onde... como?

- No sei exactamente para onde, mas mostrar-te-ei 
como.
        - Ah, que maravilhoso! Mas... e quando Pierce 
voltar? No desistir de mim...
- Para o diabo com o Pierce! Estaremos na Trilha 
antes de
ele voltar, e se nos perseguir arrepender-se-.
        - Vance! Mat-lo-s?
- Parece que est escrito, Ruby. Lamento que tenha 
partido.
-  mau e traioeiro, e os amigos no lhe ficam 
atrs.
77
        - No te preocupes mais com isso - ordenou-lhe o 
vaqueiro, com certa impacincia. - No te disse 
que ia levar-te daqui? Portanto  porque posso 
proteger-te e somos capazes de haver-nos com o 
Pierce e a quadrilha quando calhar.

- Oh, no sei que dizer! - murmurou, com voz rouca. 
- o
Wayne contou-te o que eu lhe disse? Ele teve pena 
de mim.  o que sentes tambm? Queres mandar-me 
outra vez para o Este? No tenho casa, nem amigos, 
nem dinheiro. Ou pretendes conservar-me como tua 
pequena?
- Casarei contigo assim que encontrarmos um padre, 
Ruby.
- No podes. no podes fazer isso, Vance! - 
protestou com
fervor. - No sou... no sirvo para tua mulher. 
Viverei contigo, trabalharei para ti o mais que 
puder. mas no casarei contigo. isso no!
- Talvez esteja enganado a teu respeito, rapariga. 
No me
tens amor?
        - Tenho, tenho!
- Ainda bem, pois prendi-me de todo por ti assim 
que te pus
os olhos em cima. Ruby, j estive apaixonado por 
uma quantidade de raparigas - um par de danarinas 
de salo. j h muito tempo, algumas seoritas 
mexicanas. uma ndia e, sobretudo, pela filha de um 
rancheiro em cujo namorado tive de dar um tiro-: 
mas, ao recordar tudo isso, durantr estes dois dias 
e estas duas noites em que no dormi, fiquei a 
saber que nunca amei nenhuma como te amo a ti. Por 
isso, querida, no posso fazer outra coisa seno 
casar contigo.
A resposta de Ruby foi a coisa mais bela e 
comovedora que j
vi nas relaes entre homem e mulher: encostou-se a 
Vance e ter-se-ia deixado cair de joelhos se ele 
no a agarrasse. No podia falar. Afastou-se, 
deixou pender os braos ao longo do corpo e fitou-o 
com tal adorao que Lhe desapareceram do rosto 
todos os vestgios de tragdia que a vida neles 
imprimira.
78
        Perguntei a mim mesmo o que sabia eu de amor e de 
drama. Aquele destroo das plancies representava 
para mm, naquele momento, a beleza suprema, a 
expresso dos seus olhos feria-me
e        eu agradeci a Deus se acaso ajudara a salv-la.
De sbito Ruby desatou a chorar e escondeu a cara 
no peito
do vaqueiro.
- Camarada - disse-me aquele -, temos de safar-nos 
daqui e
de pensar no que devemos fazer.
Ruby estava transformada. espantada mas radiante, 
incapaz de
despregar os olhos das faces do vaqueiro.
- Ruby, tens alguns pertences, algumas roupas que 
queiras
levar? Tudo menos essas finuras que costumas usar 
no baile!
- Pouco tenho, alm de uns dois vestidos simples. 
Quando me
salvaram do ataque dos ndios s tinha a roupa do 
corpo.
        - Guardaste-a? - perguntou-Lhe Shaw.
        - Guardei.
        - De que consta?
        - Um par de calas azuis, de rapaz. uma blusa, um 
velho chapu de abas e um par de botas, Era o que 
usava na caravana. 
- ptimo! - exclamou o vaqueiro. - Podemos 
disfarar-te com
essa vestimenta. Mete depressa na mala o que 
quiseres levar e safemo-nos.
Poucos minutos depois descamos a escada. Ruby 
apontou-nos
uma porta que dava para as traseiras do edifcio e 
no tardmos a encontrar-nos sob o cu estrelado, 
na noite fria. Era tudo simples. Eu transportava a 
mala da rapariga e Shaw ajudava-a enquanto nos 
afastvamos do edifcio e nos dirigamos para a 
parte baixa da cidade.
         frente deles, ouvia a voz sussurrante de Shaw e 
as respostas excitadas de Ruby, mas no percebia o 
que diziam. Esforava-me por encontrar uma soluo,
                        79
pois sabia que Shaw no desistiria do emprego e que 
a nica alternativa qe se nos apresentava era a de 
levarmos a pequena connosco, embora isso parecesse 
praticamente impossvel.
                80
                V
        Continuava s voltas com o insolvel problema 
quando chegmos ao carroo, que se encontrava a 
pouca distncia da loja do ferreiro. Ardia uma 
fogueira, j quase extinta, mas no se via vivalma. 
O nico barulho que me chegava aos ouvidos era o do 
bulcio da cidade.
        - Acende a luz, camarada, e passa-me o casaco 
grosso que comprei - pediu-me Vance. - Est em cima 
da minha cama. Toma, Ruby, veste isto e senta-te ao 
p do lume enquanto eu e o Wayne arranjamos lugar 
para ti.
- Lugar? - repetiu a jovem. - Onde? Tenho medo de 
dormir ao
ar livre e morreria gelada.
        - Bem, vai ser um bocado irregular, mas teremos 
de nos remediar o melhor possvel at acharmos 
soluo capaz observou Shaw, na sua voz arrastada.
        Levou-a para junto da fogueira e arranjou-lhe 
onde sentar-se ao lado das brasas amodorradas. 
Depois voltou para ao p de mim. Entreolhmo-nos  
luz das estrelas. Havia ousadia nos seus olhos e 
dos seus lbios saiu uma gargalhada trocista, 
certamente por causa do espanto que lia nos meus. 
Voltou-se para a figura franzina sentada um pouco 
adiante e murmurou:
- Compincha Wayne, meteste-me num diabo de uma 
camisa de
onze varas!
        - Tambm me parece, Vance. mas no me arrependo.
        - lance cavalheiresco. hem? Que raio diro o Jack 
e o Darnell? E o velho Liligh? E, Creighton, o que 
far.
        - S Deus sabe, Vance. Eu estou meio atordoado. 
Mas  se alguma vez fiz alguma coisa de que me 
orgulhe, foi ajudar-te a salvar aquela rapariga. E 
agora, que decidimos?
- Compincha, levaremos Ruby connosco - respondeu-
me apenas. - Claro camarada, estava s a 
arreliar-te quando disse que
me tinhas metido numa camisa de onze varas. A 
verdade  que, se j no me tivesses agradado 
antes, esta noite conquistarias a        minha profunda 
amizade. Bem, mas  vamos ao problema.
Felizmente o carroo  grande e poderemos puxar 
trs dos beliches e algumas caixas para trs e 
deixar a parte da frente para a Ruby. Dar-lhe-ei o 
meu beliche e dormirei deste lado, no cho, pois h 
alguns cobertores a mais e uma pele de bfalo. O 
oleado novo vai fazer um jeito, pois cortar-lhe-
emos um bocado que servir de cortina entre o nosso 
lado e o dela. Simples, hem? Vamos ento fazer as 
mudanas e pensar nas coisas que no so to 
simples.
        Pusemos mos  obra e num instante ficou tudo 
pronto. Eu estava to espantado com tudo aquilo, 
que nem sabia cque dizer. No fazia ideia de quanto 
tempo conseguiramos ocultar Ruby, mas pensava que, 
quando tal no acontecesse, ela j estaria longe de 
Gotemburgo e de Red Pierce, e isso alegrava-me.
        Tanto eu como Shaw, parecamos garotos entregues 
a uma hrincadeira, enquanto arrumvamos as coisas, 
e ficmos contentes com o resultado. Em seguida 
juntmo-nos a Ruby, perto das brasas. Os seus 
olhos, ao claro do lume, eram extraordinariamente 
eloquentes. Observmos ambos o imperturbvel 
vaqueiro, suponho que maravilhados os dois.
81
Shaw enrolou um cigarro, meteu-o entre os lbios, 
levantou
uma brasa com um cavaco e acendeu-o. Chupou  fumo 
vrias vezes, em pequenos haustos, depois 
demoradamente e, por fim, expeliu uma enorme nuvem 
de fumo que por momentos lhe ocultou o        rosto.
        - Escuta, garota - confessou -, vai tudo correr 
s mil maravilhas, no tens nada a recear. Mete bem 
na tua cabecinha que tomarei conta de ti. E no 
duvido de que os meus camaradas me ajudaro o mais 
que puderem. Temos de disfarar-te. De manh vestes 
as roupas de rapaz de que falaste, e eu lembrei-me 
de que, quando era um milho de anos mais novo, 
tinha habilidade para transformar um rapaz branco 
num mexicano. Far-te-ei to preta como qualquer 
mexicano! Esses bonitos caracis  que nem todos os 
Pierces e capatazes do Oeste me obrigariam a 
cortar, por isso, ters de pux-los para cima e de 
escond-los sob o chapu. Ensinar-te-ei tambm a 
falar como se fosses um mexicano, coisa em que sou 
igualmente perito. No te afastars do carroo 
durante uns tempos, excepto para um passeio  noite 
depois de escurecer, e quando for preciso dizer 
quem s explcaremos que s um pobre rfo mexicanu 
abandonado pela ltima caravana. Que te parece, 
querida?
        - Parece uma histria - murmurou Ruby, sonhadora.
        - E tu camarada Wayne, que achas?
        - Acho bem - respondi, embora experimentasse 
certo cepticismo. - Estaremos longe desta cidade 
antes de o Pierce voltar e talvez nunca mais o 
vejamos. Agora vou deix-los ss um bocado e 
procurar os rapazes.
        Afastei-me um bocado do par e caminhei ao longo 
de uma fila de rvores,  beira da pradaria. De vez 
em quandu olhava para trs, para os dois vultos 
negros sentados junto do lume. Havia qualquer coisa 
de to grande em Shaw, que me sentia como que 
inchar por dentro quando pensava nele.
                        82
        Nas minhas relaes com ele e com os outros dois 
companheiros, acabaria, sem dvida, por assimilar 
algumas, caractrsticas dos vaqueiros, e era disso 
que precisava. Darme-iam, com certeza, exemplos 
dignos de serem seguidos.
Quando voltei para junto da fogueira, Tom Darnell 
voltara da
cidade e Ruby desaparecera. Ouvi ainda as ltimas 
palavras de Shaw acerca da rapariga e a sua 
pergunta a respeito do que pensava do caso.
        - As mulheres fazem sarilho aos homens, sobretudo 
a ns, vaqueiros - respondeu-Lhe Darnell, 
pensativo. - No sei se os vaqueiros se apaixonam 
mais profundamente do que os outros homens, nem 
porqu, Mas assim parece, pelo menos. No deve 
haver vaqueiro que tenha sofrido mais por amor do 
que eu, mas se estivesse na minha mo no mudaria 
nada do que aconteceu. Creio que a vida ao ar livre 
e os longos dias e noites solitrios passados por 
esses ermos tornam um tipo mais susceptvel s 
mulheres e mais precisado delas. Acho que o que 
vais fazer por essa rapariga  maravilhoso, e estou 
contigo inteiramente. No podamos proceder de 
outro modo. Sou um tipo esquisito quando se trata 
de pressentimentos e j tive dois desde que estou 
nesta cidade. O primeiro foi quando os vi  porta 
do saLoon de Pierce. Pensei logo que me entenderia 
com vocs. O segundo foi agora mesmo: procedes bem 
com a Ruby e ser para teu benefcio.
        - Ests a ouvi-lo, Wayne? - perguntou-me Shaw- em 
tom brincalho que no escondia quanto estava 
comovido. -  um vaqueiro filsofo! J viste alguma 
coisa parecida?. Tom, fico-te muito agradecido! 
Bem. o melhor  recolhermo-nos. 
Lembrei-me, ento, de Lowden e perguntei por ele.
- A ltima vez que o vi andava atracado quela 
rapariga de
olhos negros.
- Creio que no h perigo - observei. - Ainda no 
lhes disse
mas parece-me que a Flo est do nosso lado.
83
- O Jack  asim, no ter remdio! - exclamou -, 
No iremos
procur-lo nem esperaremos a p por ele, mas haver 
uma forma se se embriagar. Este nosso emprego no 
permite que se beba muito, sobretudo agora Que 
temos de olhar pela Ruby.
Dei algumas voltas em redor do lume, sem voltar a 
fitar as
brasas quase extintas, o murmrio do vento nas 
rvores prximas e o tremeluzir das grandes 
estrelas brancas. Quando voltei ao carroo o 
silncio era total. Shaw estava deitado no cho 
entre os beliches, todo envolvido em cobertores com 
excepo das botas, que no descalsara.
        Sentei-me na minha cama e, para comear-, tirei 
apenas as botas e o casaco. o frio cortante que 
fazia serviu-me de desculpa. Da estrada que 
conduzia  cidade vinha um zumbido baixo e firme. e 
da pradaria a algazarra do que parecia uma matilha 
de ces selvagens a ladrar. Nunca ouvira ladrido 
mais estranho nem mais agudo do que aquele, que 
dir-se-ia aumentar o        carcter bravio da 
pradara. Reconheci-o, pelo que lera,
como sendo o ladrar dos coiotes, e fiquei 
emocionado, at que o        sono me venceu.
        Qualquer coisa me acordou, j perto da madrugada. 
um som que ouvi em redor do carroo. Antes que se 
repetisse senti uma presso nos ps e, erguendo-me 
sobre um cotovelo. vi Shaw levantado. com o cano da 
arma a brilhar sinistramente o brilho das 
estrelas. Reparei que apoiava tambm as mos nos 
ps de Darnell e compreendi que pretendia, assim. 
recomendar-nos silncio. Em seguida o rudo 
repetiu-se e identifiquei-o como um andar 
cauteloso. No se tratava de nenhum animal, mas de 
algum com botas caladas e que resmungava a meia 
voz consigo prprio. Shaw empurrou-me para baixo e 
segredou-me ao ouvido:
-  aquele parvalho do Jack. Deve estar meio 
bbado e vai
tentar esgueirar-se pela frente do carro, para no 
nos acordar.
84
- Mas assim assustar a Ruby -- segredei por minha 
vez.
- Ela no deve ser to fcil de assustar. 
Esperemos, vai ser
divertido.
        Darnell apoiou-se tambm num cotovelo, tenso e 
alerta, mas tranquilizou-se quando nos viu. Sem 
dvida pensava o mesmo que Shaw. Compreendi, pela 
luz acinzentada que iluminava a retaguarda do 
veculo e permitia ver distintamente Darnell, que o 
dia estava prestes a nascer.
        Ouvi em seguida Lowden tentar subir para o banco 
do carro. Era tarefa difcil de levar a cabo em 
silncio, mas o vaqueiro devia estar 
suficientemente sbrio para experimentar. Arquejou, 
resmungou uma ou vrias vezes e, depois, espantou-
se com a cortina estendida atrs do banco.
- Com mil raios, que diabo vem a ser isto? Aposto 
um milho.
em como me enganei no carro!
Nesse momento Ruby acordou e soltou um grito que, 
embora no
fosse alto nem angustiado, nem significativo de 
verdadeiro terror, demonstrava que estava 
assustada.
- Vance, Vance, acorda! - chamou. - Um vagabundo 
embriagado
tenta entrar no carroo.
Uma exclamao abafada, um arrastar de botas e um 
baque
surdo elucidaram-nos da catstrofe que sobre Lowden 
se abatera.
        No te assustes, querida, estamos todos acordados 
respondeu Shaw. - Tambm ouvimos o bbado,  o 
Jack.
        Em seguida endireitou-se e saltou para fora do 
carro.
- Anda c - chamou. E ouvi Lowden soltar uma 
espcie de
relincho.
        Resolvi saltar tambm e fi-lo a tempo de ver Shaw 
agarr-lo pela gola e dar-lhe um tremendo pontap 
no traseiro, que o atirou de pantanas.
- Meu Deus, compincha, s tu? - perguntou Jack. - 
Ou serei
eu que estou zonzo?
85
- A nica coisa que ests  bbado - replicou-Lhe 
shaw.
- Que diabo... que raio de negcio.? Se no estou 
bbado nem
maluco... tens uma mulher no carro.
        - Caluda, fala baixo - ordenou-Lhe o companheiro. 
peremptrio. - Claro que temos uma mulher no carro. 
 Ruby, que pertence agora ao nosso grupo.
- Macacos me mordam? No h dvida, estou con 
delirium
tremens! Desculpa, compincha, mas como diabo 
querias que adivinhasse?
        Shaw levou-o para a retaguarda do carro, onde 
Lowden estacou, com ar burlesco e envergonhdo.
- Trepa, companheiro intil, e dorme um bocado. 
Rapazes, 
quase dia, mas parece-me que podemos dormir outra 
soneca. Assim que acordarmos acenderemos uma 
fogueira, iremos ao armazm buscar provises e 
comeremos e beberemos uma chvena de caf aqui.
Claro que fui o nico que no voltou a pregar olho. 
Pasmava-
me a facilidade com que aqueles vaqueiros 
adormeciam, por assim dizer quando lhes apetecia. 
Vi a luz baa clarear, o dia romper no oriente e o 
cu iluminar-se sbita e resplandecentemente, ao 
nascer o sol. Quando vira eu, em toda a        minha vida, 
o sol nascer assim?
        Saltei do carro, com as botas e o casaco, e 
depois de me vestir e calar fui procurar lenha 
para acender a fogueira. No foi tarefa fcil, pois 
a que havia era pouca e distante. Regressei com 
toda quanta consegui reunir e encontrei Shaw e 
Darnell a p, a prepararem-se para sair.
        - Ruby - chamou o vaqueiro atravs do oleado -, 
ests acordada?
        A rapariga respondeu-Lhe afirmativamente, com 
doura.
- Deixa-te estar a at eu voltar - recomendou 
Shaw. - Vou
buscar umas coisas para te transformar num mexicano 
e comprar comida.
86
        Em seguida voltou-se para mim:
- Bons-dias, compincha. Vejo que me saste um bom 
apanhador
de lenha? Aquece gua quando tiveres o lume aceso.

        Afastou-se com Darnell e eu pensei que talvez fosse 
conveniente acordar Lowden, para que se levantasse antes de 
eles voltarem. Surpreendi-me por v-lo despertar com tanta 
facilidade como de costume, apesar de ter dormido to pouco. 
- Chefe, que diabo se passou a noite passada? -
perguntou-me.
        Enquanto chapinhava num balde de gua e penteava os cabelos 
eriados, contei-Lhe resumidamente o que acontecera at 
quele momento.
- No me importo de o compincha Vance me ter dado um pontap
daqueles - observou, esfregando o stio onde o apanhara -, 
mas no tolero que me chamem vagabundo bbado. Nem sou 
vagabumdo nem estava bbado? A noite passada fiquei a fazer 
uma ideia do Pierce e do seu bando. coisa que no aconteceria 
se estivesse bbado, no te parece?
        - Desculpa, Jack - pediu Ruby, do interior do carro, mas a 
sua voz soava como se reprimisse a custo uma gargalhada. - 
Que havia eu de pensar? Tropeaste mesmo no meu beliche!
- Est bem, Ruby, no se fala mais nisso - respondeu-lhe
Jack, outra vez bem disposto. - S te peo que digas uma 
palavrinha a meu favor quele demnio do meu compincha.
        Pouco depois Shaw e Darnell chegaram, carregados com 
embrulhos que depositaram num bocado de lona.
        - Bons-dias, camarada - disse Shaw alegremente a Lowden. -
Preparem o pequeno almoo enquanto eu trato da Ruby. Aposto 
em como nenhum de vocs a reconhecer.
        O cheiro do toucinho e do caf era to agradvel, que 
esqueci o pequeno drama que se desenrolava dentro do carro.
                        87

Mas quando shaw chamou no perdi tempo a voltar-me. O 
vaqueiro descera do veculo e Ruby preparava-se para imitlo. 
Claro que eu sabia tratar-se dela, mas o seu aspecto era 
muito diferente do da rapariga que conhecera.
        Agora era um rapaz esguio que vestia calas azuis muito 
coadas e casaco escuro, e que usava um velho chapu 
cinzento, com as abas descadas para ocultar-lhe os cabelos.
S assim j fazia uma grande diferena da Ruby de pouco
antes, mas a sua cara estava simplesmente irreconhecvel. 
Tinha-a pintada ou manchada de muito escuro e, palavra, 
parecia de facto um jovem mexicano. e simpatiqussimo ainda 
por cima!
        Aproximou-se do lume, junto do qual estavam dispostos 
vrios pratos apetitosos, sobre um oleado. Lowden interrompeu 
o acto de deitar o caf e fitou-a com incredulidade. E 
Darnell ficou tambm imvel.
        - Camaradas, apresento-lhes o nosso ajudante mexicano. que 
se chama Pedro - declarou Shaw, devagar. - Podem todos dar-
lhe ordens quando alguns dos outros tipos estiverem por 
perto, mas quando estivermos ss no se esqueam de que falam 
com uma menina que ser a futura Mrs. Shaw!
Era impossvel identificar a expresso de Ruby, mas apesar
do disfarce compreendia-se que denunciava timidez. Shaw 
mandou-a para o carro, dizendo-Lhe que Lhe levaria o pequeno 
almoo, e depois todos comemos a comer com apetite.
        Quando chegvamos ao fim comearam a aparecer outros 
trabalhadores que vinham da cidade para os carros prximos, 
todos com o ar de quem tinha que fazer. O ltimo a chegar foi 
Liligh, que nos disse:
- Bons-dias, vaqueiros. Despachem-se a comer, atrelem os
bois e preparem-se para seguir-me. Quem  o chefe do 
carroo?
88
- Somos quatro chefes, mas Wayne Cameron  que dar as
ordens.
        Poucas horas depois samos de Gotemburgo para Leste, no 
nosso carro da pradaria a que eu chamava estalagem 
improvisada sobre rodas e que Lowden baptizara de B'Gos.
        Ocupei o lugar ao lado de Darnell, no banco alto do 
cocheiro, e Ruby seguia atrs de ns de joelhos, a espreitar. 
Devo dizer que Ruby no
        podia estar mais emocionada com a sua nova aventura- do que 
eu com a minha. Estava finalmente empregado na construo da 
linha de comunicao atravs do deserto.
 nossa frente seguiam trs carroes, um dos quais era o de
Liligh, e ns mantinhamo-nos afastados dele apenas o 
suficiente para fugirmos  poeira que levantava. Tinham 
aberto buracos para os postes telegrficos em todo o caminho 
que ia da cidade para o ponto da Trilha onde Creighton parara 
com os homens. O arame fora j estendido no cho, e ao lado 
de cada buraco encontrava-se um isolador e a pequena taa de 
vidro verde que conteria o fio. Quando chegassem os postes, a 
linha ficaria montada como por magia. Percebi que nos 
aproximvamos do rio e quando, percorridas vrias milhas, 
chegmos ao cimo de uma encosta suave, vimos extenses de 
gua e de areia que se estendiam ao longo de uma fila de 
salgueiros verdes. Os meus olhos fixaram-se numa espcie de 
mancha constituda por carroes cobertos de lona branca, 
bois que pastavam, fumo e poeira
-        era o acampamento do pessoal da construo. De ambos os
lados estendia-se a pradaria. bela apesar da monotonia das 
extenses ermas e infindveis.  distncia confundia-se tudo
numa neblina parda, ao longo do horizonte. No se via um 
nico monte.
89

        Finalmente, ao aproximarmo-nos do acampamento, Shawveio 
espreitar sobre o meu ombro e observar o terreno que se 
estendia na nossa frente.
- Cerca de dez carros - murmurou. - Quer dizer que s ali se
encontra o pessoal do Creighton e nenhuma das suas outras 
caravanas de carros.
        - Olha um pouco mais para o sul, Vance - aconselhou-o 
Darnell. - Vers uma quantidade de carroes, de bois e de 
cavalos. Aquilo, sim,  uma grande caravana.
        - Sim, agora reparo. De facto est ali acampada uma 
caravana.
Olhei imediatamente na mesma direco. Estaria a rapariga
com quem, estupidamente, me permitia sonhar, aquela que 
desejava encontrar custasse o que custasse, naqueles carros?

- Onde se encontrar a caravana do Slade acerca da 
qual
ouvimos falar? - perguntei, voltando com esforo 
ao ambiente que me rodeava.
- Os carroes dele estvam na cidade. Tom, desvia 
um pouco
para fora da trilha, na direco daquele belo 
macio de salgueiros, pararemos a. No ser bem 
no acampamento de Creighton, mas tambm no 
ficaremos muito longe.

- Vance, que farei enquanto aqui estivermos? - 
perguntou
Ruby, baixinho. - Esconder-me-ei debaixo da cama?
        - Claro que no. No entanto, quando estiverem 
homens perto ser aconselhvel no te mostrares 
muito. No te preocupes, Pedro, facilitar-te-emos 
as coisas.
- Compincha, acho que um de ns deve ficar nas 
proximidades
do carro, para fazer companhia ao Pedro - sugeriu 
Lowden, maliciosamente.
        - Tens razo, Jack - concordou Shaw, sem se 
aperceber da malcia do companheiro. - Sempre que 
possvel um de ns deve estar perto dela.
90
        Parmos na margem do rio, prximo do salgueiral, 
 beira de um declive baixo do fundo do qual a gua 
corria sobre um leito de areia branca. Shaw 
aconselhou-me a procurar Creighton e a informar-me 
do que devamos fazer, acrescentando que se me 
demorasse iria procurar-me.
Despi o casaco e, aps uma hesitao momentnea, 
desabotoei
o        cinturo e pousei-o tambm no cho. O gesto no 
passou
despercebido aos olhos de lince de Lowden, que 
observou:
        - Eh, chefe, no abandone nunca a ferraria!
        Mas eu afastei-me a rir, convencido de que o seu 
conselho, naquele momento, no passava de 
brincadeira. Dirigi-me para o grupo de carros e, 
quando l cheguei, vi homens ocupados em 
reparaes, a olear rodas e a fazer outras coisas 
que no compreendi de momento de que se tratava.
        Reparei num carro cheio de bobinas de fio 
telegrfico e, a um lado, um veculo diferente dos 
outros e que calculei imediatamente ser o carro-
cozinha, como Darnell dizia. Ardiam ainda duas 
fogueiras,  roda das quais um homem baixo, forte e 
de ar bonacheiro lavava loua, ajudado por um 
negro. No cho viam-se tachos, panelas e fardos, 
assim como sacos que tinham servido de assentos. 
Mais adiante vi um carroo grande e bonito, 
coberto de lona branca, e l dentro,  roda de uma 
mesa, vrios homens sentados.
        Caminhara apressadamente at ali, mas sem deixar 
nunca de ter profunda conscincia da cor e do 
movimento, do bater dos martelos e das vozes 
speras dos homens, do cheiro a fumo de lenha e, na 
pradaria, dois grupos de bois que pastavam. O homem 
do rosto prazenteiro indicou-me onde poderia 
encontrar Mr. Creighton. Ao aproximar-me verifiquei 
que um dos homens
sentados em redor da mesa era Creighton, mas que os 
outros, alm de Liligh, eram estranhos. Inclinei a 
cabea e declarei: 
- Mr. Creighton, venho apresentar-me para 
trabalhar.
91
Chegmos atrs do carroo de Liligh e os vaqueiros 
esto prontos para comear.
        - Viva, Camern - cumprimentou-me Creighton, 
cordialmente. O        Liligh disse-me que 
vocs esto todos ansiosos por comear,
o        que  bom sinal. Sunderlund, este  Wayne 
Camerom, um rapaz
do Leste e estudante de Harvard que veio ajudar-me 
a construir a        minha linha 
telegrfica... Cameron, este  Jeff Sunderlund,
do Texas. Tem uma grande caravana a caminho do vale 
do Sweetwater, no Wyoming, onde vive um irmo seu 
que negoceia em gado.
        Cumprimentei um homem simptico, que me estendeu 
a mo e falou com a pronncia que aprendera a 
reconhecer e a estimar nas minhas relaes com 
Shaw. Tinha cabelos e pele clara, embora levemente 
bronzeada, olhos azuis penetrantes e bondosos e
        um rosto forte e srio a que os bigodes cados, 
compridos, e
acastanhados, davam uma nota triste. Fui igualmente 
apresentado a outros dois texanos, Bligh e Stevens, 
associados de Sunderlund na grande caravana e na 
manada de quatro mil cabeas que conduziam para 
Woyoming. O quarto homem era Liligh, que me falou 
com a secura habitual:
- Cameron, puxa um caixote e toma uma bebida 
connosco...
        - Agradeo, obrigado.
        - Mr. Creighton falou-me dos vaqueiros que vm 
consigo observou Sunderlund - e eu gostaria de 
conhecer especialmente o        que veio de Wyoming.
- Refere-se a Darnell - elucidei. -  um rapaz 
interessante,
que estou certo Lhe dir tudo quanto quiser saber 
acerca do Vale do Sweetwater.
- Seria um favor - afirmou o simptico texano. - 
Ultimamente
temos ouvido falar de maneiras desencontradas dos 
ndios e dos bfalos, e gostaramos de saber a 
verdade. J  um problema conduzir uma pequena 
manada de bois do Texas at aqui,
                        92
mas quando se trata de quatro mil cabeas um homem 
nem consegue dormir!
- Fao ideia, Mr. Sunderlund. Os meus amigos viro 
c ter
daqui a pouco, mas se tem pressa irei busc-los...
- Obrigado, Cameron, mas podemos esperar. Est-se 
bem aqui,
 sombra.
- Mr. Creighton, empanmos aqui? - perguntei, cheio 
de
ansiedade.
        - Empanados? ! Nem pensar nisso! - respondeu-me o 
patro, com vivacidade. - Um dos meus batedores 
informou-me esta manh de que o meu irmo James vem 
a caminho com seis carros de postes telegrficos, e 
eu espero-o de um momento para o outro. Est a 
chegar tambm uma caravana com provises, de Omaha, 
as quais tero de bastar-nos at Forte Laramie. 
Aguardo tambm a chegada de meu irmo John, dentro 
de poucos dias, com uma caravana vinda do Norte. 
Quanto s caravanas que foram procurar os postes, 
alcanar-nos-o mais cedo ou mais tarde. Ao 
princpio desta noite teremos a linha levantada at 
Gotemburgo.
- Grandes notcias, essas! - exclamei, 
sinceramente: - Estou
desejoso por afastar-me dessa cidade, j tive uma 
briga e, se
no me precato, terei outra.
- T-la-s em toda a parte, Cameron, e a maior de 
todas ser
no deserto - afirmou Creighton, com um sorriso que 
minimizava a        assero. - Tivemos 
um mau compasso de espera, mas no creio
que se prolongue muito mais e, de qualquer maneira, 
seguremos em frente com a carga de postes que o 
meu irmo trouxer, e deixaremos ficar alguns homens 
para repararem os estragos causados  Western 
Union, pela manada aqui do nosso amigo sulista.
        - Estragos?! - admirei-me. - Que estragos?
- Cameron, foi a coisa mais idiota que possa 
imaginar-se! -
explicou-me Sunderlund, pesaroso. - Fiquei capaz de 
morrer.
                        93
No me surpreenderia se a manada se tivesse   
espantado, mas os malditos animais derrubaram 
milhas de postes telegrficos esfregando os 
traseiros contra eles!
- Alguma vez imaginaria tal coisa? - perguntou-me 
Creighton,
a        sorrir. - Isto demonstra que, tudo quanto seja 
susceptvel
de acontecer, acontecer para retardar e obstruir o 
andamento do meu trabalho. Nada o deter, porm.
        Olhei para fora e vi Shaw aproximar-se, com o seu 
passo firme e decidido. Sem casaco a sua figura 
parecia ainda mais imponente, graciosa e bela, a 
condizer com as feies perfeitas do rosto tostado 
e inteligente. Trazia como sempre a arma pendente 
do coldre e dava-me a impresso de que seria 
difcil tentar escapar dele.
        Sunderlund, que estava de costas para a abertura 
do carro, s olhou por cima do ombro quando Shaw 
estava j a poucos passos. Mal o fez, porm, soltou 
uma exclamao abafada e levantou-se de um salto. 
Shaw, eternamente alerta, apercebeu-se dos 
movimentos inesperados e estacou, a provar mais uma 
vez que ningum conseguiria apanh-lo de surpresa. 
Comeava a recear o resultado do encontro quando 
Sunderlund exclamou, cheio de entusiasmo:
        - Vance! Se no s tu, estou doido varrido!
- Oh, velho filho da me! - exclamou por sua vez o 
vaqueiro,
sem a habitual lentido.
As suas feies transformaram-se bruscamente, 
pareceram
iluminadas por uma luz nova, o olhar tornou-se-Lhe 
menos penetrante e duro e a boca abriu-se-Lhe num 
sorriso que jamais lhe vira.
- Estou contentssimo por encontr-lo aqui, 
coronel: contentssimo e surpreendido.
- O mesmo acontece comigo, vaqueiro. Perguntava a 
mim mesmo
se te encontraria nalgum lado, desejava 
sinceramente encontrar-te, rapaz. Este pas  
grande, mas o mundo continua a        ser pequeno!
94
        Avanaram um para o outro e trocaram um forte 
aperto de mo. O        homem mais velho 
levantou o brao esquerdo e passou-o pelos
ombros do vaqueiro, a confirmar a alegria que 
sentia. O espectculo que ofereciam, a olhar-se nos 
olhos um do outro, aumentou o meu respeito por 
Shaw. Era, sem dvida, a pessoa mais surpreendente 
que jamais conhecera? Dir-se-ia que a agitao e o 
romance o perseguiam para todo o lado.

- Como explica que o encontre aqui, meu velho? - 
indagou o
vaqueiro, quando finalmente se separaram.
- Tenho uma caravana l em baixo e uma grande 
manada de

bois. Apresento-te dois scios que, embora no os 
conheas, te conhecem a ti: Tom Bligh e Jim 
Stevens, do Brazos inferior. Vamos a caminho do 
Wyoming.
- Wyoming - repetiu Shaw, muito srio. - Trouxe a 
famlia
consigo?
- Com certeza. Levantmos a tenda e deixmos o 
Texas. Foi
duro, mas o Texas est em baixo de forma e, quando 
a Guerra Civil terminar, estar arruinado.
-  mau! No calcula quanto lamento... Talvez 
devesse ter
ficado por l, mas tornou-se demasiado quente 
para mim.
- Partiste cedo de mais, Vance, tenho boas notcias 
a dar-
te. Depois de partires, esclareceu-se tudo acerca 
do Stanley. O        facto de o 
matares, em vez de ser um crime,:foi um benefcio
para a comunidade. Levava vida dupla e tu foste dos 
poucos a descobrirem que era o chefe do mais 
perigoso bando de ladres que a fronteira jamais 
conheceu. Ficaste absolutamente ilibado e        tenho 
a certeza de que serias bem recebido no Texas... No
entanto, vou tentar levar-te comigo para o Wyoming.
- Boas notcias, coronel, palavra! Mas que 
aconteceu? Quem
descobriu a verdade acerca do Stanley?
        - Ficmos a dever isso  lealdade dos teus 
amigos,
                95
do Ranger, Siddell e Harding. Pressentiram, ou 
souberam no sei como, que o Stanley no era o que 
aparentava. Alm disso, com Stanley morto e Duke 
Wells no comando, o bando comeou a fazer 
tropelias. Siddell e Harding souberam por portas 
travessas as suas intenes e, ajudados por mais 
alguns rangers, armaram-Lhe uma emboscada. Travou-
se luta sangrenta da qual os rangers saram todos 
feridos, mas vivos, depois de terem destroado a 
quadrilha.
        Duke Wells viveu o suficiente para confessar a 
patifaria do stanley, e hoje, Vance, se j no o 
eras antes, s um heri na fronteira do Rio 
Grande!.
        - Com a breca, como as coisas acontecem! Estou 
contente e o meu compincha Jack tambm no o ficar 
menos, quando souber. Coronel, a sua famlia veio 
toda consigo?
        - Toda, vaqueiro, at a Kit. Afinal no casou com 
o Bert Knowles. Creio que acabaram porque o rapaz 
no se cansava de dizer que eras mau hombre. Quando 
a verdade se descobriu a Kit no o poupou. Palavra, 
vai ficar encantada por te ver. A Kit  impetuosa, 
como sabes, mas con sidero-a suficientemente leal 
para confessar os seus erros e sofrer-Lhes as 
consequncias.
- Sim... bem... no sei. A mim tambm me podem 
acontecer
coisas, coronel... Bem, mas acerca da sua ida para 
o Wyoming. Para que ponto vai?
        - Vale Sweetwater, Vance. Conheces a regio?
        - Tenho ouvido falar muito a seu respeito - 
retorquiu o vaqueiro, sorumbtico. - Sei que h por 
l um Jim Sunderlund que apostaria ser seu irmo.
- E , Vance. Tive notcias suas duas vezes - o an 
passado,
mas nos ltimos meses nada soube dele. Disse-me que 
o Sweetwater  a melhor terra de gado do Oeste e 
que se eu conseguisse chegar l com uma grande 
manada ficaramos ricos num instante. Sou scio do 
seu rancho: Anda, se sabes alguma coisa acerca do 
Sweetwater, desembucha depressa.
96
        - Bem, coronel, lamento dizer-lhe que me constou 
que aquilo por l est feio. Deve ser, de facto, 
uma regio magnfica,

vai muita gente para l e h grandes manadas na 
foz do rio, mas prepara-se uma guerra entre os 
criadores de gado e os vaqueiros.
        - Uma guerra?! - exclamou Sunderlund, 
surpreendido. - Entre criadores e vaqueiros? 
Vance, no acreditaria em tal coisa se no fosses 
tu a dizer-ma! Que se passa, homem?
        Quanto a mim, estava to interessado na conversa 
como os outros quatro homens, que Shaw e 
Sunderlund pareciam ter esquecido. A certa altura 
Creighton tossiu e disse qualquer coisa, mas como 
no mostraram t-lo ouvido calou-se de novo. 
-  a histria de gado mais incrvel que j 
ouvi!

        - Tambm me parece. Mas explica-te.
- O caso  novo, at para o Texas... - Vance 
hesitou, fez
meno de continuar, mas depois pareceu mudar de 
ideias: Coronel, o senhor no voltar para trs e o 
que eu ouvi no passa ainda de conversa. Encontrar-
nos-emos l os dois, pois quando acabar a montagem 
da linha voltarei para o gado. Talvez a        guerra de 
que Lhe falei nunca chegue a dar-se. Falemos de
coisas mais alegres.
        - Tens razo, Vance, no atravessarei pontes 
antes de as encontrar... Quais so as tuas 
condies para ires comigo? Pagarei o que quiseres! 
Dar-te-ei metade do meu lucro nos bois do Texas - 
quatro mil cabeas numa manada!e a Kit ficar com 
certeza contente.
- Lamento, meu velho, mas no posso aceitar. 
Contratei-me
para trabalhar com Mr. Creighton e, juntamente com 
o meu camarada Lowden, formei um grupo com Cameron
97
e        um vaqueiro do Wyoming chamado Darnell. Foi por 
este que
soube o que vai por Sweetwater.
- Vance, gostaria de falar com o rapaz. s capaz de 
mand-lo
ter comigo?
        - Com certeza, coronel, e ainda bem que a sorte 
ps o Darnell no nosso caminho, pois melhor do que 
ningum poder esclarec-lo acerca do que se passa.
Shaw inclinou a cabea a todos ns, como se pedisse 
desculpa
do que acontecia, e afastou-se apressadamente ao 
longo da margem do rio.
        - Sunderlund, quem  este jovem vaqueiro? - 
indagou Creighton, vivamente interessado.
- Vance Shaw? Nem numa semana conseguiria contar-
lhe tudo a
seu respeito! Pertence a uma velha famlia texana e 
seu pai foi roubado e assassinado h anos, por 
ladres de gado. Vance era o vaqueiro que melhor 
cavalgava e melhor atirava em todo o Texas! Durante 
algum tempo fez parte dos Rangers texanos e eu 
comparo-o a Borvie e a Travis, que perderam a vida 
no lamo. Pode parecer-Lhe jovem, mas tem trinta 
anos, o que no Texas  uma vida inteira. Trabalhou 
para mim trs anos, matou o meu pior inimigo, lutou 
contra os Comanches no meu rancho e ele e os seus 
homens salvaram a vida a todos ns. No, se 
comesse a        falar-Lhe do Vance 
Shaw nunca mais acabaria!
- Bem, isso quer dizer que o vaqueiro  uma boa 
aquisio
para o meu trabalho - declarou Creighton, comovido.
Pouco depois disse-me qe subisse a pequena encosta 
que havia
defronte do acampamento e visse se descobria sinais 
da caravana do seu irmo James.
        Enquanto me afastava atravs da erva spera, 
reflectia no que ouvira. Fascinava-me sobretudo o 
facto comprovado de que Vance Shaw era cem por 
cento o heri da minhha fantasia. Jamais sonharia, 
sequer, travar amizade com indivduo mais notvel.

                98
No constituira novidade ouvir dizer que era o que 
os texanos chamam pistoleiro, mas os elogios de 
Sunderlund tornavam-no ainda maior a meus olhos. E 
ia trabalhar a seu lado, lutar a seu lado, conhec-
lo em todos os pormenores imprevisveis da batalha 
que iramos travar! E a tal rapariga, Kit 
Sunderlund? Devia ser a que eu esperava encontrar. 
Sentia nos ossos que era inevitvel que assim 
fosse. Mesmo que existissem dez raparigas na 
caravana, a que me acenara seria, sem sombra de 
dvida, a que estivera sentimentalmente ligada ao 
meu amigo vaqueiro, ligao que - tudo o indicava - 
Sunderlund encarara favoravelmente. Mas que 
acontecera quando Shaw a reencontrasse?
        Apaixonara-se por Ruby e, se eu conhecia alguma 
coisa do corao humano, era amor sincero o que Lhe 
inspirava a beleza da jovem, a sua solido e o seu 
desejo fervoroso de fugir da vida para a qual uma 
cruel partida do destino a atirara. As perguntas 
que mentalmente fiz a mim mesmo obtiveram todas 
resposta negativa: fossem quais fossem as relaes 
que, porventura, tivessem existido entre Shaw e Kit 
Sunderlund, estava certo de que o meu amigo no 
abandonaria Ruby. 
Entretanto chegara quase ao cimo da elevao de 
terreno, 
direita da caravana de Sunderlund, de onde pude ver 
claramente o        vale e, nele, 
um grande grupo de carroes, reunidos num
enorme crculo e, em volta, inmeros bois e cavalos 
a pastarem.
Mais em baixo, ao longo da estrada do rio e muito 
para alm
do acampamento, descobri uma fila de postes 
telegrficos, hirtos e direitos, unidos por um fio 
que brilhava ao sol. Depois, durante um intervalo, 
os postes apareciam deitados no solo, uns, e outros 
em diversos graus de elevao, e mais adiante 
distingui vagamente que todos se encontravam 
cados.
                99
Por fim, no limite do meu campo visual, vi o que 
conclui tratar-se de um grupo de homens a 
trabalhar, provavelmente nos reparos da linha. 
Desviei o olhar para sul e foi com tremenda emoo 
que descobri uma caravana composta por oito carros, 
dos quais um apenas coberto de lona, a arrastar-se 
como uma enorme cobra. Os veculos vinham 
carregados de postes telegrficos. Corri para o 
acampamento, a fim de dar a boa-nova a Creighton. 
O seu rosto iluminou-se com um sorriso radiante,
agradeceu-me e declarou que poria toda a gente a 
trabalhar to logo os carros chegassem. Dirigi-me, 
em seguida, para o nosso carroo e encontrei 
Lowden e Ruby sentados  sombra, a descascarem 
batatas para o jantar.
- Afinal, Jack, pareces encantado da vida, e eu a 
julgar que
detestavas tarefas mesquinhas como essa! - trocei. 
- Ruby.... quero dizer, Pedro, tambm pareces mais 
animado!
- Nunca esperei voltar a ser to feliz - respondeu-
me a
rapariga, baixinho.
        - Onde diabo estiveste metido, chefe? - quis 
saber o vaqueiro. - Tenho estado preocupado 
contigo. Vi-te a falar com aqueles tipos, mais o 
Shaw, e quando este veio e arrastou o Darnell 
consigo, sem me dizer sequer uma palavra, achei o 
caso estranho. Quem vinha a ser aquele matulo alto 
com quem o Vance falava? Daqui pareceu-me texano.
- Sei que se chama coronel Sunderlund, Jack, e que 
o Vance
tem muito que contar-te.
        Jack praguejou, surpreendido:
- Sunderlund?! Ah, sim, o Vance ter, com certeza, 
muito que
contar! Ele disse se ia para algum lugar em 
particular, quero dizer, para longe daqui?
        - Jack, pelo que deduzi, as notcias que o 
coronel Sunderlund deu ao Vance foram boas.
- Referes-te quela bronca de Bronsville? 
Descobriu-se a
verdade? - perguntou-me, ansioso.
100
        - Descobriu, e para crdito de Vance.
- Oh, o velho filho da me! Podia ter perdido um 
par de
minutos a dizer-mo, depois de ter cavalgado mil 
milhas com ele, meio esfomeado, meio afogado e alvo 
de tiros uma dzia de vezes!
        Compreendi que, sob a agitao de Lowden, se 
escondia a alegria profunda de saber o amigo 
ilibado de qualquer coisa que muito se parecia com 
crime.
        - Sunderlund trouxe... a famlia... as mulheres? 
perguntou, com os olhos vivos postos em mim.
- Sim, creio que sim - respondi, tentando 
conservar-me
calmo, compreendendo o significado da sua pergunta.
        - E o Vance sabe?
- Ele e Sunderlund mencionaram uma rapariga chamada 
Kit...
        - Irra, eu bem sabia que aquele tipo no pode 
viver sem encrenca! Julgava que os ndios com os 
quais teremos de lutar, as fugas de bfalos, os 
fogos das pradarias e as tempestades que nos 
esperam pela certa, bastariam, mas no: faltava 
ainda Kit Sunderlund e, comparado com ela, o resto 
no  nada. E se descobre o que se passa com a 
Ruby, como inevitavelmente acontecer, mais cedo ou 
mais tarde? Apre!
101
VI
Jack daqui a meia hora teremos de estar todos a 
trabalhar. Apetecia-me fazer-lhe um milho de 
perguntas, mas decidi no
me arriscar.
- O qu?! Eu e o Vance a cavar buracos e a levantar 
postes?
Nem penses nisso! Prefiro combater contra os 
ndios.
- Jack, j sei que vocs, vaqueiros, detestam 
cercas e,
sobretudo, abrir buracos para elas, mas isto  
diferente. Aposto que, antes de chegarmos ao fim, 
at tu abrirs buracos e        gostars! E quase 
apostava tambm que o Liligh se empenhar
em fazer-nos trabalhar a valer. V, despachemo-nos 
com o jantar para no termos de trabalhar com o 
estmago vazio. Ou me engano muito ou chegaremos a 
Gotemburgo antes de escurecer. 
Em menos de uma hora Creighton, o seu carroo e 
vrias
outros voltaram para a cidade. O nosso carro foi o 
primeiro a seguir a caravana de James Creighton,  
medida que os veculos rodavam para oeste, ao longo 
da linha telegrfica, a caminho da cidade. Sempre 
que viam um buraco aberto no cho, os homens do 
ltimo carro atiravam um poste.
Em breve, sob a direco dominadora de Liligh, 
trabalhvamos
afanosamente. Quatro turnos de trabalhadores 
levantavam cuidadosamente os postes e metiam-nos 
nas covas,
                        103

ns enchamo-las de terra e calcvamos com fora, 
Darnell conduzia o nosso carroo, Ruby mantinha-se 
oculta e um companheiro robusto do grupo de Liligh 
juntara-se-nos, para completar o quarteto. Chamava-
se Sullivan e era um irlands jovial.
Com surpresa minha, Shaw calou umas luvas e 
ajudou-nos
cheio de boa vontade. S Lowden se queixava, embora 
me comeasse a parecer que os seus protestos eram 
mais uma pose do que um hbito verdadeiro de 
carcter. Tra balhava tanto como qualquer de ns, e 
o trabalho era duro e moroso. 
Cansei-me de contar postes, que pareciam 
interminveis.
Quase me custava a acreditar que se utilizassem 
apenas cerca de vinte cinco por milha. O sol 
escaldava, a poeira sufocava e a        fora de que me 
gabara durante os meus tempos de estudante
estava a ser submetida a rude prova. Ao fim de uma 
hora tinha a        roupa encharcada de 
suor, sentia o corpo a arder e a
garganta seca, de sede, mas, se a carne era fraca, 
o esprito era forte, e eu punha no trabalho alma e 
corao.
        Apesar do rude labor, a tarde passou depressa, e 
antes de escurecer levantmos o ltimo poste,  
entrada da cidade, e decidimos acampar ali mesmo.
        Quando me sentei no cho de pernas cruzadas,  
maneira dos meus companheiros, pensei que nunca 
tivera tanta fome na minha vida nem nunca nada me 
cheirara to bem como a comida fumegante. Ruby 
serviu-nos, denunciando com a rapidez dos seus 
movimentos e o brilho do olhar a felicidade que 
sentia. Vance manteve-se silencioso como de 
costume, mas reparei que olhava frequentemene para 
ela.
        Enquanto comamos, u mensageiro veio avisar-nos 
de que no dia seguinte o acampamento no se 
levantaria, para que a caravana e a manada de 
Sunderlund nos fossem  frente. No obstante a 
notcia ser decepcionante para mim,  no deixou de 
ser um alvio no que dizia respeito s dores que 
tinha no corpo cansado.
- Est escrito - resmungou Lowden -, que no saire 
mos desta
cidade enquanto no tivermos encrenca.
        Darnell observou que a linha telegrfica acabaria 
por alcanar a caravana, pois Sunderlund, com todos 
aqueles carros e        bois, no faria mais 
de cinco ou seis milhas dirias.
Depois de escurecer andei um bocado para trs e 
para diante,
a        fim de desentorpecer os msculos, doridos, o que 
consegui em
certa medida. Vance e Ruby afastaram-se para o rio, 
que ficava perto, e deixaram-me s. No tardei a 
deitar-me, com a impresso de que pela primeira vez 
na minha vida dava o exacto valor a uma cama para 
me estender.
O sol ia alto e batia-me na cara quando Darnell me 
sacudiu,
devagar, e mandou levantar, para tomar o pequeno 
almoo.

        - Isso  fcil de dizer, Tom, mas como 
conseguirei levantar-me? - resmunguei.
No entanto, depois de lavar-me e de andar um pouco 
senti-me
melhor.
        Durante a refeio, Shaw perguntou-nos:
        - Por que diabo esto to macambzios esta manh 
?

- Com a breca, compincha, custa-me dizer-to... 
- gemeu
Lowden, tristonho.
- Mas a mim parece-me que no temos outro 
remdio. -
acrescentou Darnell.
- Pois desembuchem - ordenou o vaqueiro, 
secamente.
        Depois de hesitar um bocado, Lowden 
perguntou:
- No podes mandar a Ruby, quero dizer, o 
Pedro, ver se
chove?
        - L poder, posso, mas no mandarei.

104  105
A        Ruby est metida nisto connosco e portanto o que 
h a dizer
deve ser dito diante dela.
- Est bem, no deixas de ter razo. Trata-se do 
Slade...
No nos enganmos a seu respeito.  muito bom 
quando est sbrio, mas se bebe  um daqueles tipos 
que vem tudo vermelho e        tm de espalhar vermelho 
por toda a parte. Ontem matou um
dos seus guias e, pelo que me constou, sem qualquer 
motivo alm do seu mau humor. Talvez o outro no 
fosse tambm boa pea, mas no deixou de ser um 
assassnio. O que, porm, nos doeu, a mim e ao Tom, 
foi saber que o Slade se alambazou a respeito da 
Ruby. A ns, sulistas, no agradam essas conversas 
sujas acerca de qualquer mulher, e muito menos de 
uma rapariga que est connosco e de quem todos 
zelamos. E  tudo, compinchas...Pedro, no precisas 
de te inquietar por cusa disto...
- Como queres que no me inquiete? - perguntou-lhe 
Ruby. -
Quer dizer que vai haver luta, no  verdade? E 
talvez... talvez...
        - No haver luta nenhuma - replicou Lowden.
        - Eu bem lhes disse o pressentimento esquisito 
que tive ao v-lo de roda da Ruby - observou Shaw, 
devagar. - Enganei-me quando supus que neste 
trabalho do telgrafo nos libertaramos dos 
incidentes vulgares da vida de fronteira, vejo 
agora que  impossvel.
- Assim  que  falar, camarada - afirmou Lowden. - 
Temos o
dia por nossa conta, vamos  cidade e arrumemos o 
assunto. Esqueci-me de dizer que, ontem, no antro 
do Pierce, perguntei pela Ruby e algum respondeu-
me que ela desaparecera. Perguntei depois  Flo, 
mas a rapariga piscou-me o olho e disse-me que a 
colega estava doente.  esperta e no nos trair.
106
- Shaw, se no te faz diferena, ficarei no 
acampamento -
sugeriu Darnell, mal-humorado.
        - Acho que ser melhor vires, camarada - 
respondeu-lhe o outro, pensativo. - A Ruby pode 
ocultar-se no carro, e ns no nos demoraremos.
A serenidade dos vaqueiros permitiu-me avaliar 
melhor ainda
a        tmpera do seu esprito implacvel e ardente. 
Falavam
naturlmente em ir ao encontro de um assassino, 
como se isso fosse um acontecimento banal, do dia a 
dia. A prpria Ruby me surpreendia, pois tambm a 
ela animava o mesmo esprito. No demonstrou 
ansiedade especial nem medo quando Shaw se despediu 
dela e lhe disse que no se demorava.
        - Separar-nos-emos e o Jack ir consigo - decidiu 
o vaqueiro, mal chegmos  rua poeirenta de 
Gotemburgo. - No tenciono procurar Slade em nenhum 
desses armazns ou saloons, a        no ser que a isso me 
veja obrigado. Se o encontrar na rua,
muito bem, mas  quase erto que no. Tom, tu vais 
com o Wyne aos saLoons, aos armazns, a toda a 
parte, e se o encontrarem dizem-lhe que est aqui 
um homem que o julga demasiado cobarde para vir 
enfrent-lo  rua.
        Separmo-nos e entrmos na cidade por lados 
opostos. Eu estava to excitado que me esquecia das 
dores musculares, e Darnell no se sentia com 
disposio para falar. Entrmos na estalagem - eu 
certamente com passo muito hirto -, vimos no 
vestbulo e no saloon, samos e entrmos na estao 
da diligncia, sem encontrarmos vestgios de Slade. 
Em seguida descemos a rua e procurmos em vrios 
restaurantes e armazns.
Por fim entrmos no estabelecimento de Pierce. Pela 
porta
aberta notmos que estava cheio de fumo e de 
Algazarra,
                        107
como  noite. De sbito, os olhos do meu 
companheiro faiscaram:
        - L est o maldito homem! - murmurou. - Ali, a 
jogar naquela mesa perto da roleta. Caramba, parece 
irreconhecvel!  singular o que o lcool pode 
fazer a um tipo... Talvez neste momento no esteja 
embriagado, mas esteve.
        Entrmos, devagar, e eu senti a garganta 
contrair-se-me e o corao comear a bater-me mais 
depressa. Irritei-me por isso. Nunca mais 
aprenderia a ver as coisas como elas eram e a 
aceit-las friamente?
- Tom, e se me deixasses ir eu dar-lhe o recado? - 
sugeri.
- A ideia no  grande coisa... Se o Slade  to 
reles como
parece,  capaz de te furar s por Lhe falares.
- Tolice! No sou do Oeste, sou um novato ianque e 
o homem
seria doido se me fizesse mal apenas por lhe dar um 
recado.
- Seja, mas irei contigo e podes crer que estarei 
entre ti e
o        Slade. Aproximemo-nos da mesa devagar, observemos 
o jogo e
quando te der um toque fala ao Slade, mas alto, 
para que todos os presentes ouam.
        Acercmo-nos da mesa de jogo. Eram quatro os 
jogadores e Slade estava voltado para ns, com a 
cabea baixa sobre as cartas. quela distncia 
reconhecia-se facilmente, embora no parecesse o 
homem que antes vira. Os cabelos despenteados 
caam-lhe para a testa, tinha a cara enegrecida e a 
barba crescida. Parmos atrs dos jogadores e 
observmos o jogo por momentos, depois Darnell 
desviou-se para a direita de Slade e eu conservei o 
meu lugar.
        O meu Companheiro fez-me, ento, um sinal quase 
imperceptvel, e respirei fundo antes de comear, 
em voz alta: 
- Cavalheiros, desculpem interromper o vosso 
jogo...
108
        Aguardei um instante. Os quatro homens levantaram 
bruscamente a cabea, mas eu s vi a cara de Slade. 
Os seus olhos eram janelas sombrias da sua alma 
diablica.
- Que pretende, ao intrometer-se? - perguntou-me, 
irascvel.
        - Slade - gritei, aproveitando a deixa - l fora 
espera-o um homem que declara que voc  demasiado 
cobarde para sair e enfrent-lo.
        Slade regougou, produzindo um som parecido com o 
de um vulco prestes a entrar em erupo. O rosto 
tornou-se-lhe feroz, negro de fria, a violncia 
com que ergueu o brao direito espalhou cartas e 
fichas pela mesa e fez com que a cadeira arrastasse 
no cho. Entretanto, o silncio tornara-se 
absoluto, toda a gente ouvira.
        Slade puxou da enorme pistola, bolsando palavras 
ininteligveis e ameaadoras nas quais distingui 
apenas os nomes de novato e de ianque. Mas, antes 
que apontasse a arma, Darnell agarrou-lhe no pulso 
e, com um mpeto formidvel, levantou-lhe a mo 
acima da cabea e l lha manteve.

- Que ia fazer, assassino imundo? - perguntou-Lhe, 
com voz
sibilante. - Matar um homem a sangue-frio s por 
ter-lhe dado um recado? Isso provaria que  um co 
cobarde.
Os outros trs jogadores levantaram-se e um deles 
tirou a
arma da mo de Slade.
- Ele tem razo, Joe - declarou em voz alta:. - 
No podes

fazer tal coisa aqui, linchar-te-iam. Acalma-te, 
no cedas  clera dessa maneira. Sou teu amigo, 
Joe, e falo para teu bem. 
Drnell largou ento o brao de Slade e, 
voltando-se para
mim, arrastou-me do local, onde parecia ter ganho 
razes.
                109
Encontrava-me preso de uma clera cega e de um 
instante para o outro seria capaz de saltar sobre 
Slade, atir-lo ao cho e criv-lo de pontaps at 
deix-lo meio morto. Darnell arrastou-me para fora 
do saloon e s ento fui capaz de respirar de novo 
fundo.
- Meu Deus, Tom:, o tipo ia dar-me um tiro! Aquilo 
no 
homem,  uma besta sedenta de sangue!
        - Safmo-nos de boa, camarada! - exclamou 
Darnell. - Sim, senhor, deste-lhe bem o recado! Em 
breve se saber em toda a cidade que o Slade foi 
desafiado... e se responder ao desafio veremos o 
Shaw fur-lo.
- Meu Deus, Tom, olha para ali! - Exclamei 
apavorado, - Que
est o Shaw a fazer no meio da rua?
- De acordo com as regras do desafio para uma luta 
a tiro,
passear para trs e para diante at o Slade sair. 
Anda, safemo-nos da frente do edifcio.
        Afastmo-nos cerca de cinquenta passos e parmos 
a observar. Os frequentadores do estabelecimento de 
Pierce comeavam a sair e a dirigir-se uns para um 
lado, outros para o outro. Os seus gestos, assim 
como as suas palavras excitadas, anunciavam aos 
transeuntes que alguma coisa ia passar-se.
        Shaw desceu pelo meio da rua at cinquenta passos 
da loja de Pierce, e depois parou. Era maravilhoso 
v-lo assim imvel, alto e esguio, com o lado 
direito voltado na direco de onde esperava o 
inimigo e o brao cado ao longo do corpo.
- Olha, o Jack est do outro lado da rua - 
segredou-me
Darnell. - Acenar a Shaw se vir Slade sair.
        Aps alguns momentos de expectativa, Shaw 
recomeou o seu passeio, desta vez para o outro 
lado. Os condutores dos carros e        outras pessoas 
que no tinham estado no saloon depressa
compreenderam o que ia acontecer. Os que estavam 
perto de Shaw afastavam-se, para no ficarem ao 
alcance das balas, e os do nosso lado paravam no 
passeio, perto dos edifcios.
        Tudo parecia a postos para um dos famosos duelos 
de fronteira - para aquilo a que o Oeste chamava 
um ajuste de contas. O rudo de arrastar de botas 
e de vozes excitadas desvaneceu-se, substitudo por 
um silncio que parecia interminvel. Mas Slade no 
surgia.
Ouvi de sbito um grito e um bater de ferraduras,  
nossa
esquerda, ao mesmo tempo que Darnell exclamava:
        - Meu Deus, olha os cavalos que a vm! Corre!
        Vi uma parelha de cavalos enlouquecidos que 
arrastavam pelo meio da rua uma carruagem leve, de 
rodas altas. Guiava-os uma rapariga, a qual puxava 
desesperadamente as rdeas e tentava det-los, num 
esforo intil. Os gritos dos curiosos assim o 
demonstravam. Instintivamente, dei um passo para 
diante e saltei a grade de amarrao, para a rua. 
Darnell gritou-me que tivesse cuidado, mas saltou 
tambm.
        De sbito, quando o carro se aproximou, reconheci 
a jovem do carroo, que me acenara e sorrira. 
Saltara com a inteno de fazer qualquer coisa, mas 
ao v-la esqueci-me de todas as precaues, 
mergulhei para diante e desatei numa corrida que me 
permitiria acompanhar os cavalos quando chegassem 
ao meu lado.
        Medi o instante com exactido, agarrei num salto 
a rdea do cavalo mais prximo, com ambas as mos, 
e puxei com todas as minhas foras. Fui arrastado, 
mas obriguei o animal a ajoelhar
e        teria detido a parelha se o outro cavalo no 
prosseguisse na
corrida desenfreada. Mas de qualquer modo reduzi-
lhes a velocidade.
        Darnell passou como um relmpago a meu lado e 
saltou para a frente dos animais, com a inteno de 
agarrar a rdea da cabeada do segundo cavalo. 
Puxou para trs com toda a sua fora e gritou:
                        110  111
        - No podemos faz-los parar. A rapariga que 
salte!
Larguei a rdea, tropecei e desatei a correr de 
novo, desta
vez a par do banco do carro.
        - Salte! - gritei. - Apanh-la-ei. Salte!
A rapariga levantou-se e atirou-se pelo ar, 
atingindo-me em
cheio no peito. Apanhei-a e ca, mas reduzi o 
impacto da sua queda. Rolei na poeira e a jovem 
ficou meio atravessada sobre o        meu corpo. 
Consegui pr-me de p, ajudei-a a fazer o mesmo e
voltei-me no momento em que diversos homens iam em 
auxlio de Darnell e logravam deter os animais um 
pouco adiante. Fitei ento a rapariga.
- Meu Deus, se no fosse voc! - exclamou, 
parecendo ignorar
que por pouco no partira o pescoo.
- Est... ferida? - foi tudo quanto consegui 
gaguejar.
- No, graas a si. Eu  que devia perguntar-Lhe se 
no est
partido em dois! - replicou, observando-me com os 
seus francos olhos azuis. - Um engraadinho 
qualquer atirou uma pedra aos animais, e como o s 
 um bocadinho rebelde, assustou-se. No entanto, 
t-lo-ia dominado se uma das rdeas no se 
partisse. 
Era, de facto, a rapariga da caravana. Ficmos a 
olhar um
para o outro e a verdade  que me esqueci do lugar 
onde nos encontrvamos e do que acabara de suceder. 
Tinha na minha frente os mesmos cabelos castanhos, 
agora a carem-Lhe sobre o rosto, os mesmos olhos, 
embora de um azul mais escuro do que supusera, e a 
mesma expresso que tanto me impressionara. Era 
alta e, ao sacudir instintiva mente a poeira da 
blusa, sem desviar os olhos de mim, verifiquei que 
tinha formas graciosas e        perfeitas.
        - Sou um homem de sorte... - murmurei sem saber 
como. Compreende, nunca a esqueci, tenho pensado 
constantemente em si, Miss.
112
- Sunderlund, Kit Sunderlund., Mas quem tem sorte 
sou eu.
        - No me referia a Este quase acidente...
        - No tem menos desembarao de lngua do que os 
vaqueiros texanos, pelo que ouo! Mas... tambm me 
lembro de si. No  vaqueiro... nem do Oeste.
- Sou um novato ianque de Boston e espero que o 
facto de ser
ianque no nos impea de sermos amigos, Miss 
Sunderlund.
- Pela maneira de proceder no se parece muito com 
um novato
-        declarou com um sorriso terno e um brilho no 
olhar que
serviram para aumentar a minha sujeio. - 
Reconheo um homem do leste quando o vejo, sabe? 
Nasci no Texas, mas estudei em Filadlfia. No  
voc o jovem estudante de Harvard da Western Union?
        - Sou, sou Wayne Cameron.
- Vem a meu pai. Querer agradecer-lhe, com 
certeza... e eu
tambm, mais tarde. Esta noite ficamos no hotel e, 
amanh, reunir-nos-emos  caravana. Ir visitar-me?
- Irei? Com certeza, obrigado! No sei que dizer, 
nem como,

mas este encontro foi a coisa mais maravilhosa da 
minha vida. - Da minha tambm - confessou.
        Depois voltou-se e foi ao encontro do pai. Sem 
dvida, Sunderlund assistira a tudo, pois parecia 
assustadssimo.

        - No ests ferida, pois no, Kit?
        - No, pai, graas a este jovem.
- Agradeo-lhe, Cameron, mas sei que os 
agradecimentos no
bastam. Vi tudo... estava  espera na multido,  
espera do que sabe... Foi preciso coragem para 
fazer o que fez! A parelha  pesada e veloz. Tambm 
quero agradecer ao seu amigo Darnell.
- Ele merece mais agradecimentos do que eu, pois a 
mim nunca
me ocorreria dizer  sua filha que saltasse.
113
- Do que no h dvida  de que foi um momento de 
sorte para
os Sunderlunds - afirmou,cortsmente. - At logo... 
Ficaremos todo o dia na cidade. Anda, Kit, 
afastemo-nos daqui.
O sorriso estonteante e prometedor que a rapariga 
me lanou
ao afastar-se com o pai deixou-me aparvalhado. 
Teria sido aquele encontro a consumao dos meus 
sonhos? Algo tremendo me acontecera!
Se tivesse encontrado aquela rapariga em Boston, 
embora no
me restassem dvidas de que me impressionaria do 
mesmo modo, creio que conservaria a minha 
compostura, ainda que perdesse o corao. Mas 
depois de a ver romanticamente no carroo, de me 
ter deixado subjugar gradualmente pelo Oeste e de a 
ter encontrado de novo naquela rude cidade 
fronteiria, num momento em que pudera ajud-la, 
sabia de cincia certa que no resistiria, que me 
enamorara sem remdio, com loucura. 
Encostei-me ao gradeamento, com os pensamentos 
confusos,
esquecido do que me rodeava.
        De sbito ocorreu-me o verdadeiro motivo que ali 
me trouxera. A multido dispersava, dois 
trabalhadores puxavam a parelha j calma e Darnell 
aproximava-se de mim.
        - Bem, o nosso camarada transformou o grande 
matador num cachorro cobarde aos olhos de todos os 
homens desta cidade. No h mais nada -a fazer, 
Shaw e Lowden foram-se embora, creio que a caminho 
do acampamento. Vamo-nos tambm.
- Tom, viste aquela pequena cair-me nos braos e 
atirar-me
ao cho? - perguntei, atordoado.
- Claro que vi. Agarraste-a bem, apesar de teres 
dado um
trambolho, e a julgar pela tua cara ela deve ter-
te dado outra espcie de choque...
- Acho que sim. Tom, ela chama-se Kit Sunderlund e 
 filha
do negociante de gado com quem falaste.
114
- Diabo! Ento o Jim Sunderlund do Sweetwater  seu 
tio e
ela vai viver com o pai naquele vale... Meu Deus,  
duro!
        - Duro? Porqu? - indaguei, sem perceber.
        - Bem,  difcil explicar-te exactamente o que 
quero dizer...  demasiado bonita para ir cair no 
meio daqueles vaqueiros e rancheiros famintos de 
mulheres.
        - Sim, desse ponto de vista a ideia no parece 
tranquilizadora - murmurei, pensativo. - Os nossos 
camaradas viram-nos salv-la? O Shaw conhece-a, 
foram amigos no Texas. O pai dela foi o que deu a 
entender, ao passo que o Lowden insinuou que o 
Vance esteve apaixonado por ela.
- Com certeza, como querias que no estivesse? Mas 
acho que

o        caso da Ruby  mais fundo. Numa rapariga como a 
Ruby existe
qualquer coisa que atrai o sentimento de proteco 
do homem. Quando chegmos ao fim da rua 
alcanmos Shaw e Lowden. No
notei qualquer diferena no primeiro, mas o 
segundo parecia respirar alvio por todos os 
poros. Mimoseou Slade com uma srie de eptetos 
impossveis de citar.
        - Vance, tiraste o pio ao fanfarro do Slade - 
observei.

- Parece que sim, mas no convm estar muito 
convencido
disso. Que aconteceu no saLoon? Quando te vi sair 
estavas branco como um lenol.
        - Deste por isso, Vance? - indaguei, 
surpreendido.
- Podes ter a certeza. Vi todas as caras que 
estavam na rua,
posso garantir que no me escapou nada.
        Enquanto Darnell explicava o que fizemos, 
perguntei a mim mesmo se Shaw vira tambm a parelha 
desenfreada e quem a conduzia.
- Irra, esse Slade  o pulha mais pulha que j 
conheci! -
praguejou Lowden.
                        115
- Garanto-lhes, rapazes - continuou Darnell -, que 
se no
tivesse agarrado o Slade, o Wayne teria dado cabo 
dele ali mesmo! Palavra, nunca vi ningum to 
furioso!
        Assim falando, chegmos ao nosso carro.
- PedroRuby - chamou Shaw alegremente - estamos de 
volta,
inteirinhos! Nada aconteceu, pelo menos a mim... 
mas ou me engano muito ou o nosso amigo ianque no 
pode dizer o mesmo... 
Ruby foi sentar-se no extremo do carroo, com os 
ps
pendurados a balouar. Para um observador casual 
seria apenas um jovem mexicano muito simptico, mas 
os olhos que fitou em Shaw estavam dilatados e 
ansiosos e expri miam qualquer coisa que me feriu e 
que traa a angstia por que passara. O seio 
arfava-lhe sob a blusa azul e as mos morenas e 
pequeninas tremiam-lhe. Conseguiu, porm, murmurar 
que se alegrava por Shaw haver regressado so e 
salvo.
- Camaradas, talvez fosse boa ideia afastarmo-nos 
da cidade,
ao longo do rio, e irmos acampar algures, entre os 
salgueiros -        sugeriu Vance.
- Acho... bem - gaguejei. - Creio que poderei 
voltar a p 
cidade, esta noite.
        - Para qu, idiota? - indagou Shaw. - Se 
continuas a arriscar-te, ainda acabas por ser 
ferido nesta cidade.
        - Mas tenho de vir, Vance, comprometi-me com... 
com aquela rapariga. No viste os cavalos 
desenfreados? No reparaste que o        Tom e eu 
detivemos a parelha e... e que a rapariga saltou
para os meus braos e me atirou ao cho?
- Claro que vi, e o Jack tambm, mas estvamos 
demasiado
longe. Meu Deus, compincha, pareces fadado para a 
m sorte! Como se o mal fosse pequeno, ainda a 
rapariga que salvaste tinha de ser Kit Sunderlund!
Fitei com firmeza o meu camarada texano, esforando 
-me por
dominar a perturbao que me ia no peito,
116
pois o seu olhar e o tom da sua voz faziam-me 
pressentir qualquer coisa sinistra e calamitosa.
        - Sim, Vance, aquela rapariga era Kit Sunderlund.
Lowden, com a expresso mais esquisita que jamais 
lhe vira,
exclamou:
        - Meu Deus, Vance, de que maneira terrvel as 
coisas

acontecem  tua volta!
- Anda c! - ordenou Vance, agarrando-me. - Vem 
comigo para
poder meter-te nos eixos!
        Arrastou-me para longe do campo auditivo dos 
outros e, quando me obrigou a voltar-me para o 
olhar, murmurei:

- Vance, com todo o devido respeito pelo teu estado 
de
esprito, no vejo motivo para todo este mistrio 
acerca do facto simples de ter um encontro com Kit 
Sunderlund, a no ser que estejas ainda apaixonado 
por ela.
        - Que diabo tem isso a ver com o que quero dizer-
te? Mas se ainda tens sombra de senso, escutar-me-
s - replicou, um pouco custico - No te deixes 
vencer pelos teus pruridos de ianque,sou teu amigo. 
Camarada, tens o aspecto e as falas de um homem que 
perdeu a cabea e o corao, conheo os sintomas. 
- Ests a atingir-me debaixo do cinto, Shaw! Os 
teus olhos
de vaqueiro so demasiado vivos. Lembras-te de te 
ter dito que, h dias, ao viajar pela Trilha, vi 
uma rapariga num carroo? Pois bem, apesar de v-
la to de passagem, fui atingido em cheio... E 
hoje... Raio de sorte, nunca me senti to 
apaixonado na minha vida!
        - J o receava, camarada - afirmou Shaw, muito 
srio, sem deixar de apertar-me o brao. -  duro 
diz-lo, mas embora no seja minha inteno 
desrespeitar Kit Sunder lund, sou teu amigo e quero 
dar-te um conselho. Kit desde os quinze anos que  
a bela de Santone, e tem agora vinte. Era a mais 
bonita rapariga do sul do Texas, e ainda por cima 
rica e de excelentes famlias... Mas  uma 
namoradeira nata.
117
Tem tido mais namorados, mais pobres diabos presos 
pelo beicinho, do que qualquer otra rapariga que 
conheo ou de quem tenha ouvido falar. Fui um 
deles. Trabalhei para o pai durante trs anos. No 
est mais na sua mo, tem de proceder sempre de 
maneira a fazer com que os rapazes a amem, embora 
se limite a sorrir e a ser alegre,  a sua 
natureza, h nela algo de intenso e ardente. Apesar 
de todas as oportunidades que tive, apenas lhe 
peguei na mo umas duas vezes e a beijei uma. numa 
ocasio em que endoideci, arranquei-a da sela e 
tive de beij-la ou morrer. Com mil raios, nunca 
mais o esquecerei! Ficou furiosa que nem um vespo.
- Vance, no encontro em nada do que me disseste 
motivo para
lamentar ter-me apaixonado por ela. At agora s 
lhe teceste cumprimentos, embora afirmasses que  
namoradeira.
- Pois no, amigo, e a  que est o mal - 
replicou-me
Vance, com firmeza. - No consigo ver Kit 
apaixonar-se por nenhum homem e  isso que me 
assusta: que tu te apaixones profundamente e que 
ela no te corresponda. Sei que, consciente ou 
inconscientemente, arrasta os homens na sua 
esteira. Ns, sulistas, somos todos iguais, mas 
temu que um tipo do leste, como tu, se deixe 
prender de tal modo que arruine a sua vida. E este 
trabalho em que nos encontramos no serve para 
homens de corao partido.
- Vance, compreendo muito bem tudo isso, mas 
protesto: mesmo
que o meu corao esteja preso, isso no significa 
que Kit Sunderlund o parta.
- O diabo  que no significa! Vi muitos rapazes 
decentes
despenharem-se no inferno por amarem Kit 
Sunderlund.
- Colocas-me numa situao difcil, Vance. Sabes, 
nos poucos
minutos que falei com Kit, fiquei com a impresso 
de que sentia por mim o que sinto por ela.
118


- Oh, meu Deus, camarada! Deves estar desvairado, amigo! Nem
a        Kit podia ser to rpida.
        - Posso dar desconto ao seu aspecto e aos seus gestos, 
embora Deus saiba quanto foram eloquentes, mas o que ela 
disse  que me convenceu.
        - Bem, e o que foi que ela disse?
        - No ouso trair a sua confiana. Estou perturbado com os 
teus argumentos, Vance. Conhece-la e s suficientemente amigo 
para tentares poupar-me a possveis desgostos, mas 
conseguiste tambm despertar-me intensa curiosidade por ela. 
Parece-me que o        mais sensato, dadas as circunstncias,  
esnerar. Se me
perdi, de facto, de amores por Kit Sunderlund, muito bem. 
Entregar-me-ei a esse amor e tentarei a sorte com ela ao 
longo da Trilha. A linha telegrfica e a caravana seguiro 
para Oeste, provavelmente perto uma da outra.
        - Com a breca, camarada, fazes-me sentir envergonhado -
mormurou Shaw, como quem est repeso do que disse. - No sou 
profeta e talvez me tenha enganado, quis apenas pr as cartas 
na mesa, tal qual como me vieram parar s mos. Vamos, 
voltemos para o carro, a fim de prepararmos as coisas para 
partirmos. Ainda podes reflectir, claro, mas parece-me que j 
sabes bem o que queres.
        Voltmos, sem trocarmos mais palavras, e comemos os 
preparativos para a partida. Apercebi-me de que Lowden me 
deitava olhares cpticos e de que ele ou Darnell tinham posto 
Ruby ao corrente do que se passara, pois os seus olhos 
seguiam-me com doura e compreenso. Pouco depois estava tudo 
pronto e Lowden apareceu com os trs cavalos pertencentes aos 
vaqueiros.
        To atordoado me sentia, que mal olhei para os trs 
magnficos animais, os mais belos que jamais vira. Voltmos 
para oeste, tendo o cuidado de viajar pelo exterior da cidade 
e        de seguir as marcas deixadas pelas rodas de alguns dos
nossos carros.
119
Darnell conduzia os bois, como de costume, e Ruby ocupava o 
lugar a seu lado. Shaw e Lowden cavalgavam na frente e a 
montada de Darnell ia presa  retaguarda do carro. Deitei-me 
num dos beliches e tentei ver claro dentro de mim. No 
conseguia compreender a atitude de Vance. Ter-me-ia dado um 
conselho de amigo ou - oxal me enganasse! - Quereria dizer-
me,  sua maneira de vaqueiro, que continuava apaixonado por 
Kit?
        Quando deixmos para trs a longa fila de cabanas e os 
edifcios de altas frontarias de madeira, comecei a procurar 
sentimentalmente a carruagem e a parelha de fogosos cavalos 
pretos que, ao entrarem na minha vida de maneira to 
inesperada, me haviam deixado, tinha a certeza, transformado. 
No tardmos a entrar na Trilha e, ento, os meus olhos j s 
viam, acima do horizonte, a poeira e o fumo de Gotemburgo.
        Nas melanclicas reflexes que fazia acerca de Kit 
Sunderlund, parecia-me existir um contraste flagrante entre o 
que acontecera e o que Shaw me contara. Restava-me suficiente 
bom senso para compreender que o meu primeiro contacto com o 
Oeste me aguara tremendamente a sensibilidade. As minhas 
reaces s circunstncias no podiam, por isso, ser normais, 
pelo menos at que os reveses, as privaes e a catstrofe me 
transportassem das nuvens para a realidade. A minha obsesso 
romntica era difcil de vencer.
        Quis que falasse por si mesmo o facto de que decidira 
desistir de visitar Kit Sunderlund e me afastava da cidade. 
Mas era intil tentar convencer-me que no sofria. Nunca 
amara
tanto! Recordava frequentemente o que sentira quando ela 
saltara da carruagem para os meus braos, atirando-me ao 
cho, as sensaes experimentadas no curto instante em que o 
seu corpo estivera sobre o meu, e depois, quando me levantara
                120
e        a levantara comigo, a maneira como se apoiara a mim, como
fitara os meus olhos com uma expresso de espanto e de alegre 
reconhecimento. No compreendia nem podia esquecer aquele 
momento, assim como no esquecia que s ficara amargurado 
depois de Shaw haver minado a ideia exaltada que dela fazia. 
No entanto, no mago do meu corao, existia uma espcie de
instinto, a crena rebelde que me dizia ser Shaw apenas um 
namorado repudiado e que, por isso, a sua opinio era 
desfavorvel. Talvez houvesse agido com sensatez ao desistir 
de ir visit-la, mas essa deciso causava-me um desgosto 
profundo e a convico de que o romance mal comeado no 
terminara. Devo ter permanecido deitado muito tempo, a 
emergir devagar da tristeza que me invadira e a reconciliar-
me com a minha sorte.
        A paragem do carro anunciou-me que chegramos ao novo 
acampamento. Shaw e Lowden tiravam a sela aos cavalos, e eu 
aproximei-me para admirar de perto as maravilhosas montadas. 
Fiquei impressionado. Olhavam-me com tanta inteligncia e 
cepticismo como sE fossem seres humanos. O de Shaw era um 
alazo forte e de raa pura, que contrastava vivamente com o 
de Lowden, um animal pequeno da plancie, castanho mosqueado, 
mas to robusto e musculoso que chegava a parecer grande.
- No Lhe toques, amigo, pois tentar matar-te - avisou-me
Lowden.
- O qu, no so mansos? - admirei-me. - No quero aprender
a        montar um cavalo que seja bravo.
- No te aconselho a aprenderes com o meu ou com o do Jack,
mas o Tom diz que o dele  manso.
- Se o cavalo do Tom  manso, amo-o! - observou Lowden, com
sarcasmo.
- De qualquer maneira acabars por descobrir por ti prprio
-        resmungou Shaw. - Quando passmos pelo Liligh e o seu 
grupo,
                121
umas milhas atrs, disse-nos que fssemos ter com ele, a 
cavalo, para trabalharmos.
- Ento passmos pelo extremo dos trabalhos de construo?
- Claro que passmos. Esto l emperrados por qualquer
motivo. Wayne, no olhaste para o caminho, homem?
        - Olhei, mas no vi nada.
        - Vs aquele fumo l em baixo, para os lados do rio?  a 
caravana do Sunderlund, esto ali acampados. Creio que no 
so mais de cinco milhas.
- Pelo que me diz respeito, cinco milhas ou mil so a mesma
coisa - repliquei secamente.
        - O Tom ficar aqui, no acampamento, pois tem que fazer no 
carroo e ns levaremos qualquer coisa que trincar e iremos 
trabalhar. De agora em diante ser trabalho e inferno. a tal 
ponto que no distinguiremos um do outro.
        Olhei para o fumo da caravana de Sunderlund e pensei que, 
para mim, no haveria trabalho que chegasse para fazer-me 
esquecer a dor e a ansiedade que me inundavam o corao. 
Naquela noite, estvamos sentados  roda da fogueira.
Creighton mandou-me chamar para registar,  minha maneira de
amador, uma mensagem de emergncia que esperava do Este e que 
se relacionava com postes telegrficos e homens. E tambm com 
homens do mesmo pas que guerreavam entre si.
        - Amigos - disse tristemente quando mais tarde, voltei -, a 
Guerra Civil alastra. Travam-se grandes batalhas e os tipos 
do Norte, como eu, matam tipos do Sul, como vocs, e vice-
versa. 
Estabeleceu-se um silncio pesado, quebrado apenas pelo
estalar da fogueira e pelo vento que agitava suavemente a 
relva.
122
        Foi Darnell quem o quebrou:
- Creio que ns, aqui, devamos tomar partido uns contra os
outros e resolver o assunto.
        - Boa ideia - concordou Lowden. - Pedro, de que lado 
ficars? Quero ficar do mesmo lado que tu.
- Sei que para todos vocs devo ser Pedro, mas, agora, quero
ser Ruby.
        - Que queres dizer com isso? - indagou Shaw.
- Quero dizer que sou do lado das mulheres, do lado que no
quer guerra.
Ao recordar um intervalo de dias e semanas de trabalho
imenso e dor insuportvel, parece-me que decorreu uma 
eternidade desde o nosso primeiro acampamento  sada de 
Gotemburgo e o que fizemos perto de Ogallala. Esse perodo 
ficou-me na memria apenas porque, no acampamento de 
Ogallala, Sunderlund passou com a filha no carro e parou a 
perguntar por mim. Eu, porm, vira-os vir e afastara-me do 
acampamento, decidido a manter-me fiel  minha resoluo de 
no a ver, pelo menos por enquanto. Mesmo  distncia, no 
entanto, o seu rosto encantador cavou mais fundo o meu 
desespero.
        Trabalhara at ali de tal maneira, que o trabalho j no 
tinha para mim qualquer emoo ou agrado. Talvez me houvesse 
entregado a ele com excessiva ansiedade, com cegueira, 
esquecido de que devia poupar energias e foras na medida do 
possvel. Os homens de Creighton detestavam acima de tudo 
abrir buracos, pois, por estranho que parea, na maioria, as 
covas para os postes colocados naquela infindvel extenso de 
milhas abri-as eu. Quando o dia de trabalho terminava havia 
sempre outras tarefas que se prolongavam at cair exausto: Se 
fosse apenas o esticar do fio, o abrir dos buracos e o erguer 
dos postas, no teria sido um pesadelo to grande,
                        123
mas alm do trabalho havia outros, demasiado numerosos para 
poder enumer-los. A linha telegrfica tinha de avanar quase 
em linha recta, e a pradaria que, ao olhar casual, parecia 
plana e sem obstculos, provava ser, afinal, um desafio e uma 
armadilha. Era preciso atravessar depsitos aluvianos fundos 
e secos, e pntanos que no tempo hmido no tinham fundo, 
vadear correntes impetuosas e, sempre, procurar lenha para a 
fogueira e        encontrar postes telegrficos 
onde no existiam.
Como se o trabalho manual no bastasse, no se passava um
dia em que no me chamassem para tratar de um trabalhador 
ferido. Ao princpio orgulhava-me da confiana de Creighton 
em mim e do contentamento que afirmava sentir por estar 
consigo, mas com o passar do tempo os cuidados mdicos que de 
mim exigiam tornaram-se um pesado fardo. Cortes e esfoladuras
superficiais, queimaduras e escoriaes, eram fceis de 
tratar, mas comearam a surgir braos e pernas partidos, 
ferimentos provocados por balas - um dos quais total - febre, 
disenteria e toda a espcie de doenas graves, o que 
representava tremenda responsabilidade para os meus limitados 
conhecimentos mdicos. s vezes, apesar de extenuado, a 
preocupao no me deixava dormir.
        Mas servia-me sempre de Creighton como exemplo. Era 
infatigvel, invencvel, um verdadeiro condutor de homens. Se 
ramos forados a parar num dia, redobrava o trabalho no 
outro. No entanto era alegre, simptico, paciente, generoso, 
sempre chefe acima de tudo. Esforava-me por emul-lo, mas o 
insucesso desmoralizava-me bastas vezes.
        Um dia, ao sol-posto, tive uns minutos de repouso e sentei-
me a recordar o acampamento em que vira pela ltima vez Kit 
Sunderlund. Embora as semanas parecessem interminveis, em 
virtude do trabalho e das provaes, na realidade pouco tempo 
decorrera. Olhei as minhas roupas esfarrapadas:
                        124
as botas cambadas, as calosas palmas e o roshado quase negro 
das costas das minhas mos, apalpei o restolho que me crescia 
no queixo e no consegui lembrar-me da ltima vez que me 
barbeara, passei as mos pelas pernas, que se tinham tornado 
mais magras e duras como ferro, e maravilhei-me com as 
modificaes que o trabalho, a dor e as preocupaes podem 
provocar num homem.
        No queria que o Oeste - com toda a sua beleza, a sua 
aridez, a sua grandiosidade crescente, as suas catstrofes e 
tudo quanto podia suceder durante um empreendimento da 
envergadura daquele em que me achava envolvido - matasse em 
mim o desejo ardente e ansioso de fazer parte dele.
        Olhei os meus camaradas, entregues s tarefas do 
acampamento, e envergonhei-me da minha passada indiferena, 
do desencorajamento e da exausto que me haviam afastado do 
entusiasmo e da lealdade do nosso primeiro enconttro. No 
obstante a minha letargia, porm, haviam-se-me tornado cada 
vez mais queridos. Tudo isso me convenceu, enquanto 
descansava na penumbra, de que tinha uma magnfica 
oportunidade de merecer a confiana de Creighton e alcanar a 
nobreza simples dos meus camaradas do Oeste.
        Acampramos numa elevao de terreno sobre o rio, mais ou 
menos a meio caminho entre Ogallala e Julesburgo. Agosto 
chegava ao fim, o tempo estava quente e seco e uma neblina 
avermelhada encobria o sol no ocaso.
A fragrncia do toucinho, do caf e dos biscoitos quentes
recordou-me vivamente que eram horas de jantar. No estava 
ainda pronto, com certeza, pois no me tinham chamado. Era-me 
agradvel e doce observar Ruby. Parecia um rapaz e enganaria 
algum espectador desinteressado, mas aos meus olhos no 
escapava a feminilidade e o encanto que a envolviam como uma 
aura. No podia passar por Shaw sem demonstrar-Lhe de 
qualquer maneira o seu afecto e provar-lhe que o centro da 
sua nova vida era ele.
125
        Ao observla, foroso me era desejar ardentemente que uma 
mulher me quisesse assim tambm. Mas como esse pensamento me 
recordava Kit Sunderlund, apressava-me a afast-lo.
Vrias vezes no decorrer da ltima meia hora vira Shaw
deter-se no seu trabalho, levantar a cabea com aquele gesto 
de falco to caracterstico dele e olhar para o norte. No 
entanto parecia mais sentir do que ver qualquer coisa. Havia 
fosse o que fosse que o atraa atravs das plancies, 
pormenor que Lowden tambm notou.
        - Compincha, que  que te come? - perguntou-lhe.
- A mim nada me come, Jack, eu  que comia qualquer coisa.
Estou cheio de fome. Por que perguntas?
- Porque estou farto de te ver parar e olhar para l do rio,
como costumavas fazer quando pressentias perigo para a 
manada, desconfiavas que andavam Comanches perto ou qualquer 
bagatela do gnero.
- Jack, velho compincha, o teu sentido do perigo parece
ter-se embotado aqui no norte. Se fosses to arguto como 
costumavas, terias percebido que o que se passa diz respeito 
ao meu nariz.
Lowden, que se encontrava ajoelhado ao p da fogueira a ver
se os biscoitos estavam cozidos, levantou-se devagar e 
inquiriu:
        - Nariz? Demnio, que cheiras tu?
        - Volta-te e fareja.
        Lowden apressou-se a seguir o conselho, enquanto Darnell o 
observava cheio de interesse e Ruby parava, ansiosamente, ao 
lado de Shaw. Eu prprio me voltei para norte, com 
curiosidade, e aspirei a brisa fresca que me bateu na cara, 
mas nada mais senti alm da fragrncia seca da pradaria, a 
que me habituara.
- Raios! - exclamou Lowden. - Fumo! Fumo, com a breca!
Cheira-te, Tom?
126
- No, camaradas, mas isso no quer dizer nada, o meu olfato
no  muito bom. Ficou assim desde que um cavalo me pisou.
- Esperava que me dissesses tratar-se de fogo proveniente de
alguma fogueira de acampamento, Jack - murmurou Vance.
        - Lamento, mas no digo - respondeu-lhe apenas Jack, 
afastando-se na direco do rio.
        A minha curiosidade transformou-se em intenso interesse. 
Qualquer coisa corria mal, aqueles homens cheiravam fumo, e o 
fumo significava perigo. Apurei os sentidos e pareceu-me que 
o vento aumentava quase imperceptivelmente e que, se na 
realidade no me cheirava tambm, embora pouqussimo, a fumo, 
o        imaginava. Reuni-me a Lowden, na margem do rio, e pouco
depois Shaw juntou-se-nos. Ficmos silenciosos  
durante um bocado, at que Ruby veio enfiar o brao no de 
Vance.
        - O que ? - perguntou-Lhe, num murmrio angustiado.
- Cheguei a ter esperana de que no precisaria de diz-lo,
mas na ltima meia hora compreendi que era inevitvel. Desde 
o comeo da tarde que no me agradam o aspecto das nuvens e o 
peso do ar, que me parecia empurrado para o sul. S h meia 
hora notei o cheiro a fumo.
        - Este fumo no  bom. - afirmou Jack. - Estamos no pior 
local, desde Ogallala - uma espcie de baixada de onze milhas 
rio abaixo, e Deus sabe quantas rio acima. A erva e restolho 
so bastos e secos como isca. No, no  nada bom!
- Rapazes, desembuchem! - pedi, assustado. - Que se passa?
        - Fogo na pradaria! - exclamou Shaw. - E fogo que se 
apanhar vento norte a ati-lo ser o inferno para ns. 
Receio que  isso mesmo que vai acontecer, mas precisarei 
talvez,
                        127

de mais meia hora para ter a certeza. Entretanto, o melhor  
irmos comer.
        Voltmos para junto da fogueira, que Jack alimentou com 
bocados de mato. Sentmo-nos no oleado, silenciosos e 
famintos. Comi de cara voltada para o norte e com todas as 
faculdades alerta. Os coiotes tinham comeado o seu alarido, 
mas a sinfonia de uivos e ladridos parecia mais pungente do 
que de costume. De sbito, do outro lado do rio e no de 
muito longe, chegou at ns um latido agudo, de certo modo 
semelhante ao de um co de caa, mas mais selvagem, um uivo 
longo, melanclico, de gelar o sangue nas veias.
- Que foi aquilo? - perguntei, com a chvena do caf na mo.
- Um lobo, meu amigo ianque, e posso dizer-te que nada
alegre - respondeu-me Shaw, muito srio.
        Notei que o vaqueiro comia mais depressa do que de costume. 
E        fFoi ento que a brisa se tornou mais forte, se transformou
bruscamente num vento rijo, frio e implacvel, que gemia por 
entre os salgueiros, abanava com fria as abas de lona do 
carroo, atiava o fogo e espalhava falhas por toda a 
parte. Acompanhava-o um cheiro seco e penetrante de mato 
queimado. Shaw acabou de beber o caf, levantou-se e mais uma 
vez se voltou para o norte.
- Camaradas,  intil esperar contra toda a esperana -
afirmou, resoluto. - Jack e Tom, limpem isto e depois vo 
buscar os cavalos e os bois e atrelem-nos. Wayne, tu vens 
comigo informar o Creighton. Trata-se de fogo na pradaria e 
de nortada, e ns estamos no caminho de ambos.
128
VII
        Estugmos o passo na escurido, abotomos os casacos e 
levantmos as golas. O vento norte estava frio. Seguimos a 
estrada durante um bocado, e depois ziguezaguemos atravs 
das abertas da relva e dos arbustos at chegarmos ao 
acampamento dos trabalhos, naquela noite muito maior do que 
era costume: encontravam-se reunidos pelo menos cem carroes 
e trezentos homens. Os grupos sentados em redor das fogueiras 
pareciam no suspeitar, sequer, do perigo que os ameaava.
        Creighton escrevia no seu carro, sob uma luz forte.
        - Ol, rapazes - cumprimentou, quando o chammos. - Subam. 
Mas Ests plido, Cameron, e tu, Shaw, pareces prestes a 
puxar da arma.
- Quem me dera, patro, que no acontecesse nada pior do que
ter de puxar da arma - replicou o vaqueiro -, Temos nortada 
em cima de ns.
- Sim, de facto comeava a sentir um pouco de frio. Mas isso
no se pode dizer que seja m notcia, pois no?
        -  que tem pela frente um fogo da pradaria, patro.

        - H?! Isso  diferente. De que propores, 
Shaw?
        - No posso avaliar, patro, mas mesmo na 
melhor das hipteses ser perigoso. Esta 
extenso ao longo do rio tem muita erva e mato 
e arder como plvora, com a nortada a atiar. 
Ser um fogo danado, Mr. Creighton.
                129

- Vai ser uma novidade. De mais a mais com o 
Liligh ausente. - No pode perder tempo a cham-
lo, temos de fazer qualquer
coisa j.
        - Compreendo, Shaw, mas o qu? Fala.
        - Antes de mais nada aconselho-o a recolher tudo, 
a atrelar todos os carros e a mand-los para o 
leito do rio, que  muito largo neste local. A gua 
corre principalmente do lado norte e h lnguas de 
areia que secaram e aguentaro os carroes. J 
tive de fazer isto mesmo no Texas, quando conduzia 
levas de gado. Felizmente que s temos a pequena 
manada de abate, pois seria impossvel impedir uma 
fugida. Com os bois e os machos atrelados aos 
carros, talvez consigamos sust-los.  uma sorte 
que o espao entre as margens do rio seja largo, de 
contrrio, teramos de abandonar tudo e de tentar 
apenas salvar a pele.
- O caso parece, de facto, srio - murmurou 
Creighton,
levantando-se e pegando no casaco. - Felizmente que 
tenho um homem das plancies como tu no pessoal. 
Podes calcular o tempo que o fogo levar a 
alcanar-nos?
- Ainda no. Mas o cu comea a pr-se encarnado 
para as
bandas do norte. Acho que  conveniente andar 
depressa, sir.
- Isso basta, Shaw. Volta para o teu carro e 
transforma-o em
barco. Tu vens comigo, Cameron, para darmos as 
ordens aos homens.  pena o Liligh no estar.
        Desci do carro atrs de Shaw e vi-o dirigir-se 
apressadamente para o rio. Creighton enfiou o 
casaco e ficmos imveis durante um momento, a 
observar o estranho claro avermelhado que se 
avistava ao norte, agora quase a atingir o znite. 
O vento tornara-se mais forte e mais frio e trazia 
consigo um cheiro acre, que me irritava o nariz.
- No podemos perder tempo, rapaz - disse-me 
Creighton.
                130
-        Repete as ordens aos homens que esto l em 
baixo, enquanto
eu me encarrego destes mais prximos.
        Ouvi-o ainda gritar ao primeiro grupo reunido em 
redor de uma fogueira: um oficial do exrcito na 
iminncia de sofrer um ataque inesperado no 
procederia com maior vigor e autoridade. Banhado 
pela luz das chamas, com os cabelos agitados pelo 
vento e as labaredas reflectidas nos olhos parecia 
um homem nascido para mandar e exigir obedincia. 
Afastei-me a correr, parei junto do primeiro grupo 
que encontrei e gritei por meu turno:
- Ordens de Creighton! Fogo na pradaria! Os 
cocheiros devem
ir buscar os bois e as mulas e atrel-los, enquanto 
os restantes arrumam tudo nos carros o mais 
depressa possvel!

Ao afastar-me tive a satisfao de verificar que 
as minhas
palavras concisas produziam os necessrios 
efeitos. Passado pouco tempo transmitira as ordens 
do chefe a todos os homens que se encontravam 
daquele lado do acampamento, salientando que urgia 
proceder com rapidez. Em seguida parei, para tomar 
flego, e pusme a caminho do nosso carro, junto do 
rio.
Tom e Jack atrelavam os bois, os cavalos estavam 
presos ali
perto, selados e prontos, e Shaw encontrava-se na 
margem, a olhar para longe.
Fui ter com ele, informei-o de que transmitira as 
ordens do
patro e perguntei-lhe se a situao piorara.
        - Diabos me levem se tenho a certeza, Wayne! Mas 
estou assustado, palavra que estou! Se houvesse 
por aqui alguma elevao de terreno, montaria a 
cavalo e iria at l certificar-me, mas  tudo 
plano. No te parece, no entanto, que o claro se 
tornou mais brilhante?
- Sim, o encarnado  mais luminoso e est mais 
espalhado.
        - Tenho a impresso de que as coisas pioram.

                131
Vejo a tua cara com mais nitidez do que h pouco, 
e com um brilho vermelho. Olha para o rio. Vem-se 
perfeitamente as lnguas de areia, as poas e o 
grande lenol de gua, l adiante. Temos de abater 
um pouco esta margem, pois  muito ngreme para o 
carro descer. Vai buscar ps e diz aos rapazes que 
venham ajudar-nos quando tiverem acabado de 
atrelar. 
Pouco depois cavvamos todos afanosamente, a fim 
de darmos

uma inclinao suave e segura  descida e facilitar 
a passagem do veculo. Darnell, de machado em 
punho, cortava os rebentos das rvores novas e os 
ramos mais sados. Obstinadamente, no me voltei 
para norte enquanto no terminei a tarefa que me 
competia. S ento olhei, com Ruby ao meu lado 
agarrada ao meu brao, e pela primeira vez me senti 
invadir por um temor respeitoso. O cu cobria-se de 
um vermelho estranho, que parecia ter apagado todas 
as estrelas.
- Wayne, j assisti a um par de fogos da pradaria, 
mas
nenhum num lugar como este - disse-me a jovem -,  
mau.
        - Mas, Ruby, onde est o perigo? Aquelas lnguas 
de areia esto a trinta metros deste lado e a 
noventa do outro, o fogo no pode alcanar-nos ali.
        - Oh, no compreendes! - exclamou. - O vento 
arrastar o fogo e as chamas alterosas atingiro 
enormes alturas. isto se a        ventania for 
forte. Mas no  belo? O cu avermelhado
reflecte-se na gua, as prprias lnguas de areia 
esto encarnadas. Olha aquela fila de salgueiros, 
alm. Brilham como se j ardessem! E mais alm, a 
linha negra e irregular do horizonte com aquela cor 
viva atrs de si! Wayne, o vento escalda-me as 
faces. comeo a ter medo.
- Podes estar muito assustada, mas o medo no te 
impede de
ser potica - respondi-lhe.
                132
-        A vm os rapazes com o carroo e os cavalos, 
saiamos do
caminho. Anda, Ruby, se encontrarmos poas de gua 
ou de lama, transportar-te-ei.
Mas, escolhendo com cuidado o caminho, chegmos  
lngua de
areia sem incidentes. Constava de uma extenso de 
quase meio acre de areia e cascalho comprimidos, em 
cuja orla a gua corria. Pareceu-me que tivramos 
sorte e perguntei a mim prprio o que se passaria 
com os outros carros. Depois voltei-me para ver 
como se arranjavam os meus camaradas.
Shaw vinha  frente, montado no seu cavalo e a 
puxar os
outros dois. Ouvi-o dar instrues a Darnell, que 
conduzia os bois, e vi que Lowden os acompanhava a 
p. Ao chegarem ao fim da descida a parelha 
enterrou-se at aos joelhos, mas isso no 
atrapalhou os robustos animais, que continuaram a 
abrir caminho mesmo assim. Quando, porm, o pesado 
veculo chegou  zona de areia solta, as rodas 
afundaram-se at aos eixos e deixram de rodar.
- Jack, monta a cavalo e desenrola o lao! - 
ordenou Shaw. -
Temos de ajudar a arrancar o carro daquele buraco.
        Observei ento, com interesse, como os vaqueiros 
prendiam os laos ao veculo e ajudavam os bois a 
tir-lo daquele lugar. Conseguiram-no por fim,  
custa de tremendos esforos, e em breve, carro, 
provises e animais se encontravam connosco, em 
segurana, na lngua de areia slida.
        Shaw desmontou e, com a ajuda de Jack, prendeu os 
cavalos s rodas do carroo. O primeiro observou 
que estaramos bem ali,
a        no ser que houvesse um ciclone. J no era, no 
entanto, to
optimista acerca dos outros carros, opinio que 
Lowden compartilhava. Vamos ainda as fogueiras 
arderem no acampamento grande, onde ia enorme 
actividade, mas, ao que parecia, nenhum veculo 
comeara a dirigir-se para o rio.
133
        - Se no se despacham, vai haver sarilho com 
algum observou Shaw.
- Ns temos o melhor local destas proximidades - 
afirmou
Jack. - Ainda c cabiam mais dois ou trs carros.
        Que dizes, compincha?
- Est bem, vai depressa dizer a Mr. Creighton que 
traga
para aqui o seu e mais dois, um dos quais deve ser 
o dos mantimentos.
        Lowden no perdeu tempo e no tardou a 
desaparecer, a caminho de terra. Shaw observou 
ento que ia acender uma fogueira, pois apesar de 
irmos, talvez, sentir calor de rachar, por enquanto 
o frio cortava. Mandou-me pegar numa p e levantar 
uma parede de areia atrs do nico macio de 
salgueiros que havia na pequena ilha, enquanto ele 
e Tom iam a terra procurar lenha.
        Ruby desceu do banco do carro e foi para junto de 
mim, sentindo-se provavelmente solitria e 
assustada. A sua cara bonita, manchada de escuro 
graas s artes de Shaw, cada vez brilhava mais. O 
fogo no devia estar muito longe.
- Wayne - murmurou timidamente -, lembrei-me agora 
de que,
outro dia, na Trilha, te vi sair do acampamento 
quando o Sunderlund e a filha chegaram. O Vance 
tambm viu. Por que o fizeste?
        - Bem, Ruby, no  uma longa histria.
- Nunca pensei que pudesses ter medo de qualquer 
rapariga -
disse baixinho, como se falasse consigo. prpria.
        Contei-lhe ento francamente como vira Kit 
Sunderlund pela primeira vez, que pensara tratar-se 
de amor  primeira vista, que essa desconfiana se 
confirmara no dia em que a salvara e que me sentira 
no stimo cu at Vance me arrastar para terra com 
as coisas que me dissera.
        - Mas, Wayne, ele  um vaqueiro! - protestou. - 
Ser um prncipe, o melhor rapaz do mundo, mas no 
deixa de ser um vaqueiro, e os vaqueiros no 
percebem nada de raparigas.
134
Disse-me que estivera apaixonado pela Kt e que 
sabia no ter a        mnima possibilidade 
de sorte com ela.
        - Ruby, s uma jia de pequena por me falares 
assim afirmei, comovido -, sabendo que o Vance 
andou doido por ela. No tens cimes, mas desconfio 
que o Vance os teve de mim.
- No acredito, Wayne. Mesmo que a amasse mais do 
que a mim,
 demasiado nobre para isso. Preferiria morrer a 
demonstrar zelos - afirmou, com convico.
        - Confesso que seria agradvel encontrar uma 
brecha no carcter cheio de virtudes desse 
vaqueiro. Bem, gostaria de saber o que teria 
acontecido se naquela noite no faltasse ao 
encontro com Kit Sunderlund. e daria muito para 
adivinhar como procederei se alguma vez voltar a 
encontr-la.
- O mais certo  encontrares, Wayne, a caravana no 
pode
estar muito  nossa frente.
Os vaqueiros voltaram, cada um com um braado de 
lenha com a
qual Shaw acendeu a fogueira. Apesar do quebra-
vento de areia, as chamas ergueram-se, altas, e 
voaram falhas por todos os lados. Com a conversa 
nem me apercebera de que tinha as mos quase 
dormentes de frio. O calor da fogueira soube-me por 
isso bem. Aprendia que no estril Leste as pessoas 
ignoravam o que era sentir fome, exausto e frio, 
para no falar em medo.
- Tom, pega num balde e enche-o de gua, antes que 
fique
toda suja - ordenou Shaw. - Wayne, vai tambm 
buscar sacos de lona.
        Enquanto enchamos os recipientes, verifiquei 
pela reflexo do cu na gua que estava quase to 
claro como se fosse dia, embora a luz se 
apresentasse avermelhada. Shaw endireitou-se, com 
um balde na mo, olhou atentamente para as bandas 
do norte e        depois voltou o 
ouvido para o vento.
135
        - Est muito mais claro - murmurou -, e tenho o 
nariz entupido. Ainda no ouo nada, mas o vento 
sopra forte e se aumenta de intensidade temos o 
fogo em cima de ns em menos de um ai! Quem me dera 
que Creighton e os outros comecem a deixar o        campo! 
Nota o que eu digo, Tom: se no se despacham 
perdero
alguma coisa.
        Voltmos para o carro e cobrimos cuidadosamente 
os baldes. A ventania era agora to forte, que 
tnhamos de gritar para nos ouvirmos uns aos 
outros. Pouco depois, um estalar de mato na margem 
e o grito de um cocheiro aos bois indicou-nos que 
se aproximava um carro. Chegou finalmente  ladeira 
e, com a ajuda de Lowden, alcanou a nossa ilha e 
instalou-se na ponta inferior. O homem conduziu a 
parelha at a gua lhes chegar aos joelhos.
A partir desse momento, gritos de outros homens e 
estalar de
arbustos atestaram que mais carros se aproximavam 
do rio. Vimos um a cerca de quinze jardas de ns, 
do lado de baixo, ter dificuldades para no se 
enterrar na areia. Do lado de cima, carro aps 
carro entrava no rio, ficando uns na gua e outros, 
mais afortunados, em lnguas de areia.
        Tnhamos claridade suficiente para vermos tudo 
distintamente, mas o claro vermelho dava s coisas 
um aspecto estranho e irreal. Aproximou-se outro 
carroo, que ocupou a parte superior da nossa 
ilha.
Quando voltei de novo o olhar para o norte, no 
consegui
desvi-lo do espectculo que se me oferecia.
A paisagem modificava-se. O cu adquirira a cor das 
chamas,
o        que significava a aproximao do incndio que o 
temporal
ateava. Acima do rugir do vento, o estalar do mato, 
o amontoar dos bois na margem, o gemer das rodas, o 
chiar dos carros e as vozes roucas e excitadas dos 
homens demonstravam que era difcil entrar no rio o 
necessrio para ficarem em segurana. 
- Vento a cerca de quarenta milhas - gritou Shaw.
                        136
No se pode dizer que seja muito, mas para ns  
demais. O pior  que se torna cada vez mais forte. 
E se est frio, meu Deus!
        Rubi parecia fascinada pela proximidade da 
tragdia. Agarrava-se ao meu brao, de olhos fixos, 
a chorar, a chorar. Pouco depois, em toda a 
extenso onde o negro do horizonte se fundia com o 
escarlate do cu, ergueram-se nuvens de fumo que 
arrancaram gritos das gargantas dos vaqueiros. A 
rapidez com

que subiam espantava-me e dava uma ideia da fora 
do vento. Em poucos momentos um quarto do cu 
vermelho ficou oculto
pelas nuvens, que cresciam como cogumelos 
gigantescos, maravilhosamente belas nas suas cores 
de amarelo, negro e branco. A todo o instante 
esperava ver as labaredas irromperem.
Na base dessas nuvens surgiu uma linha brilhante, 
que se
intensificou, e Jack, que se empoleirara em cima do 
nosso carro, soltou um grito prenunciador de alguma 
coisa terrvel que os meus olhos ainda no viam.
- J vejo, Vance! - exclamou. - Vai ser o diabo, 
amigo!
Creio que, se no nos metemos  gua, estamos 
prontos!
- No! - gritou Shaw, voltado para norte, com o 
rosto magro
e        srio de um vermelho luminoso. - Apanharemos um 
escaldo e
ver-nos-emos doidos com o gado, mas aqui as nossas 
vidas estaro salvas.
        Tom trepou para a grande roda ao lado do banco do 
cocheiro e, agarrado ao arco da lona, soltou vrias 
exclamaes de espanto, se no de medo. E eu que 
supunha no haver nada que metesse medo aos 
vaqueiros! Tinha a pele toda arrepiada e o peito 
oprimido por uma comoo com que aprendera a 
familiarizar-me na fronteira.
        - Thoopee! - berrou Lowden, do topo do carro.
137
Um instante depois, como por magia, vi em toda a 
lnha do
horizonte erguerem-se as pontas arqueadas das 
chamas, num espectculo que tinha qualquer coisa de 
sobrenatural. Os saltos constantes das labaredas 
demonstravam a fora implacvel do vento e do fogo. 
To depressa os olhos as divisavam pela primeira 
vez, erguiam-se muito acima. do solo, num jorro de 
luz infernal. S ento compreendi o que significava 
um incndio na pradaria.
        Era uma monstruosa parede gnea, de chamas que 
avanavam a velocidade furiosa e incrvel, 
constantemente atiadas pelo soprar do vento. 
Maravilhosa e inacreditvel era a maneira como o 
fumo jorrava para o cu, se transformava em nuvens 
que cresciam e formavam uma imensa cortina de 
infinitas tonalidades, um dossel que subia e 
avanava para ns com terrfica celeridade.
        Shaw reuniu-se-nos e gritou, com voz vibrante:
- No tarda que esteja em cima de ns! Ouam-me 
aquele
rugido!
        Apercebi-me, de facto, de um som abafado e 
estranho, que crescia de volume enquanto o 
escutava. Nunca ouvira nada que se lhe 
assemelhasse. A parede de fogo, coroada pelas 
lnguas vermelhas e irrequietas das labaredas, no 
estava a mais de meia milha de ns e aproximava-se 
vertiginosamente. Naquele 
momento as chamas encontravam-se  altura do meu 
campo visual, embora aqui e ali irrom pessem de 
sbito em saltos fericos. O mato mais espesso e 
mais grosso e a erva que ladeava o rio aumentariam, 
sem dvida, o alcance das labaredas.
        Agora, sob a intensa luz que tudo banhava, a 
margem oposta parecia mais prxima, e o perigo 
residia, para ns, na possibilidade de as flamas 
nos alcanarem e envolverem, caso em que estaramos 
perdidos. Mesmo que mergulhssemos nas guas o
        calor ser-nos-ia fatal. Tinha esperana, no 
entanto,
                        138
de que as labaredas no se aproximassem a ponto de 
tornar
insustentvel a nossa posio.
        Distinguia j pequenos bocados de madeira 
incandescente e milhes de centelhas a voarem 
baixo, diante do vento, os quais certamente 
atravessariam o rio e pegariam fogo ao mato da 
outra margem. A parede de fogo, as labaredas 
bifurcadas e o crescente rugir aproximavam-se 
implacavelmente e mantinham-nos como que fascinados 
e emudecidos.
Sentia as mos pequenas de Ruby apertarem-me o 
brao como
tiras de ao. O espectculo atingira o mximo da 
sua grandiosidade apavorante quando o fogo se ateou 
na erva espessa e no restolho da beira-rio. Ouviu-
se uma tremenda exploso e imensos jorros de fumo, 
falhas e chamas subiram no ar, de mistura com um 
rugido sibilante e avassalador, como jamais 
imaginara possvel. Vi bandos de pssaros em voo 
desordenado e centenas de coelhos americanos e de 
outros animais, alguns deles coiotes e antlopes, 
fugirem como fantasmas no meio da claridade 
sobrenatural, saltarem a margem e        desaparecerem. 
Reparei que alguns antlopes nadavam na
extenso avermelhada do rio.
Era uma magnfica, diablica e estarrecedora 
tempestade de
fogo que ocultava por completo a terra e chegava a 
meio do rio. O fumo envolvia-nos j e ocultava uma 
torrente de lascas de madeiras incandescentes que 
voavam nas asas do vento.  nossa roda caam brasas 
to grandes como as minhas mos. Os bois agitavam-
se sob as cangas e os vaqueiros esforavam-se por 
acalmar os cavalos assustados, que tinham sido 
protegidos com cobertores e oleados.
        A vaga de calor alcanou-nos, por fim, como se 
nos ressequisse. Ruby caiu de joelhos diante do 
carro e eu, com as pupilas a arder, esforcei-me por 
olhar um pouco mais, para ver o        espectculo 
pavoroso do fogo chegar  beira de gua e ficar
obscurecido por nuvens de poeira e de fumo. Tapei a 
cara em brasa com o leno e ajoelhei-me,
                139
aterrorizado, mas sem deixar de ouvir o frentico 
rugir da nortada e do incndio.
        Medidos pela minha angstia e pelo meu terror, os 
momentos culminantes da tragdia pareceram-me 
infinitamente longos e torturantes. A pouco e 
pouco, porm, o rudo diminuiu, atravessou o vazio 
que havia entre ns e a margem e aumentou de 
intensidade pelas nossas costas. Compreendia que o 
vento que trouxera o fogo o levava agora para longe 
de ns.
        Ouvi de novo os homens gritarem. Abri os olhos, 
des tapei o rosto e mais uma vez prestei ateno ao 
que me rodeava. O pavoroso rugido afastava-se, o 
que predominava agora na ilha era obscuridade e 
fumo. Tornara-se difcil respirar e na margem mais 
prxima os salgueiros mostravam ainda os ramos 
estendidos, em brasa. Aqui e ali, no cho, ardiam 
pequenas fogueiras. A onda devastadora passara, 
deixando atrs de si pouco que servisse de pasto s 
chamas.
        Rio acima e rio abaixo os homens afadigavam-se e 
gritavam, roucos, atiravam gua para os carros que 
ardiam, esforavam-se por segurar os bois 
enlouquecidos, deitavam ao rio objectos ou postes 
telegrficos incandescentes.
        Shaw, que trabalhava desenfreadamente, gritou-me 
que acordasse e apagasse o fogo que consumia o topo 
da lona do nosso carro. Agarrei num balde, corri 
para a gua, e vi Lowden agarrado aos bois, que no 
tinham escapado  loucura geral.

- Atira gua para cima deles, compincha! - 
gritou-me.
        Fiz-lhe a vontade, com a rapidez de que fui 
capaz, e os animais aquietaram-se ao apagarem-
se as brasas que lhes queimavam o dorso. Enchi 
de novo o balde e corri para o

veculo, em cima do qual Darnell apagava  pancada 
os pontos que ardiam.
- Aqui! - gritou-me. - Deita alguma aqui. No te 
importes
comigo, tambm preciso. Devo estar transformado em 
cinza! Despeja aqui e corre, vai buscar mais.
        Shaw, que lograra tranquilizar o seu cavalo, 
pegou noutro balde e ajudou-me, enquanto Jack 
continuava agarrado aos bois. Depressa apagmos os 
focos de incndio do interior e  volta do 
carroo, e depois tommos flego e observmos o 
que se passava nas proximidades. Corremos em 
auxlio do cocheiro do carro abaixo do nosso, que 
gritava desesperadamente por socorro.
O par de horas que se seguiu foi um autntico 
pesadelo. Numa
extenso de duzentos metros rio acima, os veculos 
estavam em muito mau estado, com grande parte das 
lonas totalmente queimadas e o contedo avariado. 
Tinham ficado na margem muitos carregamentos de 
postes telegrficos, que haviam pegado fogo. 
Creighton bramia, inconsolvel, e esforava-se por 
pr os homens a trabalhar em todos os lados ao 
mesmo tempo, a fim de extinguirem os focos de 
incndio. Parecia no se importar com os carroes 
inutilizados, mas mostrava-se agradecido sempre que 
consegua mos salvar-lhe alguns dos preciosos 
postes.
 meia-noite apagramos todos os fogos e tnhamos 
os cavalos
e        os carros a salvo, na praia. Deixmos o nosso na
ilhotazinha, mas desatrelmos os bois e tirmo-Lhes 
as pesadas cangas. Ruby no deixara apagar a 
fogueira que acendramos ao princpio, e admirei-me 
de que, depois do calor de fornalha que nos 
torrara, me soubesse bem aproximar-me dela. Sentei-
me a        aquecer as mos 
dormentes e mais admirado fiquei ao ver Ruby
rir-se de mim:
- Ests bonito! Roupa rota, as mos e a cara 
mascarradas.
Oh, fazes um visto! Wayne, podes tratar-me das 
queimaduras das costas?
- Claro que posso, Ruby. Mas deixa-me primeiro 
tomar flego
140  141
e        lavar as mos. Aposto que no s a nica com 
queimaduras
para tratar.
        O vento forte arrastara o fumo e s em poucos 
lugares se viam ainda algumas brasas quase 
extintas. Era de novo noite, as estrelas tinham 
voltado a brilhar e a nortada, embora continuasse a 
soprar, tornara-se menos violenta. O espectculo 
belo e apavorante de pouco antes parecia ter sido 
um pesadelo, mas as minhas prprias queimaduras 
demonstravam-me que fora um facto.
        Tratei de Ruby  luz da fogueira, o melhor que me 
foi possvel. Tinha uma queimadura grande no meio 
das costas, que na minha opinio deixaria uma 
cicatriz. Pus-Lhe leo e salva e liguei-a com tiras 
de linho macio.
- Tens umas costas maravilhosas, brancas e macias 
como
veludo, mas creio que vo ficar marcadas.
        - Bem me importo! Nunca mais voltarei a exibi-las 
nuas, acabei de vez com o negcio do baile. Muito 
obrigada, Dr. Wayne, pelos seus amveis servios, 
mas deixe-me dizer-lhe que por nada queria que me 
consertasse as pernas se as partisse!

- Grande ingrata! Sempre gostaria de 
saber porqu!
        - Porqu? Porque no s nada delicado, 
a tens!

- Deves ter razo - aquiesci, pesaroso - mas as 
minhas
prprias mos esto queimadas e por isso custa-
me mex-las bem, Para no falar no cansao.
Estava escrito, porm, que no haveria descanso 
para os
fatigados. Quase todos tinham queimaduras e 
pequenos

ferimentos que precisavam de ser cuidados e apareceram a 
reclamar os meus servios, um a um. Ruby deitou-se, mas os 
rapazes ficaram a p e ajudaram-me o mais que puderam, 
sobretudo mantendo a fogueira acesa, para eu ter luz e no 
gelarmos.
        O carro de Creighton no escapara ileso e precisava de 
vrios remendos na tela, e o prprio chefe tinha uma perna 
muito queimada.
                142
Na sue ansiedade para salvar os preciosos postes 
telegrficos, cara sobre um carvo em brasa e queimara-se 
com gravidade abaixo do joelho. Enquanto o tratava no 
deixavam de aparecer homens a dar-lhe notcias, e quando 
acabei o penso e lhe fiz uma observao acerca da catstrofe 
limitou-se a sorrir e a dizer:
- Apenas um incidente nos trabalhos de montagem da Western
Union, meu rapaz. Tu, porm, foste de grande utilidade.
        Shaw acompanhou-me de carroo em carroo, e tantos eram 
os homens feridos que rompia j a madrugada quando 
regressmos ao nosso acampamento.
        - Camarada,  melhor tentarmos dormir um bocado, pois to 
certo como estarmos aqui o Creighton querer-nos- a trabalhar 
ao nascer do sol, como se nada acontecesse.
        Apesar das dores que me atormentavam, a extrema fadiga 
ajudou-me a adormecer imediatamente e o sol nascera havia 
muito quando acordei. Os rapazes cozinhavam o pequeno-almoo. 
A        paisagem enegrecida e nua que nos rodeava por todos os 
lados
encheu-me de espanto. O espectculo desvaneceu-me 
definitivamente a sensao de que se tratara tudo de 
pesadelo. No entanto, estvamos alegres.
- Acredita, querida, que no foi mau teres-te relacionado
com o fogo - disse Shaw a Ruby, com o seu humor frio. - Para 
onde irs, um dia, ser sempre como a noite passada.
- Referes-te ao inferno, vaqueiro sem corao? - replicou a
jovem. - Pois fica sabendo que no me faltar companhia. Tu e 
os teus compinchas, com excepo talvez do Wayne, estaro 
comigo e tentaro conservar-se frescos.
        - No creio que o Wayne se salve - volveu Shaw, com uma 
careta. - Segundo todos os indcios, est destinado ao 
inferno como todos ns.
                143
- Se queres que te diga - interveio Lowden - teremos todos o
nosso inferno aqui e, depois, o cu por recompensa.
Dirigi-me ao novo acampamento, a fim de pedir a Creighton
ordens, mas encontrei-o atarefadssimo e deduzi pelo estado 
dos carros e dos bois que seria impossvel recomear o 
trabalho de construo naquele dia. Liligh no aparecera e 
ignorava-se por isso o que lhe acontecera e aos seus homens. 
Tudo indicava que os fios e os postes j montados no caminho 
do fogo haviam sido destrudos.
        Ao regressar falei com Herb Lane, o qual foi de parecer que 
o        patro formaria uma caravana com todos os carros e homens 
em
bom estado e os mandaria reparar a linha.
        Preparava-me para mudar de roupa, pois a que vestia estava 
em frangalhos, quando um mensageiro veio ordenar-me que me 
apresentasse imediatamente no carro de Creighton, com a caixa 
dos socorros.
- Aposto dez contra um em como vais ter de tratar de Liligh
e        dos seus homens - garantiu-me Shaw, com secura. - Tenho
tambm o pressentimento de que a caravana do Sunderlund 
precisar de ti, pois viajavam sem mdico. Se os carros deles 
estavam no caminho do fogo, devem encontrar-se em estado 
lastimoso...
- Vance, parece-me que no chegarei para tanto - repliquei,
pensativo. - Claro que irei se Creighton mo ordenar, mas no 
me falta aqui que fazer.
        Ruby aconselhou-me, maliciosa:
- Wayne, faz-te esperto e finta a rapariga dos olhos cor de
violeta!
        Corri pelo cho enegrecido para o novo acampamento de 
Creighton e, antes de chegar ao carroo do chefe, vi uma 
carruagem de rodas altas e uma parelha de fogosos cavalos 
negros que facilmente reconheci.
                        144
        Shaw no se enganara. Encontrei Creighton a falar com o 
cocheiro da carruagem, o qual estava ainda sentado no seu 
lugar.
- Cmeron, veio um pedido urgente de auxlio da caravana de
Sunderlund. Alguns homens sofreram queimaduras graves e 
sobretudo a filha do meu amigo precisa dos seus servios. V 
e faa o que puder por eles. Este mensageiro encontrou Liligh 
no caminho e verificou que ele e os homens no sofreram muito 
com o        fogo. Quando voltar procure-o e 
depois d-me notcias.
        Aquiesci em poucas palavras, subi para a carruagem e pus a 
maleta debaixo do banco. Encontrava-me dividido entre o 
desgosto e irreprimvel excitao.
Miss Kit Sunderlund est ferida e chamaram-me para trat-la
-        pensei para comigo.
Partimos. A parelha de cavalos pretos parecia disposta a
vencer as milhas velozmente.
- Tivemos uma noite m, por aqui. - observei, para abrir
conversa. - Como se aguentou a caravana de Sunderlund?
        - Passmos o pior bocado desde que partimos do Texas -
respondeu-me o cocheiro, que era um jovem robusto com mais 
caractersticas de cocheiro do que de vaqueiro. - O nosso 
acampamento erguia-se dez milhas a jusante do rio, a contar 
daqui, e alguns dos carros encontravam-se em m posio, mas 
a maioria estava em terreno nu. O vento soprava com fria e o 
fogo metia medo, mas a relva e o restolho eram pouco bastos. 
De contrrio no teramos escapado vivos.
        - No foram para o rio com os carros, como ns?
- Alguns homens assim fizeram e saram-se bem, apenas com
algumas lonas queimadas. Os carros que ficaram no mato e 
encalhados na areia  que sofreram mais.
- E os cavalos de Sunderlund e a grande manada de gado?
145
- O gado fugiu como o demnio e desapareceu, e foi preciso
um homem para aguentar cada cavalo. Esta manh partiram 
cinquenta cavaleiros para rodear as reses, embora tenha 
poucas esperanas de que o consigam. Antes de o fogo chegar 
ao rio, um dos nossos batedores anunciou que um grupo de 
ndios Cheyennes, segundo julgava - andava perto do 
acampamento. Estamos quase na rea deles e hoje em dia os 
Cheyennes mostram-se hostis com os brancos.
        - Cheyennes! - exclamei. - Como se j no tivssemos
complicaes suficientes!
-  verdade. Ouvi o Sunderlund dizer que estava satis feito
por o gado ter fugido. de contrrio teria morrido todo 
queimado. Temos uma boa quantidade de tipos entendidos em 
gado na caravana e se a manada no se afastou muito talvez 
consigam reuni-la.
        - So muito graves os ferimentos de Miss Sunderlund? -
atrevi-me finalmente a perguntar, embora o desejasse desde 
que partramos.
- No sei, doutor. Estava no carroo - tem um carroo s
dela, todo arranj ado convenientemente -, deitada e 
acompanhada pela criada. Mas Sunderlund deu-me pressa. 
Remeti-me a um silncio meditativo e preocupado. Desejava
sinceramente que a rapariga no tivesse mais do que 
queimaduras superficiais. A cerca de cinco milhas do nosso 
acampamento vi os crros de Liligh e os seus homens a 
trabalhar. Lembrei-me de que a sua misso consistiria em 
trabalhar  nossa frente, esticando fio e abrindo buracos. Os 
homens viram-nos passar e Liligh acenou-me. Daquele ponto em 
diante a devastao causada pelo incndio comeou a diminuir. 
Depois de corrermos algumas milhas mais, distingui uma 
longa
fila de carroes cobertos de branco e boa quantidade de bois 
na plancie, a pastarem, embora no me parecesse que o pasto 
abundasse.
                146


Pouco depois encontrava-me na presena de Mr. Sunderlund e
de vrios dos seus scios, que j conhecia.
        No me restaram dvidas acerca do bom acolhimento que me 
dispensaram. Sunderlund deu-me um aperto de mo e informou-se 
conscienciosamente de como resistira a caravana de Creighton. 
Depois de o pr ao corrente do que sofrramos, declarou-me 
que a        sua gente no sofrera 
ferimentos graves, mas que perdera
mantimentos, alguns carros e todo o seu gado.
        - E Miss Sunderlund? - indaguei. - Como est ela?
        - Venha comigo ao seu carro. Kitty tem um p muito 
queimado. Depois de o fogo nos ter ultrapassado, andou por a 
s escuras a        tentar ajudar e entalou o 
p entre uns ramos que ainda
estavam em brasa. No conseguiu tir-lo logo e s passados 
momentos ouvimos os seus gritos e pudemos ajud-la. Ficar-
lhe-ei muito grato se a tratar, Cameron.
O carro junto do qual me conduziu no era to grande como o
seu, mas mais pretensioso, mais bem tratado. Percebi 
imediatamente que o cocheiro no mentira acerca da casa de 
rodas de Miss Sunderlund. Subia-se para a entrada tapada com 
cortinas por um plano inclinado, e uma criada negra, forte, 
apressou-se a responder ao chamamento de Mr. Sunderlund. Este 
mandou-me subir, agradeceu e afastou-se.
        O carro tinha vrios compartimentos. No do centro, 
confortavelmente, para no dizer luxuosamente, mobilado, 
encontrava-se Kit, metida na cama e com a cabea apoiada em 
almofadas. Da cobertura leve emergia um p desajeitadamente 
ligado. O seu rosto, que eu recordava bronzeado, estava 
plido, e nos seus olhos cor de violeta havia uma expresso 
de dor. Envergava uma vestimenta branca qualqur,
                147
com mangas at aos cotovelos, e o seu aspecto fez com que o 
corao me batesse mais depressa.
- Bonsdias, Miss Sunderlund! - cumprimentei-a alegremente,
depositando a maleta numa cmoda. - Espero que no esteja 
muito queimada.
        - Tenho muitas dores, mas quero que compreenda que no fui 
eu que o chamei - e o tom de irritao e de altivez da sua 
voz surpreendeu-me e magoou-me.
- Deve saber que foi seu pai que me pediu que a tratasse -
respondi-lhe. - No sou mdico, mas tentarei ajud-la.
        - Obrigada. Claro que foi amvel em vir. S queria que 
soubesse que no o chamei. Marta, abre as cortinas para 
entrar mais luz, e fica perto pois o doutor pode precisar de 
ti.
        - S precisarei de uma panela de gua quente.
        Depois, sem olhar para a rapariga, abri a maleta e tirei as 
ligaduras e os remdios necessrios. Puxei um banco estofado 
e murmurei, no tom mais profissional que me foi possvel 
arranjar:
        - Agora tratarei desse p.
        Kit Sunderlund puxou um pouco mais para cima a coberta, 
expondo o p direito e o tornozelo bonito. Foi-me impossvel 
no a olhar e por isso no me passou despercebida a expresso 
de dvida e de desdm dos seus olhos cor de violeta. No 
seria humano se no me sentisse magoado, mas comecei a 
trabalhar calmamente.
        Tirei a ligadura, o que provocou alguns protestos 
exagerados, e verifiquei que a queimadura era no dorso do p, 
superficial e sem gravidade, mas com certeza muito dolorosa. 
Tinham-se pegado  carne viva fios da ligadura, os quais fui 
obrigado a extrair cuidadosamente, com gua quente, tarefa 
impossvel de realizar sem a magoar. A certa altura 
perguntou-me, com falso ar de doura:

- Em Harvard estudou Medicina boa para os 
cavalos? Ignorei o comentrio, mas por momentos 
esqueci-me de
trabalhar com delicadeza, o que de resto era 
difcil, devido ao estado em que tinha as mos.
- Est a magoar-me! - gritou. - Bruto! Para que 
demora tanto
tempo? Vai ficar a todo o dia?
        - Miss Sunderlund, avisei-a de que no era mdico 
repliquei com a dignidade que me foi possvel. - 
Estou a trabalhar o mais delicada e rapidamente que 
posso. Alis no desejo prolongar a operao. Tem 
um bonito p e um tornozelo bem feito, faz uma 
bonita figura no seu boudoir sobre rodas, mas 
francamente isso no significa nada para mim. Tive 
tanta vontade de vir como voc de chamar-me.
- No pode despachar-se e pr-se a andar daqui para 
fora? -
gritou, muito corada.
        - Despachar-me-ei se estiver quieta e deixar de 
fazer comentrios desnecessrios acerca do meu 
trabalho.
        - Mas est a magoar-me!
        - Claro que estou a mago-la, a queimadura  
grande. Durante um ms no poder calar sapato nem 
bota neste p - declarei, com certo exagero. -  
uma criana incapaz de suportar uma dor?
- Mr. Cameron,  to rude e grosseiro de palavras 
como de
aspecto e aces!
- Que esperava, rapariga? - perguntei-lhe furioso. 
- Lutei
com o fogo at  meia-noite e tratei de feridas at 
de madrugada.
- Muito nobre da sua parte, Mr. Cameron, mas no me 
parece
que esteja a ajudar-me muito - replicou, 
sarcstica.
- Oh, cale-se! - ordenei, de cabea perdida. - 
Comeo a
acreditar no que ouvi a seu respeito.
        A afirmao pareceu atrapalh-la um pouco.
148  149
Untei o ferimento, liguei-o Convenientemente, 
voltei-me para a cmoda e comecei a guardar as 
minhas coisas, ao mesmo tempo que recomendava, em 
tom natural:
- Pronto, daqui a bocado sentir menos dores. 
Aconselho-a a
no tirar a ligadura durante um ou dois dias e a 
no andar sobre o p.
- Meu pai pagar-lhe- o incmodo e o tempo que 
perdeu, Mr.
Cameron.
        A observao fez-me rir. No havia dvida de que 
a  rapariga estava furiosa comigo o que me parecia 
muito pouco razovel. Felizmente o rubor que sentia 
na cara impediu-me de olh-la, coisa que ansiava 
por fazer, e portanto no me deixei trair. Demorei-
me propositadamente a arrumar as coisas e depois 
entreguei a panela da gua quente  criada.
- Por que no cumpriu o compromisso que tomou 
comigo, no dia
em que nos conhecemos? - indagou, num tom que 
transformava a pergunta num desafio.
        - Por que lhe parece que foi, Miss Sunderlund?
        Desta vez olhei-a. As rosetas tinham-lhe 
abandonado as faces, que estavam de novo plidas, e 
havia nos seus olhos brilhantes um fulgor de luta. 
Senti curiosidade pelo que me parecia um exagero da 
sua parte, pois dava importncia demasiada ao 
incidente, e pensei que, afinal, talvez tivesse 
desejado tanto ver-me a mim como eu desejara v-la  
a ela.

- Nunca na minha vida tive maior vontade de 
cumprir um
compromisso tomado com uma rapariga - afirmei.
        - E como julga que o senti? - indagou, 
desdenhosa.
        - No sei o que sentiu, mas imaginei-o. Ouso 
afirmar que o encontro romntico daquele dia no 
passou de um incidente na

sua vida, mas para mim teve tremendo significado. 
Quando a vi pela primeira vez no banco do carroo 
fiquei profundamente impressionado e incapaz de 
esquec-la, comecei a esperar
                        150
e        a crer que ainda nos encontraramos outra vez. E 
a m sorte
quis que assim fosse! Ao saltar para os meus braos 
em Gotemburgo e ao atirar-me para a poeira do 
caminho, compreendi que me apaixonara por si  
primeira vista!
        - E demonstrou-o muito bem - replicou, trocista. 
- Mas ignorou a oportunidade que lhe ofereci e 
agora fala como se no passasse de um vaqueiro.
- Bem, se aprendi a pensar e a falar como um 
vaqueiro,
confesso que me sinto orgulhoso.
        - Que Lhe disse Vance Shaw a meu respeito? - 
perguntou-me, sentando-se na cama e deixando a 
coberta revelar um pouco mais da sua beleza, o que 
teve o condo de aumentar a minha perturbao.
        - Disse-me muitas coisas.
- Fao ideia, por isso escusa de rebaixar-se a 
repeti-las.
Se soubesse o que so vaqueiros compreenderia como 
uma rapariga tem de proteger-se.
        - O facto de os vaqueiros serem volveis, ou 
pior, no justifica que brinque com os seus 
sentimentos. Shaw disse-me que fazia com que a 
amassem, mas sem a mnima inteno de corresponder-
lhes.
-  verdade, Mr. Cameron. Gostava de todos os 
vaqueiros. Mas
sempre esperei vir um dia a conhecer um, ou 
qualquer outro jovem, que me fizesse gostar a 
srio. E que aconteceu quando o encontrei? 
Verifiquei que era ainda pior do que os vaqueiros. 
- Que quer dizer, Kit Sunderlund? - indaguei, 
deixando a
curiosidade sobrepor-se  clera.
        - No  to inteligente nem to subtil como 
parece  primeira vista. Pode ser de Boston, ter a 
educao mais refinada do Leste e haver estudado em 
Harvard, mas  ainda mais desprezvel do que os 
vaqueiros, at mesmo mais do que o Shaw.
151
- Posso perguntar-lhe porqu? - inquiri com 
serenidade,
embora fervesse interiormente.
- Pode perguntar e eu responder-lhe-ei! - Uma onda 
escarlate
subiu-lhe do pescoo s tmporas e os seus olhos 
assemelharam-se a dois diamantes duros e azuis. - 
Quando fui procur-lo ao vosso acampamento, com meu 
pai, e no o encontrei, fiz uma descoberta: viajava 
com vocs uma rapariga disfarada de rapaz! Vi-a! 
Estava na retaguarda do carroo, meio despida, e 
apressou-se a esconder-se, mas eu vi-a! Era uma 
rapariga, e uma rapariga nova e bonita. Vivia com 
vocs todos no carro, e ou voc a compartilhava com 
os seus amigos vaqueiros, ou eles consigo!
- Viu, ento, a Ruby! E pensa uma coisa dessas! - 
Falei num
tom desdenhoso como o dela, mas que devia no 
entanto traduzir sincero espanto.
        - Sim,  isso que penso!  capaz de negar?
        - Para qu? Parece servir-se das suas 
prerrogativas femininas e eu no consigo divisar o 
cavalheirismo sulista que caracteriza os texanos.
        - Mas eu sou uma sulista sentimental e no poucas 
vezes essa fraqueza me custou caro. O que no sou  
idiota! Se o facto de

ter visto essa danarina de salo no vosso carro 
no bastasse para elucidar-me, bastaria saber que 
disseram a meu pai, em Gotemburgo, que voc 
mostrara grande interesse por Ruby e a tirara da 
espelunca onde trabalhava!
-  verdade, Miss Sunderlund, tirei-a de l e 
orgulho-me
muito disso. Gostaria tambm de inform-la de que 
essa rapariga  muito mais decente do que voc, 
muito mais digna. Bons-dias.
152
                VIII
Na minha fria e amarga decepo quase saltei do 
carro.
Corri para a carruagem que me esperava, sem ver 
Mr. Sunderlund, e disse ao cocheiro que me levasse 
imediatamente para o acampamento dos trabalhos de 
construo.

        Que rapariga diablica aquela! Na minha opinio, 
era absolutamente injusta nas acusaes que fazia, 
mas apesar do ressentimento e da clera que me 
sufocavam no conseguia esquecer os seus olhos 
escuros e altivos, a beleza que a fria acentuara e 
a intimidade dos momentos que com ela acabava de 
passar.
        A viagem de regresso ao acampamento de Creighton 
pareceu-me curta, sem dvida devido ao meu estado 
de esprito. Verifiquei que o patro punha carros 
em andamento e que, como dissera, a catstrofe da 
noite anterior fora apenas outro obstculo vencido.
        Shaw andava de um lado para o outro perto do 
nosso carroo e        certamente me vira 
muito antes de eu a ele. Ao apear-me, os
seus olhos mediram-me de alto abaixo e tive a 
sensao de que um jorro de luz forte pusera a nu 
as minhas emoes. Contei-lhe sem perda de tempo, 
mas minuciosamente, quanto se passara no 
acampamento de Sunderlund. No fez qualquer 
comentrio, mas a sua garganta estremeceu num 
movimento convulsivo e os risolhos fitaram-se para 
l do rio.
                        153
Furioso, o nico sinal de agitao que o traiu foi 
a maneira como me apertou o brao.
        Comemos imediatamente a trabalhar com mais meia 
dzia de carros na reparao da parte oriental da 
linha que o fogo avariara. Embora imperiosa e 
concisa, a ordem de Creighton demonstrou-nos que 
considerava o nosso grupo capaz de trabalhar sem um 
encarregado. No podia dispensar um homem para 
essas funes de vigilncia, declarou; deixava o 
assunto ao nosso critrio.
        Claro que trabalhmos ainda com maior af, para 
merecermos a confiana que em ns depositava. 
Durante trs dias lutmos com fios torcidos e 
postes calcinados, acampando ao longo do caminho, 
onde quer que a escurido nos alcanasse. No quarto 
dia concluramos a misso e viajmos para oeste, 
saindo assim da zona enegrecida pelo incndio.  
noite reencontrmos Creighton.
        Prosseguimos para oeste com a velocidade 
possvel, chegando a        erigir postes numa 
extenso de sete milhas por dia.
Cruzmo-nos na pradaria com um destacamento de 
trinta drages do Forte Laramie, os quais nos 
informaram de que havia um levantamento de 
Cheyennes e Sioux no Wyoming. O sargento
Kinney comunicou-nos ainda que a caravana de 
Sunderlund nos levava cerca de vinte milhas de 
avano e que apenas haviam conseguido reaver umas 
poucas centenas de reses. Lamentei o coronel 
Sunderlund, pois imaginava que o golpe devia ter 
sido duro para ele.
        Trabalhvamos desde o romper do dia at ao cair 
da noite, mas o trabalho estava longe de ser 
montono, sobretudo desde que encontrramos a 
primeira manada pequena de bfalos e vramos os 
primeiros cavaleiros ndios, magros e selvagens. 
Evitavam-nos, mas espiavam-nos de cima de altos 
penhascos. s vezes comunicavam entre si com sinais 
de fumo, e eu perguntava-me que se passaria na 
mente daqueles peles-vermelhas que no pareciam 
nada amigveis.
154
 noite dispunhamos os carros num crcule no 
interior do
qual acendamos as fogueiras e cozinhvamos, e de 
noite ficavam homens de sentinela.
        Os dias multiplicavam-se em semanas e a linha 
telegrfica estava quase a chegar  fronteira do 
Colorado. Julesburgo, com a        sua fama pouco 
tranquilizadora, ficava a poucos dias. No
seria capaz de citar o muito que esquecera, tanto 
tinha sido, mas algumas coisas haviam-se-me vincado 
na memria inesquecvel - Matara o meu primeiro 
bfalo? e sentia-me orgulhosssimo da sua pele 
maravilhosa de um preto e castanho brilhante. m 
dos mais agradveis incidentes at ento verificado 
fora, quanto a mim, a ocasio em que provara bife 
de alcatra de bfalo. Nunca saboreara carne mais 
saborosa e tenra, com um gosto a caa 
imperceptvel.
Vira tambm o primeiro ndio em flagrante delito de 
derrubar
um fio telegrfico, e atirara sobre ele, falhando 
propositadamente mas obrigando-o a fugir. Sabia que 
o meu aprendizado da fronteira terminaria no dia em 
que matasse um homem, ndio ou branco, e embora no 
tivesse o mnimo desejo de faz-lo compreendia que 
seria inevitvel e resignava-me. 
Sentia-se agora um calor tremendo a meio do dia, 
o que
tornava o labor contnuo quase insuportvel; mas 
ns seguamos sempre para a frente. De vez em 
quando, Creighton mandava-me pregar pregos aguados 
em redor dos postes, a cerca de metro e vinte do 
solo, para evitar que o gado os derrubasse. Darnell 
acompanhava-me com o pesado saco dos pregos e as 
ferramentas, e        eu transportava as 
espingardas. Agora no amos a lado
nenhum sem as armas.
Todos os dias vamos cavaleiros ndios, que 
continuavam a
evitar-nos. No entanto, faziam um grande desvio e 
aproximavam-se da linha telegrfica que amos 
deixando para trs.
                        155
        Observava-os pelo binculo e percebia que con 
sideravam o fio esticado e os postes qualquer coisa 
em que havia mistrio e        perigo. s vezes um 
ou dois desmontavam, sentavam-se ao lado
dos postes e a permaneciam durante muito tempo, o 
que nos intrigava sobremaneira. Por fim Darnell 
decifrou essa charada dizendo-me: "Diabos me levem 
se os estpidos peles-vermelhas no esto  escuta 
do vibrar dos fios!"
        Falei no caso a Creighton e sugeri-lhe que talvez 
nos fosse possvel explorar a credulidade e o 
primitivismo dos ndios se arranjssemos maneira de 
relacionar o fio telegrfico com o Grande Esprito.
        Quando decidiam exercer violncia contra a linha, 
o que acontecia amide, amontoavam detritos de 
bfalo em volta do poste e lanavam-lhes fogo, o 
que raramente produzia qualquer dano. Depois 
tentavam derrub-los com os tomahawks. Claro que 
levavam muito tempo a cortar as vigas verdes com o 
pequeno machado, mas logravam arrastar o fio para o 
cho. As mensagens, porm, continuavam a 
transmitir-se, a no ser que cortassem o fio - o 
que acontecia vezes suficientes para Creighton 
arrepelar os cabelos e ter um carro de reparaes, 
escoltado por soldados, sempre  retaguarda. Os 
peles-vermelhas mostravam ainda o seu ressentimento 
e esprito destruidor prendendo o fio com os 
compridos chicotes e puxando-o para baixo. Liligh 
afirmava que esses pequenos bandos de selvagens 
eram batedores que procuravam bfalos e s nos 
ameaaria um perigo real quando encontrssemos um 
grupo grande de ndios. Alguns destes selvagens 
errantes eram gatunos que,  noite, se introduziam 
num ou noutro carro e roubavam quanto Lhes vinha  
mo, apesar dos guardas. Eram demnios vermelhos, 
magros e escorregadios que, como cobras, rastejavam 
pela relva curta sem fazerem barulho nem 
restolhada.
                        156
        Quando nos aproximvamos do Colorado, passaram 
por ns duas caravanas; uma com cerca de sessenta 
carros, que era o nmero normal, e outra com o 
triplo. Esta, vista de longe a cortar a plancie 
como uma serpente colossal, oferecia um espectculo 
impressionante.
        O seu significado era tremendo: milhares de 
homens e mulheres do Sul e do Este haviam-se 
deixado cativar pela esperana de encontrarem 
melhor vida no Oeste e, com o esprito de pioneiros 
que Lhes era inerente, tinham arrancado as razes e 
metido pelas plancies sem fim. Era o comeo de um 
grande imprio no Oeste.
        Sunderlund fora o nico pioneiro que 
encontrramos a visionar serem as plancies do 
Oeste que subiam para as Montanhas Rochosas o 
futuro paraso do gado que deixaria a desejar 
quantos ficavam para trs. Mas Sunderlund tinha um 
irmo em Wyoming e por ele soubera que o gado ali 
prosperava excepcionalmente.
        Quando falei a Shaw neste assunto disse-me:
        - Soube sempre que assim era; imaginei-o antes de 
aqui chegarmos. Quando vi a abundncia de erva 
compreendi que alimentaria milhes de cabeas de 
gado. Por que no? H milhes de bfalos que, com o 
tempo, sero substitudos por reses. Vai travar-se 
luta acesa entre peles-vermelhas e brancos antes 
que tal suceda, mas ser inevitvel. Viro 
pioneiros e caadores, estes para reunirem peles, e 
os bfalos desaparecero. O Tio Sam ter de 
combater os ndios desde os. Comanches, na minha 
terra, at aos Ps Negros, de Montana. E repito-te 
uma coisa que j disse vrias vezes: quando largar 
este trabalho da Western Union dedicar-me-ei  
criao de gado em grande escala!
Ao anoitecer de um sufocante dia de Vero, de novo 
com falta
de postes, e com os homens, os machos e os bois 
necessitadssimos de repouso, acampmos nas margens 
do South Platte River, em Julesburgo, Colorado.
157

        Estava j demasiado escuro para poder avaliar que 
espcie de lugar era Julesburgo, mas o local onde 
acampramos nem mesmo com a escurido parecia 
agradvel. Tudo quanto via da cidade eram algumas 
luzes amarelas e trmulas. Sentei-me junto da 
fogueira, at esta se transformar num amontoado de 
brasas vermelhas. O ar estava to frio que, apesar 
de j habituado s temperaturas baixas das grandes 
altitudes, tive de vestir o casaco e senti a falta 
das labaredas. Havia muito que os coiotes se 
ouviam, ali perto. Eram animais curiosos, astutos e 
rapinantes, que,  noite, se aproximavam muito dos 
acampamentos. Ouvia-lhes as passadas macias e 
cautelosas e habituara-me inteiramente aos seus 
ladridos penetrantes e encadeados. Mas o grito dos 
lobos da pradaria era diferente: um uivo vido e 
selvagem. Traduzia sangue e tragdia, mas tinha um 
ritmo e uma beleza singulares: assemelhava-se a um 
grito penetrante e rouco, a um uivo interminvel, 
parecido com o        do sabujo, prolongado 
e repetido com uma melancolia
arrepiante.
        Como sempre que tinha uma hora de repouso e 
meditao, lembrei-me de Kit Sunderlund. Como me 
parecia distante, agora! Esquecera j as suas 
injustas suspeitas e recordava apenas a sua beleza. 
Podia ter amado aquela rapariga, pensei, muito mais 
do que amara algum em toda a minha vida.
        Levantei-me ao nascer do sol, na manh seguinte, 
acordado por Darnell, e senti-me repousado e bem 
disposto, apenas com algumas escoriaes e um ou 
outro msculo dorido. Mentalmente estava de novo 
alerta e quase to feliz como ao princpio da 
aventura.
Os rapazes tomavam o pequeno-almoo e Ruby, que me 
saudou
com um sorriso luminoso, atarefava-se com passos 
ligeiros entre o carro e a fogueira. A manh estava 
fria e clara e o ar parecia morder a carne. Ao 
lavar-me no rio compreendi o que Darnell queria 
dizer ao falar em gua
da montanha.
158
        Resolvi celebrar a nossa chegada a Julesburgo com 
o corte da barba emaranhada, o que consegui graas 
a muita pacincia. Ruby recompensou-me do cuidado 
com um dos seus simpticos cumprimentos:
- COm a breca, Wayne, Como s diferente com a cara 
rapada!
Magro, sem arranhes com a pele da cara clara onde 
tinhas a barba e tostada nos outros pontos, vais 
ter um sucesso com as raparigas, se c houver 
algumas.
- Obrigado, beleza. Parte do teu disfarce tambm 
desapareceu
e        esta manh pareces excepcionalmente bonita.
Enquanto almovamos, Liligh fez a ronda dos 
carros, a fim
de dar as instrues para aquele dia.
        - Bem, rapazes, c estamos em Julesburgo. Faltam 
rodas, h uma quantidade de carros para reparar e a 
cidade est ameaada pelos peles-vermelhas. O Shaw 
e o Lowden vo a cavalo fazer uma batida de 
inspeco; o Cameron e o Darnell ficam a reparar o
        carroo. Chegar c sabe bem, mas depois j no  
to bom.
        Fiquei absolutamente desiludido com o que me 
rodeava, pois no sei porqu convencera-me, sem 
motivo aparente, de que Julesburgo devia ser 
qualquer coisa que valia a pena ver-se. Mas a 
pradaria era hostil e rida, o rio uma torrente 
lamacenta e trgida, rodeada por atrofiados choupos 
-do-canad e        salpicada ao longo 
das margens por caravanas de carros, e a
grande Julesburgo propriamente dita no passava de 
uma srie de cinco edifcios toscos e tristonhos, 
com as altas fachadas de tbuas apreensivamente 
voltadas para oeste.
        Apesar de decepcionado, fui com Tom  cidade, 
visitei a improvisada estao telegrfica, parei na 
Overdand Truil and Pony Express Station e entrei no 
armazm, to tosco no interior como no exterior, 
onde comprei tabaco e alguns gneros, alm da nica 
caixa de chocolates existente para oferecer a Ruby.
159
        Procurmos Slade e como no o encontrssemos 
perguntmos por ele. Informaram-nos de que estava 
ausente na Trilha Overland, para os lados de 
Denver. Senti-me aliviado. Sabia que se Slade e
        Shaw se encontrassem haveria sarilho e no via 
vantagem
nenhuma em o meu amigo correr riscos. Encontravam-
se na cidade muitos homens e soldados, na maior 
parte provenientes da nossa caravana e alguns da 
que acampara na outra margem do rio. Conversavam e 
bebiam em grupos, falando sobretudo de ndios. 
Depois de vermos o pouco que havia a ver e de 
considerarmos
que quanto menos ouvssemos falar da possibilidade 
de sermos escalpelados melhor para ns, regressmos 
ao acampamento de Creighton e ao nosso prprio 
carro onde, depois de oferecermos a        Ruby, 
cerimoniosamente, a caixa de chocolates retardados,
tirmos o casaco e nos entregmos s tarefas que 
nos haviam sido destinadas. Tivemos que fazer todo 
o dia.
        Shaw e Lowden regressaram ao pr do Sol, depois 
de atravessarem um crculo de cinquenta milhas em 
redor do acampamento. Tinham visto considervel 
nmero de bfalos a oeste de Julesburgo, mas nem 
sombra de ndios, o que era inesperado e pouco 
tranquilizador, sobretudo porque haviam notado 
sinais de fumo em todas as escarpas distantes - 
alguns dos quais tinham observado com os binculos.
Shaw disse como interpretara esses sinais a 
Creighton e a
Liligh, mas no se dignou faz-lo em nosso 
benefcio.

Achava-o demasiado srio para o meu gosto. Os 
seus olhos
tinham um brilho de ao, excepto quando fitavam 
Ruby. Nunca me esquecera da expresso que 
lhes vira no dia

distante em que, em Gotemburgo, esperara que Slade 
aceitasse o seu desafio e lutasse.
        - Estou preocupado, companheiros - disse de 
sbito.
- Vamos ter luta aqui, to certo como Deus estar no 
cu!
Cerca de vinte milhas ao sul do acampamento 
encontrmos,
160
eu e o Jack, uma depresso profunda com gua no 
fundo. Era um stio formidvel para caar, cheio de 
veados, antlopes, ursos, alces e, at, dois 
enormes ursos pardos. O Jack teve de disparar sobre 
um deles, e deixmos por l muitos sinais da nossa 
passagem. No lado mais ngreme da depresso havia 
uma quantidade de abetos pequenos, aos quais me 
referi no relatrio que fiz ao patro. Um dos 
chefes de carro - um tal Beal - ouviu-me, veio 
atrs de mim e pediu-me que lhe indicasse onde 
ficava esse lugar. Depois, sem pedir permisso ao 
Liligh nem a ningum, foi  procura dos abetos. 
Aposto dlares contra cntimos em como no voltar.
        Estava explicada a sua preocupao. Esforcei-me 
por acolher as desagradveis notcias com a fleuma 
dos meus companheiros, mas o nosso jantar decorreu 
mais silencioso do que era costume. O poente surgiu 
numa orgia de tons purpreos, brancos e        dourados, 
dando um pouco de beleza e de cor  melanclica
paisagem.
Liligh visitou-nos pouco depois e pediu a Shaw que 
repetisse
o        que dissera a Creighton e acrescentasse quaisquer
observaes ou opinies que ento houvesse omitido. 
O vaqueiro fez-lhe um relato circunstanciado que 
tornou o capataz ainda mais srio do que j era.
- Obrigado, rapaz; isso ajusta-se com o meu prprio 
palpite.
Creio que tivemos muita sorte at aqui, mas a 
partir de agora vamos amargar.
-  isso mesmo - aquiesceu Shaw. - Gostava de saber 
como vai
o        patro aceitar o facto de ter de suspender os 
trabalhos.
- No vai suspender coisa nenhuma, vaqueiro. No te 
esqueas
de que a linha deve estar levantada e a funcionar 
antes de comear a nevar, nem de que em Wyoming o 
frio comea muito cedo. No diremos ao patro o que 
pensamos.
- Mas, com a breca, existe ainda uma coisa chamada 
bom
senso!
                161
Se no aconselhamos Creighton a prosseguir com 
calma,  muito possvel que a linha no passe 
daqui!
- Talvez uma boa refrega com os peles-vermelhas 
quebre um
pouco a monotonia. Estamos bem armados e jogaremos 
pelo seguro. No h necessidade de alarmar 
Creighton, mas acho que devem juntar o vosso carro 
aos outros e ficarem de sentinela. 
- Tem razo, Liligh, todas as cautelas sero 
poucas. Ia
fazer isso mesmo por minha prpria iniciativa.
Quando o capataz nos deixou tornou-se evidente que 
a sua
visita causara impresso desfavorvel em Shaw.
Pouco depois disse-nos que nos recolhssemos, pois 
faria o
primeiro turno de sentinela. Adormeci 
imediatamente. Com excepo de um pequeno intervalo 
em que acordei e ouvi o uivar solitrio dos 
coiotes, s dei por mim j o sol nascera: os trs 
vaqueiros tinham dividido entre si os turnos de 
sentinela, sem me acordarem. Protestei 
veementemente por no ter feito o meu turno, mas 
Shaw replicou-me com secura:
- Camarada, podes ser um moceto simptico com a 
barba
rapada, mas j o no serias tanto sem cabelo.
        - Sim, compreendo; ainda sou novato. Nesse caso, 
a partir de agora, todas as noites ficarei de 
guarda com um de vocs, at aprender.
        - Boa ideia - concordou o vaqueiro.
        Passmos a maior parte do dia a trabalhar no 
carro e depois de realizadas as tarefas rotineiras 
empenhmo-nos em torn-lo to inexpugnvel quanto 
possvel. Aumentmos-lhe mais de trinta centmetros 
nos lados e nas extremidades, mas em vez de madeira 
ou metal usmos bocados de couro seco de bfalo, 
que Lowden comprara no armazm. Era quase to duro 
como o ferro e um homem ajoelhado atrs daquela 
barricada ficava protegido das balas e das setas.
                162
        Alguns componentes da caravana disseram-nos que 
se encontravam na cidade muitos ndios" de ar 
hostil e olhos matreiros, sendo vrios Utes, que 
ento eram considerados amigos, e outros Arapahoes. 
Shaw no gostou nada da notcia e resolveu ir ver 
com os seus prprios olhos. Acompanhei-o, mas os 
peles-vermelhas j tinham partido. No dia seguinte 
voltaram, porm, e em nmero maior.
        Terminadas as tarefas matinais, fomos a 
Julesburgo e vi pela primeira vez ndios a pouca 
distncia, embora continuasse sem
saber distinguir os Utes dos Arapahoes. A nica 
coisa que percebi foi que o seu aspecto no tinha 
nada de tranquilizador. O dia estava quente e os 
ndios andavam praticamente nus: usavam apenas 
tangas e perneiras e mocassins de pele de veado, e 
transportavam as  suas mantas e armas. Tinham o 
corpo magro, musculoso e de um tom vermelho escuro, 
cara que me fazia lembrar o focinho dos lobos, s 
vezes enrugada como pergaminho, e olhos negros, 
hostis e astutos. Muitos usavam o cabelo comprido. 
Nenhum exibia ornamentos complicados na cabea, mas 
vrias tinham faixas amarrados na testa com uma 
pena espetada. Enquanto estivemos na cidade 
passaram o tempo nas proximidades da cabana onde o 
telegrafista trabalhava, evidentemente fascinados 
com os estalidos metlicos do aparelho. Deduziam 
que se tratava de receber ou expedir qualquer 
mensagem, mas no compreendiam como. Outra coisa 
que os preocupava era o rudo produzido pelos fios 
telegrficos, que para eles tinha qualquer relao 
com a vida.
- A situao  esta - explicou-me Shaw, pensativo. 
- Todos
aqueles peles-vermelhas so hostis e traioeiros 
como os comanches e apaches que tenho conhecido; 
no passam de espies. Aposto a minha pistola e o 
meu cavalo em como se encontra um grande grupo 
deles escondido algures,  espera do momento 
oportuno para praticar qualquer patifaria.
163
- Suponho que o sargento Kinney tambm no gosto 
do seu
aspecto.
- Nem o sargento nem o Liligh. Anda, vamos procur-
los a
ambos.
        Ao meio-dia todos os ndios haviam desaparecido. 
Tinham montado nos seus garranos selvagens, em 
pequenos grupos, e partido em direces diferentes. 
Preocupvamo-nos, no sem motivo, com a sorte do 
carroo que, sem ordens especficas, fora em busca 
de postes telegrficos.
Finalmente encontrmos o sargento Kinney com Liligh 
e vrios
chefes dos carros.
- Liligh, que pensa da partida dos ndios da 
cidade? -
indagou Shaw.
        - No sei - replicou com secura o capataz. - Nada 
mais podemos fazer do que esperar e confiar que as 
coisas no sejam to ms como parecem. Estive a 
conversar com o sargento acerca da situao e 
gostaria de saber a tua opinio de texano. Que 
aconselhas?
        - A vai, chefe: mande todos os carros para a 
cidade, arrume-os o mais juntos que puder entre as 
casas e solte os bois no mato ao longo do rio. 
Sugeriria ainda que o sargento colocasse metade dos 
seus soldados em cada casa das extremidades da rua 
e que os outros homens ocupassem os. seus lugares 
entre os carros e as restantes casas. Assim seria 
preciso um grupo muito grande de ndios para nos 
fazer mossa! Mas devemos esperar o pior quanto ao 
carroo que foi procurar postes. Por outro lado, 
se conheo peles-vermelhas, aqueles de ns que 
andam espalhados pelas proximidades da cidade 
arriscam-se a ficar pelados.
- De acordo, vaqueiro - aquiesceu Liligh. - Tinha 
acabado de
expor a minha ideia ao sargento, a qual no andava 
longe da tua. Agora vai fazer uma batida com o Herb 
Lane e os teus rapazes, e mantenham-me os olhos bem 
abertos.
                        164

No se afastem muito! Levaro parelhas de machos, e 
como os ndios no podero surpreend-los na 
plancie, tero uma boa vantagem para retrocederem 
se os virem.
Ao meio da tarde os nossos dois carros, chefiados 
por Herb
Lane, estavam cerca de cinco milhas afastados da 
cidade. Quatro homens a trabalharem por turnos 
abriam um buraco para poste num instante. Shaw 
cavalgava a um lado e Lowden a outro, e        conseguiam 
abranger cerca de uma milha - e s vezes duas -
em qualquer direco,  procura de possveis 
vestgios de ndios.
        A tarde estava to quente e sufocante que eu 
tinha de trabalhar de torso nu e o suor escorria-me 
pelo corpo queimado. No oeste acastelavam-se nuvens 
tempestuosas e vamos pequenas fascas riscar o 
cu, mas to longe que no ouvamos o        ribombar do 
trovo. As terrveis tempestades acerca das
quais noshaviam precavido comeavam a formar-se, 
lentamente. Darnell, excepto quando conduzia de um 
poste para outro, mantinha-se de p no banco e 
perscrutava o horizonte com o binculo. Por isso 
nenhum de ns olhava para a pradaria enquanto 
trabalhava, embora todos esperssemos que 
acontecesse qualquer coisa antes de o sol se pr.
        No nos espantmos, por isso, quando Darnell 
gritou:
        - ndios! Ali, a oeste! Subam, temos de safar-
nos!
        Estremeci violentamente e olhei na direco 
indicada, mas no vi nada. Enquanto o vaqueiro e 
Lane voltavam as parelhas para o lado do 
acampamento, atirmos as ferramentas para os carros 
e saltmos por nossa vez, pegmos nas carabinas e 
pusemos os cintures. Os carros arrancaram e a 
precauo de substituir os bois por machos foi 
ento da maior utilidade. 
Havia quatro homens em cada carro, indo no nosso,
165
 alm de mim e de Darnell, Edney e Cliff Nelson, 
dois duros  " do Missuri que inspiravam confiana. 
Como nenhum dos veculos tinha lona, podamos olhar 
para todos os lados  vontade. Foi com tremendo 
entusiasmo que olhei para a retaguarda e vi 
levantarem-se vrias nuvens de poeira, mas no 
vinenhum cavaleiro.
- Tens a certeza de que viste ndios, Tom? - 
perguntei.
        - A certeza absoluta - respondeu-me, puxando as 
rdeas com fora. - Estes estpidos animais esto 
com vontade de tomar o freio nos dentes, o que 
talvez no seja mau.
        No ests a olhar bem, Wayne,  mais para o sul. 
Agora vem-se perfeitamente. olha! L vem o Jack, 
como uma fria, ao longo do rio!
Vi Shaw correr como uma seta no seu cavalo vermelho 
e atrs
dele, no consegui calcular a que distncia, um 
grupo de cavaleiros selvagens. Sim, mesmo quela 
distncia de vrias milhas pareciam selvagens em 
toda a acepo da palavra, recortados a negro 
contra a linha do horizonte e com as caudas e
        as crinas dos cavalos a esvoaar ao vento.
        Era um espectculo surpreendente. No receava por 
Shaw, que tinha uma montada velocssima, mas 
compreendia que os ndios nos alcanariam. Desviei 
o olhar para o lado do rio e vi Lowden vir ao nosso 
encontro. Estava a menos de uma milha e, com a 
breca, como galopava!
Perscrutei a margem e a plancie atrs dele,  
procura de
possveis perseguidores, mas no encontrei nenhuns.
Olhei de novo para Shaw e admirei-me por verificar 
que os
selvagens haviam mudado de direco e avanavam a 
direito para os carros, com uma velocidade 
espantosa. Shaw dirigia-se tambm para ns.
        Eu e os dois homens do Missuri, que amos no 
sebundo carro empunhmos as espingardas, apurmos o 
olhar e espermos pelo ataque que no tardaria a 
abater-se sobre ns.
                        166
        Darnell era um excelente condutor e a estrada 
razovelmente boa, apenas com um ou outro buraco, 
de modo que as parelhas galopavam a toda a 
velocidade. De vez em quando, ao surgir um mau 
troo de caminho, Darnell gritva-nos que nos 
agarrssemos, mas mesmo assim tnhamosdificuldade 
em nos aguentar sem cair.
        Os momentos seguintes foram para mim 
singularmente impressionantes. Lowden mudara de 
direco e galopava ao encontro de Shaw, que por 
sua vez atalhara caminho de maneira a        colocar-se 
entre os selvagens e os carros.
        - Olhem, fumo! - gritou Edney, de dedo estendido. 
- Comeou o        baile; alguns peles-
vermelhas tm espingardas! Mais um favor
que ficamos a dever aos comerciantes.
        Bolas de fumo branco erguiam-se acima dos ndios 
e eu distinguia pequenas nuvens de poeira que 
subiam do solo, muito atrs dos vaqueiros, no ponto 
onde as balas acertavam.
        - Por este andar levamos o grupo de ndios para o 
acampamento! - gritou Nelson, entusiasmado.
- Se eles disparam, por que no ripostam os 
vaqueiros? -
admirei-me.
- Esto muito longe, suponho - respondeu-me Edney. 
- Isto
para o Shaw  uma velha brincadeira. Aposto que, 
quando disparar, vers qualquer coisa!
        No fao ideia de quanto tempo durou aquela 
interminvel perseguio, sem mudana aprecivel 
alm de os cavaleiros se aproximarem mais dos 
carros; pareceu-me uma eternidade, mas 
provavelmente foram escassos minutos. Quando os 
vaqueiros se encontravam a poucas centenas de 
metros de ns e os ndios talvez um quarto de milha 
mais alm, mudaram todos, mais uma vez, de 
direco. Os ndios desviaram-se para a nossa 
direita, em fila, Shaw e Lowden fizeram o mesmo e 
avanaram paralelamente a ns.
        Contei catorze cavaleiros na fila indiana, agora 
suficientemente perto para distinguirmos a cor dos 
seus corpos
167
e        todos os pormenores fsicos dos cavalos e dos 
homens.
Alguns tinham arcos e flechas, mas a maioria estava 
armada
da espingardas, que no cessavam de disparar. 
Surpreendia-me a maneira como conseguiam carregar 
as armas a uma velocidade daquelas. Os vaqueiros 
continuavam, porm, sem responder, e s o
        fizeram quando os selvagens ficaram paralelos a 
ns e
comearam a acercar-se. A distncia era grande e 
pelo que pude ver, os tiros erraram o alvo, mas a 
modificao que se operou foi extraordinria.
De repente, os garranos pareceram livres de 
cavaleiros. Teriam os peles-vermelhas cado? 
Esfreguei os olhos, para
afastar a espcie de nevoeiro que me dificultava a 
viso, e compreendi o que se passara: cada 
cavaleiro deixara-se escorregar para o lado 
exterior da montada e cavalgava a uma velocidade 
daquelas, s com uma perna  vista, atravessada na 
garupa. Assim no ofereciam nenhum alvo s balas 
dos
vaqueiros. Estes continuavam a cavalgar entre os 
selvagens e os carros, posio que evidentemente 
estavam dispostos a conservar. Seria um espectculo 
maravilhoso, no fora o seu terrvel significado.
De sbito os ndios comearam a disparar por 
debaixo do
pescoo dos garranos e as balas levantavam 
nuvenzinhas de poeira  frente dos vaqueiros que 
significava que estavam j ao alcance de tiro. 
Chegara o momento de perigo para os vaqueiros, se 
no para ns. Darnell soltara as rdeas aos machos, 
que quase tinham alcanado o carro da frente. 
Vamos perfeitamente Julesburgo e os carroes 
metidos nos espaos entre as casas, a menos de duas 
milhas de distncia. Notei que os vaqueiros se 
desviavam mais para junto de ns, a fim de evitarem 
ser atingidos, e que tinham outra vez deixado de 
disparar.
        Os ndios estavam j suficientemente perto para 
se lhes verem as cabeas negras e os braos sob o 
pescoo dos cavalos. Continuavam a disparar daquela 
posio, com uma firmeza incrvel.
                168
        Mais cedo ou mais tarde acabariam por acertar num 
cavalo ou num vaqueiro. Os homens do carro da 
frente abriram fogo, mas sem resultado, pelo menos 
de que nos apercebssemos. Os selvagens estavam 
visivelmente empenhados em cercar-nos e os 
vaqueiros mantinham a sua posio, embora 
acercando-se mais de ns. Os atacantes cruzaram a 
trilha, galoparam pela margem do rio, passaram-nos 
pela frente e por detrs e retomaram a posio 
primitiva  nossa direita, mas mais perto. J nem 
quatrocentos metros nos separavam deles! E os 
vaqueiros encontravam-se a menos de metade dessa 
distncia.
Pouco depois estremeci ao ver Shaw levar a 
espingarda 
cara. Apesar de assustado, no pude impedir-me de 
maravilhar-me com o quadro oferecido por ele e pelo 
cavalo. No disparou logo, mas quando o fez vi um 
cavalo ndio mergulhar para diante e atirar para a 
frente um vulto negro e selvagem. Possivelmente a 
bala trespassara o pescoo da montada e atingira o 
cavaleiro. Ouvi o estalido da espingarda de Lowden 
acima das descargas dos peles-vermelhas, mas no 
conseguia desviar os olhos fascinados de Shaw, que 
continuava a        disparar. Novo 
cavalo foi a terra e, nos trs tiros
seguintes, mais outro. Contei os cavaleiros e 
verifiquei que dos catorze restavam dez. Lowden 
tambm tinha um no seu activo. Os selvagens 
afastaram-se ento, para sarem do alcance de tiro 
dos nossos rapazes, mas continuaram a galopar 
paralelamente a ns.
        - Teriam com certeza dado cabo do pessoal seno 
fossem os vaqueiros - observou Edney. - Desta vez 
escapmos. Eh, que vem a        ser aquilo na 
cidade?
- Ataque ndio! - gritou Darnell. - So muitos e se 
nos vem
chegar nem a pele se nos aproveita!
Mas quando nos aproximmos verificmos que, 
felizmente para
ns, o recontro se travava no extremo oposto da 
cidade.
                169
Atravs da poeira e do fumo distingui cavalos 
ndios a correr de um lado para o outro, mas no vi 
um nico soldado nem nenhum dos nossos homens.
        Com as parelhas num galope furioso percorremos a 
distncia que nos separava da cidade antes que os 
nossos perseguidores
ndios pudessem reunir-se ao grupo principal e 
cortar-nos a passagem. Shaw e Lowden alcanaram-nos 
e o primeiro gritou-nos:
        - Depressa, metam-se atrs da casa mais prxima!
Com os solavancos dos carros e a barulheira 
infernal que nos
rodeava, nada vimos do combate travado na cidade 
enquanto Darnell no parou bruscamente, quase me 
atirando ao cho. S ento me apercebi da algazarra 
de gritos dos selvagens, misturada com a descarga 
das espingardas.
        Do meio da poeira e do fumo surgiu Liligh, com 
fogo no olhar, a cara mascarada de plvora e um fio 
de sangue a manchar-Lhe um dos lados da cabea.
- Um desatrela enquanto os outros ficam de guarda! 
- gritou
acima da barafunda. - Soltem os machos e tratem dos 
cavalos. Lutem de trs ou de dentro dos carros e 
olho vivo, pois do outro lado est um milho de 
ndios.
        - Despachem-se, rapazes! - gritou Shaw, com a 
carabina numa das mos e as rdeas do cavalo na 
outra. - Vou procurar Ruby. 
Com sete homens desembaraados e um impulsionado 
pelo medo,
o        que nos fora ordenado ficou pronto num abrir e 
fechar de
olhos. Como o nosso carroo no era fcil de 
alcanar, por enquanto, ocultmo-nos os sete atrs 
dos dois carros e espreitmos de ambos os lados, 
com as espingardas em aco. Apercebi-me de que o 
tiroteio era intermitente, umas vezes em rajadas 
cerradas e outras espaadas, e de que o barulho 
ensurdecedor provinha sobretudo do infernal grito 
de guerra dos selvagens.
        Com as costas voltadas para a ltima casa e os 
carros na nossa frente, espreitmos  procura de um 
ndio que nos servisse de alvo.
                170
Mas no aparecia nenhum daquele lado. Reparei que, 
por entre o fumo, voavam objectos brilhantes que se 
embebiam no solo: setas dos peles-vermelhas.
        Pouco depois Shaw reuniu-se-nos de novo, 
parecendo terrivelmente preocupado.
- A Ruby no est no carroo - disse-me ao ouvido, 
com voz
rouca. - Suponho que se tenha acolhido a uma das 
casas. No vi soldados nem nenhum dos nossos 
homens, mas notei que corria para os lados do rio 
uma caravana que no estava c quando partimos. No 
me agrada nada. Mas, com os diabos, temos de ser 
espertos se no queremos ficar todos sem escalpe. 
Esto por a muitos ndios, furiosos como vespes.
        - Que fazemos? - perguntaram Lowden e Darnell, 
juntando-se-nos.
- Que fazemos? Ocultamo-nos aqui e atiramos a 
qualquer ndio
que aparea.
        Agitado como me sentia, compreendi que os meus 
camaradas estavam todos clmos e serenamente 
decididos, e achei que devia esforar-me por imit-
los. Mas dentro de mim travava-se terrvel 
conflito. Chegara o momento de prestar provas, um 
momento que viera to de sbito que nem tivera 
tempo de preparar-me. Nesse instante pareceu 
irromper do fumo e da poeira uma multido de peles-
vermelhas aos guinchos e aos saltos, uns de 
espingarda ao ombro, outros de arco esticado e 
outros ainda de tomahawks em riste. Eram vultos, 
hediondos, pintados, fantasmagricos, que no 
estavam quietos um segundo. 
Ouvi os meus camaradas disparar e fiz tambm 
pontaria.
Falhei vrias vezes, mas quando por fim acertei e 
vi o ndio espojar-se no cho, com movimentos 
convulsivos, de uma parte da natureza que at a 
ignorava ergueu-se um grito involuntrio e 
dilacerante. Fitei o selvagem at se
imobilizar. Matara-o! Soltei uma exclamao 
abafada, mas no me arrependi.
                171
De sbito, ainda mal avaliava as emoes que me 
invadiam,
senti um impacto contra a roda do carro e, 
apavorado, vi uma seta enterrar-se--me na coxa. 
Deitei-lhe as mos, instintivamente, e puxei-a. 
Saiu com facilidade, com a ponta coberta de sangue. 
Atingira-me depois de passar de raspo pela roda. A 
dor e o seu significado transformaram-me e senti um 
desejo irreprimvel de correr para o meio daqueles 
diabos vermelhos e, servindo-me da espingarda como 
de um cacete, abat-los  pancada. Mo de ferro, 
porm, arrastou-me para trs do carro.
        - Acabaram os teus dias de novato, compincha! - 
gritou-me Shaw ao ouvido. - Agora luta e tem 
cuidado, no te exponhas.
A fria de gritos e tiros, de poeira e de fumo, que 
ao
princpio me parecera um autntico pandemnio 
aumentou em volume, mas passei a reagir de modo 
diferente. Ajoelhei e, a espreitar atrs do 
veculo, atirei a quanto ndio me passou ao alcance 
da mira. Os tiros que partiam dos nossos dois 
carros eram firmes e contnuos e j se viam peles-
vermelhas cados por todos os lados naquele ponto 
da barricada. Vi os restantes fugirem, protegidos 
pelo fumo, para o outro lado da cidade, de onde 
partia a maior parte dos gritos e do tiroteio.
Houve um perodo em que todos os sons da batalha 
aumentaram,
se dilataram num crescente espantoso, e depois, de 
sbito, ficaram reduzidos apenas aos gritos roucos 
dos brancos e ao disparar das suas armas. 
Espermos, ocultos na nossa barricada, preparados 
para tudo.
        - Foram repelidos, camaradas - gritou Shaw. - J 
no se ouvem detonaes nem o assobiar das setas. 
Com a breca, pelo menos alguns de ns estamos 
vivos! A coisa estava quente, por um bocado.
- Esto a fugir para os cavalos, com os feridos! - 
gritou
Edney, do outro carro.
                172
-        Olhem que no eram to poucos como isso, hem?! 
Devem ficar
com uma doce recordao deste dia, mas para ns, se 
no tivermos mortos nem feridos, ser divertido.
        - Feridos?! - exclamou Lowden. - Que chamas 
quela seta espetada na minha perna? Desviei-me 
tambm de uma bala, mas ela deve ter-me atingido, 
pois sinto-a debaixo da pele.
        - A mim nada me tocou - declarou Shaw, que tinha 
a espingarda no cho e carregava as duas pistolas, 
que despejara.
Imaginei a razia que fizera, pois raramente 
falhava um tiro. Aventurmo-nos a sair do 
esconderijo, com cuidado. Vi Edney
bater na cabea de um ndio que tentava levantar-se 
do cho, onde outros jaziam. Com o cessar do fogo 
as nuvens de poeira e de fumo dissiparam-se e 
pudemos observ ar as casas e as barricadas de 
carros entre elas. Apareceram como por encanto 
soldados e homens da construo, todos de armas na 
mo e evidentemente  procura de ndios porventura 
ainda vivos. Juntmo-nos a eles e quando o fumo se 
dissipou totalmente verifiquei com alvio que os 
pelesvermelhas no haviam deitado fogo s casas ou 
aos carros, como chegara a recear. Liligh veio 
tambm ao nosso encontro.
- Como esto vocs, rapazes? No parecem muito 
feridos.

- Parece-me que perdemos a parte pior - observou 
Shaw.
        - Foi uma luta rpida, mas violenta. Os 
selvagens atacaram primeiro o armazm e aposto em 
como encontraremos l trabalho sangrento.
- Liligh, no viu por acaso o nosso rapaz, o 
Pedro? -
indagou Shaw.
        - Sim, vi, mas no me lembro onde.
173
- Que carros eram aqueles que vi a caminho do rio, 
quando
chegmos?
        - Pertencem a uma caravana que entrou antes do 
ataque. Pedi-lhes que formassem os seus carroes 
com os nossos e lutassem, mas no voltei a pr-
Lhes a vista em cima.

- Correram para o rio, vi-os no instante em que 
entrmos na
cidade.
        Segundo todos os indcios, a luta fora breve e 
sangrenta. Liligh disse-nos que os peles-vermelhas 
eram muitos e que depois de terem contornado a 
cidade duas ou trs vezes haviam atacado pela ponta 
sul dos carros e das casas. Tinham perdido a        vida 
quinze soldados, a maior parte no armazm ou perto
dele, e cinco homens de Creighton, um deles do 
nosso grupo. Ao retirarem, os atacantes haviam 
levado consigo todos os seus feridos e grande parte 
dos mortos.
        Um mensageiro de Creighton veio pedir-nos que nos 
dirigssemos  estao da Pony Express. O patro 
fora atingido num ombro por uma bala que lhe 
produzira um ferimento doloroso, mas no grave. 
Saudou-nos com expresso sombria.
- Lamento o que nos aconteceu, rapazes. Cameron, 
vejo que
tambm foste ferido, pois ests cheio de sangue. Se 
podes trabalhar, vais ter muito que fazer! Segundo 
o Liligh, poucos so os que no tm qualquer 
ferimento.
- O meu  apenas um arranho, chefe - afirmei. - 
Assim que
encontrar a maleta e ligar a perna, tratarei de si.
- Esperarei; h homens mais gravemente feridos do 
que eu e
que devem ser tratados primeiro.
        Corri para o nosso carro e chamei Ruby, mas no 
obtive resposta. O corao parou-me no peito, como 
me acontecera no momento de ser ferido, entrei no 
veculo e encontrei-o vazio. Compreendi porm que a 
ocasio no era prpria para desfalecimentos. 
Desinfectei a ferida da perna, liguei-a e fui 
buscar a maleta dos socorros.
                        174
No cho do carro estava um bilhete. Apanhei-o e 
verifiquei
que era dirigido a Shaw. Fui depressa procur-lo 
onde o deixara com Jack e Tom, sem me atrever a 
pensar se seria portador de boas ou de ms 
notcias. Sabia apenas que o bilhete era para Vance 
e que este devia l-lo sem demora.

        - Toma,  para ti - disse, estendendo-
lho.
Leu-o num instante e ficou lvido, da 
cor da cinza. - Amigo Wayne. l-o aos 
rapazes - murmurou com voz
entrecortada.
        Devagar, dolorosamente, li:

        "Vance: No podia casar contigo hoje, como me pediste. 
Devia ter-te dito antes que j sou casada. Por isso parti com 
uma caravana. Adeus. Ruby".

175
IX
        Se no fosse a necessidade imperiosa de cuidar dos feridos, 
teria sofrido muito por via do meu ferimento na coxa e tambm 
pela reaco provocada pelo sangue humano que derramara. Mas 
at a angstia que me causava o desaparecimento de Ruby e a 
pena que tinha de Shaw tinham de ser relegadas para segundo 
plano perante a enormidade da tarefa que me estava reservada. 
Fora de facto uma luta extraordinariamente sangrenta, como
Liligh afirmara, e poucos eram os homens de Creighton que 
dela haviam sado ilesos. Vance Shaw, porm, parecia 
invulnervel, certamente porque sabia defender-se quando 
lutava. Mas quanto mais dolorosa no fora para si a perda de 
Ruby do que qualquer ferimento que porventura houvesse 
sofrido!
        Havia dois feridos de muita gravidade: Jenkins, um dos 
cocheiros, atingido no ventre e que parecia perdido, e um 
outro, com uma artria seccionada, que consegui tratar. No 
descansei um minuto durante aquela interminvel noite, nem eu 
nem o fiel Darnell, que me seguia com uma lanterna e me 
auxiliava em tudo quanto podia. No era nada animador o facto 
de o sargento Kinney e os sobreviventes do seu comando 
preverem um regresso dos selvagens, que felizmente no se 
verificou naquela noite.
Parei na cabana do telegrafista para saber se fora ferido, e
o        homem deu-me a m notcia que recebera pelo trfego
177
militar acerca de uma caravana que se dirigia para oeste e 
que fora atacada pelos peles-vermelhas vinte cinco milhas 
para alm de Julesburgo. Avisados de um possvel ataque, os 
chefes da caravana haviam solicitado uma escolIa militar.
Ao tomarem conhecimento do facto, os ndios tinham reunido
um bando vrias vezes maior do que o nmero de brancos e, 
antes de serem repelidos por estes, mataram muitos cidados e 
soldados. Os sobreviventes haviam retirado para o posto 
militar, que ficava apenas a duas milhas, e estabelecido 
contacto com Julesburgo e o exterior.
         meia-noite estenderam um fio de emergncia da linha 
principal para um poste temporrio que haviam levantado e 
cujo topo adornaram com uma bandeira esfarrapada e uma seta 
ndia a apontar sinistra e determinadamente o oeste. Depois 
os sobreviventes enterraram junto da base do poste um papel 
assinado por todos aqueles que, segundo as palavras do 
operador telegrafista, haviam comunicado com o Leste graas 
ao telgrafo. Mostrou-me uma cpia da triste mensagem:
        "Durante este terrvel ataque perderam a vida quinze 
soldados e cinco cidados, cujos restos esto enterrados aqui 
perto. Enquanto este poste se mantiver erguido os fios 
murmuraro um triste requiem sobre as sepulturas dos valentes 
mortos".
         luz do dia no fui capaz de olhar os selvagens sem vida 
que jaziam por toda a parte. Nus, ensanguentados, 
malignamente ferozes at na morte, ofereciam um espectculo 
aterrador. Durante a manh Kinney mandou transportar os 
corpos para a pradaria, a fim de serem sepultados, e durante 
o resto do dia, sem comer e quase sem beber, percorri os 
carroes at ter a certeza de ter feito pelos meus doentes 
tudo quanto me era possvel.

178
Creighton perscrutava o horizonte, para sul, na esperana de
ver aparecer o carroo desaparecido.
        Quando, ao anoitecer, regressei, cambaleante, ao nosso 
carro, estava prestes a desfalecer, mas no s de exausto. 
Tom e Jack tiraram-me as botas, meteram-me na cama, pensaram-
me o ferimento, que infectara, e deram-me uma bebida quente. 
Depois ficaram ao meu lado, um ou ambos ao mesmo tempo, no 
perodo em que estive quase delirante.
Adormeci por fim e s acordei j a manh ia alta. Alm da
perna muito dorida e hirta, parecia sentir-me bem. Levantei-
me, contra a vontade dos meus companheiros, mas estava to 
fraco que tive de meter-me outra vez na cama, de onde lhes 
pedi notcias.
- No h muito que dizer - comeou Lowden. - A opinio do
agente e de todos os da cidade  que o ataque dos ndios foi 
contra Creighton e os seus trabalhos. A linha telegrfica a 
leste daqui foi abatida, mas ser reparada durante o dia e 
logo  noite, e depois o patro poder telegrafar. Apre, 
ainda vamos ver a grande coisa que  a linha telegrfica! A 
melhor notcia foi o regresso dos carros que partiram h trs 
dias. voltaram todos menos Beal e dois carros com trs ou 
quatro homens. Seria esperar de mais contar que o Beal e o 
seu grupo se safassem tambm. Enfim, seja como for, 
Wainwright chegou com quatro veculos cheios de belos e 
fortes postes telegrficos, e at parece que o Creighton no 
teve complicao nenhuma!
- Mas no deviam ir procurar Beal? - indaguei, preocupado.
        - Claro que sim! - concordou o vaqueiro. - Eu, o Tom e o 
Vance vamos selar os cavalos e fazer isso mesmo, a no ser 
que queiras que um de ns fique contigo.
        Garanti-lhes que podiam ir todos, pois sentia-me bem. No 
entanto, apesar do meu estado de enfraquecimento, s com 
muita dificuldade consegui descansar e passar pelo sono umas 
duas horas.
                        179
        Levantei-me quando acordei, e tive a satisfao de 
verificar que me sentia muito melhr e que os meus tormentos 
fsicos e mentais no me haviam provocado febre nem quaisquer 
outras consequncias graves.
        Visitei de novo os meus doentes e cheguei  concluso de 
que, afinal, no era to mau mdico como supunha. Estavam-me 
todos gratos e at Creighton mo demonstrou.
        Os vaqueiros voltaram ao fim da tarde, com os cavalos 
poeirentos e suados. Desmontaram junto do carro do pa tro e 
demoraram-se l um bocado. Tom foi o primeiro a dirigir-se 
para o nosso carroo e no precisei de perguntar-lhe a sorte 
de Beal e dos seus homens. Sob a poeira e a sujidade que lhe 
empastavam o rosto havia uma sombra de tristeza. Tirou a sela 
e        as rdeas ao cavalo e ficou a esfreg-lo enquanto fui
buscar-lhe um balde de gua.
        Quando voltei do rio j encontrei Shaw e Lowden. Vance 
ainda mostrava no olhar semicerrado o ardor do seu esprito, 
mas havia na maneira como falava alguma coisa forada, que 
no era natural. Informou-se a meu respeito e dos meus 
doentes e acrescentou:
- Creio que ganhaste as tuas esporas, rapaz... J percebeste
com certeza que tivemos um encontro com os ndios.
        Se estivesses connosco terias avaliado a diferena que um 
cavalo veloz faz entre a vida e a morte. Encontrmos o carro 
de Beal todo queimado e apenas trs homens, nus, escalpelados 
e        mutilados. O quarto deve ter-se afastado, pelo menos dos
carros, mas com certeza foi perseguido e morto. No o 
encontrmos. Um grupo de selvagens que estavam acampados 
perto farejaram-nos e vieram por ali abaixo como uma matilha 
de lobos. Espermos at estarem ao alcance de tiro e depois 
fugimos a disparar. Foi muito mau para eles. Como no podiam 
atingir-nos nem aos nossos cavalos, alguns tentaram cercar-
nos e        passar-nos  frente, mas ento 
aumentmos o galope e
afastmo-nos.
180
        Na manh seguinte partimos sob as ordens estritas de 
Creighton, fortalecidos com quatro carroes e enfraquecidos 
pelos homens que perdramos, assim como vrias juntas de 
bois. No faltava um nico macho. As caravanas de John e 
James Creighton, que haviam partido em diferentes direces  
procura de postes telegrficos, teriam de encontrar-se 
connosco no caminho, pois o levantamento da linha 
prosseguiria. Verificaram-se alguns protestos da parte dos 
homens, mas os que estavam mais gravemente feridos ficaram 
num carro preparado para eles, e os outros, aleijados ou no, 
tiveram de trabalhar como se nada houvesse acontecido. Ao 
meio-dia tnhamos postes levantados numa extenso de cinco 
milhas para alm do ponto onde framos surpreendidos pelos 
ndios. A minha tarefa continuava a ser a de pregar pregos 
nas traves, para impedir o contacto prejudicial dos animais 
da pradaria. Parecia-me um trabalho absurdo e sentia-me 
sempre ridculo quando os vaqueiros me sorriam 
misteriosamente. 
Quando cheguei com Darnell ao fim da linha, onde j se
encontravam Shaw e Lowden a cavalo, ficmos todos 
surpreendidos com o espectculo que se nos ofereceu: o 
patro, em mangas de camisa e com uma mancha sangrenta no 
ombro, corado e a transpirar sob o sol escaldante, cavava um 
buraco s com um brao. Creighton era asim: nunca pedia a um 
homem que fizesse ou tentasse qualquer coisa que ele prprio 
no fosse capaz de fazer. Faltavam-nos homens, mas o trabalho 
tinha de prosseguir.
        Naquela noite acampmos pela ltima vez nas margens do 
South Platte River. A partir da o caminho seria para 
nroeste, de regresso ao Nebrasca e seguindo a Lodge Pole 
Creek.
        Pouco depois do jantar recebemos a perturbante notcia de 
que um dos dois carros destrudos pelos ndios estava cheio
181
de mantimentos e que, por isso, passaramos a comer por 
rao. At ento, sobretudo quando abatamos algum bfalo,
comramos bem, no nos faltando farinha para fazermos 
biscoitos ou po, toucinho fumado, caf e acar. Tnhamos 
at manteiga enlatada! Agora ver-nos-amos privados de 
razovel quantidades desses alimentos e no tardaramos a ser 
obrigados a        recorrer ao pemmican, carne 
seca de bfalo reduzida a p e
conservada em sacos de pele. Era um prato de substncia e que 
me agradava quando misturado com farinha e fervido. Havia 
tambm penole, ou seja pipocas modas e misturadas com acar 
e        canela. Bastava juntar-lhes gua para se ter um alimento 
que
satisfazia e fortalecia. Como vegetais usvamos vrias ervas 
s quais fora extrado o suco e o restante seco num forno.
Este resduo adquiria quatro vezes o volume vulgar, depois de 
cozinhado, e era saboroso e nutritivo. No entanto, o facto de 
passarmos a raes reduzidas no nos preocupou muito, pois 
sabamos que em breve encontraramos bfalos.
        Outra coisa nos inquietava: se no chovesse, teramos flta 
de gua na longa jornada atravs daquele canto do Nebrasca e 
pelas terras ridas do Wyoming at ao rio Laramie. Liligh 
ouvira dizer que Lodge Pole Creek, que seguiramos at ao 
prximo afluente, secava por vezes no Vero.
        Na manh seguinte, antes de nos afastarmos do grande rio, 
Liligh mandou-nos encher todos os barris, odres e 
receptculos que pudessem levar gua, e aconselhou-nos a 
poup-la at passarmos as terras ms.
        A algumas milhas do rio, no terreno que subia acima do 
leito do ribeiro, deparou-se-nos a regio mais rida que at 
ento encontrramos. Marcavam a trilha ossos esbranquiados 
de gado, bfalos e outros animais, num aviso sinistro do que 
a fome e a sede podiam produzir.
                        182
S encontrmos gua trs dias depois de deixarmos o South
Platte, e no conseguimos avanar mais de trs ou quatro 
milhas por dia.
        Animou-nos a mensagem que recebemos de que John e James 
Creighton haviam chegado a Julesburgo com dois carregamentos 
de postes e vinham ao nosso encontro. De Forte Kearney sara 
tambm, para se nos juntar, outro destacamento de drages. 
Creighton ordenou que os soldados reparassem quaisquer 
estragos da linha que encontrassem durante a viagem.
Certo dia recebemos a visita de um grupo de ndios, graves
mas no hostis. Liligh explicou-nos que eram sioux de uma 
tribo que no entrara ainda abertamente no caminho da guerra. 
O        seu chefe, Falco Negro, era inteligente e sisudo e sabia
algumas palavras de ingls. No entanto,  imagem dos seus 
homens, tambm ele se deixou absorver pelos sons do 
telgrafo. Aconteceu que, nesse momento, chegou de Julesburgo 
a informao de que na cidade se encontravam ndios, alguns 
Ogallalas entre os quais se contava um chefe famoso. 
Creighton telegrafou a pedir o seu nome e responderam-lhe que 
a sua traduo era Nuvem de Guerra. Ao perguntarem a Falco 
Negro se o        conhecia, replicou com um 
"Ugh"! gutural e uma expresso que
denotava interesse e admirao. Creighton, Liligh e um dos 
homens das plancies conhecedores de ndios convenceram 
Falco Negro a ditar uma mensagem para Nuvem de Guerra, com a 
inteno de demonstrar-lhe, pela resposta que se obtivesse, a 
utilidade e a honestidade do telgrafo. A mensagem enviada 
foi mais ou menos esta:
"Nenhuma chuva. Tudo seco. Sol queima erva. Onde h bfalo?
        E a resposta de Julesburgo:
"Vir chuva. Muitos bfalos. Nuvem de Guerra sada seu irmo
sioux"
183
Por muito admirado que ficasse, o chefe ndio no se deixou
convencer totalmente. Como alm de inteligente era astuto, 
mandou outra mensagem relacionada com o paradeiro dos seus 
guerreiros, coisa que os brancos ignoravam. A resposta, nada 
tranquilizadora para os brancos presentes, foi:
"Cavalo ferro muitos guerreiros. Dana de guerra em Rocha
Branca que Sobe Alto".
        Estas palavras convenceram os siouz da magia do fio, e 
convenceram-nos a ns de que amos ter mais complicaes com 
os ndios. Mas Falco Negro ficou aparentemente convencido de 
que Creighton podia invocar o poder do Grande Esprito para 
enviar palavras atravs do ar e afirmou com insistncia que a 
tribo sioux protegeria a linha telegrfica. Mandaria notcia 
a todas as tribos de que o Chefe Branco no queria fazer mal 
com os seus arames e postes espalhados pelas plancies e 
recomendar-lhes-ia que o protegessem. Creighton ficou 
contentssimo, como se aquela fosse a melhor notcia que at 
a recebera, e ns tambm.
        - Estes sioux so sinceros - afirmou Liligh.
        - Se acreditam que no queremos fazer-lhes mal nem 
exterminar os bfalos, protegero de facto a linha 
telegrfica. Para eles representa a voz do Grande Esprito, 
mas... - fez uma pausa plena de significado. - Bem, quem me 
dera a linha concluda e patrulhada por drages!
        Desse dia em diante,  medida que avanvamos, 
acompanhavam-nos sempre ndios. Conduziam-nos para locais 
onde havia gua ou diziam-nos onde poderamos encontr-la, o 
que constitua um grande auxlio num momento em que as 
nascentes eram poucas e separadas por fatigantes milhas e 
dias de marcha sob um calor escaldante. s vezes tnhamos de 
dar gua aos bois nos baldes, para evitarmos que fossem 
caindo pelo caminho.
184
        Os dias tornavam-se mais quentes, a pradaria mais rida e 
ns mais magros devido ao trabalho extenuante,  
insuficincia de alimentos e ao sol. Cruzmo-nos com um 
cavaleiro da Pony Express, vindo do Oeste, que nos transmitiu 
notcias perturbadoras: Sunderlund e a sua caravana tinham 
sido obrigados a parar para repelir os ndios. Alm disso, o 
coronel pedira que nos informasse que metade da sua manada 
fora roubada por ladres de gado que o seguiam desde o Texas, 
e        no perdida em consequncia da fuga dos animais. Shaw
demonstrou desusado interesse pelas palavras do cavaleiro, 
desejoso de saber quem era o chefe do bando texano. Perguntei 
a        mim prprio se suspeitaria de Red Pierce.
Uma noite, depois de acamparmos, tentvamos refrescar-nos
quando Lowden nos disse que a caravana de Sunderlund se 
encontrava apenas a cerca de oito milhas de distncia.
- Bem, Wayne - observou Darnell -, creio que esta noite irs
 frente, para falares com Mr. Sunderlund.
- Se lhe falares, no te esqueas de dar cumprimentos meus 
filha. - interveio Jack.
        - Sei que esto a mangar comigo, mas a verdade  que, se a 
caravana est mesmo a oito milhas de distncia, irei l esta 
noite!
Shaw, que at ento se mantivera calado, chamou-me de parte:
- Wayne, sei que s tu o chefe deste carroo, mas o chefe
esta noite sou eu e no consinto que vs ver Kit Sunderlund.
- Tencionars ir tu prprio? - perguntei, abespinhdo, com a
aparente determinao de Vance em afastar-me de Kit.
        - No!
E, sem mais palavras, foi selar o cavalo. Fui atrs dele, j
mais calmo.
185
- Tu deves ser o melhor amigo que tenho no mundo. Por que
no vamos os dois dar um passeio, esta noite?
- No, Wayne, tenho de ir dar uma volta de vigilncia. At
logo.
Montou e afastou-se, deixando-me a pensar no motivo que o
levara a falar-me de novo naquele assunto.
        Estava uma noite muito bonita e muito calma, mas para mim 
foi tremenda. Por um lado estava ansioso por ir ver Kit, mas 
por outro no tinha coragem de desobedecer ao Shaw. Teria 
este alguma razo especfica para no querer que l me 
dirigisse? Iria ele prprio falar-Lhe? No, no acreditava 
que Vance fosse ver Kit depois de recusar acompanhar-me. A 
cabea andava-me  roda, mas no meio da confuso das minhas 
ideias uma surgia com nitidez: ia naquele momento ver Kit 
Sunderlund e        a dolorosa acusao que me 
fizera estava esquecida como se
nunca a houvesse pronunciado!
        Quando selava o cavalo de Darnell, este observou:
- Camarada Wayne, fazes isso como se durante toda a tua vida
nunca tivesses feito outra coisa!  estranho como as mulheres 
podem transtornar um homem!
        Lowden explicou-me como encontraria o acampamento e pouco 
depois cavalgava por uma pequena elevao entre dois vales. A 
lua acabava de surgir no leste, de uma cor avermelhada, e uma 
brisa quente e seca varria a plancie. Deixei a rdea solta a 
Ps Alados, pois tinha a sensao de seguir uma pista de gado 
ou de ndios. Os pensamentos voavam-me de um assunto para 
outro, mas voltavam sempre a Kit Sunderlund.
        Encontrei a caravana de Sunderlund no fim da pequena 
elevao por onde seguira. Observei os carros, as dez ou mais 
fogueiras que ardiam alegremente e descobri o carro de Kit.
                        186
Ps Alados mordia o freio, ansioso por descer, e mais uma
vez lhe soltei a rdea.
O veculo da jovem estava parado sob um choupo-do-canad, um
pouco afastado dos outros, mas no interior do acampamento. 
Ouvi vozes, quando me acerquei, e depois, com enorme espanto 
e desgosto, vi a montada de Vance Shaw com a brida cada, na 
retaguarda do carroo. Recortadas contra o claro da 
fogueira distingui as si Lhuetas do alto vaqueiro e de Kit, 
apoiada ao seu peito.
        Pareciam fascinados, Shaw, que noutro momento qualquer 
teria ouvido Ps ALados a um quarto de milha de distncia, 
no se apercebera ainda da minha presena. Compreendi que 
devia retroceder e afastar-me o mais depressa possvel, mas 
um sentimento que no soube dominar cegou-me a toda a razo e 
levou-me a interpel-los furiosa mente, a acusar Shaw de me 
mentir, sem permitir a nenhum deles que me interrompessem. 
Depois voltei-me para Kit e declarei:
- Vance e eu ramos amigos, Miss Sunderlund e eu tinha
esperanas de que... enfim, esperanas de que voc me
compreenderia.
        Com o mundo a ruir  minha volta, saltei de novo para o 
cavalo, agarrei s cegas nas rdeas e, quando Ps Alados 
arrancou a todo o galope, ouvi Vance suplicar:
        - Camarada Wayne. espera! - mas segui para a frente.
187
X
Um dia, na hora de mais intenso calor, parmos  vista da
Chimney Rock, um dos marcos mais ansiosamente procurados ao 
longo da Pista do Orego e que no ficava longe da fronteira 
do Wyoming. Era uma rocha de aspecto indistinto e espectral, 
em forma de chamin, que se erguia acima da nvoa do 
horizonte como se quisesse furar o cu.
        Apesar disso e da sua cor vagamente acinzentada e 
fantasmagrica, parecia bela, uma miragem das terras altas 
depois dos dias interminveis de infindvel plancie. 
Encontrava-se a cinquenta ou sessenta milhas de distncia, 
mas era como se estivesse a mil, pois os carros de Creighton 
estavam paralisados e pela primeira vez no podiam ir para a 
frente. Os homens encontravam-se exaustos do trabalho duro 
sob o        sol escaldante, debilitados e 
famintos por via da dieta
magra, a que faltava a carne, e to cheios de sede que 
pareciam cuspir algodo. Tinham os lbios feridos, as faces a 
perder a pele, a ris queimada do calor. Os bois e os machos 
no bebiam havia dois dias e restava-nos apenas um pouco de 
gua para enganar a sede dos homens.
        Todos os dias, ao entardecer, surgiam nuvens no horizonte e 
ouvia-se o ribombar distante e abafado do trovo, mas mais 
nada.
        Creighton mandou chamar Liligh, os vaqueiros e alguns dos 
homens do Oeste que seguiam na caravana. O aspecto du nosso 
chefe traduzia tanto como o nosso a longa provao
189
que tinha sido a travessia das terras ridas a partir de 
Julesburgo. Estava magro, o sol esbranquiava-lhe o cabelo 
castanho e tinha a cara, salvo fronte e boca, negra e 
ressequida do sol. Mas nada conseguira transformar-Lhe o 
olhar de guia invencvel, que parecia mais acentuado ainda.
- Homens - comeou -, nesta jornada atravs das plancies
fui eu a tomar as decises e a responsabilidade.
        Compreendo que estejamos aqui paralisados por momentos ou 
horas, por mais tempo talvez, mas o meu crebro no aceita, 
nega-se a aceitar, que no possamos prosseguir. Sei que  
preciso avanar e que ser isso que faremos, mas agora, neste 
momento no podemos avanar.
        - No podemos retroceder, nem avanar - afirmou Liligh -, 
atingimos o limite. Obrigar os bois e os muares a 
prosseguirem sem gua seria mat-los no caminho. Se no 
chover...
        - No digas se! - berrou o chefe. - Quantas vezes te 
recomendei que dissesses quando? Shaw, com todo o devido 
respeito aos homens do Oeste mais velhos do que tu, recorro a 
ti. s jovem, a tua viso no foi ainda toldada pelo 
insucesso nem pela derrota. Que faremos...
- Bem, sir, quanto a mim, parece-me que devemos parar aqui,
como Liligh aconselha. Discordo dele quando diz que no 
podemos avanar com os animais e ver o que  existe para l 
daquela elevao de terreno, mas... Talvez no me acredite, 
patro, mas cheiro chuva.
        - Cheiras chuva? - repetiu Creighton, incrdulo.
- Sim, sir, cheiro chuva - afirmou o vaqueiro, em voz forte
e        vibrante. - Fui sempre capaz de cheirar chuva e  o que me
acontece agora. Esta espcie de sexto sentido nunca me 
enganou. No tento sequer explic-lo, nem i so interessa. 
Vivi sempre ao ar livre e aprendi que alguns homens vem 
coisas quando ainda so invisveis para todos os outros.
190
Conheci ndios cuja vista alcanava mais longe do que a de 
qualquer homem branco. Os meus sentidos tambm so apurados, 
sou capaz de ouvir uma fuga de bfalos a uma distncia 
inatingvel por qualquer homem que tenha conhecido, e cheiro 
a chuva.
        - Encorajas-me, vaqueiro. Homens, pararemos aqui at 
acontecer qualquer coisa. Desatrelem e fiquem o mais 
confortveis possvel, vocs e os animais.
        - Est bem, chefe - respondeu Liligh, cuspindo tabaco 
mascado para a areia seca e olhando Shaw com um olhar difcil 
de identificar.
- Tomaste sobre os teus ombros uma grande carga, vaqueiro
texano nariz-de-lobo. mas diabos me levem se no me agrada 
confiar em ti! Estamos quase desfeitos, camaradas! Vamos  
vida.
        As palavras de Liligh ficaram a ressoar-me aos ouvidos. 
Como confivamos todos naquele vaqueiro! At eu, apesar da 
amargura que me inundava o corao, era obrigado a admir-lo.
Enquanto eu e Darnell desatrelvamos os extenuados bois e os
soltvamos, Vance e Lowden tiraram a sela aos trs cavalos e 
conduziram-nos para a sombra do carroo. Em seguida 
procurmos todos um ponto onde o sol escaldante nos poupasse. 
Era um alvio descansar, mas quando chegou a hora mais quente 
do dia tornou-se-nos difcil respirar ou mover e o golo de 
gua que bebemos inundou-nos a pele ressequida de humidade. 
Enquanto olhava para sul na esperana de distinguir algum
sinal, por pequeno que fosse, de mudana de tempo, os meus 
pensamentos arrastaram-me para aquela noite em que o mundo 
rura  minha volta. Ou no teria razo para pensar assim? 
No existia entre mim e Kit Sunderlund nenhum compromisso que 
me permitisse objectar ao que porventura ela fizesse ou 
escolhesse. O que perturbara o meu equilbrio fora o facto de 
encontrar l Shaw, da sua aparente traio  amizade estreita
                        191
que julgava ezistir entre ns. Que quisera dizer-me quando me 
mandara esperar? Poderia justificar a sua presena no 
acampamento de Sunderlund depois de afirmar-me que no iria 
l?
No voltramos a tocar no assunto. Nos dias seguintes vira-o
olhar-me muitas vezes de maneira estranha, mas no me dissera 
nada e no fora capaz de falar-lhe no caso. Exteriormente 
comportvamo-nos como se nada tivesse acontecido, 
inteiramente entregues  tarefa de estender o fio telegrfico 
atravs do deserto. Agora encontrvamo-nos perante um 
problema de sobrevivncia.
Aquela tarde foi diferente de todas quantas recordo.  No
estava mais calor, mas o ar oprimia, tornara-se mais 
sufocante. A imobilidade da imensa pradaria impressionava. 
No se via um animal nem uma ave. O que a princpio me 
parecera neblina azul, no sul, foi a pouco e pouco  tomando a 
forma de nuvens, de nuvens que no se viam mover, mas que 
alastravam pelo cu e, apesar da hora, escureciam a terra. 
Gradualmente espalharam-se at para alm do znite, e o 
centro mais escuro, quase purpreo, intensificou-se e comeou 
a trovejar. Ao princpio a trovoada estava longe e mal se 
ouvia, mas foi-se aproximando at ficar quase sobre ns.
        - Compincha, to certo como eu estar aqui, vamos ter uma 
daquelas terrveis tempestades magnticas! - afirmou Shaw a 
Lowden. - Claro que nunca assisti a nenhuma nesta regio, mas 
bem sabes que nos disseram que eram muito ms.
        - Se so to ms como as de Panhandle, vamos t-la  e 
bonita! - exclamou o outro.
        - A mim tanto me faz - interveio Darnell. -  No Wyoming as 
tempestades tambm so ms, mas prefiro morrer fulminado a 
esticar seco de sede.
        - Amigos, posso no perceber do assunto,
                        192
mas digo-lhes que vai chover! - acrescentei por meu turno.
- Ah! - exclamou Shaw, levantando-se bruscamente. - Vem o
que eu vejo?
        Lowden, que se levantara logo aps ele, gritou:
- ndios, com os diabos! E no so poucos! Que raio querero
agora?
- O qu, ainda no percebeste? - indagou Vance, com desdm.
-        Cavalgam sob o fio para decidirem onde vo fazer uma das
suas sujas partidas.
Peguei no binculo e empoleirei-me no banco do cocheiro.
Liligh aproximou-se a correr e gritou-nos:
        - Ateno s ordens do patro! Vem a um grupo de peles-
vermelhas, com certeza com alguma fisgada. Creighton diz que 
os deixemos fazer o que quiserem, pois no estamos em 
condies de sustentar uma luta. Que diferena faro agora 
uns quantos postes telegrficos atirados ao cho, hem?! Nada 
de tiros, a no ser que nos ataquem. Estendam oleados de 
carro para carro, a fim de recolherem a gua da chuva.
        - O qu, velho manhoso, tambm acha que vai chover? gritou-
Lhe Shaw.
- Claro que sim, nariz-de-furo, claro que vai chover!
        - Rapazes, j notaram que o sol se escondeu atrs daquela 
nuvem e que o ar no est to quente? - perguntou-nos Vance.
- Pois escondeu, mas eu acho que ficarei  sombra mais um
bocado! - volveu Lowden.
        - Ento, camarada ianque, no nos dizes o que vs? -
prosseguiu Shaw, desta vez dirigindo-se-me.
- Devem ser quarenta ou cinquenta ndios, ou talvez mais. J
se vem bem. Pararam a meia milha, precisamente antes da 
linha telegrfica curvar para este lado. Nunca vi ndios 
assim, Tenho a certeza de que no so Sioux nem Araphoes.
193
- Tm o ar escanzelado e famlico dos Craws - observou Shaw.
- Se so Craws no podemos esperar coisa boa - asseverou
Darnell. - No entanto, no me parece que venham atacar.
- Parece-me ver um chefe a arengar ao grupo - elucidei. -
Reuniram-se  volta dele. Olhem, alguns desmontaram dos
garranos e sacodem o poste telegrfico. outros puxam o fio. 
Thoopee! Esto a derrubar os postes e o fio! Servem-se dos 
machados para cortar o arame. conseguiram! Alguns retrocedem 
a galopar como o vento. Seguem-nos outro grupo, talvez de uma 
dzia, e arrastam os postes. Parece-me que estiveram a tirar 
os isoladores. Eh, rapazes, ali mais adiante h ainda outro 
grupo que eu no vira. Encontram-se a cerca de uma milha e 
desviam-se da linha telegrfica. Com a breca, camaradas, 
arrastam tudo com eles! Alguns vo a p, com o cavalo pela 
arreata, e agarrados ao fio.
- Essa , por certo, uma nova mania dos ndios! - exclamou
Shaw.
        - Naturalmente meteu-se-Lhes na cabea que se cortarem um 
bocado de arame e fugirem com ele nos impedem de conseguir 
que o        Grande Esprito envie 
mais mensagens! - troou Lowden.
Pouco depois uma longa fila de ndios, uns montados e outros
a        p, tinham-se apoderado de uma boa milha de fio e
arrastavam-no pela pradaria, um pouco para norte.
        Verifiquei que todos os selvagens, quer montados quer a p, 
tocavam no fio telegrfico, uns com as mos e outros com os 
laos. No silncio intenso e peculiar daquele momento 
chegaram-nos aos ouvidos os seus gritos sinistros.
Estranho procedimento aquele! Eram autnticas crianas.
        Talvez tivessem agido de brincadeira, para se divertirem, 
embora no me inclinasse muito para isso.
                194
Que pensaria Creighton ao ver que uma milha inteira da sua 
linha telegrfica fora cortada e levada para longe?
        Um trovo forte desviou a minha ateno e, ao baixar o 
binculo, verifiquei que enquanto observramos os selvagens 
se operara uma grande modificao nas condies atmosfricas. 
As nuvens avanavam para ns, muito baixas, de um negro cor 
de tinta, e uma parede cinzenta, mvel, obscurecia aquele 
lado da pradaria. Era chuva, e eu gritei de contentamento. 
Outros a tinham visto antes de mim e estendiam afanosamente 
oleados entre os carros.
        Pela parte que me tocava e aos meus camaradas, o recolher 
da chuva podia esperar, um pouco, pois continuvamos 
interessados nos ndios. Eu estava interessado, tambm, na 
atmosfera cada vez mais pesada e sombria, na estranha luz 
ambarina que parecia envolver tudo e na aproximao da nuvem 
cor de tinta que as fascas cortavam em ziguezagues 
luminosos. Os gritos dos homens enquanto trabalhavam e os 
vivas com que saudavam a tempestade iminente substituam o 
silncio total de pouco antes.
        De sbito um enorme relmpago quase nos cegou, seguido 
imediatamente por um trovo de rebentar os tmpanos. Por 
momentos a minha vista ressentiu-se da violncia do claro, 
mas compreendi que a fasca cara mais perto dos ndios do 
que de ns. Mal o avaliara, porm, quando o raio de luz azul 
e branco rastejou pelo cho com incrvel rapidez, deixando um 
rastro de centelhas elctricas. A fasca atingiu o cabo 
telegrfico que os ndios arrastavam e o som sibilante que 
produziu, como de metal a fundir, percorreu a distncia toda 
do fio, numa sucesso de exploses.
Por momentos o lvido claro branco obscureceu a fila de
selvagens, mas no instante seguinte verifiquei que tinham 
todos cado. Os garranos sem cavaleiros galopavam 
enlouquecidos pela pradaria.
                195

Perguntei a mim mesmo se teriam morrido, mas de sbito vi-os 
levantarem-se um a um e, cambaleantes, hesitarem um instante, 
como que a  
recuperarem conscincia do que acontecera, e desatarem a 
fugir como codornizes assustadas.
        Shaw soltou uma gargalhada estrondosa:
- Que dizem a isto, camaradas? O Grande Esprito lanou uma
fasca sobre o fio telegrfico que os peles-vermelhas 
roubaram! Aposto que nunca mais se aproximaro da linha! 
Thoopee! yi Yi!
        - No h dvida de que o Senhor est com Creighton.
-        gritou Lowden.
        Eu, porm, estava ainda demasiado atordoado e im 
Pressionado com a grandiosidade do fenmeno para achar graa 
 situao. Tinha mais vontade de agradecer a Deus o milagre 
de estarmos vivos.
- L vem a tempestade, rapazes - gritou Shaw -, e vai ser de
respeito.
        No mesmo instante o cu abriu-se numa chuva de fascas e do 
cho pareceram jorrar bolas de fogo, dos stios onde os raios 
caam, as quais saltitavam pela pradaria, como enormes 
novelos brancos de algodo. O estalar das cordas de luz, o 
ribombar do trovo, o brilho terrvel que iluminava a 
paisagem, o cheiro acre a enxofre, a sinistra irrealidade que 
tudo envolvia, o cataclismo de sons ensurdecedores - tudo 
isso me atirou para o banco do cocheiro, ao qual me agarrei 
meio desfalecido, com todos os sentidos esforados para alm 
do seu limite.
Estava quase to escuro como se fosse noite, mas os clares
dos relmpagos eram to fortes que a luminosidade cegante e a 
penumbra se verificavam quase simultneamente. De onde me 
encontrava podia ver o curral feito de cordas onde os homens 
tinham encerrado as muares. Shaw dissera-me que sob 
tempestades magnticas como aquela,
                196
estes animais quase enlouqueciam de terror: Por incrvel que 
parea, viam-se bolas de fogo percorrerem o dorso dos machos, 
brincarem-lhes com as crinas curtas e sarem-Lhes das 
orelhas. Na maior parte os animais mantinham-se com as patas 
abertas e a        tremer como se fossem 
cair.
A nuvem negra quase nos atingira j. Dir-se-ia uma cortina
de tinta a deslizar perto do cho, e, embora devesse estar 
mais alta, no parecia a mais de trinta metros de altura. 
Darnell correu para mim e gritou-me ao ouvido qualquer coisa 
que no ouvi, mas quando o vi saltar Para dentro do carroo 
ainda tive tino suficiente para o imitar. Um momento depois a 
temPestade magntica ultrapassara-nos e as nuvens pejadas de 
chuva, empurradas pelo vento, obscureceram ainda mais a 
atmosfera e, ao despejarem sobre ns a gua que carregavam, 
quase abafaram o rugir do trovo.
        Shaw e Lowden estavam deitados nos seus beliches, a fumar 
calmamente, Darnell sentara-se na cama e eu estava ajoelhado 
 entrada do carro, a espreitar para fora. No sei se algum 
falava, tinha a impresso de que nem os meus pensamentos 
conseguia ouvir. O corao dilatava-se de gratido, rezramos 
para que chovesse e eis que chovia tanto que a gua parecia 
querer inundar a plancie e expulsar-nos dela. A tempestade 
pusera fim  seca, enchera os poos, engrossara as torrentes 
e fora a salvao de Creighton. A f do chefe merecia tal 
recompensa.
A chuva torrencial durou menos de meia hora, em seguida a
obscuridade desapareceu e a luz voltou. Ao sul Por entre as 
nuvens sombrias, viam-se j retalhos azuis. A tempestade 
terminou por fim, deixmos de ouvir o assobiar das fascas e 
o ribombar dos troves, e - custava a acreditar! - o sol 
rompeu de novo, gloriosamente brilhante, mas menos impiedoso 
no seu calor brutal.
                197
        Quando samos do carro todos os homens e soldados 
trabalhavam j. Apesar de termos acampado em terreno alto, 
havia gua com centmetros de altura por toda a parte. Na 
depresso que ficava abaixo de ns, e que antes estivera 
seca, rugia agora uma torrente enlameada. O cu e o sol 
reflectiam-sa nos inmeros lagos e poas. Quase duvidei dos 
meus olhos ao ver que a salva e a erva tinham perdido o tom 
murcho e pardacento e exibiam j uma leve tonalidade purprea 
e        verde. Os oleados estendidos entre os carros estavam todos
cheios de gua, e a pouca distncia,  esquerda do 
acampamento, os bois bebiam em pequenos regatos e comeavam 
at a mordiscar a escassa vegetao.
- Ento, quem  o melhor profeta desta caravana, quem ? -
brincou Shaw.
- Podes ser muito bom, compincha, mas tambm tens muita
sorte - observou Lowden. - Sabes bem que disseste todas 
aquelas tretas ao Creighton s para ele no perder o nervo. 
Mas eu, sim, eu sabia que ia chover.
- Rapazes, depois desta chuvada no ser natural aparecerem
bfalos? - indagou Darnell.
- Com certeza, mais cedo ou mais tarde. E, caramba, como me
apetece um rico bife!
        - Vm a o Creighton e o Liligh - murmurei. - Que tero 
agora? Irra, aposto em como vai mandar-nos j cavar buracos!
- No penses nisso, j l vai metade da tarde. Olha para
sul, a umas dez milhas daqui.
- O qu?! Macacos me mordam se no  um comboio de carros! -
exclamou Jack, contente.
        - Tens fracos olhos, Jack, a no ser talvez para as 
pequenas. So dois comboios!
No experimentei menos alegria do que os meus camaradas e
senti-me feliz por tudo comear de novo a correr bem para 
Creighton. Talvez fosse apenas imaginao minha,
                198
mas a pradaria adquirira cor, estendia-se at  linha do 
horizonte com uma beleza suave, clara e ondulante. Perto de 
ns, a Trilha do Orego, agora a brilhar  luz do sol, 
seccionava essa beleza e descia, sinuosa, ao encontro das 
caravanas.
        Ao fim da tarde verificava-se grande movimento no 
acampamento. Creighton mandou abater dois dos bois que 
estavam feridos e que complicariam o nosso progresso, o que 
era uma promessa de carne fresca durante vrios dias. Surgia, 
porm, o problema da lenha para arder. No se avistava 
nenhuma e poucos detritos de bfalo restavam nos carros que 
tinham procurado na trilha este peculiar, mas satisfatrio, 
combustvel.
        Na manh seguinte, muito cedo, os trabalhos de construo 
recomearam com toda a intensidade. No tardmos a verificar 
que framos demasiado optimistas ao supor que os nossos 
desastres tinham terminado, pois assim no era.
        Todos os dias Chimney Rock se erguia  distncia, como se o 
nmero de milhas que nos separava dela permanecesse imutvel. 
Embora o trabalho ao longo deste trecho fosse provavelmente o 
mais extenuante, no tinha a sobrecarreg-lo a ansiedade e o 
desespero dos dias em que nos atormentava a falta de carne e 
de gua.
        Continuava a no haver sinais de bfalos ou de ndios. Nem 
um nico cavaleiro selvagem no horizonte desde a tempestade 
magntica! Quando interrogvamos Shaw a este respeito, 
meneava sinistramente a cabea, mas no fazia comentrios. 
Notei que se voltava vezes sem conta na sela, para olhar para 
sul. Liligh rejeitava a ideia de os bfalos terem passado por 
outro lado, pois aquela trilha larga que cobria o extremo 
ocidental do Nebrasca e o extremo oriental do Wyoming servia 
de caminho obrigatrio a esses animais, ningum sabia h 
quanto tempo, talvez h centenas ou milhares de anos.
199
- Sentir-me-ia mais tranquilo se a manada grande passasse
por ns - afirmava o velho capataz.
        Chegou outro dia quente e abafado, durante o qual fizemos 
extraordinrios progressos. NaQuela noite conseguimos tambm 
acender uma fogueira melhor do que de costume, embora a bem 
dizer no fizesse falta, pois a temperatura estava amena. 
Sentvamo-nos todos em redor do lume, pouco faladores, o que 
indicava estarmos cansados e desejosos de nos deitarmos. 
Nestes raros momentos de repouso no conseguia fugir ao 
aguilhoar de uma recordao que parecia provir de distante 
poca passada. O rosto triste de Shaw, fixo no lume e vincado 
pela amargura das suas prprias recordaes, no me ajudava a 
esquecer Kit Sunderlund. No, no a esquecia. Vrias vezes 
constara no acampamento que a caravana de Sunderlund seguia a 
pouca distncia de ns, voltada para o oeste, e essa certeza 
perturbava o teor rude dos meus dias aventurosos. No s me 
perseguia a recordao da rapariga, como tambm a certeza de 
que voltaria a encontr-la. No me permitia sequer imaginar 
qual seria o papel de Shaw, a dar-se esse reencontro.
De sbito reparei que Shaw se voltava uma vez mais para o
sul e ficava imvel como uma pedra. Devia escutar qualquer 
coisa. Vira-o fazer o mesmo inmeras vezes e outras tantas 
tentara ouvir eu prprio o quer que fosse que lhe despertava 
a ateno, mas sem resultado. A noite estava invulgarmente 
silenciosa. Ouviam-se pequenos sons e murmrios de vozes 
vindos dos outros carros, mas para alm do acampamento tudo 
era silncio ou pelo menos assim me parecia.
O vaqueiro levantou-se e afastou-se de ns, quase at ao
limite do crculo de luz, mas eu pude v-lo de lado, com a 
cabea um pouco inclinada, numa atitude tensa, de escuta.
200
- Que diabo.? - indagou Lowden baixinho, tirando o cigarro
da boca e levantando-se.
        - O Vance deve estar a escutar qualquer coisa respondeu-lhe 
Darnell, no mesmo tom abafado. - Com certeza que est a 
ouvir. Que ser, Jack? ndios?
- No, com a breca! - respondeu-lhe o outro. - O Vance nunca
procede assim quando h ndios por perto.
- Que ser ento? - perguntei por meu turno, mas no obtive
resposta.
Mantivemo-nos como estvamos, muito direitos a observar
atentamente o vaqueiro, at que este abandonou de repente a 
sua atitude de esttua e correu para ns:
- Bfalos! - anunciou, com voz vibrante. -  uma fuga, to
certo como estarmos aqui! E encontramo-nos mesmo no caminho 
deles!
        - O qu?! - exclamei. - Bfalos?
        - Tens a certeza, camarada? - indagou Lowden.
- Absoluta! J os ouvira muito antes de certificar-me de que
vinham direito a ns.
- Espera, deixa-me ouvir, no sou to mouco como julgas -
declarou Jack, afastando-se na escurido.
        Espermos todos, com a respirao opressa, e a mim pareceu-
me que at o prprio ar ficara sobretudo carregado de 
ansiedade. Passados vrios minutos, Jack regressou, com as 
esporas a tilintar.
- No ouo nada, camarada, nada! - declarou. - No h vento,
nenhuma vibrao no ar. mas se tens a certeza  melhor no 
perdermos tempo.
- Tambm me parece, pois talvez o que nos sobra nem chegue
j. Cameron, vai procurar depressa o Liligh, Jack e Tom vo 
buscar os bois. Eu tratarei dos cavalos.
        Corri  procura de Liligh, alarmado com a atitude e a voz 
seca do vaqueiro e perguntando a mim prprio que mais nos 
estaria reservado.
                        201
Se a principal manada de bfalos ia surgir e o nosso 
acampamento ficava no seu caminho, a situao era de facto 
sria. Encontrei Liligh perto do seu carro, a conversar com 
os seus homens em redor da fogueira, e disse-lhe, sem flego:
        - Chefe, venha depressa comigo, o Shaw quer falar-lhe 
imediatamente!
        - A mim? - indagou o velho, com uma careta. - Para que me 
quer esse maldito vaqueiro? Que espcie de perigo lhe cheira 
agora?
        Mas, embora resmungasse e protestasse, no perdeu tempo a 
levantar-se e a seguir-me. Arrastei-o to depressa, que 
Liligh praguejou e exigiu que lhe dissesse o que se passava.
- Chefe, o Shaw ouve bfalos! Falou que vo passar e afirma
que o acampamento est na sua trajectria.
- Raios e coriscos! Eu bem dizia que a manada no podia ter
passado por outro lado!
Quando chegmos ao carroo Shaw atrelava os trs cavalos s
rodas.
- Liligh, receio ter ouvido uma manada imensa de bfalos em
correria - anunciou, sem perder tempo. - H dias que tal 
receio me perseguia, com insistncia. Posso estar enganado, 
queira Deus que esteja, mas afaste-se um pouco do 
acampamento, volte o ouvido para o sul. e no se esquea de 
suster a respirao e o bater do corao, pois de contrrio 
no ouvir nada.
- Como diabo queres que pare o bater do corao, vaqueiro? -
protestou Liligh, que no entanto se afastou rapidamente. 
Segui-o, mas a certa distncia, e quando me vi sozinho no
escuro voltei o ouvido para o sul e tentei deter todo o 
funcionamento interno do meu ser.
Mas, para meu grande desespero, o corao batia-me como um
martelo e ouvia o sangue correr-me nas veias.
202
A grande abbada estrelada do cu parecia cobrir-nos numa
atitude de alerta, o silncio e a solido eram intensos, 
amplificados sem dvida pela minha imaginao, ouvia-se a 
respirao suave, quase imperceptvel da natureza, ou o que 
seria, talvez, um zumbido apagado de insectos, havia 
melancolia na grande e misteriosa quietude, em toda aquela 
terra escura da pradaria. Mas, por muito que escutasse com 
toda a intensidade dos meus sentidos, no lograra ouvir nada 
de desusado.
        Segui Liligh, quando este voltou para junto da fogueira. 
Shaw levantou a cabea do que estava a fazer e vi-lhe as 
brasas reflectidas no olhar.
        - Ento, chefe? - indagou, com ansiedade.
- Maldita sorte! - exclamou o capataz. - Quando  que alguma
vez te enganaste, ndio texano de uma figa? So os bfalos, 
no h dvida, e se no me engano h milhes deles naquela 
manada.
        - Tambm creio. Mal temos tempo de nos prepararmos.
- Claro que j assisti a muitos casos - prosseguiu Liligh,
apressado -, mas nesse ponto vocs, texanos, devem ser mais 
entendidos do que ns, nortistas. Qual  a tua ideia? 
Desembucha depressa.
        - Trata-se de uma ideia, apenas. Diga ao Creighton o que se 
passa e d o alarme no acampamento, reuna as muares e os 
bois, forme os carros em cunha, com a ponta aguada para a 
frente, coloque-lhes adiante dois dos carroes mais velhos e 
prepare baldes de petrleo para os regar, mande dois homens 
de cada carro para a frente, com espingardas e fartura de 
balas, aos dois homens que ficarem em cada veculo ordene que 
tentem deter o gado. O resto sabe voc. Depressa!
Liligh afastou-se aos berros. No tardou a desencadear-se no
acampamento uma actividade tremenda: vozes roucas,
203
arrastar de botas, tilintar de arreios metlicos, homens a 
correrem para a pradaria munidos de lanternas, a gritarem uns 
com os outros, Lowden e Darnell com os bois, chiar de rodas, 
e pouco depois, com uma rapidez que me pareceu incrvel, a 
deslocao dos carros, alguns empurrados por uma dzia de 
homens, outros puxados por muares, e o alude de bois para o 
interior do acampamento. Ajudei o mais que pude, sempre a 
correr de um lado para o outro e agudamente consciente da 
azfama que me rodeava.
        A breve trecho Shaw gritou-me ao ouvido:
- Pega na carabina, enche as algibeiras de balas e vem
comigo. O Jack e o Tom tentaro suster o nosso gado.
O vaqueiro tinha uma lanterna numa das mos, a carabina na
outra, dois cintures de balas  cintura e, a julgar pelo 
chumao do seu casaco, mais munies nas algibeiras. Deu 
ainda algumas instrues a Tom e a Darnell e depois afastou-
se, seguido por mim. Se no era um verdadeiro pandemnio o 
que reinava no acampamento, no sei que nome dar-lhe.
Na maioria os homens e os soldados sabiam o que significava
aquilo. Uma grande parte deles assistira j a algures. 
Trabalhavam por isso com o desespero dos homens em perigo. 
Deixavam um grande espao na retaguarda da enorme cunha 
formada pelos carros, evidentemente para os bois e para os 
muares, embora grande quantidade de juntas de bois tivessem 
sido atreladas aos veculos. Entretanto a lua surgira e 
iluminava a pradaria. O mugir do pouco gado que nos restava 
aumentava a confuso.
        Homens e soldados, armados com espingardas e pistolas, 
dirigiam-se para a frente, em grupos de dois e de trs,
falando todos excitadamente. Pelo que me era dado avaliar na 
escurido, a cunha de carros, depois de concluda teria pelo 
menos cem metros de comprimento. Finalmente chegmos ao 
vrtice do tringulo.
                204
        Este tinha a largura de dois carros, que se mantinha numa 
extenso de duas filas, depois passava para trs carros, a 
seguir para quatro, e assim sucessivamente at  base larga 
do fim. A quinze metros da ponta da cunha viam-se dois 
grandes carros cobertos de lona branca, evidentemente 
destinados a ser sacrificados pelo fogo. Vi homens passarem 
com baldes e cheirou-me a petrleo.
        Encontravam-se reunidos nesse ponto cerca de cinquenta 
homens e soldados, a falarem ruidosamente. Shaw parecia, pelo 
contrrio, nada ter que dizer e eu hesitava em interrog-lo. 
No vi Liligh, mas notei a presena de Wainwright, Widing, 
Nelson, Edney e outros indivduos do Oeste com quem 
trabalhvamos. Tinham o rosto srio e determinado, e enquanto 
falavam estavam voltados para a pradaria, sem dvida com o 
ouvido to atento como o meu. A algazarra atrs de ns foi 
diminuindo, sinal de que  medida que a cunha chegava ao fim 
deixava de ser preciso gritar. Tudo se fazia crer que haveria 
tempo de terminar a cunha antes de comear o assalto dos 
bfalos.
        Shaw fez-me sinal para que o seguisse. Deixmos o grupo de 
homens e dirigimo-nos para os dois carros a que seria lanado 
fogo.
- Avancemos uns passos, para eu poder ouvir outra vez os
bicharocos - disse-me quase ao ouvido.
        Avanmos cinquenta passos e parmos. No mesmo instante 
ouvi um ribombar distante e abafado, de certo modo semelhante 
a uma trovoada distante e para mim, sem dvida, um som que 
fazia parar o corao.
        - Ests a ouvir? - perguntou-me Shaw com aquele qualquer 
coisa na voz que me fazia sempre estremecer interiormente. -
Calculei mal, so muito mais do que supunha. Galopam 
enlouquecidos, num susto total: Esto mortalmente assustados. 
 engraado como uma manada de bfalos se assusta com to 
pouco! Creio que  por serem muitos
                205
e        a loucura se espalhar por todos. Deita-te e encosta o 
ouvido
ao cho. Ser uma novidade para ti, acredita. Entretanto 
voltarei para trs e direi aos homens que deitem o petrleo 
nos carros e se preparem para disparar depressa.
        Obedecendo ao vaqueiro, tirei o chapu, deitei-me e 
encostei o        ouvido ao cho, com 
fora. Foi como se o encostasse a um
bzio colossal e ouvisse atravs dele o estranho murmrio do 
mar. Era asim, mas diferente em muitos sentidos. Dificilmente 
poderia chamar-lhe um bramido, mas assemelhava-se  trovoada 
no a uma trovoada de elementos, mas a uma trovoada de vida. 
Sim, era vida, uma enormidade inconcebvel de vida, um pulsar 
imenso sem uma paragem infinitesimal entre as pulsaes. 
Esforcei-me por concentrar as minhas faculdades e avaliar 
se
o        som aumentava ou no, e em breve tinha a certeza de que
tanto o volume como a intensidade se aceleravam. Shaw voltou, 
tocou-me com a bota, e quando me levantei disse-me ao ouvido: 
- J no falta muito, camarada. Espero que tudo corra pelo
melhor, mas s vezes  to impossvel separar os bfalos como

det-los. Faz o que eu fizer e reza as tuas 
oraes. Espraiei o olhar pela vasta pradaria e 
pareceu-me ver
distintamente,  fraca luz do luar, uma extenso de 
cerca de meia milha. Distinguia os postes 
telegrficos erectos como 
sentinelas negras ao longo dessa distncia, mas 
para alm dela tudo parecia opaco e fantasmagrico. 
No estado de esprito em que me encontrava, fcil 
era  minha imaginao conjurar todas as fantasias, 
mas esforcei-me sinceramente por dominar-me e 
conservar-me calmo, e exteriormente consegui-o, sem 
dvida.

Os dois carros regados de petrleo irromperam em chamas e
iluminaram uma grande zona  nossa volta.
                206
Os rostos dos homens j        no estavam negros e Em 
cabelo, 
plidos e com o olhar ardente fito na pradaria, olhavam 
apenas

numa direco. Shaw mandou-os retroceder e colocou-
os de cada lado dos dois primeiros carros. Se a 
manada se dividisse ao encontrar esses obstculos, 
os bfalos passariam de cada lado dos homens e da 
cunha, se no se dividisse. Shaw colocou-me junto 
de si, do lado do centro, e empunhou a espingarda, 
dizendo-me num grito que soou como um murmrio:
        - Dispara quando eu disparar e no pares!
        Compreendi, pela maneira abafada como a sua voz 
soou, que a manada estava quase sobre ns, embora 
ainda no ouvisse nada. Quando tirei o relgio 
para,  luz do luar, ver as horas, as mos tremiam-
me tanto que mal distingui os ponteiros. Eram oito 
e meia. Depois olhei para a frente, transfigurado, 
com os ps firmemente presos ao cho, convencido de 
que ia viver o momento supremo da minha vida.
        Vi ento qualquer coisa na pradaria enluarada. 
Qualquer coisa preta que se movia, que era como o 
fluxo torrencial de um oceano atrs do qual havia a 
fora conjugada de inmeras vagas. O fogo, que 
atingia agora o topo das coberturas de lona, 
produzia um claro mais brilhante. A vaga negra 
engoliu o        espao banhado 
de luar e reconheci a frente hirsuta de uma
manada de bfalos em fuga. Alargava-se em linha 
recta e estendia-se de ambos os lados at onde a 
minha vista alcanava, e certamente por milhas e 
milhas mais.
        Apercebi-me de que oscilava nos ps, de que o 
solo se tornara instvel e estremecia debaixo de 
mim. Logo a seguir senti uma presso tremenda e 
avassaladora e compreendi que no ouvia j o 
estrpito inconcebvel daquela avalancha de 
animais: ensurdecera-me. No havia nenhum som. 
Compreendi-o porque quando Shaw levantou a 
espingarda para dar o sinal,
                207
para dispararmos todos, no se seguiu descarga 
nenhuma  lngua de fogo e de fumo que jorrou, dos 
canos das armas. 
Imitei Shaw, a tremer como varas verdes, e 
despejei
rapidamente a cmara da espingarda na frontaria 
daquela muralha negra salpicada de mirades de 
chifres e de ferozes olhos verdes. Mas, apesar de 
trmulo e inseguro, conseguia disparar e olhar.
De sbito o centro da linha avanada pareceu 
vacilar sob um
choque tremendo, desintegrou-se, enormes vultos 
negros e hirsutos ergueram-se no ar, caram e 
escorregaram e outros tomaram os seus lugares, como 
por magia, at que uma pilha cresceu sobre os 
carros em chamas, fazendo voar milhares de 
centelhas avermelhadas. As minhas facul dades, o 
meu sangue, quase o meu prprio corao, ficaram 
imobilizados com aquele primeiro choque e com a 
insuportvel ansiedade, at que tive a certeza de 
que a manada bifurcara e o revolto mar negro 
passava pelos dois lados da cunha. Ento quase 
desmaiei. Era demasiado para um novato !
        Ao ver Shaw recarregar a espingarda fiz o mesmo, 
com os dedos dormentes. A de Vance vomitava fogo 
antes de eu acabar de carregar a minha. 
Encontrvamo-nos no mago de qualquer coisa to 
supremamente terrvel, que me transformei num 
autmato e passei a reagir como uma mquina. 
Disparava metodicamente, regulando o tiro e a 
recarga por Shaw e pelos outros homens. Os meus 
olhos eram assaltados por uma fria de aco, por 
um sorvedouro imenso e ilimitado de bfalos em 
louca disparada.
        A certa altura, quando quis carregar a 
espingarda, verifiquei que esgotara todas as 
munies de uma algibeira e recorri s da outra. 
Inseri os cartuchos, um a um, com os
dedos a tremer, e voltei a disparar. O claro dos 
carros em chamas esmorecera e a luz era pouca. S o 
fumo dos veculos luzia ainda. A poucos metros 
erguia-se uma coluna de fumo que se fundia na 
abbada opaca de poeira. A minha viso tornou-se 
baa, por via do cansao, do terror ou da atmosfera 
pouco lmpida, e durante muito tempo os olhos 
arderam-me e tive a impresso de ter  minha frente 
um vu de neblina. A grande pilha de bfalos cados 
de cada lado dos carros crescia  esquerda e  
direita, alargando a barricada de corpos mortos na 
frente da nossa cunha.
        Voltar a ouvir pareceu-me irreal e inacreditvel, 
mas os meus ouvidos estavam cheios de um estampido 
estentreo, que pouco a pouco diminuiu. Ao mesmo 
tempo que recuperava o ouvido, comecei a sair do 
estado de automatismo sob o qual actuara, a terra 
j no me tremia tanto sb os ps e os homens 
deixaram de disparar. As nuvens de poeira tornaram-
se menos espessas e apercebi-me do brao de Shaw 
sob o meu, provavelmente a amparar-me. O estampido 
tornou-se cada vez menor, vinha agora da nossa 
retaguarda e em grau decrescente. O        horrvel 
oceano negro que se bifurcava na nossa frente e
corria impetuosamente de cada lado ultrapassou-nos, 
a terra sob os meus ps deixou de tremer, voltou a 
ser uma superfcie slida, e as nuvens de poeira 
dissiparam-se, como se fossem sugadas por um vcuo 
provocado pela manada em fuga. Terminara o
        perigo. De novo ouvi vozes e,  plida luz do 
luar, vi o
rosto de Shaw, negro de poeira e de plvora. O 
rosto dos outros homens assemelhava-se ao seu.
        - Bem, camarada, foi duro aguentar uma manada 
como esta! exclamou o vaqueiro, apertando-me o 
brao com dedos de ao. Foi o pior que j vi, mas 
dividimo-la e estamos vivos! Orgulho-me de ti, 
companheiro, foste valente. No reparaste, mas 
alguns tipos perderam a genica ante a violncia da 
carga. Bem, o que interessa  que, de agora em 
diante, no faltaro bons bifes de bfalo!
208  209
Meia hora depois, os mais sfregos grelhavam 
alcatra nas
brasas dos dois carros, alegremente.
        Mas nenhum dos do nosso grupo se lhes juntou. 
Regressmos ao nosso carroo a pensar que iriam 
mandar-nos desfazer a cunha e        ocupar a posio 
normal. Tal no aconteceu, porm, e eu
arrastei-me para a cama e adormeci antes mesmo de 
me tapar. Nessa noite no sonhei nem acordei, e na 
manh seguinte o Tom teve de sacudir-me , para 
acordar-me. Chegou-me s narinas o cheiro suculento 
dos bifes, mas nem isso acelerou os meus 
movimentos.
No entanto, depois de comer com apetite, senti-me 
outra vez
como novo.
        Logo a seguir  refeio fui observar o campo de 
batalha. Havia uma enorme pilha de bfalos diante 
da cunha dos carros, com a altura de cinco ou mais 
feras no centro e a descer em ladeira de cada lado! 
Tornava-se evidente que nem os carros em chamas nem 
os tiros teriam bastado para dividir a manada se 
no fosse o insupervel obstculo dos bfalos 
mortos. E Que enormes e magnficos animais eram! 
Alguns dos machos maiores tinham o cachao, as 
enormes cabeorras e as frentes cobertas de plo 
negro comprido, basto e hirsuto. Os Quartos 
traseiros eram acastanhados. Alguns trabalhadores 
aproveitavam-se da oportunidade para obterem peles, 
e eu pedi a dois homens que esfolavam vrios 
animais para levarmos connosco que me arranjassem 
duas peles bonitas.
        - Parece que os bicharocos deram cabo da nossa 
linha
telegrfica - observou Lowden.
- Pelo que vejo, sero precisos mais de dois dias 
para
reparaes - acrescentou Shaw.
- Oxal nos escolham para ficarmos atrs a tratar 
disso -
disse por minha vez.
210
- N... - duvidou Shaw. - O chefe h-de querer-nos 
 frente.
- Reparei que o fio no s caiu, mas desapareceu - 
observou
Darnell.
        - Bois, e a esta hora encontra-se em Jeric.
        - Queres dizer Wyoming, compincha. Est uma bela 
manh, clara, at a Chimney Rock se v bem. Wayne, 
quanto falta agora para l chegarmos?
- No mo perguntes a mim - protestei. - Parece 
acerca de
cinco milhas.
        - Diabo, est mais longe agora do que h dez 
dias! replicou Jack, brincalho.
        Liligh deixou trs carros e uma dzia de homens 
no acampamento, com o encargo de fazerem as 
reparaes necessrias e reunirem-se-nos depois com 
a carne de bfalo e as peles. Aos restantes ordenou 
que se apressassem para partirmos.
        - Camarada, ontem, depois de adormeceres, 
aconteceu uma coisa engraada - disse Darnell. - 
Ouvimos todos e ficmos encantados. O Creighton 
veio para os nossos lados,  procura de Liligh, e 
quando o encontrou ordenou-lhe:
        "- Liligh, leve alguns homens e v ver quantos 
postes esto cados" - O capataz estava sentado, 
meio morto de cansao como qualquer podia ver, mas 
ao ouvir a ordem do patro levantou-se como se o 
tivessem picado e replicou:
        "-Para que diabo, patro? No haver menos postes 
cados agora do que de manh, e nessa altura talvez 
at haja mais". 
"- Quero saber quantos! - berrou Creighton.
        "- Bem, Mr. Creighton, no sei como vamos 
descobri-los esta noite" - afirmou o capataz, muito 
seguro e calmo. - "Claro que no me arriscaria a 
mandar os homens fazer isso agora,
                        211
seria o mesmo que arriscar a minha vida.
        "- Contratei-o, a voc e a todos, para 
trabalharem a  qualquer hora e toda a noite, se 
fosse preciso, - continuou o patro, furioso.
"- Quando avanarmos mais nesta pista no teremos 
descanso
nenhum, nem de dia nem de noite!
        "-Assim ser, chefe, assim ser. Mas ento j 
alguns de ns descansaremos tranquilamente nas 
nossas sepulturas ao longo da solitria pradaria". 
- Estas palavras devem ter acertado no ponto fraco 
do patro, pois ele gaguejou e pareceu sufocar, 
deitou um olhar de meter medo ao capataz e foi-se 
embora.

- Caramba, Tom, Creighton , sem dvida, um con 
dutor de
escravos! - exclamei, com nfase- Mas creio que 
possui uma espcie de viso que nos falta a ns, 
pois s um homem assim seria capaz de um trabalho 
destes.
- Sim, o patro  formidvel - concordou 
Darnell. Entretanto amos a caminho, com os 
carroes espalhados ao

longo da plancie e todos os homens com uma tarefa 
a cumprir e a        cumpri-la 
efectivamente. Encontrmos pequenos grupos de
bfalos pachorrentos, que no nos prestaram ateno 
especial e seguiram para diante. Eram, sem dvida, 
animais tresmalhados
da manada grande.
        Agradava-me muito observ-los. Seguia com Tom no 
ltimo carroo, e enquanto ele conduzia, parando 
de poste em poste, eu saltava e pregava os pregos 
afiados na madeira. Notara que vrios bfalos se 
tinham esgueirado para olharem com curiosidade um 
ou outro poste e, ao v-los encostarem-se a eles, 
lembrava-me da equipa de reparaes que ficara para 
trs e        no me preocupava. 
Sabia perfeitamente, graas  atitude
misteriosa de Shaw e ao sorriso malicioso de 
Lowden, que ainda teramos muito que ver com os 
bfalos.
212
O trabalho prosseguia dia a dia, razoavelmente, e 
comemos
a        aproximar-nos de Chimney Rock. A pradaria subia 
sempre,
embora s agora o declive comeasse a notar-se. 
Passei muitos momentos a olhar a rocha alta e 
esguia que servia de marco na Trilha do Orego, a 
lembrar-me de outro marco maior, a Independence 
Rock, algures ao longo da Trilha do Wyoming, e a 
desejar ver pela primeira vez as Montanhas 
Rochosas.
        Todos os dias passavam por ns grupos de bfalos 
tresmalhados, umas vezes em maior, outras em menor 
quantidade. As trovoadas tinham cessado, ou parado 
temporariamente, e isso favorecia o nosso 
progresso. O deserto adquirira uma cor mais fresca 
e mais verde e havia flores por toda a parte, com 
predominncia de berrantes girassis que pareciam 
surgir do cho como por magia. A gua continuava a 
ser abundante e raro era o dia em que no tnhamos 
de vadear uma torrente. Mas a regio continuava 
estril de vida, com excepo dos bfalos. 
Ao fim de um dia de bom progresso, Liligh mandou-
nos acampar
perto de uma nascente. Como o jantar no estava 
ainda pronto, afastei-me um pouco para observar os 
bfalos atravs dos binculos. Fiquei petrificado 
ao v-los derrubar os nossos postes telegrficos 
enquanto pastavam pachorrentamente e avanavam na 
nossa direco.
O seu mtodo favorito de proceder parecia ser 
encostarem-se
ao poste e coarem os costados com os pregos 
aguados que durante tantas milhas, tantos dias e 
tantas semanas, me esfalfara a pregar. Um enorme 
macho hirsuto aproximava-se de um poste, olhava-o 
de alto abaixo como se dissesse: "Bem, tenho de 
tratar desta coisa!", e depois esfregava-se contra 
ele. Sentia os pregos e o caso ficava arrumado: a 
lama empastada que tinham no lombo, para no falar 
nos parasitas de que podiam estar infestados, 
tornava o contacto das pontas afiadas uma delcia!
213
        De onde estava via a poeira voar-lhes de cima do 
couro. Quando um macho enorme se entregava a essa 
deliciosa operao, outro via-o e imitava-o 
imediatamente. Como os pregos estavam pregados a 
toda a roda do poste, chegava a ver-se trs 
monstros hirsutos no coa-coa, enquanto outros 
esperavam a sua vez. Claro que, como era 
inevitvel, os postes acabavam por cair.
        Os olhos de lince de Liligh no tardaram tambm a 
aperceber-se do que se passava, e as pragas com que 
amaldioou os pobres animais tornaram at o ar mais 
pesado. Mandou os vaqueiros, com o meu binculo, 
cavalgarem cinco ou dez milhas e        avaliarem a 
extenso dos danos. Depois, levando-me consigo
por nenhuma razo aparente a no ser, talvez, a de 
o encorajar moralmente, dirigiu-se ao carroo de 
Creighton. Encontrmos o
patro atarefadssimo com os seus telegrafistas.
- Chefe, lamento incomod-lo, mas os bfalos esto 
a fazer o
diabo a sete com os nossos postes telegrficos - 
comeou o capataz.
- No me mace. No v que estou ocupado? - berrou 
Creighton.
- Claro que vejo, mas isso acontece com todos ns - 
replicou
o        velho, irritante. - S quero saber o que vamos 
fazer.
        - Fazer, homem? ! Mas acerca de qu?
        - Estava a falar naqueles malditos bfalos.
        - Enxote-os!
        Deixmo-nos ficar, impassveis.
- Por que no obedece s minhas ordens? - gritou o 
chefe.
- Porque no podemos, com os diabos!  que so 
apenas cerca
de dez mil, compreende? Temos de deix-los dar cabo 
de tudo, como esto a fazer.
        - Dar cabo de tudo? !
214
        - Esto a abater os nossos postes telegrficos.
        Neste momento chegou Shaw.
- Vem c, Shaw - chamou-o Creighton. - Talvez tu 
fales
claro. Que se passa com os bfalos e os postes?
        - Bem, chefe, acabo de fazer uma inspeco ao 
longo da linha. - respondeu-lhe Shaw, 
laconicamente, e no sei porqu tive a impresso de 
que o vaqueiro se divertia. - HavIa cerca de vinte 
cinco milhas de postes derrubados.
- Vinte cinco milhas! - repetiu o chefe, incrdulo. 
- Porque
no me disseram? Fala, vaqueiro!
- Est bem, patro, falarei, se me deixar. Seguia-
nos uma
grande manada de bfalos, que hoje nos 
ultrapassaram e que derrubaram os postes coando-se 
nos pregos que mandou o Cameron pregar.
- Cus! - exclamou Creighton. - Isso  uma 
catstrofe!
Bfalos a coarem as costas? Onde j se ouviu 
semelhante coisa? A coarem as costas nos pregos! 
Vinte cinco milhas de postes! Meu Deus, por que no 
me informaram?
        - Mas disseram-Lhe, chefe. Ou melhor, disse-lho 
eu - volveu o        vaqueiro, com extrema 
serenidade e sem uma contraco sequer
do rosto.
        Creighton fitou-o, escarlate. Desatou a 
disparatar. incoerentemente, e a andar de um lado 
para o outro. Afastaram-se todos do seu caminho e 
por fim as suas palavras tornaram-se 
suficientemente claras para se perceber o seu 
significado:
- Vinte cinco milhas de postes derrubados! Seis 
dias de
trabalho para toda a caravana! E tudo porque 
apeteceu aos danados bfalos coar as costas! Tudo 
porque eu ordenei que se pregassem pregos nos 
postes! Belo engenheiro sa! Devia confinar-me a 
abrir buracos para os barrotes, mais nada. Como se 
j no tivesse tido aborrecimentos bastantes neste 
maldito trabalho! Isto  o mximo! Vinte cinco 
milhas! Pregos!
                        215
E        disseram-me. aconselharam-me! - Voltou-se para o 
sufocado
capataz e gritou-lhe, rouco: - Liligh, d-me uma 
carrada de pontaps, com fora!
E, transtornado pela clera, pelo desgosto e pela 
vergonha,
o        nosso chefe voltou o traseiro para o capataz. 
Este porm
ficou imvel, de queixo cado.
        - Patro, perdeu a cabea, no posso fazer tal 
coisa.
- Algum ter de faz-lo. algum dever fazer ainda 
pior!
Shaw, desmonta desse cavalo e aplica-me tu os 
pontaps!
- Oh, terei muito gosto! - afirmou Shaw, com um 
sorriso que
valia a pena ver.
Saltou do cavalo e aplicou tamanho pontap no 
patro, que o
estrondo pareceu produzido por um tambor! Creighton 
estendeu-se ao comprido, rojando a cara e as mos 
pela poeira. 
Percorriam-me convulses s quais tinha medo de 
sucumbir,
enquanto Darnell e Lowden se agarravam  barriga, 
como se estivessem prestes a explodir. Os restantes 
homens encontravam-se divididos entre o medo e o 
riso. Ento Shaw atirou-se para o cho e rebolou-
se, a soltar berros numa voz estrangulada e 
estranha. Durante um longo momento vimos, 
paralisados, Creighton levantar-se, sujo dos ps  
cabea, e limpar a poeira do rosto suado com um 
gesto violento e colrico.
- Vaqueiro dos diabos - trovejou - no te mandei 
matar-me!
Ests despedido!
Shaw sentou-se, esperou um momento at se acalmar e 
depois
declarou, em voz rouca:
- Bem, patro, o senhor ordenou-me que o fizesse... 
e sem
dvida estava a precisar.
        - Mas tu... tu... aproveitaste-te da minha 
confuso,
216
e        da minha clera! - gritou o chefe, a gaguejar, 
mas com
indcios de comear a dominar-se.
        O vaqueiro levantou-se devagar e disse, na sua 
voz arrastada:
- Est bem, patro, estou despedido, e isso 
significa que,
pela primeira vez, voc perdeu as estribeiras.
- Perdi as estribeiras, eu? - repetiu Creighton, de 
novo
sufocado pela ira.
- Claro, patro, o senhor. E isso  mau, pois como 
raio vai
acabar este trabalho sem mim?
        - Saian todos da minha vista, grandes idiotas! - 
berrou Creighton, como se no pudesse suportar-nos 
mais. - Todos menos tu, Shaw. Tu vens comigo, pois 
temos de conversar!
- Ah! - exclamou o vaqueiro, com o seu sorriso 
malicioso e
comunicativo. - Assim, sim, j est mais de acordo 
comigo e eu no me importo de obedecer.
        Creighton passou o brao sobre o ombro do 
vaqueiro e afastou-se com ele.
217
XI
A to desejada Chimney Rock erguia-se finalmente 
acima de
ns! Admirei-a do acampamento, a cerca de cinco 
milhas de distncia, alta e grandiosa, banhada pela 
luz do sol-pr, que a        tornava escarlate no 
topo e cor do ouro na base. Aps tantas
semanas - tantas semanas que pareciam anos! - de 
pradaria rida e plana, a alma sentia-se como que 
liberta ao admirar aquele marco da trilha.
Na manh seguinte, antes do sol nascer e  luz 
transparente
da alvorada, pareceu-me uma grande sentinela branca 
que guiava os viajantes para lugar seguro e para a 
gua pura que havia
perto. Naquele dia colocmos as cinco milhas de 
postes telegrficos num estado de esprito que se 
assemelhava muito a uma celebrao, esquecidos da 
dureza do trabalho.
        A conformao da Chimney Rock, mesmo sob a sua 
prpria sombra, continuava a ser impressionante. Um 
cone em forma de vulco, de rocha cinzenta, subia 
at formar um vrtice agudo, do qual saa a haste 
rochosa que dava o nome ao marcho: chamin. 
Naturalmente que, para os comerciantes de peles, 
para os caadores e para os emigrantes, o singular 
significado da Chimney Rock estava mais no que 
representava do que no seu esplendor como fenmeno 
fsico. Desde que pela primeira vez se avistava, ao 
longe, representava para os viajantes o fim da 
terrvel aridez e o comeo das extensas e onduladas 
estepes,
                219
que conduziam s Rochosas.
        Acampmos  sua sombra numa tarde em que o cu se 
mostrava enevoado e a temperatura amena. O 
acampamento era de novo pequeno e composto por 
relativamente poucos homens, pois Creighton fora 
caar com alguns. Era a bem dizer a primeira vez 
que me lembrava de o patro aproveitar o tempo com 
uma distraco. Shaw e Lowden tinham partido a 
cavalo, por sua prpria iniciativa, sem dvida para 
subirem a um ponto alto e observarem a regio, e 
Darnell entregava-se a vrias tarefas junto ao 
carroo. Notava que Tom se tornara mais silencioso 
e pensativo desde que nos aproximramos das terras 
altas do Wyoming. J no me importava com a espcie 
de proteco imposta que exercia sobre mim, pois 
embora a princpio me irritasse salvara-me vrias 
vezes de riscos graves. Aprendera, por isso, a 
considerar os seus cuidados para comigo sob uma 
nova luz. Liligh encontrava-se no acampamento, 
assim como Edney, Houser, Bob Wainwright, Hall 
Whiting e Cliff Nelson. Um outro grupo de homens 
partira com o encargo de desenrolar uma bobine de 
fio ao longo da trilha.
        Sentia-me inexplicavelmente nervoso e vigilante, 
facto que atribua  ausncia de Shaw e de Lowden e 
ao pequeno nmero de homens que se encontravam no 
acampamento. Foi por esse motivo, sem dvida, que 
descobri um grupo de cavaleiros avanar em direco 
a ns, pela trilha acima.
        Lembrei-me de Shaw afirmar que conseguia sempre 
distinguir  primeira vista um grupo de 
malfeitores, por muito distantes que estivessem. 
No era por coincidncia que os indesejveis da 
fronteira tinham predileco por cavalos e 
vestimentas negras. Os que se aproximavam de ns 
eram cerca de oito,
                220
com vrios animais de carga na sua frente.
        No gostei do ceu aspecto, mas hesitei em 
informar Liligh. Este, quando os avistou j muito 
prximo, ficou imvel, a observ-los atentamente. 
Depois, sem perder a calma, mandou-me chamar Edney, 
Wainwright e os outros.
        - No vejo o Shaw nem o Lowden, onde esto?
        - Foram no sei onde, chefe - respondi-lhe.
        - Claro! Por que diabo esses vaqueiros de m 
morte nunca esto presentes quando preciso deles? 
Aposto o que quiserem em como estes tipos no vm 
com boas intenes. De qualquer modo, seja qual for 
o seu jogo, o meu ser ganhar tempo.
        J vira uma Quantidade de indivduos ruins desde 
que me encontrava na fronteira, mas nenhuns com to 
mau aspecto como
aqueles. Pararam a umas sessenta jardas, mais ou 
menos, e alguns desmontaram para segurarem os 
animais de carga. Em seguida dois a cavalo 
aproximaram-se de ns, um dos quais era um homem 
robusto e de barba negra, que usava o grande chapu 
de tal maneira desabado que os seus olhos pareciam 
apenas dois pontos negros e luminosos no rosto 
agressivo. O que mais me saltou  vista foi o facto 
de trazer uma espingarda atravessada na sela e duas 
pistolas, uma de cada lado do corpo.
O seu companheiro era um indivduo mais novo, alto, 
magro e
de rosto macilento - texano, se os meus 
conhecimentos na matria no me enganavam. O 
primeiro voltou-se na sela e chamou os outros, com 
voz alta e spera:
- Camaradas, ainda aqui h alguma da minha madeira, 
no a
usaram toda.
        Tais palavras surpreenderam-me e Liligh praguejou 
entre dentes. Wainwright e os outros aproximaram-
se, curiosos e aparentemente despreocupados, pois 
no vinham armados.
                        221
- Eh, tipos da Western Union - berrou o barbudo -, 
onde est
o        patro?
- Se se refere a Creighton, neste momento no se 
encontra no
acampamento - respondeu-lhe o capataz, friamente. - 
Mas no se demorar. Entretanto, sou eu que mando.
- Bem, no temos tempo para parlamentar. Segui este 
pessoal
desde Julesburgo.
- Sim? Pois no nos seguiu muito depressa - volveu 
Liligh,
custico. - Que deseja?
-  Vejo que ainda tm cinco carroes de postes e 
devem ter
utilizado mais vinte. Esta madeira foi cortada da 
minha propriedade em Julesburgo e quero que ma 
paguem.
        - Oua, est bbado ou doido?
- Acho que pode decidir por si prprio, embora isso 
no faa
muita diferena. Estou aqui para receber o preo da 
minha madeira.
        - Isso  ridculo! - exclamou Liligh, com calor. 
- Esta madeira foi cortada muito longe de 
Julesburgo, mas mesmo que assim no fosse, ningum 
poderia pedir-nos dinheiro por ela. Nunca tal se 
ouviu!
        - Ouviu agora o que eu disse! - replicou o outro, 
em tom ameaador. - Vim procur-los para me pagarem 
a minha madeira, e        no estou disposto a 
perder muito tempo.
        - Ah. ento  um assalto!
        - Chame-lhe o que quiser , senhor super-
intendente!
        -Uma nova espcie de assalto, hen? - riu-se 
Liligh. Ladres de madeira nas plancies, onde no 
existem direitos de propriedade. Bem, essa  das 
boas!
O homem da barba preta observou Liligh um momento, 
depois
desviou para ns os olhos astutos e, por fim, para 
o acampamento e para a zona vizinha.
- Junte cinco mil dlares e passe-os para c, 
depressa -
ordenou, com rispidez.
222
        Receei que Liligh sufocasse ao tentar cuspir o 
tabaco, gaguejar e praguejar ao mesmo tempo. O 
capataz avaliava a situao e compreendia que 
estvamos em maus lenis. O companheiro do chefe 
do bando trazia igualmente a espingarda atravessada 
na sela, assim como todos os outros homens, e no
restavam dvidas de que seriam capazes de reforar 
as suas exigncias  fora de tiros.
No se tratava de uma questo de coragem da parte 
de Liligh,
o        velho capataz era valente e capaz de lutar pelo 
mais pequeno
motivo. Mas tornava-se evidente no ser de tomar em 
considerao uma luta, pois no s estvamos 
desarmados, como ramos poucos. Liligh sabia com 
certeza onde Creighton guardava o dinheiro, visto 
ficar com o acampamento a seu cargo quando o 
engenheiro se ausentava, e sabia tambm que o 
patro preferiria ceder s exigncias dos ladres a 
arriscar-se a que um nico dos seus homens fosse 
ferido. O dinheiro era a ltima coisa a tomar em 
considerao naquele trabalho da Western Union. No 
entanto, para Liligh, a plula custava a engolir.
- No julgue que me engana! - afirmou, decidido -, 
sei
perfeitamente que  um bandido e que aqueles toros 
so tanto seus como de qualquer - sobretudo nossos, 
que tivemos o trabalho de os cortar e transportar. 
Suponha que no estou disposto a pagar-lhe os cinco 
mil?
        - No seria muito inteligente da sua parte - 
respondeu o outro, com uma gargalhada cruel. - Se 
se arma em teso, damos cabo de vocs antes que 
possam causar-nos dano, portanto, o melhor  pagar 
depressa. Creio que o seu patro no gostaria nada 
de ver aqueles cinco carros de postes desaparecerem 
em fumo!
        Aquilo decidiu Liligh. O velho capataz cambaleou, 
como se tivesse levado um pontap no peito, num 
esforo tremendo para sufocar a fria que o 
invadia. Parecia no haver nada a fazer nem maneira 
de prolongar a discusso.
223
        Pelo meu lado, refizera-me do espanto e, embora 
colrico tambm, pensava desesperadamente numa 
maneira de intervir. Estava resolvido a persegui-
los de espingarda pronta, se nos roubassem e 
fugissem.
Mas no momento em que, lvido e a espumar pelos 
cantos da
boca, Liligh ia ceder, ouviu-se um galopar veloz 
atrs do nosso carroo e, quase instantneamente, 
Shaw e Lowden estavam ao nosso lado, depois de 
fazerem parar os cavalos to depressa que voara 
cascalho por todos os lados.
Vi o cavaleiro magro estremecer violentamente e 
ouvi-o dizer
em voz baixa e rspida ao outro:
- Bill, a est o teu velho amigo. o ranger Shaw. 
Bem te
avismos acerca deste negcio!
        Shaw pareceu avaliar a situao num golpe de 
vista e perguntou, com voz fina e cortante:
        - Que diabo vem a ser isto, Liligh?
 - Um assalto, Shaw. Este tipo afirma que cortmos 
os nossos postes de madeira que lhe pertencia e 
Quer cinco mil dlares. Mandou-me entregar 
imediatamente o dinheiro, pois de contrrio haver 
luta. Nunca vi atrevimento maior!
        Shaw voltou-se para os homens montados, e embora 
pudesse ver-lhe apenas o perfil, correcto e firme 
contra a luz dourada da tarde, avaliei o seu olhar 
pelo efeito que produziu nos dois salteadores. 
Estes mantinham as montadas imveis e seguravam com 
fora as espingardas atravessadas no aro da sela, 
como se lhes tivesse surgido pela frente alguma 
coisa terrvel e perigosa.
        - Viva, Bill Peffer - saudou o vaqueiro, num tom 
que me arrepiou. - Diz-se que  impossvel ensinar 
habilidades a um co velho, e de facto c ests tu 
a roubar, como sempre!

- Shaw, esta madeira  minha.  vo pagar-ma.
224 
- Claro que vamos pagar-ta, mas no com dinheiro 
fcil,
miservel ladro de vacas!
        Seguiu-se um momento de intenso silncio, que me 
pareceu o perodo de terrvel calmaria que antecede 
uma borrasca. Lowden, que se encontrava um pouco 
atrs de Vance, escorregou da sela - facto de que 
me apercebi pelo canto do olho, pois sentia-me 
incapaz de desviar a ateno dos dois protagonistas 
daquele drama inesperado.
- Conheces este tipo, Vance? - perguntou Liligh. - 
Pela tua
conversa, assim parece.
- Se o conheo! - respondeu o vaqueiro, com desdm. 
-  um
hombre reles que meti na cadeia de Brownsville por 
roubar gado. Fugiu da priso, depois de matar o 
xerife, e eis que venho encontr-lo aqui, na 
fronteira do Wyoming!
- Calma, espera um minuto, vaqueiro! - pediu 
Liligh, de mo
levantada. - Creighton preferiria com certeza que 
eu pagasse a ficar com alguns homens feridos.
Mas, a julgar pela expresso ameaadora e gelada 
com que
fitava o assaltante, Shaw nem o ouviu.
        - Peffer, uma das coisas que no consegui 
suportar no servio dos rangers foi precisamente 
ter de prender tipos reles como tu em vez de 
matlos! Devia ter-te furado quando tive essa 
oportunidade.
        - Shaw, no arranjes encrenca aqui! Vamo-nos 
embora declarou Peffer, com voz rouca e gotas de 
suor a escorrer pelo rosto lvido.
        Tremia da cabea aos ps e parecia encolhido na 
sela. De repente, num gesto irresistvel, levantou 
a espingarda que tinha atravessada na sela. 
Infelizmente para ele, apontou na direco errada.
        Rpido como um raio, Shaw saltou da sela e, 
quando reapareceu por detrs do cavalo, a sua arma 
vomitou lume e fumo. Um dos dois cavaleiros soltou 
um grito mortal.
225
        No reconheci qual foi, mas o mais robusto 
estrebuchou. na sela, levantou os braos, largou a 
carabina, e caiu no cho, onde ficou a contorcer-
se.
        O segundo cavaleiro, que tambm tentara o mesmo 
gesto interrompido pelos tiros de Shaw, caiu da 
sela como um saco vazio e nunca mais se mexeu. Os 
cavalos fugiram enlouquecidos, ao mesmo tempo que o 
homem barbudo se estendia, enterrava as esporas na 
areia e ficava imvel.
        Lowden surgiu ao lado de Shaw e correu para a 
frente, com uma arma em cada mo, a disparar contra 
os outros assaltantes. A        distncia era grande 
e aparentemente os seus tiros no
surtiram efeito, mas a sua inteno e o grito 
selvagem que soltou levaram-nos a voltar os cavalos 
e a partir a galope, arrastando atrs de si os 
animais de carga.
Acabou tudo to depressa que mal me apercebi dos 
pormenores.
Shaw, com a pistola ainda a fumegar, aproximou-se 
dos dois corpos estendidos. Pouca ateno prestuu 
ao magro, mas empurrou para trs o chapu do 
segundo e olhou-o longamente. Depois voltou-se, 
meteu a arma no coldre e caminhou para junto do seu 
cavalo, que se mantivera imvel apesar do tiroteio. 
Fiquei a pensar no que iria no seu crebro.
- Chefe - disse a Liligh -, acho que devia tratar 
ladres de
madeira como se tratam os ladres de gado.
- Sim, j vi como vocs, texanos, procedem. Por mim 
acho
bem, mas s desejo que no saias deste acampamento 
quando
preciso de ti. Apanhei um calor!
        Ao chegarmos s terras altas do Woming, eu pelo 
menos, romnticamente como de costume, convenci-me 
de que os nossos trabalhos iam continuar de maneira 
muito diferente e mais feliz. Mas embora a regio 
fosse mais pitoresca e as rvores, os pssaros, os 
animais selvagens e a vegetao colorida nas terras 
baixas, ao longo dos rios, contrastassem 
impressionantemente com a montona aridez do 
deserto,
226
o        trabalho continuou a ser u mesmo, com dias de 
dureza
incalculvel, sobretudo porque atingramos extrema 
exausto fsica e mental. A linha telegrfica 
avanava agora a subir e cada poro de terreno nos 
trazia obstculos novos. No nos faltava lenha nem 
carne fresca para comer, mas em contrapartida 
ramos obrigados a estar alerta contra possveis 
ataques dos ndios e tivemos de procurar postes 
telegrficos onde eles no existiam. A nica 
companhia que encontrvamos, de quando em quando, 
eram cavaleiros da Pony Ezpress, os quais nos davam 
notcias que mais nos valera no conhecer. A guerra 
latente entre criadores de gado e vaqueiros do Vale 
Sweetwater tornara-se realidade, e tudo quanto nos 
constava acerca de South Pass servia para 
fortalecer-nos a convico de que a linha seria 
mais difcil de montar naquele lugar do que em 
qualquer outro.
        Os selvagens tornaram-se mais ousados e travmos 
vrias escaramuas com eles. Uma noite em que os 
vaqueiros tinham ido procurar alguns bois roubados 
ou tresmalhados, deixando-me sozinho no carro, tive 
uma experincia que foi um autntico pesadelo. Aps 
um dia de trabalho mais duro do que de costume, 
deixei-me vencer pelo sono, apesar dos meus 
esforos para manter-me acordado. No creio que 
tenha sido um rudo o que me acordou, mas qualquer 
coisa estranha e terrvel que no sei explicar 
perturbou o meu repouso. Estava lua cheia e a luz 
filtrava-se pela lona do carro, iluminando o seu 
interior. Abri os olhos e fiquei horrorizado e 
quase paralisado ao ver o vulto negro de um ndio 
debruado sobre o meu leito, de machado erguido, 
numa imagem sinistra e apavorante. Talvez o 
violento salto que me percorreu o corpo fosse 
instintivo, mas o        certo  que quando 
rolei para fora do catre o machado
abateu-se sobre a almofada onde a minha cabea 
repousara naquele mesmo instante. Como se pegasse 
numa deixa naquele drama da meia-noite, agarrei na 
pistola e matei o ndio. 
Enquanto arrastava o corpo quente e mole para 
fora do carro,
estremecendo ao sentir o sangue do selvagem 
manchar-me as mos, louvei o bom senso que me 
fizera deitar-me com a arma no cinto. Depois disso 
no consegui dormir, pois era ainda demasiado 
novato para tal. Esperei que os rapazes voltassem 
escondido debaixo do carro, com a espingarda na 
mo, a espreitar atravs dos raios das rodas e com 
o ouvido atento a todos os rudos da noite.
227
        Assim decorriam os nossos dias e noites, marcados 
por incidentes que no constavam do programa do 
trabalho da montagem da linha. Esta, no entanto, 
erguia-se dia a dia, semana a semana, 
implacavelmente.
Mas quando chegmos ao Rio Laramie correu de boca 
em boca
que ficaramos ali detidos, pois o rio estava em 
cheia. Enquanto acampvamos ao princpio da noite 
fria, um dos nossos homens veio dizer-nos que do 
outro lado se encontrava parada uma diligncia e 
vrios carros de fretes, e que naquela mesma 
margem, a pouca distncia da nossa, se encontrava a 
caravana de Sunderlund.
        Naquela noite passei muito tempo a andar de um 
lado para o outro, sob as estrelas, a ouvir o rugir 
da enxurrada e a deixar-me sucumbir pouco a pouco 
s doces esperanas e aos receios que me 
assaltavam, agora que me encontrava de novo prximo 
de Kit Sunderlund. Shaw e os outros dois vaqueiros 
tinham ido no sei onde e eu achei melhor deitar-
me, pois demoravam-se. No tardei a adormecer, 
apesar da minha perturbao.
Na manh seguinte fomos chamados antes do nascer do 
sol: o
nosso demonaco e grande chefe Creighton ordenara 
que atravessssemos o Rio Laramie. Liligh, que 
conhecia estes rios do norte, levantava as mos ao 
cu e entregava-se a uma raiva impotente. Embora os 
homens parecessem carrancudos
                        228
e        resignados ao que porventura acontecesse, a 
verdade  que
no me apercebi de qualquer oposio s ordens do 
chefe. Depois do pequeno-almoo, enquanto Tom e 
Jack traziam os
cavalos e os bois, Shaw foi comigo observar o rio. 
Aproximmo-nos do acampamento de Sunderlund onde a 
intensa actividade parecia significar ter a chegada 
de Creighton com os seus soldados e homens incitado 
o coronel a tentar tambm a travessia. A manada de 
gado texano era uma sombra do que fora. 
Pouco depois parmos na margem do Rio Laramie. 
No fazia
ideia da altura que o caudal normal atingia, mas 
agora era alto e impetuoso, com uma corrente 
lamacenta e rpida, cheia de remoinhos, de bocados 
de madeira e de lixo. No entanto julgara-o mais 
largo. Parecia que, do outro lado e um pouco mais 
abaixo, a corrente alargava e passava sobre o que 
deviam ser baixios, pois saam da gua galhos e 
troncos de rvores, assim como tufos de salgueiros. 
Distinguamos, na margem oposta, colunas de fumo 
azulado, carros e bois e muares a pastarem na 
relva.
- Est a subir - disse Shaw, depois de observar o 
caudal. -
Acho que ser melhor atravessarmos imediatamente, 
pois talvez este sej a daqueles rios que tm uma 
enchente sempre que h uma trovoada na foz. No 
Texas vi uma vez uma parede de gua com trs metros 
de altura surgir de repente de uma curva do rio e 
barrar-nos a passagem a ns, vaqueiros, e ao gado.
- Vance, supunha que a travessia era tremendamente 
perigosa
-        murmurei, pensativo.
- Perigosa? Pois com certeza que ! Ainda no te 
habituaste
ao perigo? Nunca vi muares nem bois que no 
soubessem nadar, embora ocasionalmente aparea uma 
vaca ou um bezerro que se atrapalhe e v ao fundo. 
O perigo, aqui,  a velocidade da corrente e a 
possibilidade de arrastar os carros para alm 
daquele ponto, por onde seria fcil passar a vau.
229
Enquanto estudvamos a situao, juntaram-se-nos 
Liligh,
Wainwright e Edney.
        - Que te parece, Vance? - perguntou o capataz.
        - Ora, chefe, vamos passar e pronto. A caravana 
do Sunderlund  que talvez se veja aflita. Creio 
que gostariam de

uma ajuda nossa.
        - Sim, o coronel pediu, de facto, ajuda, e Creighton 
blasonou que passaria o pessoal com armas e bagagens e, ainda 
por cima, a manada! Como se j no fosse suficientemente 
difcil sem essa complicao!
        - Conseguiremos. Acho que devamos entrar o mais acima 
possvel, para podermos deslizar para jusante e sairmos ali, 
naquele ponto menos fundo. Creio que vou atravessar a cavalo 
com o Jack, s para ver como  o fundo e a que altura est. A 
corrente  veloz. Enfim, na minha opinio devemos atravessar 
imediatamente e aconselhar o Sunderlund a fazer o mesmo. 
Menos de uma hora depois os carros subiam o rio para o ponto
cerca de cem metros acima do acampamento de Sunderlund, onde 
pararam  espera de ordens. Quando Tom e eu chegmos, ficmos 
no meio da caravana e a algumas dezenas de metros da margem 
do rio.
        Perturbou um pouco o meu equilbrio verificar que se 
encontravam  volta dos nossos muitos carros de Sunderlund, 
mas resisti  tentao de olhar e voltei-me para o rio. Mais 
acima dos carros encontrava-se o gado do coronel, que para 
ali fora levado em forma de cunha, com o vrtice para diante.
Os cavaleiros que ladeavam a manada pela esquerda, pela
direita e pela retaguarda, deviam ser uns doze, sem contar 
com Shaw e Lowden que cavalgavam  frente. Era evidemte que 
seriam os nossos vaqueiros a conduzir o gado para o outro 
lado.
                        230
No denunciavam qualquer hesitao e os animais tambm no 
pareciam assustados.
        Quando os tiros e a gritaria comearam a ouvir-se na 
retaguarda, as reses avanaram e empurraram as da frente para 
o        rio. Escorregaram e caram na gua, levantando grandes
esguichos, algumas desapareceram para surgir mais adiante, 
com o        focinho de fora. Lowden fazia 
nadar o cavalo acima da ponta
da manada, e Shaw o dele um pouco mais atrs.
        Pus-me em p no banco do cocheiro, para ver melhor. Apesar 
de j me haver habituado ao perigo, no conseguia dominar a 
minha agitao. Antes de a retaguarda da manada chegar  
margem, os animais da frente iam a meio do rio e a descer, um 
pouco abaixo do local onde me encontrava. A corrente 
arrastava-os com fora. Os vaqueiros comtinuavam a disparar e 
a        gritar e em breve todas as reses estavam no rio, desfeita 
j
a        cunha, mas aguentando valentemente o puxar da corrente.
        Era um espectculo bonito. Vi uma longa fila de bois sair 
da gua e surpreendi-me com a facilidade com que tudo 
decorrera. Duzentos metros abaixo do ponto onde me 
encontrava, Shaw e Lowden deixaram as guas profundas e 
avanaram a vau, com os animais atrs. No me restavam 
dvidas de que os chefes da manada seguiam os vaqueiros, pois 
estavam tambm habituados a travessias daquelas.
No que me pareceu um espao de tempo surpreendentemente
curto, o gado estava todo na margem oposta. Quando sa 
encontravam todos em terra os vaqueiros cavalgaram para um 
ponto distante, onde entraram de novo na gua.
O regresso j no foi to fcil, pois devido  inclinao
ngreme da margem do nosso lado tiveram de dirigir-se para o 
local de onde a manada partira. Foi um espectculo 
emocionante, sobretudo porque tive o prazer de o ver 
realizado com felicidade.
231

        Afinal a travessia do gado decorreu em muito melhor ordem e 
com muito maior preciso do que decorreria a dos carroes. A 
excitao, a pressa e a algazarra complicaram tudo. Os 
primeiros carros a tentarem entrar na gua, adornaram e as 
duas juntas de bois desapareceram da vista.
        O cho dos veculos afundou-se cerca de meio metro, mas 
pouco depois veio  superfcie e flutuou, ao mesmo tempo  que 
os bois reapareciam e nadavam, incitados por um homem de cada 
lado, montado num macho. Dava a impresso da que no 
encontravam qualquer dificuldade.
- Camarada, no tenho muita confiana em dois dos meus bois
-        disse-me Darnell. - Como j me deram que fazer na gua acho
melhor nontares a cavalo e seguires ao nosso lado, para no 
caso de os bois enguiarem ou se afundarem eu poder agarrar-
me ao rabo do cavalo e tu puxares.
        No faas essa cara, Wayne, o meu cavalo  formidvel! Na 
gua o perigo no  grande. Simplesmente no podemos confiar 
s nos bois e no carro.
- Est bem, Tom. No me agrada muito a perspectiva, mas... 
Fui  parte de trs do carro soltar o cavalo de Tom, 
enrolei
a        corda e saltei-lhe para cima, demasiado consciente da
opresso que me apertava o peito e das pancadas apressadas do 
meu corao.
        Montara vrias vezes aquele cavalo, acostumara-me a ele e 
sabia que gostava de mim. Era grande e forte e, pelo que lhe 
dizia respeito, sentia-me seguro; receava apenas encontrar-me 
perante uma situao que no soubesse resolver.
        Pensei no entanto que se tratava simplesmente de uma nova 
aventura, que escapara de outras muito mais perigosas e que 
precisava apenas de coragem e de reflexos rpidos para me 
sair airosamente.
Segui Tom, que dirigiu devagar o carro para o ponto da
partida, onde reinava a confuso e a algazarra.
                232
As muitas rodas e cascos que haviam pisado a descida tinham-
na tornado menos ngreme e de mais fcil acesso.
        Quando tomei o meu lugar  direita de Tom tnhamos trs 
carros  nossa frente, todos a preparar-se para partir, 
separados talvez doze metros uns dos outros. Enquanto no era 
preciso iniciar parte das juntas de bois, outras s com 
pancada avanavam.
O espectculo dos trs carros a entrar na gua foi, mais uma
vez, uma coisa digna de ver-se. Os pesados veculos 
enpurraram os animais para o rio e, como no primeiro caso, a 
frente afundou-se at ao lugar do cocheiro, com uma grande 
chuva de salpicos. Por momentos sustive a respirao, mas os 
bois vieram de novo  superfcie e os carroes flutuaram. O 
focinho e os chifres dos animais saam da corrente 
remoinhante e        os cocheiros seguravam 
nas rdeas, em p, e deixavam de
gritar. Em seguida a corrente apanhava-os e arrastava-os rio 
abaixo, com uma velocidade superior quela com que se 
afastavam da margem.
 frente deles flutuavam outros veculos, juntos uns e muito
afastados outros, mas lutando todos para chegarem s guas 
baixas. No me parecia que tivessem dificuldades.
Edney, WainWright e Herb Lane alinharam ao lado de Darnell. 
- Sigam-me em fila indiana, pouco juntos - gritou Herb Lane
aos nossos homens. - No  conveniente irmos em grupo, o rio 
est a encher e tem muitos destroos. Vamos!
Uns atrs dos outros, os grandes veculos deslizaram pela
ladeira e entraram na gua. Darnell foi o ltimo, no muito 
longe de Wainwright, e eu no tive de incitar a minha 
montada. O        animal entrou na gua, a uma 
ordem vibrante do dono, e ficou
apenas com o nariz de fora, fazendo-me mergulhar at acima da 
cintura. Ao princpio foi um choque para mim, mas mal o senti 
erguer-se e cortar a corrente com o peito,
233
o        nervosismo transformou-se em entusiasmo. Aquele cavalo
gostava de gua e sabia nadar! Precisei de segur-lo com 
fora, para impedi-lo de passar  frente de Tom.
        - Tens apenas de tomar cuidado com a madeira flutuante -
gritou-me Darnell. - Se vires alguma correr na tua direco 
inclina-te e afasta-a, mas se fores com ateno poders 
evit-la facilmente.
        Passado pouco tempo ultrapassmos a linha de folhagem da 
margem e estvamos embrenhados no rio. Tudo parecia correr 
bem, no que nos dizia respeito. Darnell preocupara-se com a 
junta de bois da frente, mas por enquanto portavam-se  
altura. Mantive-me a par de Tom, sentindo-me j  vontade no 
cavalo.  nossa frente seguiam os trs carros de Creighton, 
havia depois um espao em branco e, a partir da, os 
carroes espalhavam-se por aqui e por ali.
        Ao olhar rio acima notei que a corrente parecia ter 
engrossado e que havia agora mais madeira flutuante do que 
quando iniciramos a travessia. Rodhei para a margem e 
verifiquei que os carros alinhavam apressadamente, com toda a 
gente a gritar e a gesticular. Dir-se-ia que estavam todos 
mais alarmados do que antes, talvez devido ao engrossar do 
caudal. Falei a Tom no caso e ele respondeu-me recear que o 
ponto mximo da enchurrada se aproximasse e que os carroes 
que no passassem imediatamente tivessem dificuldades.
        Os carregamentos de postes estavam alinhados na margem,  
espera de oportunidade para atravessarem, e atrs deles uma 
barafunda de bois e carros - carroes dos soldados, trs ou 
quatro de Creighton e os restantes, em maior nmero, da 
caravana de Sunderlund.
- Cuidado com aquela rvore flutuante! - gritou-me Tom. -
Alguns dos ramos devem estar submersos, e se algum te apanha 
ser odiabo.
234
        Tratava-se de uma rvore pequena, aparentemente morta, pois 
no tinha folhas nos ramos, que rolava na gua. Aproximou-se 
muito de mim, e depois um dos seus ramos prendeu-se no fundo 
e parou momentneamente, o que bastou para que eu e Tom 
sassemos do seu caminho.
        Comeava a recear que no acertssemos na zona de gas 
baixas, agora j prxima, mas tranquilizei-me ao ver Herb 
Lane alcan-la e os bois comearem a afastar-se a vau. 
Wainwright seguiu-se-Lhe de perto, e quando o carro de Edney 
ia a meio dos baixos a junta da frente do carro de Tom 
encontrou p, retesou-se, mergulhou, firmou os traseiros 
potentes e tirou a segunda junta e o carro das guas 
profundas. O meu cavalo no tardou tambm a encontrar p, 
facto que saudou com um relincho de satisfao.
        Passmos a vau at  margem e, uma vez em terra firme, 
Darnell parou para deixar descansar os bois e olhar para a 
outra margem.
- Belo espectculo, hem Wayne? - gritou-me. - Se aquela
balbrdia de carros conseguir atravessar sem novidade, ser 
um milagre. No sei como  que os cocheiros do Sunderlund 
ainda esto to verdes depois desta longa viagem, mas a 
verdade  que esto. Talvez nunca tenham encontrado no 
caminho rios com enchentes como aqueles de que o Shaw nos 
falou.
        - , de facto, um espectculo! - concordei.
O que me admirava mais era o contraste entre o silncio da
chegada e a barulheira da partida. Na margem oposta, onde me 
parecia que se amontoavam muito depressa e muito chegados uns 
aos outros, era tal a barafunda de gritos e berros, que os 
ouvia perfeitamente onde me encontrava, a uma distncia to 
grande.
- Bem, camarada, tenho de pr-me a andar daqui - declarou
Tom, pegando nas rdeas. - Aquele carro da fremte cai-me em 
cima se no me despacho.
235
- Tambm acho, Tom, vai-te embora. Mas... e eu? Que devo
fazer?
        - Acho que deves ficar aqui, um pouco abaixo do ponto onde 
samos, pois talvez possas ser til a algum. No te 
preocupes com o Ps Alados, esse cavalo deve ser parente de 
algum pato e tomar conta de ti!
        Quando Tom meteu pela estrada enlameada que levava  
floresta, e o carro seguinte se aproximou, dirigi-me para um 
ponto mais abaixo e guiei o cavalo para a faixa de areia, at 
se encontrar frente  corrente impetuosa. No sabia de que 
utilidade poderia ser se um carro fosse arrastado para alm 
daquele ponto, mas estava empenhado em descobri-lo, se essa 
necessidade surgisse.
Dali podia observar  vontade a procisso que descia o rio,
assim como verificar que o caudal aumentara entre trinta e 
sessenta centmetros desde que iniciramos a travessia. Os 
vrios troncos que haviam encalhado no baixio tinham sido 
arrastados e a gua subira muito entre a vegetao e os 
salgueiros. Em seguida a madeira flutuante aumentou em 
quantidade.
Vi uma grande rvore - um choupo-do-canad a julgar pela
ramaria verde - rolar no meio da corrente, rio acima, para 
alm do ponto de partida. Os cocheiros teriam de evitar mais 
aquele perigoso obstculo. Um a um os carros desceram o rio, 
em fila indiana, os bois encontraram-se e iaram-nos, saram 
da gua e seguiram pela encosta suave at  floresta. Depois 
comearam a chegar a dois e dois e a trs a trs, calculando 
as respectivas posies de maneira a no falharem o baixio.
Em poucos minutos todos haviam abandonado a margem oposta e
uma flotilha de carroes cobertos de lona branca descia 
suavemente o rio. Fez-me lembrar as proezas dos primeiros 
pioneiros, que tinham desbravado o desconhecido Oeste sem 
terem nada por onde guiar-se.
236
        com todos os veculos na gua, - entre trinta a quarenta, -
cessara a algazarra que caracterizara o xodo. S se ouvia um 
ou outro grito ou tiro ocasional. Apercebi-me de que acima do 
ponto onde estava, se encontrava um grupo de espectadores, 
alguns deles ndios montados, todos profundamente 
interessados na travessia.
        Olhei de novo para o outro lado e vi a grande rvore vinda 
mesmo no meio dos carroes. Atingiu alguns, mas felizmente 
passou adiante. A certa altura, dois soldados fizeram 
mergulhar as montadas, agarraram a rvore e puxaram-na ou 
retardaram o seu avano at a corrente a afastar do caminho 
do carro que pusera em perigo. Este procedimento, porm, foi 
prejudicial ao carro que vinha atrs e ao do lado exterior, 
ou seja o mais avanado na corrente. Os quatro bois deste 
ltimo no pareciam aguentar-se muito bem.
        Precisamemte neste momento houve um congestionamentto entre 
os carros de trs, mais prximos da margem, e os soldados e 
vrios homens montados apressaram-se a seguir para esse 
ponto, sem dvida para ajudarem os cocheiros a libertarem os 
bois emaranhados. A situao parecia grave, mas calculei que, 
quer se soltassem uns dos outros quer no, o grupo de 
carroes flutaria at ao baixio.
        No entanto o pequeno carro do exterior no conseguiu 
esquivar-se  rvore, a qual se lhe alojou firmemente contra 
as rodas. Vi o tronco do choupo-do-canad espreitar por 
detrs do veculo, e que me deu a impresso de ser 
suficientememte longo para que o seu peso fizesse girar a 
rvore e a soltasse assim do carro. Mas tal no sucedeu e o 
veculo saiu do
alinhamento com o baixio onde se encontrava. Dentro de poucos 
momentos - se no se libertasse da rvore - seria arrastado 
para as guas profundas e tumultuosas que rugiam para l da 
curva do rio.
237
        Incitei Ps Alados para dentro de gua, sem fazer a menor 
ideia da atitude a tomar. Pensava apenas que tinha de 
alcanar o        carroo e salvar o cocheiro 
antes que a corrento o levasse.
Aproximei-me o suficiente para verificar que o condutor era 
um negro que puxava as rdeas com quantas foras tinha e 
dizia palavras incoerentes aos bois. Uma fraco de segundo 
depois fiz a espantosa descoberta de que ao lado do negro se 
encontrava Kit Sunderlund, lvida e de olhos arregalados.

        Uma onda de sangue quente percorreu-me o corpo, 
os pensamentos baralharam-se-me e, por momentos, 
fiquei como que paralisado. At que ela me viu e 
reconheceu, agitou freneticamente ambas as mos e 
murmurou uma palavra doce e trmula que no 
consegui perceber, mas que me pareceu um apavorado 
pedido de socorro.
        Esporeei Ps Alados e em breve me encontrei a 
par com o veculo, e afastado dela cerca de quinze 
jardas ou mais. Voltei ento o cavalo e descemos 
com a corrente, aprocimando-nos gradualmente do 
carro. A junta de bois da frente, quase submersa, 
e a segunda, nada podiam fazer com aquela enorme 
rvore alojada contra as rodas.
        Descobri ento, com um estremecimento de pavor, 
que j s a ponta do focinho da segunda junta saa 
da gua e que a parte da frente do carro se 
afundava, ao mesmo tempo que a retaguarda se 
erguia. Foi nessa posio que veculo e bois 
ultrapassaram o baixio e deslizaram para a curva 
do rio.

As guas revoltas, com enormes ondas enlameadas, 
iam do meio
da corrente at  margem oposta, e se o carroo 
fosse apanhado por elas estaria, evidentemente, 
perdido. Acreditei, todavia, que conseguiria salvar 
o cocheiro e a rapariga. O perigo, para mim, 
consistia em aproximar-me demasiado da rvore 
entalada nas rodas e, assim, prender o meu cavalo 
nos seus ramos. Por isso tentei passar-lhe para 
diante, ao mesmo tempo de que me acercava.
- Agora, Sambo - gritei ao negro, com todas as 
minhas foras
-, salta do carro, agarra a rapariga e nada at eu 
poder apanh-los. No me atrevo a aproximar-me 
mais, pois um dos ramos pode prender-me o cavalo.
O negro largou as rdeas e, quando se endireitou 
para ajudar
a        jovem, tinha a gua pelos joelhos. No mesmo 
instante o carro
estremeceu violentamente, o tronco embateu nele com 
grande estrondo e atirou o cocheiro e a rapariga 
para a gua. 
Submergiram ambos, vieram  tona um pouco 
afastados e
tornou-se evidente no ser o negro bom nadador. 
Kit, pelo seu lado, nadava o suficiente para evitar 
chocar com o carro e com os bois, mas corria o 
grande risco de ser atingida por algum dos ramos 
que giravam  sua volta. Compreendia que precisava 
de agarr-la imediatamente e, por isso, esporeei 
Ps Alados na sua direco.
        Quando estendia os braos para apanh-la, um dos 
ramos girou debaixo de gua, no me atingiu por um 
triz, e bateu em Kit. Consegui no entanto agarr-la 
e, conduzindo o valente animal para fora da zona em 
que se arrisccava a colidir com os bois ou com o 
veculo, arrastei-a para ponto seguro. Ps Alados 
afastava-se com boa velocidade quando qualquer 
coisa deteve o seu progresso. Pensei que um dos 
ramos nos apanhara finalmente, mas voltei-me e 
descobri que o negro se agarrara  cauda do cavalo 
e no a largava. Assim que icei a cabea e os
ombros da rapariga para cima dos meus joelhos e nos 
pusemos a caminho de terra, livres enfim do carro e 
da rvore, senti que me abandonava a mo de gelo do 
medo que at a me sufocara.
De sbito ouvi um grande estrondo e, ao oLhar para 
trs, vi
que a corrente apanhara o tronco da rvore que 
paralisava o carro e a soltara. O veculo 
endireitou-se, com a segunda junta de bois ainda a 
nadar, e saiu por sua vez da corrente.
238  239
Mais cedo do que ousara esperar, Ps Alados 
encontrou fundo
e, com um tremendo impulso e um relincho, levou-nos 
para terra. Desmontei quando a gua me dava pela 
cintura e tomei Kit nos meus braos. Tinha sangue 
numa tmpora, mas estava consciente. J em terra 
pu-la no cho verificando que no devia estar 
gravemente ferida, pois mantinha-se de p, embora 
com a minha ajuda. Ps Alados seguiu-nos e o negro 
saiu tambm da gua, so e salvo.
        Um pouco adiante, a valente segunda junta de bois 
arrastava para a margem os companheiros afogados e 
o carroo. Notei que encontravam p, pois as 
cangas e os cachaos elevaram-se, mas o        carro, com 
a parte da frente submersa, encalhou.
- Tivemos sorte, Sambo - observei. - Ainda podes 
salvar o
carro. Corre l acima e traz homens para te 
ajudarem.
E comecei por meu turno a subir a pequena encosta, 
amparando
a        jovem.
- Bem, a coisa esteve feia - arquejei -, mas 
safmo-nos!
Sente-se bem? No est ferida?
        - Eu... eu... creio que estou viva! - murmurou 
baixinho, agarrada ao meu brao. - Houve qualquer 
coisa que me atordoou. e        depois engoli uma 
quantidade... daquela gua imnda.
- Caramba, que sorte no ter sido pior! - exclamei. 
- Venha,
no est a andar muito bem.
- Creio... creio que tenho de descansar um pouco - 
titubeou,
ao mesmo tempo que caa de joelhos.
        Inclinei-me para ela, a ampar-la, mas Kit 
largou-me e deitou-se na relva. Ajoelhei ao seu 
lado e, ao fitar aqueles olhos negros, dilatados, 
que me olhavam com uma expresso intensa e 
inexplicvel, senti-me dividido entre o medo de que 
estivesse ferida e a conscincia aguda da sua 
beleza e desamparo e do facto maravilhoso de a 
haver alvado.
240
        - Wayne Cameron. salvou-me outra vez a vida! - 
murmurou.

- Assim parece - respondi, o mais 
despreocupadamente que
pude. - Isto  que eu apanhei um hbito de me 
encontrar perto quando voc est em perigo, hem?
- No brinque! - implorou-me. - Esta... esta 
segunda vez 
demais!
- Est enervada,  natural. Mas no se preocupe, 
querida.. 
- Querida? - repetiu com aqueles enormes olhos 
negros sem me
largarem.
- Bem... sim, claro - gaguejei. - Sou um daqueles 
infelizes
que... enfim, que nunca se curam de... de...
        No sabia como acabar a frase, com os olhos dela 
postos em mim. A verdade  que estava fora de mim, 
embora no tanto que me esquecesse do seu estado.
        - De qu? - perguntou-me, com mais energia.
- No tem importncia, Kit. Agora tenho de lev-la 
daqui,
est toda molhada.
        - Wayne... de qu?
- Bem, se insiste a vai: do encanto irresistvel 
de uma
rapariga que pensou coisas ms de mim.
        - Oh, perdoe-me, por favor! - suplicou. - O Vance 
Shaw procurou-me a noite passada e o que me 
disse... Oh, nunca esquecerei! Fez-me sentir to 
pequena, to... Perdoe-me, Wayne, deixe-me 
explicar.
        - Bem, Kit Sunderlund, pensarei no assunto - 
respondi-lhe, muito srio. - Mas agora no fale 
mais, tenho de lev-la para a        caravana. Vejamos, 
tem um golpe e uma contuso na tmpora,
mas o aspecto no  mau e a cicatriz no se ver.
- Como se agora a minha beleza tivesse alguma 
importncia!
241
- tem, a beleza  uma alegria eterna, no se 
esquea! Deixe-
me ajud-la a subir para o cavalo.
        Sentei-a de lado na sela e, depois de certificar-
me de que se seguraria, peguei nas rdeas e segui 
em ziguezague atravs dos salgueiros e dos choupos, 
com o corao alvoroado. 
Guiando-me pelo barulho, encontrei facilmente o 
caminho para
a        sua caravana, assim como Sunderlund, que 
atravessara o rio
sem novidade e procurava freneticamente a filha. 
Cortei cerces as suas extravagantes demonstraes 
de gratido e indiquei-lhe o        ponto onde Sambo 
devia j estar a tentar desencalhar o
carro. Depois parti com Ps ALados, contente por 
poder afastar-me.
Quando cheguei de novo  margem, o ltimo tero dos 
carros
vinha ainda no rio, mas tudo indicava que 
concluiria a travessia sem dificuldade. Para meu 
grande alvio, os quatro carroes de Creighton 
cheios de postes telegrficos tinham chegado ao 
baixio. O meu primeiro impulso foi retroceder para 
tirar a limpo em que p haviam ficado as minhas 
relaes com Kit Sunderlund, mas cruzei-me com Tom 
e Shaw. Tom soltou um grito de alegria e agarrou-
me, enquanto o vaqueiro me amaldioava entre 
dentes. Depois apareceu tambm Creighton, 
encharcado, roto, sujo, mas radiante.
        - Tenho andado a procurar-te, Cameron. Felizmente 
os postes atravessaram todos, e essa era a minha 
maior preocupao. No falta ningum, mas vrios 
homens esto feridos e, por isso,  melhor 
despachares-te com a caixa dos socorros.
        Acharia muito mais agradvel, para no dizer 
emocionante, deixar-me ficar na margem a ver os 
carros atravessarem o rio e subirem para terra do 
que tratar dos que tinham ficado feridos na 
travessia, mas ordens so ordens, e mesmo que no 
fossem teria sacrificado a minha sede de emoo ao 
cumprimento
                        242
do dever. Na verdade sentia-me, at, agradecido por 
poder cumpri-lo.
        Estive at ao pr do sol a tratar de todos os 
feridos, felizmente sem gravidade. Quase todos os 
carros de Creighton haviam atravessado sem 
prejuzos e o mesmo acontecera com a caravana de 
Sunderlund.
O veculo de miss Sunderlund tinha sido puxado para 
terra
sem que a sua casinha de rodas sofresse danos 
materiais, a criada negra fora encontrada desmaiada 
no interior do carro e a        junta da frente 
morrera afogada. At parecia impossvel que,
em semelhantes circunstncias, o carroo se 
salvasse.

Quando acabei o meu trabalho fui ver o fio 
telegrfico j
estendido atravs do rio e preso a um poste, e 
perguntei a Darnell como tinham conseguido pass-
lo. Explicou-me que Shaw
voltara a atravessar o rio montado no seu cavalo e 
levando o dele, Darnell, pela arreata. Ao chegar 
ao outro lado, atara uma ponta do fio  sela do 
seu cavalo, falara-lhe docemente, montara no de 
Darnell e mergulhara na corrente, seguido pela sua 
inteligente montada. Creighton ficou to 
satisfeito com o xito total, que iou uma das 
suas bandeirinhas americanas no topo do primeiro 
poste telegrfico a oeste do Laramie e gritou, com 
a sua voz de trovo:

        - Avante para o Forte Bridger!
243
XII
        Afastara-me do nosso acampamento para procurar 
Mr. Creighton quando Vance Shaw me alcanou. 
Sorriu-me, tendo nos olhos um brilho que l no via 
h muito tempo, e disse-me:
- Vi-te tirar a Kit Sunderlund do rio, esta manh. 
Santa
Maria, que sorte tm certas pessoas!
- Sorte? Como podes chamar-lhe sorte, a no ser que 
queiras
dizer m sorte?
        - Bem, Wayne, acontecer uma coisa dessas logo a 
seguir  conversa que tive com ela,  demasiado bom 
para ser verdade! exclamou. - Sim, porque aquela 
altiva dama ficar para sempre de joelhos na tua 
frente!
        - Maravilhoso, do teu ponto de vista.
- Bem, a Kit h muito estava a pedir isto mesmo, 
mas no
deixa de ser formidvel. Verifiquei que est 
terrivelmente apaixonada por ti.
        - Vance, no venhas com essas conversas! O que eu 
quero saber, de uma vez por todas,  se tu ests 
apaixo nado por ela.
- Eu, apaixonado por ela?! No, com a breca! - os 
seus olhos
olhavam para longe, para qualquer coisa que ficava 
para alm do horizonte, com uma expresso de 
intensa tristeza.
                        245
        Seguiu-se um silncio pesado e eu acabei por 
perceber que fora um idiota chapado e que Shaw no 
amava Kit Sunderlund, mas Ruby.
        - Vamce, conta-me o que disseste  Kit - pedi.
        - Esqueci-me, sabes? Mas fi-la passar um mau 
bocado respondeu, voltando a fitar-me.
- Est bem, se no queres no digas. Mas no te 
parece que
deves, pelo menos, uma explicao ao teu amigo no 
vato?
        - Bem, Wayne, s o Lowden sabe o que se passa, 
mas vou contar-te a ti tambm. No Texas estive to 
apaixonado pela Kit Sunderlund, que nem via! Talvez 
ela tivesse culpa, e talvez no tivesse, macacos me 
mordam se sei! Mas agora, as vezes que a
        procurei, foi apenas porque resolvi meter o nariz 
no que te
diz respeito. Compreendes, conhecendo-a e 
conhecendo-te, fiz o possvel para mant-los 
afastados at ter a certeza absoluta de que sentia 
por ti o mesmo que sentes por ela, e no o que 
sentiu por mim, no Texas. Camarada, podem dizer-te 
o que te disserem acerca dos motivos por que deixei 
o Texas, mas acredita que a verdade  s uma: parti 
por sua causa.

- Tudo isso est muito bem - murmurei, 
esforando-me por
parecer despreocupado. - Mas como explicas que a 
encontrasse nos teus braos, na outra noite?

- Bem, ianque, afinal ainda tens muito que 
aprender. Fazes
demasiadas perguntas. No entanto, vou dar-te a 
resposta. Um segundo antes de chegares acabava de 
dizer a Kit que, embora j no fosses novato do que 
dizia respeito ao Oeste, o eras ainda, e muito, no 
corao. Parece que, precisamente por te amar, 
gostou de ouvir-me dizer isso, e o que viste foi a 
sua maneira de agradecer-me. No teu lugar, amigo, 
esperaria pela lua cheia que iluminar a pradaria e 
procuraria Kit sem perda de tempo!  que, meu 
valente compincha ianque, bastar-te- abrir a boca 
para teres nos braos aquela maravilhosa rapariga!
246
        Afastei-me de Vance Shaw, meio atordoado. Talvez 
fosse uma sorte no ter encontrado logo os carros 
de Sunderlund, os quais estavam a alguma distncia 
dos nossos, rio acima, perto da margem. Os negros 
lavavam a loua  volta de uma grande fogueira e 
Sunderlund conversava e fumava com os scios. A 
recepo que me fizeram, ele e os seus amigos, foi 
das mais cordiais:
- Bem, Sunderlund, se qur que lhe diga, tivemos 
todos muita
sorte - afirmei, em resposta s suas palavras de 
gratido. Segundo Creighton, tratou-se apenas de 
mais um acidente de um obstCulo vencido. Enfim, 
mas eu vim c para saber como est Kit Sunderlund.
- ptima, ningum diria que esteve prestes a 
afogar-se! -
exclamou o coronel, satisfeito.
        - Mr. Cameron, por que no vem certificar-se com 
os seus prprios olhos? - perguntou Kit, do carro, 
com voz alegre e quente.
        Transpus os poucos passos que me separavam da 
extremidade do veculo, e encontrei-a sentada, 
banhada pela luz da lua e pelos reflexos da 
fogueira. Apesar dos extravagantes pensamemtos que 
comstantemente me ocorriam a seu respeito, foi uma 
revelao para mim v-la assim vestida de branco e 
inundada de luz.
- Oh! - exclamei. - Se foi capaz de pr-se to 
bonita, 
porque com certeza est bem, esquecida do susto que 
apanhou.
        - Bem? - repetiu, com certa agressividade. - Isso 
 relativo. Se quer dizer que estou feliz...  
verdade.
- Agrada-me muito. Receava que se sentisse abalada, 
pois
levou pelo menos uma pancada na cabea e deve ter 
sido um choque.
- Choque! Se foi! Tenho estado aqui, esperanada em 
que
aparecesse para poder falar-lhe. Disse que 
pensaria, lembra-se?
247
- E pensarei, se vestir um casaco e der um pequeno 
passeio
comigo. A noite est bonita, menos fria do que  
costume e quase to clara como se fosse dia.
        Pouco depois Kit saiu do carro, emvolta num 
comprido casaco escuro e com uma touca na cabea. 
Deu-me o brao e comemos a caminhar ao longo do 
rio. Os seus passos eram firmes e seguros, o que me 
fez reflectir que devia ser uma rapariga robusta, 
para passar por to grande susto sem perder a 
compostura.
Sentia-me muito embaraado, pois tinha a impresso 
de estar
na companhia de uma estranha - de uma estranha alta 
e encantadora, com o perfil bonito banhado de luar 
e madeixas de
cabelo castanho agitadas pela brisa. Gostaria de 
ser capaz da falar, mas mantinha-me calado, mudo. 
Sabia que aquela hora ia ser um momento crucial da 
minha vida e esforava-me por sufocar as minhas 
loucas esperanas o mais sensatamente que me era 
possvel.
        Percorremos considervel distncia sem trocarmos 
uma palavra e        parmos num 
local pitoresco, sob um grande choupo-do-canad,
porque um tronco cado nos obstrua a passagem.
- No devia traz-la para to longe, Kit - 
murmurei. - Mas
pode sentar-se aqui, este lugar  seco.
Mas Kit no fez meno de sentar-se e ficou a 
olhar-me,
banhada de luar, sem me largar o brao.
- No estou to enervada como quando lhe falei l 
em baixo
na margem do rio, depois de me salvar, e por isso 
tenho menos coragem. - mrmurou, com certa 
hesitao.
- No precisa de ter coragem para me dizer seja o 
que for.
        - Engana-se, necessito de mais coragem do que 
imagina afirmou, sem desviar de mim os olhos 
escuros. - Podemos ter muito que dizer um ao outro, 
mas primeiro preciso de dizer-lhe eu qualquer 
coisa.
                248
De explicar-lhe e pedir-lhe, de novo, perdo.
        - Est bem, se insiste. No me importo de 
confessar-Lhe que, tempo atrs, me agradaria muito 
tal situao. Agora nada tenho a        perdoar-lhe, 
para ser feliz basta-me estar consigo.
- No aumente o meu tormento. Dois motivos explicam 
a minha
fraqueza. Toda a minha vida lidei com vaqueiros, 
que so uns marotos encantadores. Meu pai diz que o 
Texas no seria o que hoje  sem os vaqueiros. So 
grandes lutadores, como j deve ter aprendido, mas 
no tm moral. Habituei-me a que me procurassem 
depois de estarem com qualquer outra rapariga e me 
falassem de amor, me jurassem eterna devoo e me 
pedissem em casamento. Vance Shaw procedeu assim 
muitas vezes, no entanto, apesar da devassido do 
seu carcter gostei muito, muito dele. quase o 
amei. Vance  cavalheiresco e excelente rapaz, mas 
no podia compreender-me. Espero que voc me 
compreenda, Wayne.
- Eu compreendo-a, Kit, mas estou convencido de que 
julgou
mal o Vance. Continue, porm, e acabe o que tem 
para dizer.
- Essa foi uma das minhas fraquezas. A outra... a 
outra foi
uma coisa que ignorava possuir: o cime. Compreendi 
quase  primeira vista que voc era o homem para 
mim. Posso confessar-Lhe mais tarde, se quiser, o 
que senti. tudo o que senti, mas tive cimes. 
Quando o acaso quis que espreitasse para o vosso 
carro e visse aquela rapariga de olhos grandes 
quase despida - bonita, sem dvida, muito bonita, 
mesmo -, deixei-me consumir por uma paixo 
escaldante, terrvel. Imaginei que estivesse 
apaixonado por aquela linda bailarina, para minha 
eterna vergonha, confesso que imaginei mais, at. A 
noite passada o Vance fez-me ver no s o meu 
horrvel erro,
                249
mas tambm que sou uma desprezvel ciumenta. Era o 
Shaw, afinal, quem a amava. Que louca fui!
- Bem, Kit, se falar a aliviou, ainda bem. Claro 
que o Vance
tencionava casar com a Ruby. O singular nessa 
rapariga era que na sua situao desesperada 
apelava para o instinto de virilidade que existe em 
todos ns. A sua beleza, a sua juventude, a sua 
personalidade e, acima de tudo, a sua triste 
situao, impressionaram-nos a todos. Seria capaz 
de fazer

tudo por ela! Avalio o que vai no corao do 
Vance por isto apenas: desde que Ruby partiu 
tornou-se um homem diferente. 
- Wayne, s espero que me defenda como o 
defende a ele -
murmurou docemente. - E agora, estou perdoada?
        - Kit, estava perdoada antes de falar - 
afirmei, beijando-lhe a mo.
        - Ento que mais havia?
        - No a compreendo, simplesmente.
        - Que foi que me chamou na margem do rio?
- Oh, foi apenas um descuido, natural naquele 
momento.
Acredite, Kit, a situao foi terrvel para mim.

        - Mas se foi um descuido... - comeou.
- No quis dizer que fosse um descuido em 
sinceridade, acho
apenas que no devia ter sido to familiar ao 
dirigir-me  altiva beleza sulista!
        - j recebi muitas vezes esse tratamento, mas 
quase nunca com meu consentimento e nunca com a 
emoo que senti quando Lho ouvi a si.
- Posso perguntar que emoo foi essa? - perguntei-
Lhe com
voz rouca, esforando-me ainda por manter-me calmo.
        - Amor...
        A resposta foi espontnea e irresistvel.
        -  uma querida rebelde!
        - Se sou uma rebelde... estou vencida.
250
        E ento, como se os mesmos pensamentos e impulsos 
nos guiassem, encontrmo-nos nos braos um do 
outro. Para mim os seus beijos foram o eptome de 
toda a beleza e maravilha deste grande Oeste, perdi 
a noo do tempo e do lugar, da lua que se 
reflectia no rio, do murmrio das guas, do uivar 
dos coiotes, do vento a sussurrar entre os choupos. 
Quando despertmos do abenoado transe, o olhar 
extasiado de Kit demonstrou-me que se passara o 
mesmo com ela.
- Querida, acho que devemos regressar ao 
acampamento, onde
creio que ser melhor dizer ao seu pai e pedir-lhe 
o consentimento.
        - Wayne, tem o consentimento garantido! - 
afirmou, a rir. Meu pai diz que voc  um ianque 
que ele admira. Mas, no fim de contas, no dever 
pedir-me, primeiro, a mim?
- Mas, Kit, julguei que no era preciso. Depois de 
tudo o
que lhe disse... julguei que tinha percebido que 
estava a pedir-lhe que casasse comigo.
        - No, querido, no percebi bem. Uma rapariga tem 
de ser pedida... Aceito-o, Wayne, e... sinto-me 
indizivelmente feliz! Oh, se soubesse as horas que 
passei acordada, a torturar-me por sua causa!
        - No pode ter sofrido mais do que eu. Estamos, 
ento noivos?
- Claro que estamos, cavalheiro, e no me 
esquecerei! Tem um
anel?
- No, minha senhora, no tenho. E lamento dizer-
lhe que,
nesta terra incivilizada, no fao ideia onde 
poderei arranj-lo.
- Aqui tem este -- disse-me com doura. - Era de 
minha me.
Use-o at poder dar-me um -, e enfiou-me o anel no 
dedo pequenino, onde coube  vontade. - Agora 
voltemos para o acampamento. Direi ao meu pai. 
Teremos muito que falar.
                        251
Em breve estaremos no Vale Sweetwater! Querido, 
quando acabar o        trabalho na 
Western Unon v procurar-me l.
O forte Laramie ocupava uma posio pitoresca e 
dominante na
margem norte do Rio Laramie. Era um edifcio 
grande, grosseiro mas solidamente construdo de boa 
madeira, com uma torre alta, na frente, e dois 
basties nas extremidades. Quando olhei o forte 
pela primeira vez vi os soldados a patrulharem a 
plataforma existente em redor desses basties, de 
espingarda ao ombro, de sentinela. Montes verdes 
desciam at  margem do rio, num belo contraste com 
a montona pradaria que percorrramos durante tanto 
tempo. Na retaguarda, na encosta do monte, havia um 
acampamento de Sioux, com as tendas altas e 
cnicas, quase brancas, a brilhar ao sol. Acampmos 
bem afastados do forte, e Sunderlund, com a sua 
grande caravana, acampou ainda mais longe, rio 
abaixo.
        Este forte - o maior e mais famoso da fronteira - 
fora erigido em 1841. Era uma paragem principal da 
Trlha do Orego e        ainda local de 
encontro de tribos ndias e caadores.

Ao fim do dia, quando o nosso trabalho terminou e 
o Forte
Laramie ficou telegraficamente ligado ao Leste, os 
oficiais e soldados quiseram demonstrar a sua 
gratido a Creighton e aos seus homens e 
improvisaram uma celebrao.
        Barnes, o cavaleiro da Pony Express que travara 
amizade com os vaqueiros e comigo, chegou nesse 
dia e jantou connosco.

- Tenho muito que lhes dizer, rapazes - declarou, quando nos
sentmos em redor da fogueira. - South Pass  um vespeiro, 
vocs vo ver-se aflitos quando l chegarem. Se no tm 
cuidado e no se afastam da cidade depois de escurecer,
                252
assim como dos antros de jogo, roubar-lhes-o tudo quanto 
tiverem e provavelmente ainda Lhes daro uma pancada na 
cabea: Ouvi opinies contraditrias acerca da conta em que a 
Western Union  tida em South Pass: a maioria das pessoas com 
quem falei consideram a montagem do telgrafo uma ideia 
grandiosa, que ajudar a tranquilizar o Oeste, mas constou-me 
que tambm h quem seja contra o telgrafo, por motivos que 
no consigo imaginar. Deus sabe as encrencas que vo ter para 
passarem o Sweetwater e o Pass sem terem de preocupar-se com 
o branco, mas tenho o pressentimento de que tambm tero de 
contar com ele.
As outras notcias que Barnes nos transmitiu encheram-nos,
porm de alegria: Brigham Young e os seus jovens mrmones 
levavam rapidamente o fio da Western Union para Leste, na 
direco do Forte Bridger, e a equipa que trabalhava a leste 
de Carson City, na direco da Cidade do Lago Salgado, tambm 
progredia esplndidamente. Era uma corrida, para ver quem 
terminava primeiro.
- Deixem-me repetir-Lhes, vaqueiros, e tu tambm, Cameron,
que se o que ouvi  verdade, o negcio de gado no Wyoming 
ocidental vai ser uma grande fonte de riqueza: Claro que no 
se tirar ouro das ruas, como em South Pass, mas haver uma 
fortuna para cada um de vocs!
        Durante vrios dias, depois de partirmos de Forte Laramie, 
avistei paisagens de colorida beleza atravs de um vu 
rosado. A        luz ambarina que parecia 
pairar como um vu transparente
sobre os vales, os altivos montes cor de prpura, as escarpas 
agrestes e cinzentas e os rios brilhantes, que deslizavam por 
entre margens orladas de choupos-do-canad verdes e dourados 
-
toda esta beleza me pareceu consequncia feliz do meu amor. 
Mas ao trabalhar do romper do dia ao cair da noite,
                        253
extenuantemente, pelo rio acima, compreendi que os meus 
sentimentos talvez exagerassem a beleza, mas que ela existia, 
estava ali. e aumentava  medida que progredamos para oeste. 
Quanto mais subamos no interior do Wyoming, mais frias se
tornavam as noites. Era a geada que, de manh cedo, dava s 
folhas tons dourados, escarlates e castanhos, emprestando 
todos os dias maior colorido  paisagem. Acabmos com a carne 
de bfalo que nos restava, excepto a que fora transformada em 
pemmican, e substituimo-la por carne de veado e de antlope 
e, at, de urso. Cheguei  concluso de que um bocado de 
lombo de urso novo era pitu to saboroso como um bife de 
alcatra de bfalo.
Foi nesta regio que a nossa jornada decorreu melhor. 
Chegmos quase sem darmos por isso a Independence Rock, o
mais famoso marco da Trilha do Orego, e saudmos o 
aparecimento do Sweetwater com grande gritaria.
        Ao subirmos para acampar num belo ponto do rio  
        perto do local onde a trilha contornava uma esquina agreste 
"        da grande rocha, fomos atacados de surpresa por um bando de
Cheyenes. Lutmos a coberto dos nossos carros, e a esplndida 
pontaria dos nossos homens, sobretudo dos vaqueiros, depressa 
deu ao bando de selvagens a lio que mereciam. Mantivemos 
guarda dupla durante toda a noite, mas os ndios no 
voltaram. 
Na manh seguinte, ao nascer do sol, quando os vigias de
Liligh garantiram que os Cheyennes haviam partido, subi, com 
Tom, ao cimo de Independence Rock. Era uma pilha de granito 
cinzento, com o aspecto de um mosaico de rochas reunidas 
irregularmente, que se elevava pelo menos a trinta jardas 
acima do solo. Da desfrutei do excelente panorama do 
Sweetwater, um rio claro que serpenteava pelo vale acima, 
assim como da impressionante vista da regio agreste atravs 
da qual montramos a linha telegrfica.
254
        - Oh, Tom - exclamei, suspirando profundamente. -  
grandioso!
- Bem, camarada,  bonito, mas ests a olhar na direco
errada. Espreita para ali.
        Seguindo o seu dedo estendido, desviei o olhar para 
noroeste e        para cima, para onde julgava 
ser o cu. A atmosfera matinal
era extremamente lmpida e transparente, e quando v uma 
maravilhosa linha branca, acidentada, recortar-se no 
horizonte, terminar numa brecha larga e erguer-se de novo, 
pura e cortante contra o azul do cu, imaginei observar uma 
srie de nuvens ampliadas. Nunca vira, porm, nuvens como 
aquelas. Abaixo dessa linha escarpada havia uma cadeia negra 
em ziguezague, terminando ambas na brecha a que me referi, 
para recomearem na direco do sul. Comecei a compreender 
no se tratar de nuvens.
- Camarada - disse o meu amigo, com uma voz que parecia vir
de muito longe -, ests a ver pela primeira vez as Rochosas. 
Aquela  a Wind River Range, a cadeia de montanhas mais 
bonita do Oeste. A brecha, alm,  o Pass de que tanto tens 
ouvido falar, por onde passaram os primeiros caadores e 
exploradores. South Pass, a cidade mineira, fica abaixo desta 
ponta do lado direito. Ali, vs os picos brancos erguerem-se
de novo, mas na direco sul.
O espectculo era to maravilhoso, to grandiosos os montes
da cadeia principal das Montanhas Rochosas, que fiquei sem 
fala. Desviei a custo o olhar das alturas e voltei-o para 
baixo, para o fundo da Rocha, onde vi os carroes brancos, 
as muares e os bois a pastarem, as colunas de fumo azul que 
subiam para o cu e o rio claro a brilhar entre as margens 
douradas e escarlates. O Vale Sweetwater serpenteava por 
entre os montes cor de prpura para confundir-se, muito ao 
longe, numa neblina azul escura, para alm da qual as duas 
grandes cadeias de montanhas, divididas pela passagem
                        255
que entre elas se abria, se erguiam para o cu infinito. 
Quando desci da rocha e me encontrei de novo em terra 
firme,
quase no podia acreditar no que vira. Tom deu-me nova prova 
da realidade do presente, ou seja de que me encontrava num 
local que seria eternamente histrico, ao chamar-me a ateno 
para as inscries talhadas nas superfcies lisas da rocha. 
Por toda a parte onde havia espao para gravar um nome ou uma 
data, havia inscries. Algumas eram indubitvelmente muito 
antigas, outras, em menor quantidade, mais recentes. Todos os 
viajantes que passavam por Independence Rock e tinham tempo, 
l deixavam para sempre o seu nome.
        Regressei imediatamente ao carro e, com um machado e um dos 
clebres pregos coa-bfalos, gravei na pedra as minhas 
iniciais e as da minha namorada, acrescentando depois as dos 
meus camaradas. Ri de mim prprio, acusei-me de 
sentimentalista, mas no esqueci que a emoo enriquece as 
experincias da vida.
        De todos os nossos acampamentos, aquele foi o que mais nos 
custou a abandonar. At Creighton disse desejar que os outros 
acampamentos por onde ainda passaramos fossem como aquele. 
Mas embora o caminho pelo Sweetwater parecesse paradisaco, o 
trabalho de abrir buracos, erguer postes e atulhar de terra e 
rocha as covas abertas continuava a ser moroso e duro. 
Sentramos sempre qualquer coisa a espicaar-nos, mas esse 
qualquer coisa transformara-se agora no trabalho j 
realizado: quase oitocentas milhas de linha telegrfica 
montada e a receber mensagens! Trabalhei possudo por essa 
certeza inspiradora e pela recordao da encantadora rapariga 
que conquistara, e to grande era a influncia desses 
pensamentos que os dias passavam como se no existissem.
        De tal maneira me deixava absorver pelos meus sonhos,
256
enquanto cumpria os meus deveres, que perdi uma emocionante 
descoberta, para a qual Darnell me chamou a ateno: o 
Sweetwater estava cheio de trutas, algumas do tamanho do meu 
brao! Como adorava pescar, todas as noites, aps o trabalho, 
perseguia gafanhotos, atirava-lhes acima o meu chapu e 
usava-os como isca para as trutas grandes. Parecia outro 
sonho, mas a verdade  que todas as vezes que lanava um 
destes enormes gafanhotos no Sweetwater se verificava um 
claro dourado e vermelho, um remoinho na gua, e apanhava 
uma grande truta glutona.
        De toda a viagem, estes dias passados ao longo do 
Sweetwater, foram to maravilhosos que nem os trabalhos mais 
duros poderiam estrag-los. Para mim ficaram inesquecveis. A 
beleza, a cor, a natureza bravia, os celvagens recortados em
silhueta nos penhascos, os sinais de fumo, a interminvel e 
sempre diferente maravilha - recompensavam-me largamente de 
quanto sofrera e eram a realizao dos meus sonhos.
257
                        XIII
Por mim, no avaliei a distncia de trilha que nos faltava
percorrer para alcanarmos o Rio Verde ou o Forte Bridger, 
onde espervamos encontrar os mrmones que trabalhavam para o 
Leste, mas no pude impedir-me de ouvir os homens de Liligh 
discutirem o assunto. Darnell tornava-se mais silencioso e 
atento  medida que mos aproximvamos do cenrio da sua runa 
e        onde certamente o aguardariam complicaes. A sua devoo
por mim, porm, nunca enfraquecia. Era uma amizade diferente 
da que me dedicavam os vaqueiros, ao ponto de eu recear que 
Tom me considerasse uma espcie de heri.
A Trilha de Orego subia sinuosa e gradualmente pela longa
encosta. O levantamento dos postes e dos fios levava agora 
mais tempo por milha, mas para compensar esse bice o nosso 
chefe obrigava-nos a levantar de madrugada, com um frio de 
rachar, e a acampar s quando a escurido j no nos permitia 
avanar mais.
Os dias tornavam-se mais curtos, mas as horas de claridade
proporcionavam-nos o melhor tempo de toda a viagem. O sol 
continuava a brilhar, com uma temperatura agradvel, e ao 
meio-dia chegava mesmo a ser quente. Mas desaparecia cada vez 
mais cedo atrs dos picos escarpados e orlados de prata, e a 
partir desse momento o frio aumentava, quase de minuto para 
minuto. A nossa grande esperana e inteno era atravessar o 
South Pass e descer o espinhao do desfiladeiro
                        259
antes do Inverno, o que parecia possvel com o andamento que 
levvamos. Com o correr dos dias fomos deixando para trs a 
luz ambarina da regio baixa, a qual foi substituda por uma 
luz austera e sem cor, que se animava apenas com a 
maravilhosa transformao do poente. Quando os ltimos raios 
de sol desapareciam, espalhava-se pela encosta um negrume 
frio que trazia consigo o vento da noite, que gemia por entre 
as coberturas de lona dos carros. De noite a abbada do cu 
adquiria um azul profundo, salpicado do branco gelado das 
estrelas. Era belo, mas eu preferia as altitudes mais baixas. 
Agora trabalhvamos menos ss do que desde o comeo da
aventura. S uma caravana pequena nos ultrapassou, mas todos 
os dias passavam carros de carga, diligncias, homens 
montados com animais de carga e, naturalmente, os cavaleiros 
da Pony Express.
        Parecia-me que a maioria dos meus camaradas dirigia o olhar 
esperanoso para o Pass, mas o meu sonhador anelo pelo futuro 
levava-me a fitar demoradamente a encosta que descia at ao 
Vale Sweetwater, com a fita ondulante e refulgente do rio a 
deslizar por entre as margens douradas. Era ali que estava o 
meu corao e parecia-me que, mesmo que nunca tivesse 
conhecido Kit Sunderlund, seria l que gostaria de viver. 
Subimos devagar a encosta, como uma serpente grotesca, a
estender incansavelmente a linha telegrfica. Havia j algum 
tempo que vamos o fumo amarelo e negro da grande britadora
que assinalava as minas de ouro de South Pass. Estvamos a 
uma semana de trabalho duro desse objectivo quando, certa 
manh, Vance Shaw regressou  caravana, aps a viagem diria 
de inspeco que fazia  nossa frente.
        Desta vez desmontou ao lado do nosso carroo,
                260
onde eu e Ton trabalhvamos mais ou menos perto de outros 
homens.
        - Ms notcias, camaradas, notcias que me deixaram 
espantado. Jack, vai buscar o Liligh e o Herbe Lane, mas no 
fales no que acabo de dizer. Se o patro te vir e fizer 
perguntas, no te ds por achado.
        Darnell baixou a cabea e vi o rosto ensombrar-se-lhe. 
Ansiava por crivar Vance de perguntas, mas desisti. Pouco 
depois Jack voltou com Liligh e o encarregado da caravana de 
carros, Herb Lane. Os seus olhos denotavam curiosidade, mas a 
sua atitude no traa qualquer ansiedade, embora no fosse de 
bom augrio o facto de o cavaleiro do Texas os mandar chamar. 
- Bem, homens, reunam-se  minha volta, de modo natural, e
ouam-me - comeou Shaw, acendendo devagar um cigarro. - 
Ainda esta manh pensava que tudo corria muito bem, mas agora 
surgiu um obstculo: Talvez no tenha importncia, talvez 
vocs, camaradas, se riam dos meus receios, mas a verdade  
que me provocou um dos meus pressentimentos e eu odeio-os, 
pois batem sempre certos.
- Muito bem, Shaw, deixa-te de rodeios e desembucha! -
ordenou Liligh.
- Viram-me voltar pela trilha, no  verdade? Tinha ido
seguir uma pista deixada por cavalos que h algum tempo me 
traz desconfiado. De manh cedo retrocedi ao longo da linha e 
encontrei um poste cado - no abatido a machado, mas serrado 
-, com um fio cortado e um isolador a menos. Achei o caso 
estranho, pois at agora nunca nos abateram postes desta 
maneira. Era, portanto, trabalho do branco. Vi marcas de 
botas na poeira, feitas a noite passada e de diferentes 
tamanhos: marcas de botas que no so de cavaleiros, tm 
cardas grandes, que so novas para mim. Pareceu-me que quem 
quer que as deixou trazia dois cavalos de sela e um de carga.
                261
Bem, segui-lhe a pista mais cinco milhas para a retaguarda da 
linha e encontrei outro poste abatido, exactamente da mesma 
maneira, e outras cinco milhas adiante, mais ou menos, um 
terceiro. Como as marcas dos cavalos no seguiam mais para 
Leste, achei que no valia a pena prosseguir. Os sinais 
entravam na trilha vindos do lado de cima da encosta e segui-
os at uma mata a cerca de uma milha e, da, a uma pequena 
clareira onde dois homens com um animal de carga acamparam a 
noite passada e partiram de manh cedo. Alimentaram os 
animais com gro, o que me pareceu muito estranho.
        Fez uma pausa e prosseguiu:
- Da entrei de novo na trilha, ultrapassei os nossos carros
e        segui para diante, at perder a pista que seguia. Quando o
orvalho secou na relva tornou-se-me difcil e moroso 
continuar a        faz-lo. Claro que podia 
segui-los se tivesse tempo, pois
achar pistas  a minha especialidade. Fiquei muito admirado 
com tudo isto e gostaria de saber a vossa opinio.
- Bem, isso ajusta-se com as minhas prprias suspeitas,
acerca das quais nunca falei ao patro. S pode significar 
uma coisa: alguns brancos, por motivos que ignoramos, 
pretendem impedir o envio de comunicaes telegrficas nossas 
para o Leste.
- Foi o que supus - aquiesceu Shaw, expelindo argolas de
fumo.
        - Quem poderia querer causar contratempos desses ao 
Creighton? - indaguei.
- Tom, tu que conheces esta regio, talvez faas uma ideia -
sugeriu Shaw.
- A mim parece-me muito provvel que seja obra de certos
patifes de South Pass.
        -  alguma coisa, mas no explica o caso.
262
        - Agora no faz muita diferena - afirmou Liligh -, pois 
Creighton no dispe de nenhum telegrafista e diz que, embora 
pudesse tentar o envio de mensagens, no seriam perfeitas. No 
entanto, de um dia para o outro deve chegr o telegrafista 
que vem na diligncia, e ento, se a linha estiver cortada e 
impedir a transmisso de mensagens importantes, ser um bico 
de obra.
- Talvez seja melhor no nos preocuparmos muito enquanto no
verificarmos se a maroteira prossegue esta noite ou amanh -
sugeriu Herb Lane.
        - Tambm me parece, embora seja esperar contra toda a 
esperana - concordou Liligh. - Entretanto mandarei um carro 
fazer as reparaes necessrias, sem o Creighton saber.
- Concordo que ser melhor no dizer ao patro, se pudermos
evit-lo - afirmei, convencido. - Dir que  outra picada de 
mosquito, mais um acidente da montagem, mas muitas picadas de 
mosquitos podem deixar um homem doente, assim como muitos 
acidentes destes so capazes de abat-lo. Creio que j todos 
notaram como Creighton se tornou nervoso e magro e perdeu 
mais peso que qualquer de ns. Fisicamente tem trabalhado 
tanto como os homens, mas sobrecarrega-o ainda a 
responsabilidade mental e moral.  maravilhosa a maneira como 
aguenta, no entanto no  nenhum super-homem e devemos poup-
lo.
- De acordo - aquiesceu Liligh. - Shaw, tu, os vaqueiros e o
Cameron vigiam a retaguarda ao longo da linha, de noite, e 
tentam descobrir alguma coisa. Depois informam-me do 
resultado.
O trabalho prosseguiu como at a, com o chefe na ignorncia
do novo atentado. Tom acordou-me  meia-noite e, a p, 
envoltos nos casaces grossos e armados de espingardas, 
percorremos cerca de cinco milhas para a retaguarda, sem 
ouvirmos nem vermos nada que nos causasse suspeitas.
263
Voltmos ao acampamento e acordmos Shaw e Lowden. Estes 
foram buscar os cavalos, envolveram-lhes as patas em trapos e 
prepararam-se para partir.
- Ainda faltam algumas horas para comear a clarear - disse
Shaw. - Percorremos cerca de dez milhas, espiar e escutar  
noite  a nossa especialidade. Mas se temos de haver-nos com 
espertalhes conhecedores da regio, vai ser trabalho duro. 
Afastaram-se na noite fria e melanclica, sem se ouvir o
barulho das ferraduras. Fiquei um bocado com Tom ao p do
lume, a aquecer as mos e depois deitmo-nos. Quando 
acordmos era dia claro e soalhento, e a encosta relvada e os 
macios de salva brilhavam, brancos de orvalho.
        Tomvamos o pequeno almoo quando os vaqueiros voltaram, 
tendo tomado a precauo de surgir do Oeste e cada um deles 
com o corpo de um antlope atravessado na sela. A carne fazia 
jeito, sem dvida, mas era evidente que pretendia dar a 
impresso de que tinham ido caar. Tiraram a sela aos cavalos 
e        almoaram sem fazer comentrios.
        Pouco depois Liligh, Lane e Bob Wainwright, que tinham 
reparado a linha na vspera, procuraram-nos cheios de 
curiosidade.
- Ento, ndio escanzelado, que novidades tens? - indagou
Liligh.
- A mesma coisa, mas pior - respondeu-lhe Shaw, a enrolar um
cigarro.
        - Pior? Mas pior como? No podia ser pior!
- Os camaradas Tom e Wayne percorreram a p vrias milhas 
retaguarda do acampamento e no encontraram nada. Depois sa 
eu e o Jack, com as patas dos cavalos entrapadas, e 
percorremos devagar, parando muitas vezes para escutar, cerca 
de quinze milhas. Tambm no vimos nem ouvimos nada. Ao 
regressarmos, tnhamos j percorrido cinco milhas e comeava 
a romper o dia, encontrmos trs postes derrubados, com os 
fios cortados e os isoladores tirados, exactamente como 
ontem. Havia entre eles intervalos de vrias milhas. Depois 
do ltimo poste serrado a pista dos cavalos seguia para 
norte, mas at um Comanche se veria aflito para descobri-la. 
De resto, creio que no seria inteligente da nossa parte 
mostrarmo-nos interessados em segui-los. Estes tipos so 
peritos e devem observar-nos de qualquer esconderijo.
- Trs postes abatidos e os fios cortados em trs lados! -
exclamou Liligh, com sarcasmo. -  apenas isso? Cheguei a 
pensar que tivessem abatido todos os postes!
- No perca as estribeiras, Liligh - respondeu Wainwright. -
Que so uns tantos postes abatidos todas as noites para tipos 
como ns?
- So muito! - afirmou Liligh. - Ontem foram precisas oito
horas para reparar os estragos, e hoje ainda sero precisas 
mais. O chefe no tarda a querer enviar mensagens, e como 
raios julgas tu que o far? Sobretudo agora, que no queremos 
que saiba.
        - O caso parece no ter remdio, mas ns tentaremos por 
todos os modos resolv-lo. Talvez esta noite ou na prxima eu 
e        o Jack encontremos os engraados, e ento vo ver quanto
Lhes custa!
Mas a sorte estava contra os vaqueiros. Durante mais trs
noites seguidas percorreram a trilha, enquanto eu e o Tom 
fazamos o mesmo, a p, durante metade da noite, mas sem 
resultado. Havia sempre postes serrados, cada noite um a mais 
do que na anterior. Durante esse perodo aproximmo-nos 
quinze milhas da zona mineira e, na quarta noite, acampmos 
no lado do monte para alm do qual ficavam as primeiras minas 
conhecidas por Atlantic e que eram uma sucursal das de South 
Path, poucas milhas mais distante. Por incrvel que 
parecesse, encontrvamo-nos a um dia ou dois de outro dos 
nossos grandes objectivos.
                264  265

No era menos excitante pensar que estvamos quase a passar 
pela mais famosa, sinistra e fabulosamente rica de todas as 
minas de ouro.
        Entretanto, j quase todos os homens da caravana estavam ao 
corrente das depredaes feitas na linha telegrfica. S 
Creighton continuava na ignorncia, pois milagrosamente 
conseguamos ainda ocultar-lho. Mostrava-se to feliz que 
nenhum de ns tinha a coragem de dizer-lhe que, mesmo que 
tivesse telegrafista, nos ltimos quatro dias a Western Union 
no conseguiria transmitir quaisquer mensagens.
        Naquela noite, segundo nos contaram de manh, Shaw e Lowden 
haviam vigiado todo o terreno agreste ao norte da pista e 
descoberto, numa mata frondosa, uma pequena fogueira. 
Aproximaram-se como ndios, tentaram apoderar-se dos dois 
homens que junto dela se encontravam, a fim de descobrirem 
quem estava por detrs do corte dos postes. Travara-se porm, 
luta e dela resultara a morte de um dos homens e a fuga do 
outro para a floresta.
Ao regressarem, os vaqueiros descobriram mais trs postes
serrados, presumivelmente por outra equipa de malfei tores 
cuja pista, como puderam verificar  luz do dia, no condizia 
com a dos dois homens. Estas notcias encheram-nos de 
consternao e os vaqueiros no conseguiam esconder a clera. 
Shaw afirmava que no se tratava de um caso da pouca monta, 
levado a cabo por alguns patifes para satisfazerem as suas 
convenincias, mas que existia uma organizao grande nos 
bastidores.
        Naquele dia levmos o fio telegrfico por cima do monte 
quase at a Atlantic e acampmos  beira da trilha, no cume. 
O dia de trabalho fora curto, avanramos apenas trs milhas, 
e isso deu-me tempo para me interessar pelas minas de ouro.
266
        Vista do cimo do monte, era um lugar notvel e diferente do 
quanto imaginara.  minha frente estendia-se uma ravina larga 
e        profunda ao lado da qual serpenteava a trilha, que
atravessava uma corrente tumultuosa e ziguezagueava pelo 
outro lado acima, numa ladeira ngreme. Aqui e ali viam-se 
macios de abetos e a meio da descida erguiam-se inmeras e 
estranhas cabanas de feitios diferentes ntercaladas de 
tendas. Mais abaixo, as cabanas tornavam-se maiores e, 
finalmente, davam lugar a enormes e toscos edifcios de 
madeira, todos com a frente voltada para o vale.
        Paralelo  torrente branca e revolta e s rvores que a 
ladeavam, abria-se um imenso fosso que subia a ravina at ao 
sop da montanha. Era neste fosso, nas suas margens e por 
toda a        parte  sua volta, que se viam 
homens de um lado para o
outro, tantos, to coloridos nas suas camisas vermelhas e 
aparentemente a trabalharem com tanto frenesi, que se 
assemelhavam a um exrcito de formigas. Ali estava, sem 
dvida, uma amostra do que eram as minas do ouro do South 
Pass.
        Olhar para baixo deixava-me sem respirao. Pensar que 
aquele lugar estava apenas a dez milhas do Vale Sweetwater e 
do rancho de Kit Sunderlund! Vi tambm a estrada de que me 
haviam falado e que seguia a corrente atravs da ravina, 
saindo pela parte mais baixa.
        Regressei ao carroo e no me cansei de falar aos meus 
camaradas nas minas de ouro. Tentava dizer-lhes o que 
pareciam, excitadamente, quando Darnell nos chamou a ateno 
para a chegada do cavaleiro da Pony Express. Era o nosso 
amigo Barnes, que desmontou para entregar correio a 
Creighton. Conversaram uns momentos e, depois, Barnes correu 
ao nosso
encontro.
        - Que raio se passa com aquele tipo? - perguntou Shaw, 
levantando-se. - J vi muitos indivduos com aquela 
expresso,
267
de facto excitado, mas aposto as esporas em como no traz ms 
notcias - asseverou. - Eh, vaqueiros, cheguem-se c todos! -
chamou Bar nes, ao chegar junto de mim. - Estou cheio de 
pressa e no terei tempo para repetir o que quero dizer-lhes. 
Shaw, no sei se o assunto te diz mais respeito a ti do que 
aos outros, mas escuta. Na minha viagem para oeste pela South 
Pass, h trs ou quatro noites, vi aquela pequena, a Ruby, 
com a        qual um de vocs andava de 
amores.
Os vaqueiros pareceram fulminados e eu soltei uma exclamao
sonora.
- Conheci-a antes de vocs, em Grand Island - prosseguiu o
cavaleiro, com os olhos postos em Shaw. - Era uma garota 
simptica e digna de pena. Agora vi-a em South Pass e ela 
tambm me viu, mais: reconheceu-me. O rosto iluminou-se-Lhe, 
acenou-me, mas nesse momento algum a puxou para fora da 
janela. Sim, puxou! No me olhes dessa maneira, vaqueiro, 
tenho a certeza do que digo. No s a vi perfeitamente, como 
ela me reconheceu.
        Por estranho que parea, foi para mim que Shaw se voltou 
neste momento pungente, talvez por saber da intensa simpatia 
que a rapariga tambm me inspirava. Fechou os olhos e as 
lgrimas jorraram-lhe por entre as plpebras cerradas, ao 
mesmo tempo que espasmos convulsivos lhe transformavam o 
rosto e        os seus dedos me apertavam o 
brao como se fossem de ao.
- Sabia que trazias boas notcias, Barnes, no me enganei! -
exclamou Lowden. - Quase se pode dizer que salvaste este 
pessoal, homem! Mas onde foi que viste Ruby?
        - No sei ao certo, Lowden,  esse o mal. Ia a toda a 
velocidade, pois gosto de exibir-me na cidade, e vi-a de 
relance, ao passar velozmente. Tentei lembrar-me, mas sei 
apenas que estava quase a meio da estrada que vai da estao 
da Express quela fila de casas todas apertadas
                        268
umas nas outras, na rua onde corre o ribeiro. Era num andar 
de cima, no esqueam. Hoje, ao passar por l outra vez, 
olhei com ateno o primeiro andar da grande casa de jogo e 
vi meia dzia de janelas: todas podiam ser aquela onde vi 
Ruby. No entanto vi-a, compete a vocs encontr-la. Boa sorte 
e adeus. 
Shaw recomps-se imediatamente. Era a primeira vez que 
traa
os seus sentimentos na minha frente, e a maneira como o fez 
permitiu-me avaliar o significado que para ele tinham as 
notcias de Barnes.
        - Compincha, creio que temos de esquecer os fios 
telegrficos durante um bocado - declarou concisamente.
        - Jack, vai buscar os cavalos e sela-os.
        Pouco depois afastavam-se os dois encosta abaixo, na 
direco das minas de ouro.
- Caramba, Tom, no podemos ficar aqui sentados! - exclamei.
        - Que faremos?
        - Acho que devemos segui-los. Por mim no me importo, com 
estas barbas, ningum me reconhecer em South Pass. Vou 
buscar o        cavalo, tu vais nele e seguirei 
a p.
- No, iremos os dois a p, se no arranjarmos outra maneira
de l chegar.
- Passam carroes entre os dois acampamentos, podemos
v-los agora a subir o monte. Talvez seja melhor irmos 
devagar. teremos tempo para pensar.
- Tens razo, Tom. Estou to contente por saber onde a Ruby
se encontra, que nem consigo pensar como deve ser. Anda, 
vamos.
        - Est bem, mas leva a arma. Se o meu pressentimento bater 
certo, precisars dela. Mete um punhado de balas na algibeira 
esquerda do casaco.
        Comemos a descer no momento em que Shaw e Lowden chegavam 
ao cimo da encosta oposta e cavalgavam pelo cume do monte,
                        269
recortados contra a nuvem de fumo amarelo que vinha da mina.
        - Camarada, j viste muita aco na fronteira, mas o que 
vais encontrar aqui talvez seja diferente - avisou-me 
Darnell. -        No percas a cabea; ouve o que 
te disser ou observa-me.
- Palavra que no me lembro de me sentir num estado destes!
-        confessei. - No estou assustado, nem excitado, nem Louco,
como vos dizem; sinto apenas uma espcie de expanso 
interior. - Bem, camarada. aconselho-te a que serenes e 
desas das
nuvens.
        Descemos rapidamente a encosta e no tardmos a chegar s 
primeiras cabanas. Algumas mal chegavam para um homem se 
mover l dentro, mas dos telhados de todas saa o canudo da 
chamin. 
Ultrapassmos uma fila larga destas cabanas e chegmos a 
uma
rua de razovel largura. onde comeavam os edifcios maiores 
e mais cmodos. Por cada loja e armazm havia vrios saLoons, 
todos com dsticos fantsticos pintados ou pregados sobre as 
portas.
Mais abaixo, no ponto onde a rua voltava para atravessar as
pontes sobre o fosso e o rio, havia casas ainda maiores, 
algumas pintadas e verdadeiramente pretensiosas. Uma tinha o 
nome de Repouso do Mineiro, e a seguinte, muito maior, o de 
Mina de Ouro. O ltimo edifcio desse lado parecia um armazm 
de boas propores.
Viam-se vrios homens, alguns deles mineiros, mas a multido
que vramos do cimo do monte trabalhava na mina.
        Lembrei-me de entrar no armazm e fazer uma pergunta.
- Prefiro ficar c fora, a ver quem passa - afirmou 
Darnell. Entrei e abordei um homem de meia idade e ar 
importante, que
devia ser o comerciante.
270
        - Pode dizer-me se sabe alguma coisa acerca de um tal 
Coronel Sunderlund, que acaba de instalar-se no Vale 
Sweetwater, num rancho prximo daqui?
- Tenho o prazer de inform-lo de que Sunderlund esteve aqui
vrias vezes, a ltima das quais ontem.
        - Esta rua vai ter ao seu rancho?
- A direito! No tem nada que errar, o rancho est bem 
vista, no ponto em que a estrada entra no vale.
- Muito obrigado. Quanto tempo se leva para l chegar?
- O Sunderlund leva menos de uma hora, mas aquela parelha
preta que ele tem  rpida como um raio!
        Voltei para junto de Tom, entusiasmado com a ideia de estar 
to perto de Kit e de que talvez a visse em breve, se se 
oferecesse oportunidade. Conversmos um bocado, ao mesmo 
tempo que olhvamos quanto se passava  nossa volta, sem 
perdermos
nenhum pormenor. Pouco depois apareceu um carro vazio, 
mandmos parar e o cocheiro convidou-nos alegremente a subir. 
Sentei-me nuns sacos e Tom encostou-se ao banco do cocheiro, 
que crivou de perguntas.
A tarde ia a meio e o sol estava j muito quente. A subida
por aquele lado da ravina era menos ngreme e, de vez em 
quando, grupos de pinheiros impediam-nos de ver o vale. Ao 
chegarmos ao topo, porm, verificmos que, to longe quanto a 
nossa vista alcanava, trabalhavam mineiros  
activos como abelhas. No havia um nico espao ao longo do 
rio em que no estivessem dois ou trs homens de cada lado 
metidos na gua. Olhar para eles causava-me arrepios. Quando 
chegmos ao cimo do monte verificmos que a estrada percorria 
cerca de uma milha de terreno plano e, depois, conduzia a 
outro fosso, aparentemente muito mais largo.
        A grande britadora de ouro atraiu-nos imediatamente a 
ateno total, com as grandes nuvens de fumo amarelo e negro 
que dela saam. No se assemelhava a nada do que
271
vira no captulo de altos fornos ou de moinhos, parece apenas 
uma confuso de vigas e traves, grandes tanques redondos e 
construes quadradas com canos grandes e pequenos a correr 
em todas as direces. Ouvimos o estrpito da maquinaria 
muito antes de chegarmos e pouco depois vimos homens a 
andarem de um lado para o outro, atarefados.
        Para l da britadora a estrada descia e curvava para a 
esquerda, contornando um cotovelo do monte ondc se erguiam 
numerosas cabanas como as que vramos em Atlantic.  direita 
abria-se um grande vale de forma triangular, literalmente 
coberto com as habitaes dos mineiros. Algumas eram 
estranhas, outras engraadas, outras ainda frgeis, mas davam 
todas a impresso ntida de serem apenas abrigos provisrios. 
Mais adiante havia outro rio, onde tambm formigavam homens. 
Ao transpormos a curva, o cocheiro informou-nos de que ali
era South Pass. Surgiu aos meus olhos espantados nada mais, 
nada menos, do que como uma cena de pera cmica, em grande 
escala. Tinha duas ruas largas e duas filas de edifcios de 
todas as cores imaginveis, algumas at azuis ou cor-de-rosa. 
A        rua e os passeios estreitos, de madeira, estavam
congestionados de vultos em movimento. Nun dos lados viam-se 
veculos enfileirados, rua abaixo, Notei muitos letreiros 
pintados, mas estava longe e no consegui l-los.
- H ali uma cavalaria, se quiserem alugar um carro -
informou-nos o cocheiro. - Aquele edifcio de pedra cinzenta, 
na encosta do monte,  o banco, e aquela grande casa,  
esquerda, o armazm geral, onde podem comprar tudo, no outro 
lado,  esquina, fica o melhor hotel. Esta estrada volta ali 
e estamos na velha Trilha do Orego outra vez, atraveSsa o 
ribeiro e sobe. Suponho que vocs querem divertir-se, hem?
272
        - com certeza, se encontrarmos um lugar onde se jogue 
suficientemente fraco para convir s nossas bolsas.
        - H por aqui jogos de toda a sorte, mas, aviso-os, a maior 
parte deles so desonestos. Afastem-se dos antros l de 
baixo. os mais embonecados so os piores.
        Agradecemos ao homem e apemo-nos defronte do armazm. Os 
degraus largos que contornavam o edifcio proporcionavam-nos
melhor ponto de observao do que o hotel do outro lado da 
rua, e por isso os escolhemos para primeiro pouso. Olhmos 
para todos os lados, esperanados em encontrar Shaw e Lowden. 
Passava muita gente na rua, na maior parte mineiros com os 
seus fatos grosseiros e coloridos. Notmos, porm, que havia 
uma grande variedade de pessoas e, para nossa surpresa, bom 
nmero de mulheres.
        Fitava cada transeunte com um olhar rpido, que no 
registava nada, com pressa de que acontecesse qualquer coisa, 
nem sabia bem o qu. No creio que fosse nervosismo, mas a 
verdade  que no me ajudava nada imaginar Shaw no meio da 
rua congestionada, com a pistola a cuspir fogo e fumo. 
Imaginei-o a        correr pela rua abaixo, com 
Ruby nos braos, seguida por
Lowden a manter os perseguidores em respeito com as duas 
pistolas.
        No momento em que vi uma rapariga amorenada parada  porta 
do armazm, a olhar-me com olhos assustados, compreendi que o 
que esperara comeava a acontecer.
A rapariga reconheceu-me, avanou impulsivamente e depois
parou e olhou  sua volta, com nervosismo, como se receasse 
ser vista. Era Flo, a rapariga do salo de Gotemburgo, com 
quem eu danara.
        - Olha, Tom, a Flo! - murmurei, acotovelando Darnell.
        - Tens razo,  a rapariga que era amiga da Ruby.
273
Talvez o nosso pressentimento no fosse mau, afinal de 
contas. Dirigi-me para junto da jovem, seguido por Tom.
- Ol, Flo! - saudei-a, com ansiedade. - Lembra- de ns?
- Lembro. Voc  Wayne Cameron, e reconheo tambm o seu
amigo vaqueiro - respondeu-me. - H semanas que esperava v-
los aparecer por aqui.
- Graas a Deus, Flo! Isso deve querer dizer que ainda 
nossa amiga. O cavaleiro da Pony Express, Barnes, disse-nos 
que vira a Ruby aqui, em South Pass. O Shaw e o Lowden andam 
a procur-la, assim como ns.
- Entrem no armazm. Arrisco a vida se me vem a falar com
vocs.
        Conduziu-nos para dentro do estabelecimento, onde havia um 
pequeno espao entre o balco e os fardos de mercadorias que 
proporcionava uma espcie de esconderijo. Fitmo-la e tirmos 
as nossas concluses ao vermos o seu ar apreensivo e ao 
ouvirmos o tom abafado da sua voz. Nem a pintura conseguia 
disfarar-lhe a palidez. Parecia mais velha e menos bonita do 
que da primeira vez que a vira.
- Ouam - comeou -, Rby foi obrigada a sair de jlesburgo
na noite do ataque dos ndios, por Red Pierce e os seus 
homens, e trazida para Oeste num carroo. Esteve a na 
cidade at h poucos dias, depois Pierce levou-a para 
Atlantic. Temna agora naquele novo saloon e casa de jogo 
chamado Pepita de Ouro.  o primeiro  esquerda, depois de 
atravessada a ponte. 
- Est l prisioneira? - perguntei, num murmrio abafado.

- Mais ou menos. Tentou fugir vrias vezes, mas o 
Pierce
guarda-a ciumentamente.
        - Maltrata-a?
        - Sim, tem-lhe batido, mas ela resiste-lhe. 
Disse-lhe que sabia que vocs deviam passar por 
aqui e salv-la. o Pierce apaixonou-se por ela e 
tem-se visto aflita para o afastar. 
Aconselhei-a a engan-lo, a ganhar tempo de 
qualquer
maneira, e at agora  o que tem feito.
- Mas Ruby deixou um bilhete a dizer que era 
casada e eu
pensei que fosse com Pierce - observei.
- No, no  casada. Deixou esse bilhete para o 
Shaw no dia

do ataque dos ndios porque a tal a obrigou um 
membro da quadrilha do Pierce que o Shaw no 
conhece.
        Seguiu-lhe a pista, mandado pelo Pierce e jurou-
lhe que mataria o vaqueiro pelas costas, enquanto 
ele lutava contra os ndios, se Ruby no escrevesse 
o bilhete. Foi ele que ditou, pois ouvira-os falar 
em casamento.
- Ento, amigo, chegmos a tempo - murmurou 
Darnell. - Mas,
Flo, diga-nos mais umas coisas. Voc foi a resposta 
s nossas preces, O Pierce tambm tem algum 
estabelecimento nesta cidade?
- Acho que sim. O saloon Quatro Ases  a segunda 
melhor csa
de jogo. Pertencia a Emery, um indivduo que foi 
emforcado h pouco tempo no Vale Sweetwater.
- Diga-nos mais coisas - pedi, ansioso. - O Pierce 
est
neste momento aqui?
- Est, Encontra-se numa casa de jogo particular, 
mas s os
seus homens o conhecem por Red Pierce. Aqui  Bill 
Howard.
- Ento o negcio  o mesmo: saLoon, jogo e 
raparigas?
- No se iluda, Cameron. O saloon e o jogo no 
significam
quase nada para ele, Pierce tem ideias maiores. 
Ainda a noite passada o ouvi falar com os seus 
homens, um dos quais, o seu brao direito, Black 
Thornton. Tem em vista um grande negcio, mas 
ignoro exactamente o que seja. Desconfio apenas de 
que deve tratar-se de assalto ao banco
274  275
e        talvez de roubo em grande escala aos mineiros, 
Querem fazer
uma limpeza e depois seguir para oeste, para as 
minas da Califrnia. O Pierce deve ser um figuro 
dos grandes na suas expecialidades.  ladro e 
assassino, ou, se no mata ele prprio, paga a quem 
o faa.
- Estamos na pista certa, Tom - sussurrei. - Grande 
negcio!
Uma limpeza! Flo, ser possvel que o Pierce esteja 
relacionado com o corte sistemtico da linha 
telegrfica que se tem verificado h dias?
- E se tem, para qu, Flo? - acrescentou Darnell, a 
ranger
os dentes.
        - Simples como o A. B. C: ouvi-os falar, o Pierce 
disse que no se importava de que a linha 
telegrfica passasse por aqui, mas s depois de 
feito o seu grande negcio.
- Mas porqu? - perguntmos ao mesmo tempo, embora 
ambos
soubssemos a resposta.
- No lhe convm que chegem a Forte Laramie 
mensagens
telegrficas a pedir a vinda para c de soldados. 
Alguns homens importantes da cidade tentam arranjar 
um xerife, a fim de haver lei e ordem.
- A tens a resposta, Darnell! - exclamei. - Flo, 
Deus a
abenoe. No esqueceremos a ajuda que nos deu.
- Ests a perder tempo, camarada. Flo, explique-nos 
como
poderemos encontrar Ruby.
- Sei exactamente onde se encontra. Sobre a Pepita 
de Ouro
h um grande sto que foi dividido em quartos.
Nunca l estive, mas uma das raparigas esteve e 
contou-me. Quando se entra no saloon h uma 
escada e uma porta, 
direita. Sobe-se a escada at um vestbulo 
estreito, com quartos dos dois lados, e parece-me 
que o de Ruby  o ltimo da esquerda, pois a tal 
rapariga disse-me que ela pode estar deitada e 
tocar com a mo nas telhas do telhado.
De qualquer maneira, no lhes ser difcil 
encontrla.
        Boa sorte. e no se esqueam de mim.
276

- Claro que no esquecerei - respondeu Darnell, num 
tom que
me surpreendeu.
        Samos do armazm e, por consentimento tcito, 
seguimos para a        rua que levava a 
Atlantic. O crebro de Darnell trabalhava
mais depressa do que o meu, pois declarou que antes 
de mais nada precisvamos de uma carruagem e de uma 
parelha de cavalos. No podamos perder tempo  
procura de Shaw.

Alugmos um carro ao barbudo dono da cavalaria, e 
em breve
trotvamos pela encosta acima, com Darnell s 
rdeas. Havia uma pele de bfalo no segundo banco e 
eu abri-a sobre os joelhos, pois o sol batia nos 
picos das montanhas e o ar estava frio.
        Entrmos na cidade, atravessmos a ponte, 
passmos pelo grande armazm e parmos junto da 
grade que havia defronte da Pepita de Ouro. L 
dentro ouviam-se os sons discordantes da msica, do 
chiar da roleta, do tilintar dos copos e de 
gargalhadas grosseiras.
- Uma ltima palavra, companheiro - disse-me 
Darnell, ao
ouvido -, temos sorte, pois parece estar pouca 
gente. Entra atrs de mim e toma ateno no que eu 
fizer. Tenho c o pressentimento de que haver 
tiroteio antes de sairmos. 
Quando entrmos pela porta larga do saLoon vimos 
uma grande
sala mobilada de novo, vrios mineiros ao balco e 
alguns jogadores na roleta. No se via mais 
ningum. Entrmos, sem que ningum nos prestasse 
ateno. L estava a porta,  direita, e as escadas 
ngremes. Em breve as subamos, cautelosamente. 
Devia haver uma luz em cima, pois no estava 
escuro. Chegados ao corredor, fomos em bicos de ps 
at  
ltima porta da esquerda: O corao ameaava sair-
me pela boca quando, a um sinal de Tom, bati. 
Ouvimos qualquer coisa, mas no percebi o qu.
- Ruby - chamei em voz baixa, incapaz de impedi-la 
de tremer
-, ests a?
277
Ouvimos novo rudo, ps suaves a deslizar pelo cho 
e depois
uma voz que pareceu esgotar-me todo o sangue do 
corao:
        - Sim, sou Ruby e estou aqui. Quem ?
- Sou o Cameron e o Darnell est comigo - respondi-
lhe, com
os lbios na fechadura. - Viemos buscar-te, a Flo 
informou-nos.
        A exclamao incoerente que seguiu as minhas 
palavras, apesar de abafada, traduziu uma alegria 
quase intolervel.

- Oh, Wayne, Wayne, eu sabia que vocs 
haviam de
encontrar-me! Masestou fechada, presa. No 
posso sair! - Desvia-te para um lado, 
afasta-te da porta!

Recuei para a parede oposta e atirei todo o meu 
peso contra
a        porta. Foi fcil, pois a fechadura no era forte. 
 segunda
tentativa a porta soltou-se da fechadura e dos 
gonzos e bateu com estrondo no cho do pequeno 
quarto. O balano que tomara atirou-me pelo 
aposento dentro, en quanto Tom guardava a porta. 
Ruby estava branca como um lenol e os seus grandes 
olhos pareciam poos sem fundo. Agarrei-a e trouxe-
a para o corredor.
- Companheiro, temos de despachar-nos - segredou-me 
Darnell,
com a pistola na mo. - L em baixo ouviram o 
estrondo e o mais certo ser termos sarilho. Vem 
atrs de mim.
        Correu para o cimo da escada e, ao segui-lo, vi 
um homem moreno comear a subi-las. Dispararam os 
dois ao mesmo temPo e eu ouvi as balas baterem na 
carne. Acima do claro vermelho dos tiros vi a cara 
de Black Thornton. O bandido soltou um
grito, largou a arma que caiu com estrpito no 
andar de baixo e        tentou amparar-se  
parede. mas Darnell desceu, deu-lhe um
pontap e f-lo cair com tal violncia que o 
edifcio tremeu. Mantive-me atrs de Darnell, 
como me recomendara.
278
No salo ouviam-se gritos e arrastar de ps 
pesados. Quando
o        meu amigo passou por cima do corpo do morto, 
notei que
cambaleava. Fora atingido, tambm! Mas, sempre na 
minha frente, levou a mo esquerda atrs e puxou-me 
para o salo, fazendo-me passar tambm sobre o 
morto. As passadas pertenciam a        um homem que eu 
conhecia, o mesmo com quem lutara no saloon
de Gotemburgo. Empunhava uma pistola e tinha uma 
expresso de surpresa no rosto.
- O qu?... - comeou, e disparou um momento depois 
de
Darnell.
        Mas o vaqueiro cambaleava e fez pontaria baixa. 
Largou-me, apoiou-se  porta, mas conservou-se 
deliberadamente na minha frente, usando o corpo 
como escudo para proteger Ruby. O segundo bandido 
continuou a disparar e as balas produziam um som de 
arrepiar ao acertarem em Darnell.
- Fura-o, camarada - gritou-me, com voz 
estrangulada. Entretanto eu passara a rapariga 
para o brao esquerdo e
empunhra a arma, por isso depressa me desviei de 
Darnell e disparei contra o homem, o qual largou a 
pistola e levou ambas as mos ao peito. Caiu de 
borco, com um grito terrvel, na nossa frente. 
Darnell caiu tambm, logo a seguir, e a sua ltima 
palavra foi:
        - Foge!
Corri pela porta fora, coloquei Ruby no banco da 
frente e,
soltando as rdeas, saltei para o lado dela e meti 
pela estrada que descia para a ravina. Poucos 
metros andramos quando partiram os primeiros tiros 
da porta do saloon, mas serviram apenas para 
levantarem um pouco de poeira, ao baterem no cho  
nossa volta. No instante seguinte estvamos fora de 
vista, atrs da margem.
279
XIV
        Percorremos o que me pareceram milhas sem 
encontrar outro veculo, A parelha de barnes estava 
repousada e obedecia ao meu comando, avanando 
velozmente. Fosse o que fosse sobre rodas que me 
perseguisse, no levaria a melhor, mas perto da 
Pepita de Ouro existiam com certeza cavalos de sela 
e esses podiam alcanar-me antes de chegar ao vale. 
No caso de ser perseguido por homens montados, 
estava decidido a travar luta com eles, sem deixar 
de fugir.
        Ocorreu-me demasiado tarde que devia ter levado 
Ruby para o acampamento, mas metera-se-me na cabea 
que o rancho Sunderlund era melhor refgio para a 
rapariga e para l seguia.
        A estrada era razoavelmente boa apenas com um ou 
outro buraco. A certa altura, um solavanco maior 
atirou a jovem inconsciente do banco para o cho, e 
quando a olhei pareceu-me dar sinais de recuperar 
os sentidos. Agarrei as rdeas com a mo dreita ao 
mesmo tempo que, com a esquerda, a cobria com a 
pele de bfalo que, felizmente, se encontrava no 
veculo, pois
o        vento cortava. Olhei para trs, com uma opresso 
a
sufocar-me, mas ningum se avistava.
A parelha parecia voar e obrigava-me a segurar as 
rdeas com
toda a fora, para manter um passo certo. Se me 
perseguissem, largar-Lhes-ia as rdeas e ento 
deix-los-ia correr quanto quisessem.
281
mas por enqanto tinha toda a convenincia em 
evitar acidentes. Mais adiante voltei a olhar para 
trs, mas com o mesmo resultado. Percorrera j 
cerca de cinco milhas para alm das minas de ouro e 
a curva da estrada aproximava-se. Ao transp-la vi 
na minha frente outra grande extenso de recta, que 
terminava com um alargar e achatar dos lados da 
ravina e um vazio que devia ser o vale.
        Duas vezes mais me voltei, nas prximas milhas. 
Ao certificar-me de que no era seguido, pensei em 
Darnell, na maneira como sacrificara a sua vida por 
Ruby, na obstinao com que pusera o prprio corpo 
a servir de escudo entre ela e as balas. No mesmo 
instante Ruby mexeu-se aos meus ps e chamou-me. 
Debrucei-me sobre ela e afirmei-Lhe que 
conseguramos fugir e que era quase certo estarmos 
salvos.
        - Mas Tom... que lhe aconteceu? - soluou.
        - No penses nisso, Ruby - pedi-lhe, com voz 
trmula.
        - Onde est o Vance?
        - Foi com o Jack procurar-te a South Pass. O 
Barnes avisou-nos de que te vira  janela e eu tive 
a sorte de encontrar Flo, que nos informou do teu 
paradeiro. Como eu e o Tom no ousssemos esperar 
pelos rapazes, corremos  sozinhos para Atlantic.
        - Aonde me levas, Wayne?
- Para o rancho Sunderlund, no vale. Tomaro conta 
de ti at
podermos ir buscar-te. Tu ests bem, Ruby?
- Sim, creio que sim. Sinto-me... atordoada. Podes 
tapar-me
os ps? Esto gelados.
        Curvei-me e entalei-lhe a pele de bfalo debaixo 
dos ps e em redor da cabea. Estava melhor ali 
deitada, sobretudo no caso de me perseguirem e 
atacarem. No voltou a falar e eu dediquei toda a 
minha ateno aos cavalos.
No resisti, porm,  tentao, por vrias vezes, 
de olhar
para Ruby, para admirar-lhe o rosto plido,
                        282
os grandes olhos escuros e os cabelos brilhantes. 
Uma vez sorriu-me, com um sorriso to triste e to 
terno, to cheio de gratido e de esperana, que 
ne me atrevi a olhar outra vez. 
Entretanto quase alcanara o vale sem ser 
perseguido por
carros ou cavaleiros. De novo o pensamento de Tom 
Darnell me assaltou, e de novo o repeli. Era um 
pensa mento insidioso, que me roubava as foras.
        A estrada fez outra curva e depois desembocou no 
Vale Sweetwater: No estava com disposio para 
apreciar as belezas do cenrio, mas impressionei-
me, embora sem emoo. Uma ou duas milhas para o 
interior do vale, que era plano e de uma tonalidade 
purprea, uma grande fila de salgueiros e de 
choupos-do-canad assinalava o rio. As suas copas e 
a grande escarpa alcantilada que se erguia adiante, 
coroada por uma casa branca, reflectiam os ltimos 
raios de sol. Para l do monte tudo era ainda 
briLhante e claro.
Ao aproximar-me do rio apercebi-me da existncia de 
uma
ponte de madeira que o atravessava e prolongava a 
estrada para a        esquerda, pela 
encosta acima. Em breve a transpunha e
verificava que o Sweetwater era ali mais pequeno e 
mais claro na sua cor ambarina do que muitas milhas 
abaixo. A meio da encosta pastavam cavalos e gado, 
mas a casa rancheira s a vi depois de subir a 
escarpa. Atravessara uma estrada que dava para o 
norte e para o sul antes de meter pela ladeira.
        Foi com tremendo alvio que vi, ao aproximar-me 
da habitao, vrios cavalos com as selas cadas e 
uma carruagem muito semelhante quela que conduzia. 
Encontravam-se tambm vrios homens reunidos, os 
Quais pareceram muito interessados com a minha 
chegada. Um deles era o coronel Sunderlund.
Quando parei bruscamente, Sunderlund reconheceu-me 
e veio ao
meu encontro.
283
- Olha, o Cameron! Que diabo o traz por c? Est 
plido e...
- No se assuste, coronel, estou bem - interrompi. 
- Trago
uma rapariga aqui no carro. Deve lembrar-se,  a 
namorada do meu amigo Shaw. Houve uma luta em que o 
Darnell foi morto. Quer fazer o favor de chamar a 
sua filha? Venho pedir-Lhe que fique com a Ruby at 
Vance a vir buscar.
- Mataram o Darnell? Aquele simptico e jovem va 
queiro? Que
pena! Fez bem em vir, Cameron, a Kit ter prazer em 
receber a pequena. Leve-a para dentro.
        Saltei do carro, aconcheguei melhor Ruby na pele 
e tirei-a de debaixo do banco. Sunderlund chamou a 
filha e, quando me voltei para me encaminhar para a 
habitao vi ma varanda a todo o comprimento e 
vrias portas. Sunderlund parou diante da ltima, 
que se abri imeditamente para dar passagem a Kit. 
Subi os degraus do alpendre e aproximei-me dela, 
com o meu fardo, ouvindo Sunderlund falar muito 
depressa e as exclamaes da filha.
        - Foi o diabo, Kit - murmurei. - Lembras-te de 
Ruby, a namorada de Shaw? Aqui a tens. Peo-te que 
olhes por ela e a acolhas at eu encontrar o meu 
amigo e virmos busc-la.
O contentamento de Kit era maior do que o seu 
espanto, mas
os seus belos olhos azuis brilhavam de malcia 
quando exclamou:
- Wayne Cameron, sempre a salvar raparigas! s um 
verdadeiro
cavaleiro do Oeste! Desta vez foi a tua amiguinha 
Ruby.
Havia uma notazinha de sarcasmo na sua voz bem tim 
brada,
uma sombra de orgulho e cime no seu olhar.
        - Kit! - protestei. - Mataram o Darnell, 
sacrificou a vida pela Ruby, e o Shaw anda por 
South Pass, com ms intenes. Tenho de partir...
284
- Oh, Wayne! - exclamou impetuosamente, com um 
encantador
sorriso que transformou tudo. - Fiquei apenas 
surpreendida, conheces-me, sabes como sou. Traz a 
Ruby, terei muito prazer em olhar por ela.
        Transportei a jovem para uma sala cheia de luz e 
de colorido e        deitei-a num sof. 
Sunderlund entrou tambm e colocou-se
solicitamente ao lado da filha, enquanto todos 
fitvamos o rosto plido da minha protegida.
- Agora ests em segurana, Ruby - murmurei. - Eu 
tenho de
correr para South Pass, a fim de encontrar o Shaw e 
o Lowden e de inform-los de que ests salva.
- Obrigada... Wayne - gaguejou, quase incapaz de 
falar. -
Diz ao Vance... que esperei por ele... que fui 
fiel...
- Claro, Ruby. A Flo disse-me por que escreveste o 
bilhete.
Explicarei tudo ao Vance.
Afastei-me, mas Kit deteve-me  porta. Beijei-a, 
apertei-a a
mim um segundo e disse-lhe que voltaria em breve, 
provavelmente antes de os trabalhos da montagem da 
linha terminarem. Depois larguei-a e afastei-me, 
com Sunderlund atrs de mim.
- Coronel, h alguma maneira de chegar a South Pass 
sem
passar por Atlantic?
- H. Meta pela estrada da esquerda, logo a seguir 
 ponte.
So s quatro milhas e o caminho  muito melhor. 
Mas leve o Wilson consigo, ele conduzir e chegaro 
mais depressa. Irei busc-lo amanh a South Pass e 
v-lo-ei a si tambm. Quero estar nas minas de ouro 
quando o Creighton chegar c com o fio!
        Antes de me afastar no carro voltei-me e tive a 
agradvel surpresa de ver a Kit  porta, com um 
brao sobre os ombros de Ruby. A primeira atirou-me 
um beijo e a segunda acenou-me, depois deixei de 
v-las.
Durante a rpida jornada, sob o vento cortante, fiz 
inmeras
perguntas ao vaqueiro do Sunderlund,
                285
mais para esquecer os meus pensamentos do que para 
informar-me acerca de South Pass e do Vale. Mas 
aprendi mais naquele curto espao de tempo do que 
aprenderia de qualquer outra maneira. 
Enquanto percorramos a longa ladeira que levava 
a South
Path e atravessava a ponte, pedi a Wilson que 
parasse  porta da cavalaria.
        - Talvez l me digam alguma coisa.
        O homem saudou-me com muito mais efuso e 
cordialidade do que julgava merecer, mesmo se ele 
j soubesse da luta travada na Pepita de Ouro. As 
suas primeiras palavras demonstraram-me que no s 
estava informado acerca do Darnell, como tambm de 
Shaw e de Lowden.
- Esses vaqueiros subiram a encosta ao escurecer e 
deixaram
esta cidade num lindo estado! South Path, apesar de 
ser o que , nunca teve muitos visitantes como Shaw 
e Lowden! Encontrava-me l em baixo ao dar-se a 
grande barafunda, mas perdi a primeira parte, 
quando pintaram o diabo em metade das tabernas da 
cidade. O que eles queriam era que os jogadores 
falassem, lhes dissessem onde se encontrava um tipo 
chamado Red Pierce, que ocultava determinada 
rapariga, mas no a encontraram. O homem a que 
chamavam Red Pierce era, afinal, Bill Howard, um 
sujeito que eu conhecia muito bem h semanas, desde 
que abriu um grande estabelecimento na cidade.
        O homem tomou flego, antes de continuar:
        - Estava nos Quatro Ases quando aconteceu... 
Howard, ou Pierce, estava no maior saLoon da cidade 
e, palavra, nunca ouvi tamanha zaragata! Homens a 
gritar, armas a disparar, cadeiras, mesas, fichas 
de poker e moedas a tilintar. Quando cheguei, um 
grupo de jogadores afastva-se dos dois vaqueiros 
de olhos de fogo que mantinham Howard no cho. Dois 
dos seus homens estavam mortos,  mas Howard vivia 
ainda, embora j com vrios tiros nos braos, numa 
perna e sei l mais onde! Shaw exigia-lhe que lhe 
dissesse onde escondera a rapariga e ele jurava que 
estava em Sua casa, a **pepita de Ouro, em 
Atlantic. Contaram-me depois que dizia a mesma 
coisa desde que levara o primeiro tiro, mas Shaw 
no acreditava. Aquele vaqueiro foi o indivduo 
mais bravo, mais frio, que jamais pisou um saloon 
de South Pass, e olhe que todos os duros do Oeste 
j o fizeram! Logo depois de eu chegar ouvi-o dizer 
ao
Howard que o deixaria em paz se dissesse a verdade. 
O desgraado, a arquejar e meio sentado sobre o 
prprio sangue, com ambos os braos partidos e 
pendentes, repetiu a mesma histria. No sei se o 
vaqueiro o acreditou ou n, mas deixou-o em paz. 
Quando sa dos Quatro Ases e vim para aqui, estavam 
a montar os cavalos, pois tinham-mos deixado para 
lhes dar comida e gua. Partiram pela encosta 
acima, e no sei mais nada.
- Bem, vamos a Atlantic e ao acampamento dos 
trabalhos de
construo - decidi.
A histria do homem causara-me mais alvio do que 
horror e
demonstrara-me que precisava de encontrar Shaw 
quanto antes.
        - Acho que vou com vocs, se no se importam - 
props o nosso informador, que se instalou no banco 
de trs depois de concordarmos.
- Wilson, vai devagar por esta ladeira ngreme, mas 
aumenta
a        velocidade quando chegares ao cimo - aconselhou.
Depois de passarmos a ravina e atravessarmos a 
ponte, vimos
um grande grupo de homens diante da Pepita de Ouro, 
to absorvidos no quer que fosse que nem deram pela 
nossa chegada. Disse a Wilson que parasse fora do 
crculo de luz, apeei-me e declarei que ficava a 
tomar conta dos cavalos enquanto eles iam ver se 
havia mais notcias.
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No caso de ser preciso tomar qualquer iniciativa 
drstica queria estar de p, protegido pela 
escurido: Wilson e o cavalario demoraram-se pouco 
e, quando voltaram, entrmos todos outra vez para o 
carro e partimos.
        - O Shaw e o Lowden estiveram aqui ao comeo da 
noite, apontaram as armas aos frequentadores mas 
no atiraram em ningum. Descobriram imediatamente 
que a rapariga j l no estava e encontraram o 
cadver do vosso camarada, que atravessaram numa 
sela e levaram consigo.
        A certeza da morte de Darnell quebrou totalmente 
a minha resistncia, sentei-me na pele de bfalo a 
tremer de desgosto e        tristeza. Mal me 
recompusera ainda quando chegmos ao
acampamento. Ardiam fogueiras, alegremente, ro 
deadas por grupos de homens. Liligh veio ao meu 
encontro, agarrou-me num brao e disse-me que os 
vaqueiros acabavam da enterrar Darnell, na berma da 
trilha.
        - Creighton j tomou conhecimento desta desgraa? 
perguntei-lhe.
        - Sim, mas foi quase o ltimo a sab-lo. A 
notcia espalhou-se como fogo de palha.
- E que disse ele? Receio... espero que no nos 
despea.
        - Despedir? Meu Deus, ainda no aprendeste a 
conhecer o patro! Berrou como um toiro, mas em 
louvor de todos vocs!
- Falaram-lhe do corte dos postes? Que o bando de 
Red Pierce
o        fazia para impedir a transmisso de mensagens?
        - Creio que foi isso que o levou dos diabos e que 
aumentou a sua apreciao por vocs, rapazes. At 
mandou talhar uma pedra para assinalar a sepultura 
do Darnell.
        Procurei Wilson, entreguei-lhe mensagens para 
Sunderlund, para Kit e para Ruby e disse-Lhe que 
regressasse a South Pass, como o coronel 
recomendara.
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Depois dirigi-me para o nosso carro e para a 
pequena fogueira
 roda da qual os dois vaqueiros fumavam. 
Levantaram-se para me receberem, silenciosos, com 
uma simplicidade a que a fora dos seus apertos de 
mo emprestava significado.
        - Vance, levei a Ruby... para o rancho do 
Sunderlund. A Kit olhar Por ela - titubeei, com 
voz trmula. - A Ruby est bem e        ser protegida 
at ires busc-la -, e dei-lhe o recado da
rapariga.
        - Camarada, acho que nunca agradeci a minha sorte 
a Deus respondeu-me serenamente -, mas vou comear 
por agradecer-lhe ter-me dado um companheiro como 
tu. Agora conta-nos a luta que travaram e em que o 
Tom encontrou a morte.
        Contei-lhes tudo, profundamente comovido.
- Foi uma pena que o Jack e eu no estivssemos 
convosco -
completou o vaqueiro. - Teramos vencido esses 
tipos e tu sabes muito bem que se d um tiro num 
homem quando ele tira a arma, j no pode atirar 
com muita preciso.
        Pouco depois afastei-me do crculo de luz 
projectado pela fogueira e parei junto do monte de 
terra fresca que era a sepultura de Tom Darnell. 
Ficava ao longo da Trilha do Orego, numa escarpa 
alta e deserta, solitria e desolada, onde o vento 
uivava por entre os arbustos e a salva, acima da 
qual se erguiam as altas montanhas e as estrelas 
tremeluziam, impiedosamente.
        Naquele momento no apreendi em absoluto a 
verdade assombrosa de que Tom Darnell sacrificara a 
sua vida por Ruby, uma danarina de salo, e por 
mim. J avaliava, porm, que o seu gesto fora 
grandioso e belo e, no sei porqu, sentia-me 
engrandecido por ele. Estes vaqueiros selvagens e 
ardentes nunca tinham sido compreendidos pelos 
homens do Leste, mas devia haver na sua vida dura e 
soli tria uma caracterstica de grandiosidade 
pouco comum.
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        Darnell afeioara-se-me desde o princpio, puxara 
muitas vezes para os seus ombros o fardo que eu 
devia transportar, e agora partira para sempre, 
deixando-me a recordao de que nenhum homem jamais 
tivera amor maior.
        Na manh seguinte, quando tommos o pequeno 
almoo, Creighton apareceu de sbito junto de ns e 
disse-nos:
        - Shaw e Cameron, quero que tenham este dia 
livre.
        Vance fitou-ma e perguntou-me:
- Ento, Wayne, no compreendes as ordens que te 
do? Tu e
eu vamos partir imediatamente para o rancho 
Sunderlund!...
E fomos, pois muito tnhamos que combinar acerca do 
nosso
futuro e do das jovens que amvamos.
        Quando chegmos, Kit correu para mim e Ruby para 
Shaw, mas eu e Kit no nos abramos. Ficmos em 
frente um do outro, meio embaraados, sentindo 
ambos que aquele momento pertencia sobretudo  
reunio de Shaw e Ruby.
Depois de beijar Ruby com fervor, Shaw voltou-se 
para mim e
interpelou-me:
- Wayne velho novato, no compreendes que temos de 
Voltar
para a linha telegrfica? E voltar para o 
Creighton!
- Que pressa  essa, Vance? H sculos que no vs 
a Ruby!
- Caramba, amigo, estou a ver que tenho de levar o 
resto da
minha vida a explicar-te tudo! Quanto mais depressa 
voltarmos para o trabalho, mais depressa o arame 
chegar a Forte Bridger e        mais depressa 
casaremos.
        - E falaste tu em obedecer a ordens...
        Naquele mesmo dia a Western Union atravessou a 
ravina sob os vivas dos homens das minas Atlantic, 
subiu o monte e desceu para South Path.
        Nessa noite percorri horas sem fim a nica rua de 
South Pass, mas no entrei em nenhum dos saloons 
nem nas salas de jogo, nada mais fiz do que olhar.
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        Encontrei Flo. Estava triste com a morte de Tom 
Darnell, mas o        desaparecimento de 
Tom Pierce e do seu bando libertara-a,
assim como libertara Ruby. Contou-me que havia um 
jovem mineiro que queria casar com ela, um rapaz 
honesto que tivera sorte na mina.
- No sou digna do Jim - confessou-me, - eu sei-o, 
mas ele
no  da minha opinio.
Na manh seguinte Creighton e a sua caravana 
deixaram South
Pass para realizarem a ltima etapa do seu 
trabalho. Fui eu que conduzi o nosso carroo. O 
cu estava carregado, o vento que soprava dos picos 
cortava e fomos apanhados por uma tempestade de 
neve antes de atravessarmos o planalto do 
desfiladeiro.
Por ironia do destino, foi talvez um carroo 
carregado da
postes que evitou uma tragdia: fizemos uma grande 
fogueira com eles e deixmo-la arder toda a noite, 
enquanto a tempestade rugia.
De manh o vento amainou, a neve deixou de cair e o 
sol
brilhou, rutilante, sobre um mundo branco.
No dia seguinte chegmos  regio da salva cor de 
prpura,
onde a linha podia progredir de novo com rapidez.
Vencramos o Inverno. Cobrimos as ltimas cento e 
cinquenta
milhas em dezasseis dias, incluindo o Rio Verde.
        Finalmente o velho e histrico Forte Bridger 
surgiu ante ns, com as suas paredes de pedra quase 
ocultas no bosque de choupos-do-canad e os braos 
do Rio Preto a serpentear pela frente e pela 
retaguarda do forte, onde sabiaque os mrmones nos 
encontrariam.
        Passmos quatro dias inquietos no Forde Bridger, 
 espera de que os mrmones completassem a sua 
misso para a Western Union. Shaw e eu ramos os 
mais inquietos, ansiosos por partirmos para o 
Sweetwater e para tudo quanto ele para ns 
representava.
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        Pareceram decorrer sculos desde que vimos o 
primeiro poste da diviso do leste da construo da 
linha telegrfica espreitar no horizonte at ao 
momento em que os mrmones passaram o fio pelo 
vale. As mos grandes de Creighton tremiam quando 
subiu ao nosso ltimo poste e ligou os fios.  
impossvel descrever a expresso do nosso chefe. 
Que momento aquele para ele! A sua misso estava 
cumprida!
        Mas houve ainda outro atraso, outro compasso de 
es pera antes que a alegria pudesse ser total: a 
equipa que trabalhava a        leste de Sacramento, 
na direco da Cidade do Lago Salgado,
no podia avanar.
        Espermos mais quatro interminveis dias, eu e 
Shaw a mordermos o freio, por assim dizer. 
Entretanto construra-se um pequeno abrigo 
provisrio e o nosso telegrafista passava as horas 
sentado diante dos instrumentos,  espera da 
palavra final. Esta chegou, por fim, ao entardecer. 
Ficmos todos imveis e silenciosos enquanto 
Creighton esperava o momento de
interceptar, de passagem, a primeira mensagem 
telegrfica transcontinental de Stephen J. Field. 
Juiz Supremo da Califrnia.
        Enquanto aguardvamos, Creighton enviou uma 
mensagem para sua esposa, em Omaha. O rosto 
iluminou-se-Lhe quando o telegrafista traduziu para 
cdigo as palavras ansiosamente escritas. Deu o 
papel a Shaw, para o ler, e eu senti um n na 
garganta ao ouvi-lo:
"Forte Bridger, 17 de Outubro de 1881. Para Mrs. 
Edward
Creighton, Omaha, Nebraska.
        Como esta  a primeira mensagem transmitida pela 
nova linha desde a sua chegada  Cidade do Lago 
Salgado, permite que te sade. Dentro de pou cos 
dias dois esposos estaro unidos.
        Assinado: Edward Creighton
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        Finalmente o anunciado telegrama passou por Forte 
Bridger. O telegrafista apontou-o e entregou-o ao 
nosso chefe. A nossa tarefa estava, enfim, 
completada. Com voz trmula, Creighton leu em voz 
alta, para todos ns:
        "A Abraham Lincoln, Presidente dos Estados 
Unidos: Na ausncia temporria do governador do 
Estado, solicitaram-me que lhe enviasse a primeira 
mensagem a ser transmitida pelos fios da linha 
telegrfica que liga o Pacfico aos estados do 
Atlntico. O povo da Califrnia deseja felicit-lo 
pela realizao desta grande obra. Confia em que 
ajude a fortalecer as relaes que ligam o Este e o 
Oeste  Unio e deseja, nesta primeira mensagem 
atravs do continente, exprimir a sua lealdade  
Unio e a sua determinao de permanecer fiel ao 
seu Governo nesta poca de provao. O povo 
californiano considera esse Governo com afecto e 
apoi-lo- nas horas boas e        ms.
Assinado: Stephen J. Field, Juiz Supremo da 
Califrnia".
A voz de Creighton no falhou, embora vrias vezes 
desse
essa impresso.
        Quase imediatamente chegou outra mensagem, esta 
do Prefeito Teschermacher, de San Francisco, para o 
Prefeito Wood, de Nova Iorque City:
"O Pacfico manda as suas saudaes ao AtlnticO. 
Que estes
dois oceanos sequem se meia jarda da terra que 
entre eles fica a        pertencer a outros 
alm do nosso pas unido."
- Este maldito silncio em to mais ruidoso do que 
qualquer
fuga de gado que jamais ouvi! - segredou-me Shaw. - 
E muito mais agradvel para os ouvidos, tambm!
        Naquele momento de elevao e alegria, no seria 
capaz de falar, mesmo que encontrasse alguma coisa 
digna de ser dita. De sbito senti tocarem-me no 
ombro, voltei-me e vi o pai de Kit Sunderlund.
        - Cavalheiros - disse a Shaw e a mim - muito tive 
de andar para chegar a tempo desta pequena 
cerimnia! T-la-ia perdido se no fosse a demora 
de oito dias a que foram forados. mas

no creio que nenhum de vocs esteja interessado 
em ouvir a tagarelice de um velho como eu. Agora 
que tudo isto terminou, no querero vir ao forte? 
H qualquer coisa que quero mostrar-lhes.
        Acompanhmo-lo, maquinalmente. Por motivos que 
no sei explicar, no nos surpreendeu a presena 
do coronel. Tambm no fazamos ideia de qual 
seria a surpresa anunciada.

Apesar do adiantado do ano, havia flores amarelas por toda a
parte, na cerca, o ar estava perfumado e o sol brilhava 
frouxamente, como o sol de Outono no Leste.
        De p, junto do poo, encontravam-se dois vultos. Shaw 
parou, como se tivesse levado um tiro, e eu olhei, mas no 
quis crer nos meus olhos.
Os dois vultos correram para ns e abraaram-nos. Eram Kit e
Ruby.
- Oh, Wayne, queramos ver a ligao dos fios, mas queramos
tambm surpreend-los! - exclamou Kit.
        Ouvi falar baixo perto de mim, vozes que pareciam de Vance 
e de Ruby, com a diferena de que a dele tinha qualquer coisa 
que nunca lhe ouvira.
        - No posso acreditar! - consegui tartamudear.
        - O pai no queria que nos metssemos a caminho, por causa 
das tempestades, mas no havia nada que nos segurasse em 
casa! -        afirmou Kit.
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De sbito apareceu Creighton, acompanhado da sua voz de
trovo:
        - Wayne! Vance! Tenho-os procurado por toda a parte. 
Parabns!
        Apertou a mo a todos e prosseguiu:
- Agora que terminmos a linha telegrfica, tomem nota das
minhas palavras: seguir-se- o caminho de ferro! Mas, segundo 
aqui o seu amigo coronel, vocs estaro muito ocupados a 
criar gado. Eu prprio vou faz-lo, ajudado por Sunderlund. 
Com o Vance e o Cameron no negcio, no precisarei de 
preocupar-me! -        E deixou-nos.
        -  mesmo do Edward Creighton! - exclamou Vance. Telgrafo, 
caminhos de ferro, gado! O seu trabalho nunca est acabado.
- Olhem, rapazes - disse Kit, apontando a longa fila de
postes telegrficos sobre cujos fios o sol brilhava.
        - Olhem at onde puderem - disse por minha vez, como se 
falasse comigo s -, e depois lembrem-se das muitas tortuosas 
milhas que no vem e das dificuldades que encontrmos para 
acontecer o que hoje aconteceu.
- Sim - concordou Vance -, tiros, fogos, trovoadas, fugas de
gado, ndios e tudo o mais, s para que um simples bocado de 
fio se unise a outro simples bocado de fio!
FIM
                8 de Outubro de 1998
